
GUERREIROS DA LUZ
O Treinamento
Volume 2
Isabela Mastral
Eduardo Daniel Mastral

Original de Daniel e Isabela Mastral
Publicado por Editora Nas Ltda.
Telefone - (011) 3992 8016 - Telefax - 3978 9182
Site - WWW.EDITORANAOS.COM.BR
E-mail - EDITORANAOS@EDITORANAOS.COM.BR
Assunto - Biografia
Primeira edio - outubro de 2O02
E-mail do autor - DANIELMASTRAL@HOTMAIL.COM
Digitalizado, Revisado e Formatado por SusanaCap
Nota dos autores
Somos adeptos do estilo "Romance" dentro da Literatura.
 uma agradvel e consistente maneira de aprender.
Esperamos que nossos leitores apreciem esta leitura passo a passo,
momento a momento, tanto a histria quanto os ensinamentos dela.
Esta srie   composta por "Filho do Fogo" volumes I e II e
"Guerreiros da Luz" volumes I e II, em associao ao livro de
estudo "Tticas de Guerra",   condensa de maneira diferente os
princpios da Batalha Espiritual e do forjar do Carter Cristo.
Tanto se destina aos Cristos em geral, quanto queles cujo
chamado  especfico para a Guerra.
Embora extensa, desejamos-lhe uma boa leitura!

Dedicatria
queles que merecem honra.
* * *
Bom aventurado o homem
que suporta com perseverana a 
provao;
Porque, depois de ter sido aprovado,
receber a Coroa da vida,
a qual o Senhor prometeu 
aos que O amam
Tiago 1:12

Esta  uma histria baseada em fatos 
reais.
ndice:
ISABELA CONTA        4
Captulo 31        4
Captulo 32        25
Captulo 33        47
Captulo 34        72
Captulo 35        90
EDUARDO CONTA        117
Captulo 36        117
Captulo 37        141
Captulo 38        160
Captulo 39        183
Captulo 40        208
Captulo 41        228
ISABELA CONTA        250
Captulo 42        250
Captulo 43        274
Captulo  44        299
EDUARDO CONTA        316
Captulo 45        316
Captulo 46        336
Captulo 47        358
EDUARDO E ISABELA CONTAM        388
Captulo 48 - Isabela Conta        388
Captulo 49 - Eduardo Conta        408
Captulo 50 - Isabela Conta        426
Captulo 51 - Eduardo Conta        443
EDUARDO CONTA        474
Eplogo        474
CONCLUSES        482

Isabela Conta
Captulo 31
O ms de janeiro e o de fevereiro gastamos em preparativos 
para o casamento. Melhor dizendo, no incio da segunda quinzena 
de janeiro ainda estvamos anestesiados e preocupados. E Eduardo 
no tinha emprego. Mesmo assim, a primeira coisa que fomos fazer 
foi procurar onde morar.
Sem isso, no adiantava pensar em mais nada.
Decidimos o quanto seria aceitvel gastar em aluguel 
levando em considerao o nosso salrio conjunto; isto , o 
quanto a gente ganhava quando eu e Eduardo trabalhvamos. 
Aquilo era somente um perodo.
 Quase metade do ms j foi e quem casa, quer casa. 
Ou melhor, apartamento... ser que vou me adaptar? Nunca 
morei em prdio. Parece uma coisa to aglomerada, n?  
comentei com Eduardo.  Vamos procurar com cuidado, tenho 
pavor de barulho de vizinho, barulho de msica alta. J tive 
muita experincia prvia...
Eduardo se espantava com minha capacidade de 
discernir sons praticamente inaudveis para ele, especialmente 
sons vibratrios. Eu simplesmente escutava, e aquilo me 
incomodava sobremaneira. Cada um  cada um. Eu era assim.
Eduardo compreendia a necessidade de encontrarmos 
um lar onde pudssemos viver bem neste sentido. No 
queramos prdio com playground; tambm seria legal achar um 
andar alto. Quem sabe, uma rua de descida... assim no 
acumulava gente fazendo barulho na porta.
Agendamos com corretores, mas nenhum deles nos 
apresentou nada de que gostssemos.
Ento, passando certo dia pela regio onde gostaramos 
de morar, a costumeira chuva da tarde j deixava o cu preto 
sobre ns, vimos uma agradvel rua com vrias placas de 
"aluga-se".
Apesar do cansao e do fato de j estarmos indo embora, 
nos entreolhamos. E decidimos ver. Aqueles prdios eram ruins, 
mas na rua de cima, numa ladeira no muito ngreme, perto de 
algumas rvores l estava o prdio de doze andares, com uma 
fachada bem simptica. A chuva j caa sobre ns, mas nem nos 
demos muito ao trabalho de nos espremermos embaixo do 
guarda-chuva.
Fomos olhar. A chave estava l, o porteiro nos entregou 
na mo e subimos sozinhos. Era o apartamento 92.
Percebemos que o apartamento era muito claro e 
espaoso, tinha excelente vista para a Avenida Heitor Penteado. 
No tinha nenhum outro prdio  volta e a gente podia ver tudo 
ao redor, havia muito espao aberto no horizonte. Uma 
localizao realmente privilegiada. Ficava a duas quadras do 
Metr Vila Madalena.
O ms de janeiro e o de fevereiro gastamos em 
preparativos para o casamento. Melhor dizendo, no incio da 
segunda quinzena de janeiro ainda estvamos anestesiados e 
preocupados. E Eduardo no tinha emprego. Mesmo assim, a 
primeira coisa que fomos fazer foi procurar onde morar.
Sem isso, no adiantava pensar em mais nada.
Decidimos o quanto seria aceitvel gastar em aluguel 
levando em considerao o nosso salrio conjunto; isto , o 
quanto a gente ganhava quando eu e Eduardo trabalhvamos. 
Aquilo era somente um perodo.
 Quase metade do ms j foi e quem casa, quer casa. 
Ou melhor, apartamento... ser que vou me adaptar? Nunca 
morei em prdio. Parece uma coisa to aglomerada, n?  
comentei com Eduardo.  Vamos procurar com cuidado, tenho 
pavor de barulho de vizinho, barulho de msica alta. J tive 
muita experincia prvia...
Eduardo se espantava com minha capacidade de 
discernir sons praticamente inaudveis para ele, especialmente 
sons vibratrios. Eu simplesmente escutava, e aquilo me 
incomodava sobremaneira. Cada um  cada um. Eu era assim.
Eduardo compreendia a necessidade de encontrarmos 
um lar onde pudssemos viver bem neste sentido. No 
queramos prdio com playground; tambm seria legal achar um 
andar alto. Quem sabe, uma rua de descida... assim no 
acumulava gente fazendo barulho na porta.
Agendamos com corretores, mas nenhum deles nos 
apresentou nada de que gostssemos.
Ento, passando certo dia pela regio onde gostaramos 
de morar, a costumeira chuva da tarde j deixava o cu preto 
sobre ns, vimos uma agradvel rua com vrias placas de 
"aluga-se".
Apesar do cansao e do fato de j estarmos indo embora, 
nos entreolhamos. E decidimos ver. Aqueles prdios eram ruins, 
mas na rua de cima, numa ladeira no muito ngreme, perto de 
algumas rvores l estava o prdio de doze andares, com uma 
fachada bem simptica. A chuva j caa sobre ns, mas nem nos 
demos muito ao trabalho de nos espremermos embaixo do 
guarda-chuva.
Fomos olhar. A chave estava l, o porteiro nos entregou 
na mo e subimos sozinhos. Era o apartamento 92.
Percebemos que o apartamento era muito claro e espaoso, 
tinha excelente vista para a Avenida Heitor Penteado. No tinha 
nenhum outro prdio  volta e a gente podia ver tudo ao redor, 
havia muito espao aberto no horizonte. Uma localizao realmente 
privilegiada. Ficava a duas quadras do Metr Vila Madalena.
O apartamento estava com a reforma e a pintura recm 
terminadas. Uma graa.
Ficamos apaixonados, os dois.
O aluguel era um pouco acima do que pretendamos, mas 
no muito. Samos de l entre esfuziantes e esperanosos, 
colocamos imediatamente aquele assunto diante de Deus.
Quando Eduardo conversou com o proprietrio, ele 
renegociou o valor do aluguel, diminuindo-o um pouco. Para 
encurtar a histria: acabamos indo ver mais uma vez o apartamento 
e fechamos o negcio. O dono facilitou muito a tramitao.
Quando minha me assustou, j tnhamos alugado o 
apartamento. Foi nessa hora que ela percebeu que era para valer.
Logo fomos at l com Dona Clara para consagrar o local a 
Jesus. Ungimos tudo.
E eu insisti em mudar a cor da parede da sala... fiz tudo 
sozinha, pintei de amarelinho beb, ficou lindo!
* * * *
Depois... o resto! Como era caro casar!!!  muito caro fazer 
tudo ficar bonito, enfeitado, como ns imaginvamos. E foi muito 
pouco tempo para arrumar tudo, uma verdadeira maratona!
A primeira coisa que tivemos que excluir foi a festa. Dura 
deciso. Depois de rodar So Paulo provando docinhos horrveis 
percebemos que uma festa nos padres que a gente queria estava 
fora de questo. No era questo de querermos luxo... mas tinha 
que ser um lugar charmozinho, com uma comidinha gostosa.
Ento tentamos ver na nossa Igreja se seria possvel 
oferecer um bolo com refrigerante aos convidados, no prprio 
templo. Uma soluo plausvel pois no queramos deixar de 
comemorar, nem fazer festa s para alguns. Mas no permitiram 
por receio de que o carpete da Igreja sujasse com bolo.
S restava uma sada, no era das melhores, mas... a nica! 
Minha me encomendou o bolo, os docinhos e salgados, e 
convidamos os padrinhos para virem em casa depois da cerimnia. 
Eu me lembrava de Jesus transformando gua em vinho nas Bodas 
em Can, no havia mal algum em festejar. Mas isso no saiu de 
acordo com nossos sonhos.
Que pena... teria gostado de fazer uma recepo melhor! Eu 
no era o tipo de noiva presunosa que s quer complicar. S 
queria um casamento charmoso e cheio de significado, acima de 
tudo!
A despeito dos contratempos, amos entregando a Deus 
cada detalhe e pedindo todo o tempo que nosso casamento fosse 
uma verdadeira Celebrao! Se aquele dia estava chegando... se 
Deus tinha permitido isso... ento tinha que ser uma Celebrao. 
No a ns... mas a Ele! Seria um dia de muita gratido, um dia de 
muita alegria pela Fidelidade da Sua Aliana para conosco.
Deus j tinha preparado cada pedacinho do nosso 
casamento antes da fundao do mundo. Bastava a gente buscar 
Dele as solues certas. Cada detalhe... cada deciso... cada desejo, 
especialmente do meu corao... foi incansavelmente apresentado 
diante do Pai.
Levamos muito tempo para acertar a decorao para a 
Igreja. Conseguimos a mais bonita dentro do que era possvel 
gastar. Eu no gostava de nada convencional demais. Aquelas 
tpicas guirlandas enormes e rebuscadas, mais parecidas com 
enfeites de velrio, era tudo o que havia de monstruoso! Optamos 
por rosas, s rosas, em arranjos originais. Ficou diferente e sem 
exageros.
Depois percebemos que se quisssemos uma lua-de-mel 
teramos que abdicar de mais alguma coisa. Foi uma deciso triste, 
mas exclumos o servio profissional de filmagem. Um simptico 
casal da nossa Igreja com quem havamos feito aconselhamento 
pr-nupcial fez a filmagem em sua prpria filmadora. S amos 
fazer as fotografias, porm o rapaz, inconformado, fez o filme.
Queramos que algum cantasse ou tocasse ali ao vivo. Mas 
qualquer conjunto mais decente tambm era caro demais... nem fui 
procurar. Para fazer malfeito, melhor no fazer. Na maioria nos 
casamentos o conjunto sempre canta e toca muito mal! Ser 
obrigada a ouvir "Ave-maria" ou "Jesus, alegria dos homens" ao 
lado de outras canes batidas era impensvel. Montamos ns 
mesmos um CD com uma especial seleo de msicas. Aquilo 
traria um clima todo especial ao casamento. Essa economia fez 
com que pudssemos acertar a lua-de-mel.
Mesmo assim, tivemos que espremer o dinheiro ao mximo.
Ao invs de comprar fogo e geladeira foi necessrio 
investir no microcomputador, pois eu no poderia interromper a 
escrita do livro. Tambm no foi possvel comprar mquina de 
lavar. Nem de roupa, nem de loua. Nem mquina de secar roupa. 
Nem qualquer tipo de eletrodomstico.
A nica coisa que compramos, alm do computador, foi a 
cama e o colcho. Uma cama king-size, de madeira, muito bonita. 
A TV e vdeo ns j tnhamos. Tinha sido possvel comprar 
novamente uma televiso, mas no deu para fazer o mesmo com a 
geladeira.
Ganhamos uma geladeira pequena de Dona Clara e minha 
me, graas a Deus! Seu Benito tinha facilidade em comprar mais 
barato esse tipo de produto de uma determinada marca.
Nosso nico descontentamento vinha quando nos 
lembrvamos de todas as pessoas que conhecamos e que 
ganhavam apartamento mobiliado, carro e tudo o mais de parentes 
e amigos, enchiam um quarto inteiro com presentes de casamento.
Conosco no seria assim. Ns sabamos disso. Mas a nossa 
confiana maior era saber que Deus era nosso Provedor, e tudo o 
que Ele julgasse essencial... nos traria s mos!
* * * *
Mais para o fim do ms havia outro detalhe essencial.  A 
roupa de Eduardo precisava da minha assistncia, o pobrezinho 
estava perdido. Eu e minha me o ajudamos a escolher e alugar o 
traje. Gastamos o que foi preciso, j tnhamos decidido no 
dispensar todos os acessrios, e tudo ia ser nos conformes. Fomos a 
uma das melhores lojas da Rebouas.
Os trajes ali eram impecveis, o senhor que nos atendeu 
era um perfeito gentleman. Eduardo ficou lindo para valer! E 
compramos sapatos novos na prpria loja.
 Quando o noivo ajoelha no  bonito aparecer o 
solado do velho sapato  disse o homem que nos atendia.
Certssimo! No economizamos na roupa de Eduardo.
Indicamos aquela loja para todos os homens que seriam 
padrinhos, seis ao todo. Eles alugaram trajes iguais para o 
conjunto ficar perfeito. As madrinhas capricharam nos seus 
longos, estavam lindas, elegantes, uma com um vestido 
diferente da outra.
Optamos por apenas seis casais de padrinhos, trs ao 
meu lado, trs ao lado de Eduardo, apenas pessoas significativas 
para ns. Dentre elas estavam Grace, Dona Clara e minha me. 
Dispensamos os protocolos, no adiantava encher o plpito de 
gente. Somente pensamos naqueles que fariam diferena para 
ns naquela celebrao.
* * * *
Faltava meu vestido.
Depois de olhar dezenas de vezes as minhas revistas de 
noivas, criei na mente direitinho como seria o vestido. A 
primeira costureira que entrei em contato comeou de cara me 
recriminando por no estar com o vestido j pronto h trs 
meses, no mnimo.
 H trs meses eu nem sabia se ia ou no casar...  
limitei-me a responder, j impaciente.
Tudo o que eu no precisava era algum a me dizer o 
que podia dar errado, e o que eu deveria ter feito, e no fiz. 
Sempre fui muito calma, controlada, sem acessos de histeria. 
Mas organizar aquele casamento em to pouco tempo, sozinha 
com Eduardo, fazendo malabarismos oramentrios... tudo isso 
realmente tinha me estressado.
A costureira foi to implicante naquele dia, querendo 
toda hora me provar que ela sabia tudo sobre casamentos, e ela 
tinha razo, e ela sabia a maneira certa de fazer tudo, que 
desisti! Arrumei outra indicao. S queria algum que fizesse o 
vestido do meu jeito, sem me deixar louca!
A outra costureira foi mais acessvel, mas realmente se 
admirou que eu tivesse deixado tudo para a ltima hora... me 
poupei de explicar... enfim... mos  obra! Faltavam s vinte 
dias para o casamento quando ela comeou a confeccionar o 
vestido.
Eu e minha me corremos atrs dos tecidos. Foi uma 
aventura sair por So Paulo em busca dos preos mais 
acessveis. No havia outra alternativa: 25 de Maro! Essa foi a 
parte mais "corajosa" daquela empreitada de casamento, 
enfrentei o trnsito, o calor, o horrio do rush e as chuvas tpicas 
da estao.
J estava exausta e sem pacincia. Saa do servio e 
passava o dia correndo. Estava at com labirintite. No 
suportava nem ouvir minha prpria msica, em casa. Parecia 
ressoar no meu ouvido e aumentar minha irritao.
Eu no gostava de nada muito luxuoso, nem cheio de 
brilhos e lantejoulas, caudas excessivamente longas; nem nada 
muito fofo ou flutuante  l "noivinha de bolo". E tambm nada 
muito clean, muito liso. O meu estilo era romntico, gracioso: 
flores, rendinhas, botezinhos em fileiras.
At mesmo a costureira comentou quanto tempo fazia 
que no costurava um vestido como o que eu queria.
 Hoje em dia as moas querem mostrar tudo!
Demorei a achar a renda como queria. Mas era 
lindssima! No fiz apenas detalhes de renda sobrepostos no 
vestido, mas toda a sobressaia e a cauda, e tambm a borda do 
decote e das mangas eram de renda aguypur. O recorte era 
floral, em tons de branco e um discreto dourado. Completei com 
um vu delicado, um buqu de rosas, grinalda de mini-rosas 
naturais e sapatos revestidos com o mesmo tecido do corpete.
* * * *
Tudo ficou pronto. Nada foi por acaso. Nada foi feito 
apenas por fazer. Tudo foi escolhido para ser smbolo de algo 
maior, smbolo de algo espiritual.
Ns estaramos, em breve, celebrando a nossa aliana de 
amor. E tambm uma outra Aliana... com Deus... atravs do 
Seu Filho. Ainda que no fosse possvel providenciar para o dia 
do casamento, por causa do tempo corrido, nossas alianas 
teriam dizeres especiais na parte interna: no apenas o nome um 
do outro, e a data do casamento. Mas uma frase de indiscutvel 
valor proftico, "o amor jamais acaba".
Era uma data especialmente significativa. Por esse 
motivo oramos muito. Tambm para que todo aquele que 
entrasse na Comunidade naquele dia prximo percebesse, mais 
do que uma simples cerimnia "religiosa", a Uno e a Presena 
de Deus.
O que ns mais queramos era a aprovao do Senhor, e 
a Sua Bno.
Ento preparamos o corao de todos os convidados 
desde os dizeres no convite:
"Uma Celebrao da Gratido;
Pois Deus  a Fortaleza do nosso corao, a nossa 
Herana para sempre,
O Rochedo da nossa Salvao.
Cantaremos ao Senhor enquanto vivermos!
Uma Celebrao do Amor;
Que  paciente e bondoso, no busca os seus prprios 
interesses e alegra-se com a verdade.
O Amor tudo sofre, tudo cr, tudo espera e suporta.
Jamais acaba!
Com as bnos de nossas mes, e na saudosa lembrana 
de nossos pais, no prximo dia e hora, estaremos celebrando 
nosso Matrimnio na Comunidade Evanglica Nova Videira, 
localizada no endereo abaixo.
Isabela e Daniel."
****
Enfim chegou o dia.
Havia previso de chuva para o fim da tarde, como 
quase sempre acontece na poca do Vero. A manh tinha sido 
abafada e o cu esteve claro, mas depois do almoo o tempo 
ficou meio cinzento, o vento soprava as folhas e a poeira de So 
Paulo. Eu estava um pouco incomodada que o temporal pudesse 
atrapalhar alguma coisa. Mas, no final no fez diferena... 
choveu s de tarde, e no na hora do casamento.
Tinha sido um dia diferente.
Acho que eu era muito diferente das outras noivas, 
talvez por isso.
Claro que uma moa de 29 anos teve muito tempo na 
vida para esperar por aquela data, pensar naquela data. No  
todo dia que se amanhece com esta expectativa!
"Hoje  o dia do meu casamento!"
Sim. Aquele era o dia do meu casamento.
Ainda que no tivesse sido criada nos moldes antigos, 
preparando-me exclusivamente para um dia ser esposa de 
algum... certamente que aguardei muito por aquele dia! Acho 
que no entender dos meus pais, e especialmente no do meu pai, 
o objetivo principal da minha existncia no fosse exatamente 
me casar. Mas  claro que qualquer moa normal quer se casar, 
mesmo que ela no admita ou perceba isso.
Procurei acordar mais tarde, mas, para variar, no dormi 
bem. Estava bem cansada. Nem pensei em almoar, s comi 
alguma bobagem leve.
Fiquei zanzando por ali, tomei meu banho e lembrei-me 
dos sonhos, dos pedidos que fizera a Deus sobre o meu marido. 
Ao longo dos anos. E das Promessas de Deus, tambm ao longo 
dos anos. Desde a primeira delas, quando o Senhor dissera que 
estava "guardando meu namorado". Mais tarde, Ele tambm 
diria que eu era "costela de um homem". E at mesmo que meu 
casamento j era uma realidade no Reino Espiritual, exatamente 
como me havia dito aquela senhora, uma irm que freqentou a 
minha primeira Igreja.
 Eu vi seu casamento... voc estava linda! Vi seu 
marido. Ele  um homem que tem um Ministrio, ele vai te 
ensinar a caminhar nesse Ministrio.
H tantos anos tinha sido tudo isso... tinha acontecido 
antes que eu conhecesse Eduardo!
Aquilo foi um blsamo para mim. No conseguia 
conceber minha existncia na ausncia de algum para partilh-
la comigo.
 claro que de tudo isso eu me recordei. E agora era o 
dia.
Eu tinha sonhado com aqueles casamentos de filme gua 
com acar, meus prediletos. Onde tudo acontece num passe de 
mgica! A festa maravilhosa, todos ajudando, colaborando de 
alguma maneira, paparicando a noiva. Presentes enchendo o 
quarto, uma viagem inesquecvel, uma sria de alegrias 
indescritveis!
Porque, afinal... aquele era o dia do meu casamento! E 
devia ser- pelo menos assim se dizia , o dia mais feliz da 
minha vida! Isso  o que toda noiva merece.
Eu queria tudo o que o casamento prometia, tudo o que 
ele poderia me dar. Tinha escolhido Eduardo para compartilhar 
em amor o resto da minha vida, constituir meu lar e minha 
famlia ao seu lado.
Queria o que todas querem: amor, alegria, sade e paz!
Muita coisa no foi exatamente como eu imaginava, mas 
o principal superou minhas expectativas. Entrei com Marco, a 
nica pessoa plausvel para substituir meu pai. Se ele no 
pudesse ter vindo, entraria sozinha na Igreja. Eduardo entrou 
com sua me. O irmo do meu pai, um dos meus tios favoritos, 
fez par com minha me, como Padrinho.
Mais tarde, quando as pessoas que estavam presentes 
comentaram o casamento, quase sempre choravam e diziam que 
nunca tinham visto um casamento to bonito. Um casamento to 
cheio de significado.
Duas pessoas que no se conheciam trouxeram para ns 
vises do Reino Espiritual: a presena de um carpete de fogo ao 
longo do caminho, at chegar ao altar. A presena de uma 
comitiva de anjos junto comigo, e outra junto com Eduardo. A 
presena de um anjo indescritivelmente forte, um anjo ruivo... 
em p ao lado do plpito. Glria a Deus!
Sem que a gente falasse nada, o Pastor Jaime fez uma 
pregao sobre aliana. E durante a bno final, da qual Grace 
se incumbiu a pedido nosso, quase choramos.
Realmente Deus atendeu nosso pedido. Foi uma 
celebrao espiritual. Havia um clima diferente no ar, uma 
uno diferente. Que todos foram capazes de perceber, crentes 
ou incrdulos.
Assim disse a Grace, para encerrar a cerimnia:
 E agora... que Aquele que caminhou em ntima 
comunho com o primeiro casal nos dias da sua felicidade pura, 
o Prncipe da Paz que produziu grande alegria nas festas das 
Bodas de Can... Aquele que vive nos coraes de vocs... faa 
do seu novo lar um templo da Presena e da Glria de Deus, 
uma morada de amor, paz e alegria. Eu os abeno, Daniel e 
Isabela, com a bno de Jos. Vocs so ramos frutferos, 
ramos frutferos junto  Fonte de Deus, cujos galhos 
ultrapassam os seus limites. Os flecheiros lhes deram amargura, 
e os flecharam, e os perseguiram. Porm o seu arco permanece 
firme e os seus braos foram fortalecidos pelas Mos do Todo-
Poderoso de Jac, o Pastor, o Rochedo de Israel,
Pai do nosso Senhor Jesus Cristo. Ele os ajudar e os 
abenoar com as bnos dos cus em cima, com as bnos 
do abismo que j az embaixo, e com as bnos sobre a terra. 
Que a Graa do nosso Senhor Jesus Cristo, o Amor do Pai e a 
Comunho do Esprito Santo estejam com vocs e com seu 
novo lar, em primeiro lugar. E tambm com todos ns. Em 
nome de Jesus Cristo, amm!
* * * *
Voltamos da Lua-de-mel no domingo  noite. 
Demoramos bastante para pousar porque havia muito trfego 
areo, isso atrasou bastante nosso vo. Eu j estava ficando 
inquieta, estava tarde, ns estvamos cansados e no dia seguinte 
teria que trabalhar.
Finalmente tivemos autorizao e pudemos pousar em 
Congonhas, onde minha me estava nos esperando. Para variar, 
chovia bastante em So Paulo e o aeroporto estava lotado.
Nem acreditei quando nos encontramos com ela, j com 
as malas acomodadas nos carrinhos, e fomos embora. Contamos 
um pouco da viagem enquanto eu mesma dirigia o carro da 
minha me. Ela no enxergava bem  noite.
Ficamos no apartamento e ela foi embora direto, no era 
hora de pensarmos em mais conversas, em mostrar fotografias. 
Eu estava exausta e sabia que era imprescindvel descansar um 
pouco j que tinha uma semana de trabalho cheia pela frente.
 Tchau, Dona Mrcia!  falou Eduardo, se 
despedindo.  Amanh ns vamos mostrar as fotos e dar os 
presentes...
 Tchau, me... obrigada pela carona. At amanh.
 Tchau! Descansem bem.
Subimos para nosso apartamento e era um verdadeiro 
alvio estarmos chegando em casa. A viagem tinha sido boa, 
mas agora era preciso pr os pezinhos no cho. Eduardo abriu a 
porta enquanto eu me encostava na parede. Entramos, e... 
embora fosse timo ter chegado em casa... era muito estranho 
estar ali! Ns no tnhamos aonde nos sentar porque no havia 
nenhuma cadeira. No era possvel apoiar as coisas em cima de 
nada porque no havia nada. Levaria um bom tempo para que 
aquele apartamento ficasse com cara de lar.
Deixamos as malas e pacotes no cho da sala. Olhamos 
um para o outro:
 Ento?  fez Eduardo.  Essa  casa da Gatinha!
 Eu sei...  que eu ainda no me sinto em casa aqui...
 ... eu tambm no. Mas tudo vai melhorar, voc vai 
ver!
Eduardo me abraou e me levou at a janela da sala.
 Olha s... olha que vista bonita que tem da nossa 
janela.
Fiquei olhando para fora, para as luzes, para o tempo 
mido e escuro. Senti at um n na garganta. Era uma sensao 
muito estranha. A gente estava em casa, mas no se sentia em 
casa... no era nada acolhedor!
Resolvi tomar logo o meu banho para no dar vazo 
queles sentimentos. Fui procurar roupas limpas no armrio do 
quarto enquanto Eduardo se acomodava no cho da sala para 
ver um pouco de televiso.
Depois do banho me senti um pouco melhor. Tinha 
escolhido dois conjuntos de toalhas que combinavam, um para 
mim, outro para Eduardo.
 Nen! Pode tomar seu banho, eu j sa!  gritei para 
ele do quarto. Eduardo entrou no chuveiro enquanto eu 
arrumava nossa cama, que tinha ficado desarrumada desde a 
primeira noite, h uma semana. Com aquela confuso de 
documentos, no tinha dado tempo de deixar tudo em ordem.
Minha me bem que tinha pedido a chave do 
apartamento, a inteno dela era levar Marina at l para 
arrumar tudo. Mas Eduardo, ciumento em relao ao nosso 
pequeno lar, preferiu que ningum entrasse l na nossa ausncia.
Depois que ele saiu do banho ficamos conversando um 
pouco sobre as principais providncias que precisvamos tomar 
para conseguir viver ali.
 Precisamos ir ao supermercado  falei eu.  Graas 
a Deus que temos a geladeira.
 Minha av falou que ia nos dar uma mesinha de 
cozinha... amanh mesmo vou ver isso, se o presente dela est 
de p. Se no, no tem nem aonde a gente sentar pra comer.
 Faa isso, ento, Nen. S estou preocupada por 
causa do fogo. Como  que ns vamos cozinhar sem fogo, 
sem forno?
  Meu irmo me prometeu um microondas. Se 
realmente ele fizer isso, quebramos o galho com microondas.
 Puxa vida, ser? Ser que d para fazer comida no 
microondas? Mesmo porque, eu preciso aprender a cozinhar um 
pouco...
Ficamos quietos um pouco, pensativos. Agora a gente 
comeava aos poucos a cair na realidade, nos deparando com os 
problemas simples do dia-a-dia.
 Vai dar tudo certo, menina. Aos poucos a gente vai 
pondo essa casa em ordem.
 Isso, Nen. No final da semana tudo isso j vai estar 
com outra cara. No agentei assistir televiso. Estava muito 
cansada, realmente exausta.
Precisava estar bem para o dia seguinte.
 Acho que vou dormir, Nen... na minha cabea 
sempre fiz planos de casar durante as minhas frias, voltar de 
uma Lua-de-mel e ter pelo menos mais duas ou trs semanas 
para descansar bastante, para pr tudo no lugar, para me 
acostumar com tudo... mas no deu pra ser assim, n? Ento... 
tenho que pr a cabea no lugar porque a vida continua!
 T bom, "M"... descansa bastante!
Fui deitar ainda pensando nisso: que a vida continuava. 
Eu estava feliz de estar casada, mas tambm me sentia assustada 
com toda aquela responsabilidade nova.
Dormi mais ou menos. O despertador tocou na manh 
seguinte e eu me esforcei para abrir os olhos. Eduardo cocou 
minha cabea com carinho, me estimulando a despertar.
 V levantando!  ele mesmo pulou da cama.
Toda minha vida gostei de marcar o despertador alguns 
minutos antes do necessrio s para poder ficar enrolando na 
cama. Naquela manh no foi diferente. Tudo o que eu queria 
era no ter que ir! Havia tanta coisa a ser feita em casa...
Mas eu no podia me atrasar em hiptese alguma, no 
podia dar o menor motivo para perder meu emprego pois meu 
salrio era nossa nica fonte de renda. O restante do dinheiro 
que tnhamos no banco serviria para aparar as arestas at que 
Eduardo arrumasse outro trabalho. Portanto tinha que ser 
economizado ao mximo.
Eu ainda estava na cama, de olhos abertos, olhando para 
as paredes nuas do nosso quarto, ouvindo pela primeira vez o 
rudo do trfego da avenida. Era um som bastante diferente para 
mim, em casa de minha me era bem mais silencioso. Eu 
escutava tambm um ou outro barulho que vinha de outros 
apartamentos, uma batida, uma janela que era aberta, s vezes 
um mvel que arrastava. Aqueles sons tambm eram novos para 
mim.
Eu me sentia meio sem cho com tudo aquilo, com 
aquela situao to tremendamente nova que chegava a se 
traduzir em desconforto. Nunca imaginei que fosse me sentir 
daquele jeito... mas a verdade  que levaria vrios meses at que 
eu me adaptasse.
Um cheiro de po torrado comeou a invadir o ar, 
puxando minha ateno daqueles pensamentos. No demorou 
muito e Eduardo entrou no quarto trazendo um pouco de 
refrigerante (que tinha sobrado do casamento) e duas fatias de 
po de frma torrado na nossa torradeira nova.
 Puxa vida, Nen, no precisava...
  pra Gatinha...  Eduardo me deu um beijo de 
bom-dia colocando a bandejinha sobre a cama.  Voc precisa 
se alimentar antes de ir para o servio!
 Eu tinha at esquecido desse po de frma! Ainda 
bem que tinha manteiga!  eu me acomodei e reclamei com 
ele.  Mas eu vou tomar caf sozinha, ? Voc vai ficar a me 
olhando em vez de comer junto?
  a Gatinha que vai trabalhar, o Nen fez pra ela!
 No, senhor, torra l duas fatias para voc e vem 
comer comigo. Eduardo correu para a cozinha e logo estava de 
volta. Aquele foi nosso primeiro caf da manh em casa. Foi 
curto. Comemos rpido porque eu tinha um horrio estreito. 
Corri para o banheiro e me arrumei em dez minutos.
Quando entrei na sala e vi que nossa televiso estava 
tomando um verdadeiro banho de sol, falei para ele antes de 
sair:
 Nen, precisamos tirar essa televiso da, vai torrar 
tudo!
 No se preocupe, vou dar um jeito nisso... vai indo, 
para voc no se atrasar!
Ele me acompanhou at a porta e ficou esperando at o 
elevador chegar. Acenei para ele, me despedindo:
 Te encontro na hora do almoo, na casa da minha 
me. Voc pega as lembrancinhas deles? No sei nem onde  
que esto!
 T bom, vai com Deus.
Claro que a gente teria que almoar na casa da minha 
me, ns no tnhamos como fazer almoo e no amos gastar 
para comer fora. Peguei o Palio na garagem e fui embora, 
olhando o relgio.
"Hoje vou sentir o trnsito, vou saber se d para sair 
neste horrio ou se tem que ser mais cedo..."
Eu tinha uma grande responsabilidade para com meu 
trabalho agora, muito diferente de quando eu morava na casa da 
minha me. Naquela poca, se perdesse o emprego, no haveria 
piores conseqncias. Mas agora ns tnhamos vrios 
compromissos financeiros, especialmente com aquele aluguel. 
Eu me sentia tensa com esta perspectiva. Seria to bom se eu me 
sentisse mais satisfeita com meu trabalho....
"Quem corre por gosto, no se cansa."
Que tremenda verdade nesse ditado popular! Como eu 
sabia disso.
"Se pelo menos eu estivesse correndo por gosto, teria 
mais certeza de todas as coisas. Teria certeza de ser capaz!"
Eu me sentia muito cansada. E tinha medo por causa 
disso. Medo de no conseguir dar conta. Fui orando um pouco 
pelo caminho, percebi que teria que sair mais cedo. Havia um 
bom trnsito at l.
A manh correu normalmente, meus colegas de trabalho 
elogiaram muito o casamento.
 Foi uma coisa linda! Nunca vimos um casamento to 
lindo!
 E como foi a Lua-de-mel?
Depois de contar um pouco das novidades e agradecer, 
atendi minhas consultas. O tempo passou rpido e logo j era 
hora de ir embora. Passei pela recepo ao meio-dia em ponto.
 Tchau, meninas! At amanh.
 Tchau, doutora. At amanh.
****
Quando cheguei em casa de minha me, no demorou 
nem cinco minutos e Eduardo chegava tambm.
 Comecei a correr as agncias de emprego. Agora  
uma boa hora para arrumar trabalho,  a hora que todo mundo 
est voltando das frias, entrando no ritmo outra vez, e 
contratando funcionrios. Acho que logo, logo j vou estar 
empregado!
Ns havamos revelado apenas um rolo de filme. Foi o 
que deu para mostrar a minha me. Demos tambm os 
presentinhos, algumas peas de artesanato tpico. Minha me 
adorava artesanato!
 Bom...  falei para Eduardo mais tarde.  Eu acho 
que a gente precisa fazer um supermercado, ter pelo menos 
algumas coisas para lanche em casa.
 Vamos no Wal Mart, ento?
Minha me tinha que ir ao banco, ento nos despedimos 
e cada um foi para o seu lado.
No Wal Mart eu me sentia perdida! O que deveria 
comprar? Estava meio em pnico.
 Eu sempre fiz compras como filha... sabe como que 
, n? As minhas compras eram bolacha, chocolate, iogurtes... 
mas no sei nem o que comprar para fazer uma casa funcionar. 
O que a gente faz?
 Acho que meu irmo vai mesmo me dar um 
microondas. Vai vir livro de receitas, eu acho...
 No sei se d para cozinhar tudo no microondas.
A situao seria muito cmica se no fosse trgica. Eu 
tinha sido criada para ter uma profisso, no para ser dona-de-
casa! Minha me sabia fazer as coisas, mas eu no sabia. 
Mesmo assim tivemos bom humor para dar algumas risadas. S 
de curiosidade fomos olhar os preos dos foges. Era 
impensvel fazer aquele gasto. Ento vimos um daqueles 
pequenos botijes de gs acoplados a uma pequena boca de 
fogo, daqueles que se usam em acampamento. No era caro.
 Olha s... e se a gente levasse um desses? Quebra um 
galho, serve como fogo! falei.
Eduardo achou boa a sugesto, aquele era um item de 
primeira necessidade. Ento pusemos aquilo no carrinho, 
compramos leite, po, umas frutas, iogurte. Eu no passava sem 
frutas e sem iogurte.
Da fomos comprar as coisas principais: peguei um 
pacote de acar, outro de farinha, um pacote de arroz, outro de 
feijo e...
 Que tipo de tempero ser que eu levo, hein? No 
tenho idia...
Escolhi algumas coisas que eu sabia que minha me 
comprava, mas que eu no sabia como usar. Deixava para 
descobrir isso depois.
 Vou levar uns saquinhos de Sazn. E tambm Caldo 
Knorr... no, melhor levar o Maggi, est mais barato...
Levei um tempo enorme para fazer aquela compra, 
pesquisando os preos mais baratos de todas as coisas. Levei 
tambm macarro, a salvao da ptria porque eu sabia fazer 
macarro! Escolhemos os molhos mais baratos.
 Acho que a gente merece levar um chocolatinho, pelo 
menos... qual voc prefere, Eduardo?
 Podemos pegar uma caixa de Bis.  T bom.
Compramos tambm produtos de uso pessoal, e tambm 
um pequeno suporte para pregar na parede do banheiro a fim de 
apoi-los dentro do box. A grande dificuldade foi quando 
chegamos  seo de produtos de limpeza. No havia nada mais 
distante do meu mundo do que aquela seo.
 E agora?   indagou Eduardo.
 Sei l! Como  que ns vamos lavar a roupa sem 
mquina de lavar??
 Vamos ter que lavar no tanque!
 Voc por acaso j lavou roupa no tanque?  No.
 Pois ... vai ser um trabalho de Hrcules. Acho que 
vou pedir para Marina lavar a roupa suja da viagem, e depois a 
gente vai se virando.
 Mesmo assim,  melhor a gente levar o sabo em p, 
roupa suja vai ter todo dia, no final da semana j vamos ter que 
lavar por nossa prpria conta.
Escolhemos um sabo em p barato, pegamos tambm 
detergente, sabo em pedra, desinfetante, lcool... e demos a 
compra por encerrada! Quando fomos pagar, me assustei com o 
valor.
 Nossa...  cochichei para Eduardo.  No levamos 
quase nada... Samos de l com o corao um pouco 
incomodado.
Chegando em casa arrumamos tudo na geladeira e na 
despensa. Durante o resto da semana procuramos pr as coisas 
em ordem. Era preciso abrir os pacotes de presente. O que 
ganhamos de mais til foi um conjunto de loua para quatro 
pessoas e um jogo de cinco panelas. Ganhamos tambm um 
outro conjunto de pratos, mais elegante, fazendo conjunto com 
as xcaras. Dentre outras coisas, vieram duas torradeiras, dois 
ferros eltricos, dois tapetes, dois conjuntos de talheres para o 
dia-a-dia. O restante das coisas era mais simples, embora a 
maioria fosse til.
Minha me me comprou naquela semana algumas coisas 
bsicas e baratas, como escorredor de prato, suporte de sabo 
para pr na pia, um conjunto de copos, cestinho de lixo para 
banheiro, cesto de lixo para a cozinha, sacos de lixo (que ns 
dois esquecemos de comprar), saboneteira, coisinhas assim.
Eduardo colou alguns papeles na janela da sala, para 
impedir o sol de entrar com tanto vigor. O problema  que por 
causa disso tambm no podamos abrir a janela. Uma 
conhecida nossa havia prometido me fazer uma cortina, mas 
ficou por isso mesmo.
Foi tambm Eduardo que se incumbiu da roupa, depois 
de se informar com a Marina como fazer para lavar roupa no 
tanque.
 No  difcil... eu vou cuidar disso,  um Trabalho 
muito pesado para voc.
 Onde vamos pendurar?  perguntei, olhando para a 
pequena rea de servio.
 Pois , esquecemos de comprar o varal. Isso  
imprescindvel!
Eu lavei toda a loua que ganhamos, as panelas, arrumei 
tudo. Era preciso arrumar tambm nossas coisas de escritrio, 
parecia que tinha explodido uma bomba no quarto que 
transformamos em escritrio! Estava cheio de caixas pelo cho, 
tudo bagunado. No tnhamos tido tempo de fazer isso antes do 
casamento.
Levou bem algumas semanas at estar tudo arrumado.
Realmente a av de Eduardo nos presenteou com a mesa 
da cozinha, o que foi uma verdadeira bno! Eduardo foi com 
ela na loja escolher, e logo entregaram. Era uma mesa redonda 
de um metro. Como era bom poder sentar  mesa para comer. 
Depois, minha me nos deu duas toalhas redondas para que 
ficasse tudo direitinho.
Quando olhei a pilha de roupas que Eduardo tinha 
lavado, me assustei. Era hora de passar tudo! L fui eu fazer 
mais uma coisa que nunca tinha feito, a no ser de maneira 
espordica. s vezes, quando precisava de uma blusa ou uma 
cala no final de semana, eu mesma passava se por acaso 
Marina no tivesse feito. Mas nunca cuidei de toda a roupa!
Enfim... vivendo e aprendendo!
Mas havia a parte boa: estvamos casados! Agora a 
gente no precisava mais ficar pensando em casamento, j tinha 
passado, j tinha passado aquela etapa.
Outro pedao bom foi a tima padaria que descobrimos 
perto de casa. No comeo, ns usvamos uma ali na avenida. 
Mas depois passamos a comprar na "Dona Dela", onde s tinha 
coisas gostosas! Era muito bom fazer um ch e comer com 
broinhas de fub ou trouxinhas de ma, meus preferidos.
Durante a semana eu almoava no servio. Eduardo 
enganava com qualquer bobagem na rua porque passava quase 
todos os dias procurando emprego.  noite a gente tomava 
lanche, ou ento fazia sopa pronta, ou macarro no nosso 
fogozinho de acampamento. A gente se virava como dava. O 
microondas demorou ainda mais de um ms para chegar.
Captulo 32
Mais ou menos dez dias depois que voltamos da Lua-de-
mel, minha me pegou uma gripe forte. Ela tinha um problema 
de sade muito antigo e muito delicado, uma anemia auto-
imune que ativava volta e meia, sempre em vigncia de friagem 
ou infeces. Quer dizer: a anemia era desencadeada 
principalmente durante o inverno. Naquele ano, aquela gripe 
fora de hora fez com que ela comeasse a passar muito mal.
Em anos anteriores minha me quase faleceu por causa 
dessa doena, passou meses internada. Era algo srio, que no 
podia ser negligenciado. Por isso, quando comentou comigo que 
sua urina estava de cor diferente, imediatamente soube de que se 
tratava:
 Ento voc est tendo hemlise...
Embora ela no quisesse, levei-a para o Hospital. Marco 
j tinha viajado, de forma que fomos apenas eu e Eduardo com 
ela, demos entrada no Pronto-socorro da minha Faculdade. No 
meu ntimo, eu esperava que o tratamento pudesse ser feito em 
casa.
O Mdico colheu os exames pela urgncia, e ficamos 
esperando o resultado. Eu estava muito nervosa. Das outras 
vezes em que minha me ficou ruim meu pai ainda estava 
conosco. Mas, desta vez, eu estava sozinha. Alm do que, nosso 
contexto espiritual causava um enorme peso sobre os meus 
ombros. No queria falar nada, mas ficava pensando se aquilo 
tinha alguma coisa a ver com as ameaas que tnhamos 
recebido.
Quando o Mdico veio com o Hemograma, avisou que 
seria necessria a internao. No d nem para descrever a 
minha sensao naquela hora.
 Ns vamos encaminh-la para o Hospital de 
referncia.
Eu sabia exatamente como funcionava aquela 
tramitao. Os Hospitais de referncia eram longe e ruins. 
Fiquei literalmente em pnico. Fui conversar com Eduardo:
 Esto querendo transferir... no pode acontecer isso, 
eles no podem transferir. No confio nestes outros Hospitais, 
s confio que ela fique aqui.
Comecei a chorar de desespero.
 No posso autorizar uma coisa dessas  continuei. 
 Por outro lado, ela no pode ir para casa...
 Ento conversa com ele. Afinal, voc fez Faculdade 
aqui.
 Vamos orar. Se Deus abrir uma vaga para ela aqui, 
ento concordamos com a internao. Se no abrir uma vaga, 
ento vou lev-la para o Hospital do Servidor Pblico, onde ela 
j ficou internada mais de uma vez.
Oramos. Eu me sentia com uma enorme 
responsabilidade nas mos. Ento fui conversar com o Mdico, 
que eu no conhecia.
 Olha... sei que voc est seguindo o procedimento, 
mas... eu sou ex-aluna daqui. E sei que sempre tem vaga, os 
Assistentes sempre conseguem dar um jeito...
Nem precisei continuar. A atitude dele mudou 
completamente.
 Ah, voc  ex-aluna? Mas por que voc no falou 
antes? Eu vou ver o que d pra fazer...
A vaga apareceu. Eu sabia disso. Sempre h vagas na 
Enfermaria, mas as internaes so escolhidas a dedo, s 
quando o caso tem bastante interesse acadmico. Ele mesmo 
veio me procurar:
 Ela vai ficar aqui. J dei andamento na internao.  
Puxa... obrigada!
 Voc j devia ter dito logo que era ex-aluna.
 Eu no imaginei que ela fosse ter que ficar.
 Tudo bem, fica tranqila. Logo, logo ela j sobe.
Minha me no ficou satisfeita com a notcia. Mesmo 
assim, concordou. Com tanto bom grado quanto era possvel 
naquela situao. Mas eu me sentia pssima, partida por dentro. 
Alm de muito preocupada em deix-la ali sozinha, agora que 
eu sabia da influncia da Irmandade.
Enquanto espervamos que a internao se efetivasse, e 
algum descesse da enfermaria para busc-la, Eduardo 
procurava tranqilizar-me. Como estivesse demorando, fui de 
novo atrs do Mdico.
 Estamos esperando algum da enfermagem descer. J 
liberamos a internao, est tudo certo.
 Voc s est esperando a enfermagem?  .
 Eu posso subir com ela, ento. Assim agiliza um 
pouco.
Ele adorou a sugesto. Assim no precisava mais ficar 
pensando naquilo.
 Faz isso.  melhor assim.
No perdi tempo. Minha me estava acomodada na maca 
e, para mim, no era segredo algum empurrar aquela maca e 
subir at a Enfermaria da Clnica Mdica. Uma vez instalada, 
observamos que o quarto triplo tinha apenas mais uma paciente 
internada. Mas ela estava passeando um pouco pelo corredor, de 
forma que minha me pde se acomodar antes mesmo de 
conhecer a companheira de quarto.
 Pede para Marina me arrumar uma sacola com 
algumas camisolas, pede os livros que esto em cima do criado-
mudo, as palavras cruzadas, a escova de dentes, sabonete, essas 
coisas...
Eu estava triste. Me segurei para no chorar na frente 
dela. Ento Eduardo nos conduziu em orao antes de irmos 
embora. Pedimos pela proteo de Deus, a presena dos anjos, 
abenoamos aquele lugar, aquele leito, toda a medicao que ela 
fosse tomar. No tnhamos leo ali conosco, mas realmente 
pedimos que Deus a guardasse.
Quando no havia mais nada a ser feito, e minha me 
estava acomodada na sua cama, nos despedimos.
 Amanh eu trago tudo que voc pediu  avisei.
A outra paciente, uma senhora no muito idosa, veio 
entrando no quarto. Parecia simptica, e no demoraria muito 
para que as duas estivessem conversando.
 Ento ns vamos indo...
 Vai dar tudo certo, e logo a senhora j vai estar de 
novo sassaricando por a.  Eduardo tambm abraou minha 
me.
Samos de l e entramos no elevador. Eu estava calada, 
sentia meu corao apertado. Eduardo me abraou.
 Fica em paz, Gatinha... Deus vai estar tomando conta 
dela... Ainda chorei um pouco mais. E acrescentei:
 No posso esquecer de pedir para Marina colocar 
comida pra Viola no terrao. Pra amanh, depois do servio, 
passo l pra pegar as coisas e levo no Hospital...
* * * *
Na primeira semana de maro, poucos dias depois que 
voltamos da Lua-de-mel e ainda estvamos totalmente perdidos 
na nossa nova casa, comeou o curso da Grace. O curso de 
Ministradores, duas vezes por semana,  noite, tinha durao de 
pouco mais de trs meses e visava preparar pessoas para exercer 
aquele trabalho: ministrar pessoas.
Optamos por ir de metr. Nosso apartamento ficava a 
duas quadras do metr, e depois a gente tinha de andar s mais 
umas trs quadras para chegar ao local do curso. Era melhor do 
que enfrentar o trnsito na hora do rush.
No primeiro dia do curso Eduardo no estava bem. 
Passou mal a tarde toda com aquela dor abdominal terrvel que 
volta e meia o acometia. Fui  farmcia comprar Buscopan para 
ele.
 Olha, Nen...  falei estendendo o copo com gua 
onde j tinha pingado as gotas de medicamento.  Toma tudo.
Ele estava derrubado. O remdio no fez efeito, pelo 
contrrio, a dor aumentou e ele comeou a ter enjo. Voltei  
farmcia para comprar tambm Plasil.
Ele tomou, mas de novo no adiantou nada. Pelo 
contrrio, desta vez ele vomitou muito. Foi um vmito to 
violento que no dia seguinte Eduardo estava at mesmo com dor 
muscular na regio do pescoo. Ele saiu do banheiro com o 
rosto plido.
  Acho melhor te dar uma medicao injetvel...  eu 
olhava para ele preocupada.
Fui pela terceira vez  farmcia e comprei Buscopan e 
Plasil injetvel.
 Tem certeza que precisa disso? Eu vou melhorar...  
reclamava Eduardo.  No quero tomar injeo.
 No tem jeito, Nen. J tentei te dar medicao via 
oral, no tem jeito. Apliquei a medicao e deixei que ele 
descansasse. No finalzinho da tarde ele acordou e estava 
melhor. Fomos ao curso da Grace mesmo assim.
Na semana seguinte, aconteceu de novo. Eduardo 
comeou com violentas dores de estmago e teve que 
novamente tomar Buscopan endovenoso. Poucos dias depois, 
tambm no dia do curso da Grace, mais uma vez Eduardo 
comeou a passar mal.
 Mas eu vou no curso assim mesmo... com dor, ou 
sem dor.
Fomos orando durante o caminho, pedindo a Deus por 
livramento e proteo. Cada vez que ele se contorcia de dor, ns 
orvamos mais. Sempre baixinho, sem chamar a ateno das 
pessoas, mas sabendo que Deus estava nos ouvindo. Foi assim 
dentro do metr, foi assim enquanto caminhvamos a p.
Quando chegamos no curso, uma das primeiras pessoas 
que vimos foi Ricardo. Ele nos cumprimentou e ns fomos 
colocar nossas coisas nas cadeiras, para guardar lugar.
No demorou quase nada e Ricardo veio atrs de 
Eduardo. Chamou-o de canto e logo os dois subiram para o 
andar superior para falar com Grace. Eu fiquei esperando 
embaixo, sem saber o que os dois tinham ido fazer l em cima.
Quando Eduardo voltou, tinha o semblante diferente:
 Sabe de uma coisa? Sabe o que que Ricardo queria?
 No. O qu?
 Veio me dizer que assim que ns entramos, ele teve 
uma viso e viu Abraxas nas minhas costas. Contou para Grace, 
e ela me chamou l em cima. Os dois oraram por mim. No 
sinto mais um pingo de dor!
Fiquei bastante satisfeita em que Deus tivesse revelado a 
causa da dor, tinha atendido nossa orao. Mas me senti 
bastante entristecida porque ningum me chamara para orar por 
mim.
 Puxa vida... minha me est internada... e ningum 
nem mesmo me chama pra ir com voc, pra gente orar junto.
 Sobe l, Gatinha. Sobe l e pede para eles orarem por 
voc tambm... To chateada fiquei que resolvi mesmo subir. Vi 
Ricardo ali mesmo na escada e falei:
 Olha, fiquei chateada de voc no ter me chamado 
para vir junto. Acho que no custava nada, n?
Ele se desculpou e chamou uma das mulheres da equipe 
e os dois oraram por mim. Normalmente eu no teria me dado a 
esse trabalho, mas me sentia muito fragilizada por causa da 
minha me. Contei para Grace, mais tarde, e ela garantiu que 
estariam orando.
No dia seguinte, conforme ficamos sabendo, Ricardo foi 
super-retaliado. Ficou com os mesmos sintomas digestivos de 
Eduardo, e tambm a sua cachorra passou mal.
* * * *
Todos esses episdios aconteceram nos primeiros quinze 
dias da nossa vida de casados. Certamente que no foi um 
comeo muito fcil. Mesmo quando tudo corre bem, e cada 
coisa est no seu lugar, ainda assim a adaptao pode ser difcil. 
Quanto mais desse jeito, com tudo de pernas para o ar!...
Para a gente no estava sendo nem um pouco fcil, 
especialmente para mim.
Como se tudo isso no bastasse, logo percebi que nosso 
apartamento era especialmente barulhento. Por causa do vizinho 
de baixo. Ele tocava msica alta a tarde toda, eu escutava a 
vibrao daquele bate-estaca, um barulho literalmente 
insuportvel para os meus ouvidos.
Aquilo me punha muito mais irritada. Talvez por isso 
aquelas vertigens continuassem, desde antes do casamento que 
eu estava tomando remdio para labirintite. Volta e meia eu 
tinha isso, geralmente quando estava muito cansada e muito 
tensa. Creio que, diante das atuais circunstncias, era 
perfeitamente explicvel aquele pequeno problema de sade.
A cada dia que passava, eu me sentia mais cansada do 
que no dia anterior. At mesmo minha prpria msica me 
irritava! Eu sempre gostei muito de msica, todo o tempo que 
estava em casa costumava ter sempre um CD tocando. Baixo,  
claro! Minha msica era sempre somente para eu ouvir. Mas eu 
no conseguia escut-la, parecia que at aquilo me incomodava.
 noite, quando me deitava, escutava pessoas arrastando 
mveis em algum lugar acima da minha cabea. Quando eu 
estava quase pegando no sono, de repente, BRUMMM!! Aquele 
barulho me punha novamente em estado de alerta. Quando 
estava quase cochilando de novo: BRUUUMMM!
 Meu Deus do cu... em nome de Jesus, faz esse 
barulho acabar! Comecei a chorar de desespero. E Eduardo 
entrou no quarto e me encontrou naquele estado.
 Eu tenho que trabalhar, tenho de acordar cedo... no 
consigo dormir! Oramos um pouco juntos.
 Vou procurar saber que barulho  esse amanh. 
Parece de mveis arrastando, mas no entendo por que as 
pessoas ficam arrastando mveis a essa hora da noite.
No dia seguinte, Eduardo foi se informar. No 
apartamento em cima do nosso moravam apenas duas senhoras, 
o apartamento era todo acarpetado e elas garantiram que no 
arrastavam mveis. Foi uma incgnita.
Eram muitas as responsabilidades da casa. Eu no sabia 
direito por onde comear, limpava o que dava, como dava. 
Todas as tardes eu ia visitar minha me, s vezes Eduardo podia 
ir comigo. Apesar de s haver dois perodos de visitas na 
semana, eu entrava a hora que queria no Hospital. Sabia todas as 
passagens, todas as entradas, alm do que ainda tinha meu 
crach antigo. Eduardo entrava comigo. Quando no dava para 
ir de tarde, a gente ia de noite.
Eu tinha informado Dona Clara, pedindo orao. E 
tambm comuniquei s pessoas que freqentavam a clula com 
minha me, na Igreja dela. Na quinta-feira seguinte, o primeiro 
dia oficial de visita, trs senhoras da Igreja foram visit-la. 
Dona Clara tambm teve tempo de ir.
Tive que avisar Marco tambm. Era importante que ele 
estivesse ciente de tudo o que acontecia.
No sei se por coincidncia, ou por fruto das nossas 
oraes, mas essa foi a internao mais curta da minha me. 
Cerca de nove ou dez dias, apenas. Em outra ocasio, ela tinha 
ficado quase trs meses.
Que alvio que foi quando ela estava de novo em casa! 
E, muito satisfeita ela estava tambm porque tinha levado uma 
das companheiras de quarto a aceitar Jesus. E depois essa moa 
acabou sendo batizada na sua Igreja. Foi a primeira pessoa que 
minha me levou a Cristo.
* * * *
Nosso primeiro ano de casamento seria muito difcil. A 
gente sentia uma carga negativa pairando no ar. No era fruto de 
discernimento, como aconteceu algumas vezes com Eduardo. 
Mas era uma sensao constante de desconforto espiritual. Por 
um lado, ns acreditvamos que Deus estava conosco. Pelo 
menos ns estvamos realmente buscando fazer a vontade dele. 
Por outro lado ns no tnhamos nos esquecido das ameaas que 
estavam sobre a nossa cabea.
Por causa dessas sensaes, to difceis de descrever em 
palavras,  que comeamos a nos questionar se no deveramos 
fazer um jejum.
Todo o resto ns j estvamos fazendo, tudo aquilo que 
era possvel de ser feito. No estvamos de braos cruzados! 
Nossa semana era atribulada: tnhamos o curso da Grace duas 
vezes por semana, s teras e quintas. O seminrio na Igreja era 
uma vez por semana, s sextas. Uma vez por semana ns 
tambm comeamos a participar de uma reunio de orao 
ministrada por Sarah e Jefferson, s segundas. Nas quartas-
feiras participvamos dos Cultos do Pastor Joel, alm de 
continuarmos nos encontrando com Dona Clara. Domingo era 
dia de Culto tambm.
Isso quer dizer que apenas aos sbados no tnhamos 
nenhum compromisso com a Igreja. Isso para ns era muito 
importante, queramos buscar a face do Senhor, alm de sentir 
que havia pessoas perto de ns. Mesmo que fossem apenas os 
outros alunos do seminrio, ou do curso da Grace, ou mesmo da 
reunio de Sarah: pessoas que conhecamos apenas de vista. 
Eram muitas pessoas ao nosso redor, mas poucas efetivamente 
conosco.
Num dos encontros com Dona Clara, enquanto 
orvamos no final, Eduardo novamente recebeu de Deus uma 
revelao:
 Foi diferente... enquanto a gente orava em lnguas, foi 
como se eu pudesse entender algumas frases daquilo que eu 
dizia... era como se Deus me pedisse um tempo especial com 
Ele, um tempo a ss. Senti tambm uma sensao grande de 
aconchego, de ser pego no colo, de ser abraado. Ele me disse 
que vai chegar um tempo em que eu vou saber quem so os 
lobos em pele de cordeiro, s de olhar para eles...  e nessa 
hora seus olhos ficaram marejados de lgrimas.
Aquilo de certa forma veio de encontro ao desejo que j 
estava no nosso corao, o de jejuar. No digo nem que fosse 
realmente um desejo, era antes uma sensao de urgncia, de 
necessidade. Ns estvamos casados h menos de um ms! A 
ltima coisa que queramos fazer era um jejum... teria sido bem 
melhor curtir a nossa nova casa, a nossa Lua-de-mel, a 
companhia um do outro... mas no foi assim conosco.
Mesmo que no houvesse aquele contexto espiritual, 
ainda assim nossa casa no era aconchegante, faltava tudo, 
faltava dinheiro para tudo, no tnhamos lazer de espcie 
alguma... at mesmo a academia j tnhamos deixado de 
freqentar h mais de dois meses. Quando amos ao 
supermercado, era para comprar meia dzia de coisinhas 
indispensveis. E era meia dzia mesmo, das marcas mais 
baratas, coisas que nunca comprei antes!
Nosso dinheiro deveria durar at abril. Eduardo 
imaginava que at esta data j estaria empregado. No entanto, j 
passava da metade de maro e nada acontecia apesar das nossas 
oraes. Talvez realmente estivesse faltando um jejum! Parecia 
haver uma densa nuvem ao nosso redor, e ela no se dissiparia 
apenas com orao.
Eduardo tinha novamente ficado at o final de um 
processo de seleo. No dia da ltima entrevista oramos juntos, 
pedimos a Deus que abrisse aquela porta, oramos com todas as 
nossas foras e f. No entanto, nada aconteceu. Escolheram o 
outro candidato e descartaram Eduardo.
Realmente nenhum de ns tinha imaginado que o incio 
do casamento seria daquele jeito.
Ento, dada a certeza de que era necessrio jejuar, 
restava saber o perodo a ser guardado. Durante alguns dias 
perguntamos ao Senhor, individualmente, quanto tempo Ele 
queria. Sabamos que h certas castas que s podem ser 
confrontadas mediante jejum e orao.
Nossa angstia ia  naturalmente  crescendo a olhos 
vistos. Eu percebia que Eduardo no dormia bem  noite, s 
vezes levantava e ficava na sala, esperando o sol nascer 
enquanto orava. Eu acordava no meio da noite para ir ao 
banheiro e via que ele no estava na cama. Algumas vezes fui 
at a sala, e ele estava l.
Era como se, l no seu inconsciente, ele esperasse o 
nascer do sol para pedir que Deus trouxesse tambm uma luz no 
fundo daquele tnel. Ele procurava ver na Criao de Deus uma 
parte do Poder de Deus... de certa forma, observar o nascer do 
sol o convencia de que Deus era muito Poderoso!
Outras vezes era ele quem dormia, e eu acabava 
levantando, sentindo tanta angstia que precisava desabafar um 
pouco com Deus. Ento me acomodava no travesseiro que 
ficava encostado na parede, e que nos servia de sof, e com 
muitas lgrimas pedia a Deus pelo livramento. Chorava, 
chorava, pedia uma soluo, pedia fora para continuar 
trabalhando, e tambm por Eduardo, para que o Senhor 
acalmasse o seu corao.
 medida que passavam os dias, ns conversvamos um 
com o outro, sem saber o que fazer. Meu salrio dava para pagar 
o aluguel, a prestao do carro e as principais contas. Mas 
depois disso sobravam apenas algumas quireras...
 Ns pedimos a Deus confirmao da data do 
casamento. Houve unanimidade em todas as pessoas  falava 
Eduardo.  Deus tem que nos sustenta! Seria inconcebvel eu 
voltar para casa da minha me, e voc voltar para a casa da sua.
  verdade. No  possvel uma coisa dessas...
Eu entendia o desespero de Eduardo. Ele era o homem, 
era o provedor... era responsvel pelo sustento financeiro da 
nossa casa. Eu nunca cobrei Eduardo de nada, eu via o seu 
esforo, a sua determinao, a quantidade de agncias que 
visitava, a quantidade de processos de seleo a que se 
submetia. No raro passava o dia inteiro na rua, sem comer 
praticamente nada. Mas eu compreendia que em primeiro lugar 
o sustento vinha de Deus! Por isso no o cobrava... 
simplesmente esperava que Deus suprisse as nossas 
necessidades. Se Deus no fizesse isso, no seria Eduardo que 
poderia faz-lo.
Mas ele no se conformava, ele mesmo se cobrava e 
cobrava e cobrava. Eu procurava tranqiliz-lo:
 Nen... voc est fazendo sua parte... se Deus no deu 
ainda o emprego, e eu no sei por que est sendo assim, mas... a 
culpa no  sua!
 Eu sei o que "eles" esto fazendo, primeiro deletaram 
a nossa conta do banco, h um ano. Depois, me mandaram 
embora do meu emprego, pouco antes do casamento. E agora, 
pouco a pouco nosso dinheiro est minguando! Deve haver 
algum Encantamento muito forte que est me impedindo de 
arrumar trabalho, isso nunca aconteceu antes, no  possvel! 
Eles vo continuar arroxando cada vez mais... e Deus no faz 
nada?!
 Nen, eu no sei por que est acontecendo assim... 
mas temos que ser fortes, temos que continuar acreditando que 
Deus  Deus. E que a culpa no  sua!
Nos nossos aconselhamentos com Dona Clara ele 
sempre se queixava, aflito:
 Eu quero trabalhar, quero sustentar a minha casa... 
tirei Isabela de dentro da casa dela, e o que posso oferecer para 
ela agora? Se Deus quer me dar um Ministrio, ento que 
acontea logo... mas nada acontece, e eu no posso ficar de 
braos cruzados esperando! Esperando que nosso dinheiro acabe 
e a gente morra de fome!
De certa forma, esse era um dos principais motivos do 
jejum: pedir direo a Deus! No era nem questo de pedir 
emprego, mas que Deus nos pusesse no caminho certo. Tudo 
parecia muito nebuloso, muito fechado, muito difcil...
 Realmente ns queremos fazer a coisa certa, no 
podemos errar, no queremos errar! Se Deus tem para ns um 
Ministrio, como Ele mesmo disse... ento que essas portas se 
abram duma vez. Mas, se no  isso... ento que Deus abra a 
porta de emprego para o Eduardo, porque tambm no podemos 
viver assim, debaixo dessa presso  expliquei a Dona Clara.
  Mesmo porque no  justo Isabela ficar trabalhando 
sozinha, ficar sustentando a casa sozinha... no foi assim que 
Deus idealizou o casamento. No  este o padro Bblico! Eu 
sou o homem, eu tenho que ser o provedor! No estou 
entendendo por que este emprego no aparece, por mais que a 
gente ore... ns no temos nenhum respaldo agora, no temos 
mais dinheiro no banco, Deus permitiu que assim fosse... agora 
Ele tem que cuidar de ns! Temos procurado fazer a nossa 
parte, Ele tem que fazer a Dele.
Dona Clara escutava nossos desabafos. E incentivou o 
jejum:
  Deus permitiu o casamento, e est no controle de 
toda esta situao de desconforto. Eu vejo que realmente  
tempo de vocs jejuarem. Embora exista a promessa de Deus a 
respeito do Ministrio, isso tambm precisa ser gerado em 
orao!
Durante a semana, eu demorei a aceitar aquilo que Deus 
parecia estar dizendo.
"Ser que  isso mesmo? Ser que temos que jejuar 40 
dias?"
Quando Eduardo falou tambm nos 40 dias, ento no 
tivemos mais dvidas.
Mas na nossa alma.... diante de toda aquela presso e 
todo aquele cansao.... realmente parecia uma tarefa sobremodo 
pesada!
 Puxa. Nunca imaginei que ia comear minha vida de 
casada jejuando 40 dias  ponderei.
 Pois , Isabela... nem eu! Mas acho que realmente 
essa  a direo de Deus para ns, nesse momento.
 E como  que vamos fazer?  tentei me sentir 
animada.
 Bom... eu pensei em tirar alguns alimentos...
 Eu pensei nisso tambm, mas tambm acho que 
devemos guardar um bom perodo do dia em jejum completo.
 Vamos tirar as coisas que mais gostamos. 
Refrigerante... caf...
 Doces... chocolate e sorvete... massas...  continuei 
eu.
 Carne vermelha tambm.  muito difcil ficar sem 
carne vermelha!
 T bom. Ento a gente tira estas coisas, e ficamos em 
jejum da meia-noite at s seis da tarde, todos os dias. So 18 
horas de jejum completo. s seis da tarde a gente pode comer, 
mas s o que for permitido.
 Que  quase nada, n?
 Tambm no  assim, podemos comer arroz, feijo, 
frango, salada, fruta... Eduardo sorriu.
 Hum... que delcia!
 Delcia mesmo  no poder comer meus doces. Eu 
no fao isso nem quando estou de dieta, a nica coisa que 
segura a minha boca nesse sentido  um jejum!
 Para mim, o que me faz mais falta  o caf e o 
refrigerante...
 Ento, quando comeamos? Agora que Deus j deu a 
direo, podemos comear.
 Amanh temos encontro com a Dona Clara, vamos 
pedir para ela nos ungir. Ela  autoridade sobre ns, vamos orar 
em concordncia para que Deus nos d fora para sermos fiis 
nesses 40 dias.
Foi assim que fizemos. Essa foi a primeira vez que 
pedimos para uma figura de autoridade nos ungir. Notamos a 
diferena desde o incio, parecia haver realmente uma 
disposio diferente, um vigor diferente. Mas tambm sentimos 
a presso espiritual, como no poderia deixar de ser.
Nosso jejum comeou exatamente no dia da Festa do 
Outono. S viemos a nos dar conta disto muito tempo depois, 
porque no foi planejado. Mas Deus, em sua infinita Sabedoria 
e Oniscincia, sabia que aquele era o momento certo. Mas no 
seria nem um pouco fcil. No apenas pela privao das coisas 
que gostvamos, uma a mais no meio de tantas outras privaes 
que j existiam... mas principalmente porque aquilo ia sacudir o 
Reino Espiritual. A lembrana mais vivida daquele perodo  a 
do tremendo cansao... um indescritvel e anormal cansao.
Eu me levantava da cama pela manh com vontade que 
j fosse outra vez de noite, para ir de novo para a cama. Nunca 
tive que depender tanto de Deus para conseguir ir todos os dias 
ao trabalho, chegar no horrio, no faltar.
Eu estava acostumada a roubar uns minutinhos, tanto na 
entrada quanto na sada, exatamente como faziam os outros 
Mdicos. A gente podia tranqilamente chegar meia hora mais 
tarde, quarenta minutos mais tarde, e sair mais cedo na mesma 
base. Em todos os meus empregos esse sempre foi um tipo de 
padro comum de conduta.
Essa foi a primeira coisa que o Senhor comeou a 
confrontar na minha vida. Logo Ele me convenceu de que no 
me queria tendo um comportamento igual ao de todo mundo. 
Passei ento a levantar mais cedo e a chegar exatamente no 
horrio. Durante todo o trajeto at l eu ia orando, me 
consagrando, apresentando peties, conversando com Deus.
Depois de estacionar o carro, subia minha costumeira 
ladeira. Mas era como se tivesse duzentos quilos sobre os 
ombros, quase arrastava os ps. Eu no conseguia me recuperar 
daquele cansao. Mesmo assim, ia cantando minha musiquinha:
 Cada metro desta terra que eu piso, o lugar que ponho 
a planta dos meus ps, o Senhor Jesus me deu como herana...
Ungi tambm a minha sala e a minha mesa logo no 
comeo do jejum. Eu tinha a mais absoluta certeza de que meu 
emprego estava na mira do inimigo. Obvio. Se eles queriam 
secar toda nossa fonte de sustento, meu trabalho era o prximo 
que deveria ir para o espao. Mas eu no iria entreg-lo nas 
mos do inimigo! No que dependesse de mim, iria mant-lo, 
custasse o que custasse.
 Consagro este emprego a Ti, consagro esta sala, 
consagro o meu lugar como Mdica... me livra do ataque dos 
meus inimigos, declaro que tomo posse do meu emprego, 
declaro que ele me pertence, o Senhor me deu, e eu quero 
conserv-lo! Vou ficar neste lugar, neste cargo, at o ltimo dia 
que o Senhor permitir que eu esteja aqui.
Como estivesse chegando mais cedo, todas as manhs 
tinha quase uma hora para ler a Bblia. O Ambulatrio estava 
vazio, nenhum dos Mdicos chegaria antes de oito e quarenta, 
oito e cinqenta. No comearamos a atender as consultas antes 
das nove. Eu me sentia meio otria chegando ali s oito horas 
cravado. Ningum fazia aquilo!
Mas o Senhor estava me requerendo aquela fidelidade. 
Jamais me passaria pela cabea, como era to freqente antes, 
contar alguma mentira para poder faltar e descansar um dia ou 
dois.
De vez em quando eu me recordava, sorrindo, das 
histrias que eu e Eduardo inventvamos para dar um chute no 
servio. Normalmente ele ligava falando que a doutora Isabela 
tinha tido um problema:
 Faleceu uma tia dela do interior, e Isabela teve que 
viajar at Mato para levar a me. O enterro vai ser hoje  tarde, 
mas como  muito longe, ela s volta amanh. Estou ligando pra 
avisar que ela no vai poder vir ao servio hoje e amanh.
 Ah! Coitada da Doutora. Manda os psames pra ela. 
Tudo bem por aqui, diz para ela ficar descansada.
Mais de uma vez ns dois fizemos isso. Hoje... seria 
impensvel armar uma arapuca daquelas! Era fcil entender por 
que Deus queria tratar aquela minha fraqueza. Ento no 
roubava nem mesmo um minuto no horrio de servio, sabia 
que se fizesse isso estaria abrindo uma brecha, estaria dando 
legalidade para o inimigo me dar uma rasteira. Poderia at 
mesmo tomar o meu emprego! Eu tinha plena conscincia disso 
agora.
Como era difcil!...
No bastasse ficar esperando todo mundo chegar de 
manh, quando eram onze horas, onze e quinze, o pessoal da 
rea Mdica j comeava a debandar. Mas eu ficava at meio-
dia, certinho. No tinha coragem nem mesmo de sair cinco 
minutos antes.
"Se eu sair antes,  batata que vai aparecer alguma 
consulta grave, e vai sobrar pra mim..."
Ento, no havia outra maneira a no ser me alinhar.
Alm de direo, aquele jejum era tambm para 
consagrao. Ns tnhamos conscincia de que devamos estar 
nos entregando totalmente a Deus, e  Sua vontade... no 
percebemos exatamente isto naquela poca, mas durante o jejum 
Deus nos falou bastante sobre santificao. Sobre alinhar a vida.
Ainda em relao ao emprego, certo dia sa com uma 
estranha convico no corao, como se Deus estivesse 
realmente me dizendo:
"Voc no est a para sustentar a casa, voc est a para 
aprender a obedecer. Quando aprender tudo que Eu quero que 
voc aprenda, Eu mesmo vou tirar voc da."
Quando cheguei em casa comentei com Eduardo sobre 
aquilo.
  verdade. Nunca tinha pensado sob este prisma.
 Pode ser que no esteja conseguindo fazer o melhor, 
no rigor da palavra, mas Deus sabe que estou fazendo o melhor 
que posso! No falto... no minto... no roubo no horrio... 
procuro ter a maior pacincia que posso com as pessoas!  
muito duro trabalhar em convnio, como  duro...! Todo mundo 
se julga sempre no direito de exigir mil e uma.
O jejum trouxe tambm algumas revelaes. A primeira 
delas veio na Pscoa. Ns iramos almoar em casa de minha 
me, ento Eduardo levantou mais cedo e foi visitar dona Odete. 
Era melhor fazer aquilo pela manh porque depois, no final da 
tarde, j iramos direto para a Igreja.
Ento ele resolveu ir tomar um caf da manh de Pscoa 
com a me. Ou melhor, apenas acompanh-la no caf, porque 
Eduardo no podia comer por causa do jejum. Eu levantei um 
pouco mais tarde naquele domingo, me arrumei, dei um jeitinho 
muito mixuruca na casa, e fiquei esperando por ele.
Eu gostava de escutar o barulhinho da chave quando 
girava na fechadura da porta. Era sinal de que Eduardo j estava 
chegando. Eu estava ainda l dentro, e foi ele que veio ao meu 
encontro.
Assim que olhei para ele, achei que no estava dos mais 
normais:
 U... que foi?
 No foi nada.
 Mas voc no est com a cara boa. Vai dizer que sua 
me disse alguma coisa que voc no gostou?
Eduardo no sabia disfarar muito bem.
 No foi bem isso...
 Pois eu no estou dizendo? T vendo que voc est 
com a cara esquisita! Que que aconteceu?
 Ela me falou uma coisa... que eu ainda estou tentando 
digerir... Fiquei at meio inquieta. E indaguei, meio afoita:
 Conta, Nen...
 No sei por que saiu esse assunto, no sei por que 
acabei perguntando aquilo.
 Aquilo o que!
 Sobre o meu pai...
Fiquei quieta um pouco. Sabia a que Eduardo se referia.
 Quer dizer... seu pai mesmo, ou...
 No... no o meu pai, quer dizer...
 Conta direito, vai.
 Bom... sempre existiu essa questo no ar, de que meu 
pai no era meu pai de verdade. Mas nunca minha me admitiu 
que aquilo fosse verdade. Mas meu pai j morreu, eu j estou 
casado... no sei por que, me deu na telha de perguntar mais 
uma vez. Ela estava meio nostlgica, comentando que meu pai 
tinha morrido... que o Roberto estava trabalhando no Rio... que 
eu tinha casado... que a casa estava cada vez mais vazia... 
ento... perguntei! Ela estava sozinha e pela primeira vez falou a 
verdade.
Eu s escutava. Eduardo continuou.
 Imaginei que como minha me estivesse se sentindo 
mais frgil naquele momento, talvez me respondesse. A bem da 
verdade, isso sempre me incomodou. Eu precisava saber! 
Queria ter certeza daquela histria, porque nunca me senti filho 
do meu pai. Ele nunca me tratou bem, e como bebesse, acabava 
sempre me jogando na cara que eu no era filho dele. Quando a 
pessoa bebe pode tanto falar besteira, quanto deixar escapar 
grandes segredos! Uma pessoa assim j no controla a sua 
razo, e quase sempre ele me dizia, nas brigas: "Voc no  meu 
filho, voc  uma desgraa que eu tive que suportar"! Do 
mesmo jeito, quando eu causava algum problema em casa, ele 
reclamava com minha me dizendo que: "O seu filho fez isso, 
seu filho fez aquilo"! A minha me costumava retrucar dizendo 
que no tinha me trazido para casa de enxoval, que ele tinha 
participao naquilo. E meu pai respondia categoricamente: 
"Com esse no, com esse eu no tive participao nenhuma"!
Olhei para Eduardo com certa compaixo.  claro que 
ele tinha uma grande mgoa no corao.
 Ele sempre me tratou diferente. E isso sempre ficou 
na minha cabea... outra coisa que me deixava desconfiado era 
minha av. Depois que ela comeou a ficar meio esclerosada, 
volta e meia falava demais, falava para minha me que ela devia 
"ter ficado com aquele outro moo, afinal voc sofreu muito 
com esse seu marido, que bebe demais. Aquele  que era 
bonzinho". Mas minha me sempre desconversou, sempre 
procurou encobrir tudo. Eu no sabia se minha av estava 
confundindo as coisas, ou se estava mesmo falando a verdade. 
A, durante o caf, preparei muito bem o terreno e por fim falei 
para minha me que no tinha mais sentido ficar escondendo 
tudo de mim. Eu gostaria de saber de quem eu era filho de 
verdade! E perguntei: "Afinal de contas... eu sou ou no sou 
filho do meu pai?" Para minha surpresa, ela me respondeu 
diferente pela primeira vez. E disse: "Pai  aquele que cria, esse 
que  o pai verdadeiro... no  aquele que gera". Quando ela 
falou aquilo, no precisava nem dizer mais nada.
  Eduardo... voc no vai me dizer que ela falou... 
aquilo!  eu estava embasbacada.
Eduardo balanou a cabea afirmativamente.
 Pois falou...
 Ento  verdade mesmo?  eu custava a acreditar, 
mesmo sabendo que tinha sido eu a levantar aquela hiptese 
pela primeira vez.
Certa ocasio, estava assistindo televiso e vi Marlon. 
Eu sabia do relacionamento dos dois, do vnculo entre ele e 
Eduardo, inclusive que Marlon sempre tratou Eduardo por "meu 
filho".
 Voc nunca imaginou a possibilidade do Marlon ser 
seu pai?  eu tinha perguntado para ele na poca.
Aquilo nunca tinha passado pela cabea de Eduardo. 
Mas pelo visto ele tinha ficado pensando...
 Quando pressionei um pouco mais, ela simplesmente 
falou. Contou como foi, como aconteceu... disse que ele se 
chamava Marlon... falou a descrio fsica... a idade... no 
entendo por que ele nunca me disse.
A voz de Eduardo ficou um pouco embargada. Ele 
olhava pela janela do escritrio, com os olhos cheios de 
lgrimas. Abracei-o, sem saber direito o que dizer.
 Voc gosta muito dele, n?...
Ele fez que sim. Ficamos quietos um pouco, e ento ele 
continuou, contou-me toda a histria. No havia a menor 
sombra de dvida (Leia Filho do Fogo). Eduardo ficou o resto 
do dia meio que em estado de choque, pensativo, calado. No 
era para menos! At eu estava assombrada.
 Nen, veja por um outro ngulo... isso  uma grande 
revelao, algo que Deus est trazendo  tona, uma parte da sua 
histria muito importante e que voc no tinha conscincia! Isso 
muda tudo! Ta muita coisa para ser ministrada...
Embora Eduardo soubesse disso, naquela hora no 
queria nem falar em Ministrao.
Isso aconteceu no domingo de Pscoa. Na segunda-feira 
de tarde ns estvamos excepcionalmente em casa e o nosso bip 
tocou. Na verdade no era nosso, era de Karine, aquela moa 
nossa amiga que estudava em So Paulo e freqentava a Igreja 
conosco. Como no tnhamos telefone, ficvamos 
incomunicveis. Isso no era nada bom, especialmente porque 
minha me agora morava sozinha.
Ento Karine nos emprestou o seu bip por tempo 
indeterminado. Pelo menos era uma maneira de comunicao 
com o resto do mundo. Para nossa surpresa  melhor dizendo, 
desagradabilssima surpresa  o recado que foi aparecendo no 
trouxe nada de bom. Mas, de certa forma, terminou de 
confirmar aquilo que j sabamos.
O bip tocou e eu pensei que fosse minha me. Quando 
fui ao encontro de Eduardo, ele me mostrou a mensagem, 
passando-me o aparelho. Nem consegui acreditar no que estava 
lendo. Devolvi o bip para ele muda.
 No  possvel que isso est acontecendo...
Eduardo olhou mais uma vez a mensagem.
 Pois est.
Dizia algo mais ou menos assim: "Agora que voc j 
conhece a verdade, ela te libertar. Voc sabe que est no lugar 
errado, agora no tem mais dvidas sobre quem  a sua 
verdadeira famlia". E assinou, incrivelmente, com as iniciais do 
seu nome verdadeiro.
Embora fosse uma pergunta tola para se fazer, no pude 
pensar em nada melhor naquele momento.
 Mas no  possvel que eles j descobriram o nmero 
deste bip... ser o benedito!!
Ns dois ficamos com uma desagradvel sensao 
engastalhada dentro da alma. s vezes, quando o emocional se 
abalava muito, era to difcil ficar sem comer nada... dava uma 
vontade louca de encher a barriga de comida, descarregar de 
alguma forma. Mas no havia qualquer vlvula de escape...
Quando contamos, Grace no acreditou muito nessa 
histria. Parecia mirabolante demais e de incio ela preferiu 
acreditar que fosse mais uma mentira daqueles Satanistas para 
envolverem Eduardo. No discutimos com ela, mas ns dois 
tnhamos absoluta certeza de que era verdade, mesmo porque 
estvamos em perodo de jejum, buscando a Deus todos os dias, 
tanto separados quanto em concordncia. Orvamos por direo, 
por proteo e por consagrao.
Diante disso, Deus permitiria que uma mentira como 
aquela passasse por verdade? Ns no cramos nisso, pelo 
contrrio, sabamos que Deus estava atendendo nossas oraes, 
Ele tinha mandado uma nova direo em termos de Ministrao. 
Algo totalmente novo!
No fundo sabamos  pelo menos assim espervamos 
 que a principal direo que estvamos buscando tambm 
viria. Tinha a ver com a questo Ministerial. Todos os dias 
suplicvamos a Deus que nos guiasse, que abrisse as portas que 
Ele tinha para ns, fosse de emprego ou de Ministrio, que nos 
transformasse, que nos forjasse, que nos limpasse, que nos 
capacitasse a continuar caminhando...
* * * *
Captulo 33
J tnhamos comeado a segunda metade do jejum. 
Como ns encontrssemos com Ricardo quase toda semana por 
causa do curso da Grace, certa ocasio ele nos avisou que, 
orando por ns, tinha discernido no esprito muito ataque contra 
o meu emprego.
J no era a primeira vez que ele nos dava uma direo 
nesse sentido. No era novidade, mas a diferena  que agora eu 
estava muito mais alinhada. Mesmo assim, sentamos 
necessidade de que mais pessoas que intercedessem por ns. 
Grace costumava nos cobrar:
 Vocs precisam arrumar dez intercessores pessoais. 
Eu peo isso para todo mundo que faz o meu curso! Geralmente 
peo por escrito, inclusive. Vocs esto procurando 
intercessores?
 No sei onde vamos encontrar esses intercessores... 
no temos muito acesso  liderana da nossa Igreja, como voc 
mesma sabe. A nica pessoa que ora por ns a Dona Clara... 
tem tambm a Sarah e o Jefferson, que dizem que oram em 
concordncia com um grupo especial que eles tm... fora isso...
Grace ficava incomodada com aquilo. E no se 
conformava.
 Mas vocs no podem ficar assim descobertos. 
Tentem ver se vocs arranjam mais pessoas na Igreja de vocs.
Quando samos do curso naquela noite, voltando para 
casa de metr, conversvamos a respeito.
 Tem um grupo de guerreiras na Igreja...  falei.
 Voc acha que devemos abrir o jogo com elas? Ser 
que no vai parecer que estamos passando por cima do Pastor 
Lucas? Afinal, ele nunca me liberou para testemunhar na Igreja, 
de repente vai achar que estou desobedecendo a sua autoridade 
se comear a falar da minha vida para outras pessoas ali 
dentro...
 Imagine! Isso no tem nada a ver, estamos apenas 
pedindo orao pessoal! Mas podemos perguntar para Dona 
Clara o que ela acha, e que foi a Grace que pediu...
 Ento vamos fazer isso.
No fundo, no fundo ns queramos muito mais pessoas 
perto de ns. Havia um casal na Igreja, aquele mesmo com 
quem tnhamos feito aconselhamento de casais, que sempre nos 
garantia sua fidelidade em orao. Mas agora eles tinham um 
filho pequeno, nunca dava certo da gente encontrar com eles.
Dona Clara achou muito bom ns termos decidido 
buscar mais ajuda. Tendo o aval dela e o incentivo de Grace, 
compreendemos que talvez essa fosse mesmo a direo de 
Deus. Dona Clara se ofereceu para intermediar o contato. Ela 
conversou com cinco pessoas que se intitulavam guerreiras, que 
estavam sempre envolvidas com Batalha Espiritual. Ns 
conhecamos todas elas de trocarmos pequenas conversas.
No final de um Culto de domingo, Dona Clara nos disse 
que podamos falar com elas porque j estavam avisadas da 
nossa necessidade. Ento Eduardo foi atrs, na tentativa de 
marcar uma data para nos encontrarmos durante a semana. 
Enquanto isso, eu continuei conversando com Dona Clara.
Mais tarde, em casa, enquanto quebrvamos o jejum 
daquele dia com os alimentos que podamos consumir, ele me 
contou que tinha conseguido falar com uma delas. Sentamos na 
nossa mesa redonda, lado a lado, prontos para tomar nosso 
lanche. Eu tinha colocado um CD suave no aparelho de som e 
no havia barulho naquela hora nos outros apartamentos.
 E a? Como ficamos?
 Marquei para quarta-feira, ao invs de nos 
encontrarmos com Dona Clara, vamos nos encontrar com elas. 
As trs diaconisas, uma outra irm que no conheo, e a Pastora 
Alice.
 A Pastora Alice? Mas ela nunca nem olha pra gente! 
Tem certeza que  bom fazer isso, abrir nossa vida com uma 
pessoa totalmente desconhecida e que nunca nem nos 
cumprimenta?
 Eu no vou questionar... vamos ver no que d. De 
certa forma, estamos cumprindo uma ordem da Grace! De 
repente, vai que Deus est mesmo levantando estas pessoas para 
estarem ao nosso lado? A pessoa com quem falei foi categrica 
em dizer que todas elas vo ficar do nosso lado, que a vitria  
nossa, que vamos derrotar o inimigo, esses demnios vo ter 
que recuar etc.!
Fiquei quieta, um pouco insatisfeita com a presena da 
Pastora Alice. Mesmo assim, no retruquei.
 Elas s vo conseguir realmente ficar conosco se 
Deus estiver chamando... se assim no for, logo, logo j vo 
desistir!
 Isso  verdade. A Irmandade foi bastante firme em 
dizer que todos aqueles que se aproximassem de ns, eles iriam 
derrubar. Vamos ver no que d essa coisa toda. Ns estamos 
fazendo nossa parte, que  sinalizar uma necessidade, sinalizar 
que estamos precisando de ajuda... agora, cabe a Deus levantar 
as pessoas certas...
* * * *
No dia do encontro, chegamos na Igreja antes do 
horrio. Era um final de tarde e no havia praticamente ningum 
por ali. Ao passarmos diante da Secretaria cumprimentamos as 
duas secretrias, Nadia e Sheila, e entramos. Fomos direto para 
a salinha l do fundo, aonde combinamos. Ficamos por ali 
dando uma olhadinha nos murais, conversando um pouco, 
esperando. Logo deu o horrio.
 Por enquanto no d pra gente considerar isso um 
atraso... agora que est dando a hora certa!  comentei com 
Eduardo.
Depois de um tempo, cansamos de ficar ali de p, e 
fomos nos sentar numa das salas. Deixamos a porta aberta para 
que no tivessem dvida onde ns estvamos.
Passou talvez mais um quarto de hora. Finalmente, a 
Pastora Alice apareceu.
 Ol! A Paz do Senhor! Tudo bem com vocs?
 Tudo bem com a gente. E com voc?
 Est tudo bem, graas a Deus.
Ficamos calados um momento, esperando se ela iria 
falar alguma coisa a respeito das outras. Como nada dissesse, 
Eduardo perguntou. Ela pareceu surpresa:
 No estava sabendo que elas vinham... mas... o 
Senhor sabe de todas as coisas! Se elas no esto aqui,  porque 
o Senhor no preparou isso. A que horas vocs marcaram 
reunio?
 s cinco.
 Pois ento... j so quase cinco e meia! Eu acho que 
quem chegou, chegou... se elas no esto aqui, vamos comear a 
reunio s ns trs.
Pensei ter ouvido um leve tom de despeito na voz dela. 
Pelo visto, ela no devia ter as outras em muito alta conta. Ela 
continuou:
 Acho que Deus preparou apenas para que eu estivesse 
aqui... ento, no vamos mais perder tempo! Eu estou 
acostumada com esse tipo de coisa, com a guerra! No sei como 
dizer, mas Deus chama cada um para um lugar. Eu acho que 
hoje este  o meu lugar.
Assentimos, concordando sem retrucar.
 Ento? Vamos orar para comear?
Foi o que fizemos, em seguida ela quis saber um pouco 
melhor por que estvamos procurando ajuda dela.
 A Dona Clara no te falou?  indaguei.
 No quis adiantar muita coisa... e disse que o 
Eduardo se envolveu com uma seita satnica... mas no disse 
muito mais.
 E...  mais ou menos isso, mas a verdade  que... Ela 
interrompeu.
 Vocs no precisam me contar nada, no  isso que 
eu quero saber! Quais so suas necessidades hoje?
  preciso somente contextualizar um pouco  
retomei.  A verdade  que existem alguns decretos contra 
ns... e por causa disso estamos passando algumas 
dificuldades...  eu no sabia como me explicar em to poucas 
palavras.
 Entendo.
Explicamos sucintamente o que deu, sem falar demais, 
expondo nossos principais motivos de orao.
  Grace espera que ns tenhamos mais intercessores, 
mais pessoas compromissadas com a gente  falou Eduardo. 
 Por isso resolvemos pedir ajuda a voc, e tambm s outras 
diaconisas.
 Eles disseram que quem se levantasse para estar ao 
nosso lado, iria ser
derrubado... realmente no  fcil encontrar pessoas que 
estejam dispostas... esse, sem dvida,  um motivo de orao! 
Gostaramos que Deus trouxesse outras pessoas para caminhar 
ao nosso lado.
 No que depender de mim, quero ter uma aliana com 
vocs. Quero estar ao lado de vocs nesta guerra!  falou ela 
com bastante convico.  Eu estou aqui para isso!
Fora isso, ela anotava na agenda alguns pontos da 
conversa, ouvindo com ateno.
 Que mais?
 Bem... h vrios meses nossa situao financeira tem 
piorado gradativamente. Isso tambm foi algo que eles 
prometeram fazer, e tambm disseram que ningum nos 
ajudaria.
 Disseram, como?  dessa vez ela perguntou.  
Como assim?  algum tipo de discernimento que vocs esto 
tendo, ou...
 No.  literal mesmo, eles falaram tte  tte.
 Ah, mas  mesmo? Chega nesse ponto? Fizemos que 
sim.
 Mas no se preocupem. Deus  maior, e vai pr um 
ponto final nessa histria!,  Ento compartilhou conosco 
rapidamente uma das suas histrias de Batalha
Espiritual. Ns escutamos. Depois, Eduardo continuou 
falando:
 Ento estamos com a nossa situao financeira 
bastante abalada, eu no consigo arrumar emprego e o salrio de 
Isabela cobre nossas despesas, mas no sobra.
 Diga-se de passagem que ele foi despedido tambm 
debaixo de um decreto...
 Quanto a isso no posso ajudar muito  fez a Pastora 
Alice.  No teria para quem encaminhar um currculo seu. 
Mas posso cuidar para que vocs sejam includos na lista da 
cesta bsica. Afinal, temos que procurar suprir a necessidade 
imediata.
 Isso seria bom, no deixa de ser uma ajuda. Ela 
anotou novamente na agenda.
Fomos conversando sobre assuntos paralelos, nos 
conhecendo um pouco melhor tambm. Compartilhamos 
rapidamente nossos sentimentos de solido, de temor, de 
inquietao. Nossas principais necessidades foram expostas. L 
pelas tantas, ainda explicando sobre todos os roubos que 
vnhamos sofrendo nos ltimos meses, Eduardo comentou:
 E voc acredita, Pastora? At mesmo o meu dente 
quebrou! A impresso que d  que nossa fonte de sustento est 
secando, e todos os gastos extras que podem surgir, acabam 
aparecendo tambm. Voc sabe tambm que no comeo do ano 
temos que pagar o IPVA, tivemos muita despesa com o 
casamento, apesar de termos feito tudo de maneira simples... 
Realmente precisamos de um milagre de Deus! 
Eu complementei o assunto:
 Essa histria de dentista  fogo.  muito caro hoje em 
dia, enquanto essa situao perdurar, no podemos custear nada 
disso. Eu tambm estou com um dente meu que est meio 
doendo... mas como a gente vai pensar em ir ao dentista?
 Mas voc sabe que talvez para isso tenha jeito. 
Conheo uma moa da Igreja que  dentista, vou comentar com 
ela sobre vocs! Quem sabe no d tudo certo?
Por aquela ns no espervamos, realmente o 
comentrio sobre os dentes era mais para exemplificar 
exatamente como estava nossa situao. Nunca imaginamos que 
ela conhecesse uma dentista! Ficamos realmente bastante 
satisfeitos!
 Puxa, isso seria timo!  falei, agradecida.
Eduardo estava ligeiramente tocado pela atitude sincera 
que a Pastora estava tendo. Depois, antes de comearmos a orar 
efetivamente, achei melhor ser sincera. E falei com toda a 
delicadeza que me foi possvel, mas tambm com bastante 
transparncia:
  Olha... ns queramos mesmo te agradecer pela sua 
disposio... quando voc entrou aqui hoje, e mais ningum 
veio, realmente fiquei meio cabreira.  que ns estamos na 
Igreja h dois anos, e nunca consegui conversar com voc, cada 
vez que nos cruzamos... bem... a impresso que me d  que 
voc nunca olha na minha cara.
Pastora Alice pareceu entender.
   muito bom voc estar me falando isso, porque 
realmente no foi de propsito.  o meu jeito mesmo, s vezes 
estou distrada, s vezes no enxergo direito... mas no tem nada 
melhor do que a sinceridade! Voc no  a primeira pessoa que 
me fala isso.
 Voc me desculpe, mas achei melhor falar agora... 
porque nunca entendi a sua posio muito bem.
Ento oramos em concordncia pelos nossos principais 
motivos, depois nos despedimos realmente agradecidos. 
Tnhamos ficado juntos mais ou menos uma hora. Foi o 
suficiente para que nossa impresso a respeito dela mudasse. A 
caminho de casa, fomos comentando:
 Puxa... realmente ela foi simptica...
 De fato. No esperava isso. Parecia preocupada em 
suprir as nossas necessidades dentro do que est ao seu alcance!
 Ainda bem que fomos sinceros tambm na questo de 
nos acertarmos... eu tambm no ia muito com ela  falou 
Eduardo.
 Foi melhor. E ela entendeu. Agora tudo pode ser 
diferente!
No dia seguinte, recebemos um bip da Pastora Alice. Ela 
nos mandou um versculo Bblico sobre comunho entre irmos, 
e terminou dizendo que estava orando por ns. Eu e Eduardo 
ficamos bastante sensibilizados, agradecidos a
Deus por Ele estar levantando mais aquela pessoa.
Eduardo desceu e foi at o orelho da esquina, como 
estvamos acostumados a fazer cada vez que a gente recebia um 
bip e tinha que dar retorno a algum. Ficamos sabendo que uma 
das diaconisas tinha tido um problema em casa, bastante srio 
por sinal, e estava morando na casa de uma das Pastoras da 
Igreja. Quanto s outras, nunca soubemos o que aconteceu. Elas 
no vieram falar conosco, em momento algum. Foi como se 
nunca tivessem marcado nenhum encontro.
 Pelo menos podemos dizer para Grace que 
tentamos...
De resto, durante a semana a Pastora Alice nos incluiu 
na lista da cesta bsica, mandou avisar que j amos comear a 
receber no prximo ms. Alm disso, domingo nos comunicou 
que j tinha falado com a dentista. Mas acho que confundiu 
alguma coisa, porque falou apenas sobre o problema do dente de 
Eduardo.
 Voc pode ir l falar com ela, Eduardo! Ela no vai te 
cobrar nada  disse ela.
 Que bom, Pastora! Ela est sabendo tambm do dente 
da Isabela?
 No sei. Eu s falei sobre voc.
Agradecemos, mas ficamos sem entender por que ela 
no tinha dito nada a meu respeito. Afinal, nem um de ns dois 
tinha pedido nada. Pelo contrrio, tinha sido s um comentrio 
sobre aquele problema. No questionamos, mas a partir da 
ficava chato pedir para a dentista olhar tambm a minha boca.
 Acho que no fica chato, no...  falou a Pastora 
Alice.  Voc mesmo pode falar, Eduardo!
Fiquei um tantinho chateada.
 Pxa... como que ela esqueceu desse jeito de falar de 
mim? Est parecendo Ricardo, que chama s voc para orar!
Eduardo deu um muxoxo ressentido.
 Tudo bem. Quando falar com ela pelo telefone, 
pergunto se voc pode ir tambm.
Na segunda-feira mesmo ele ligou. Marcou um horrio, 
e a moa foi bastante solcita. Mas quando Eduardo falou sobre 
mim, ela deu a entender que no estava gostando muito. Quando 
Eduardo comentou sobre a conversa, eu j imaginava aquilo 
mesmo:
 T vendo? Fica parecendo que ns somos dois 
oportunistas. Voc consegue um tratamento de graa, e quer me 
empurrar para ganhar tambm. Seria diferente se a Pastora 
tivesse falado desde o incio que ns dois estvamos precisando! 
Desse jeito fica muito chato, fica parecendo que a gente quer 
explorar ela. Eu no vou, no...
 Vamos juntos, sim! No custa nada para ela s olhar 
sua boca e fazer um oramento. De repente, nem  tanta coisa, 
nem fica to caro. Se ela dividir, quem sabe...
 Voc sabe muito bem que no temos um tosto para 
gastar com dentista. Isso est fora de cogitao! Eu no vou.
 At l a gente v, t? Vamos juntos, eu converso com 
ela pessoalmente... quem sabe, n?
 Para que dia voc marcou?
 Marquei para sexta-feira!
Na sexta-feira de tarde fomos juntos ao dentista. Eu 
estava morrendo de vergonha, me sentia como uma mendiga 
passando a cartola. Ela foi simptica com Eduardo, mas me 
deixou sozinha na sala de espera.
Quando Eduardo voltou com seu dente consertado, falou 
para eu entrar que a moa estava me esperando para dar uma 
olhadinha na minha boca. Eu estava super constrangida!
Entrei. Sentei. Ela olhou.
 Voc tem uma crie em dois dentes inferiores. O 
Eduardo me pediu para dar uma olhadinha s para ver o que 
tinha pra fazer...
 Ah, obrigada. Agora vou pensar direitinho quando  
que vai dar para fazer, voc podia montar um oramento pra 
gente?
 Com certeza.
Fui levantando da cadeira porque ela no deu nenhuma 
continuidade, no disse que ia fazer, nem que no ia fazer. Eu 
me toquei. Ela me acompanhou de volta  sala de espera, nos 
despedimos. Fomos embora. Muito frustrados.
 T vendo?  falei, toda sentida.  No sei por que 
voc me fez vir aqui! Podia ter passado sem essa... ela no me 
tratou com cortesia, realmente s faltou dizer o quanto eu era 
oportunista.
Eduardo estava triste. Nem sabia o que dizer.
 Pelo menos voc consertou seu dente  continuei. 
 E aquele meu dente que estava sensvel no tem crie,  
coisa mesmo da minha hipersensibilidade dentria! E estas 
cries... bom... no tem problema ficar cariado um pouco mais 
de tempo.
 Realmente no entendi a atitude dela, foi to educada 
comigo, conversou o tempo todo, fez questo de dizer que 
qualquer problema posso voltar... depois, com voc... no 
entendo! No entendo essa posio.
 Deixa pra l. Nada de novo debaixo do sol! Alis, eu 
vi mesmo o quanto ela ficou conversando com voc.
 Voc notou, ? Pensei que tivesse sido s minha 
impresso...
 Eu cheiro essas coisas de longe, no entendo o que 
essas moas pensam! Ser que no deu para perceber a aliana 
no seu dedo, no? Ou ser que ela  muito pequenininha, passou 
despercebida?
 Pois ... vrias vezes ela falou que era solteira, e 
estava procurando o homem ideal, mas ainda no tinha 
encontrado. Ficou falando das qualidades dela, do que ela gosta, 
do que ela no gosta... ela tambm conversou com voc?
 Ah! Conversou, sim! Para dizer que voc tinha 
pedido para olhar a minha boca. E depois para dizer que eu 
tinha duas cries!
 Puxa......o que ser que ela espera com esse tipo de 
atitude?
Dei de ombros, irritada com todo aquele 
constrangimento.
A verdade  que naquele mesmo dia quebrou outro dente 
de Eduardo!! Decididamente aquilo no era uma coisa normal.
 Eu no vou voltar l para consertar este outro dente... 
agora fica assim mesmo,  tudo no fundo, nem aparece! Pena 
que incomoda, mas tambm logo, logo me acostumo.
Na mesma semana o dente que aquela dentista tinha 
consertado quebrou de novo. Eduardo foi obrigado a voltar l. 
Ento, ela colou o pedao que tinha cado. Mas este novo 
conserto tambm no durou, voltou a cair.
 No volto mais!  exclamou Eduardo, revoltado.  
Ela nunca mais falou do seu dente! E fica com umas conversas 
nada a ver pra cima de mim... vou esquecer disso, pronto!
* * * *
Mais ou menos dez dias depois do nosso encontro com a 
Pastora Alice, ela mesma telefonou para Eduardo. Quando 
cheguei do servio naquela tarde, Eduardo me contou o 
ocorrido.
 Voc nem vai acreditar no que me disse a Pastora 
Alice...
Fui colocando minhas coisas no cho da sala. Olhei para 
Eduardo com ar indagativo.
 Que foi?
 Ela foi direto ao assunto, comeou dizendo de cara 
que nunca tinha sentido tamanha destruio na vida dela como 
est experimentando nesta ltima semana. Palavras dela, hein? 
"Tenho orado e Deus me mostrou que tem um Principado de 
Destruio por trs de tudo isso... e todos aqueles que se 
aproximam de vocs, sofrem a influncia dele. Eu estou de 
cama, estou urinando sangue, com clculo renal... estou com 
problemas aqui em casa, meu marido est com problemas..."
 Nossa... e a? Mas ela est bem, est se tratando?
 Sim, quanto a isso ela est se tratando, sim... mas... 
no sei... depois disso no sei se ela vai querer continuar orando 
conosco.
 Mas ela disse isso?
 Dizer, ela no disse. Mas... no sei, no.
 Engraado ela ter falado esse negcio de Principado 
de Destruio. Eu nem ia comentar nada com voc, porque no 
tenho discernimento espiritual, essas coisas assim certeiras. Mas 
realmente nestes dias de jejum... no faz nem muito tempo, uns 
dois ou trs dias... estava orando l no servio, de manh, como 
sempre fao... e me veio isso na cabea. Que estvamos 
enfrentando o "Destruidor"!
 Ela disse isso. Sobre a sua certeza de que havia um 
Principado de Destruio nessa histria, disse que Deus havia 
mostrado tratar-se de um demnio que tinha assolado o antigo 
povo de Israel... isto  certo!
Foi minha vez de arregalar os olhos.
 Como assim, voc sabe que demnio  esse?!
  isso mesmo, um Principado de Destruio que teve 
muito a ver com a perseguio do povo de Deus... o nome dele  
Abadom...
 Ser possvel uma coisa dessas? Deus tinha te falado 
isso?
 No  preciso ir muito longe para perceber a 
destruio  nossa volta. Mesmo porque, eu tinha feito aliana 
com Abadom num daqueles Ritos de Abertura de Portais.
Fiquei muda. Eduardo tambm. Parecia muito clara a 
direo de Deus, muito clara a revelao.
Fato  que, depois daquilo, nunca mais a Pastora Alice 
voltou a se encontrar conosco. Simplesmente desistiu. No 
voltou mais a falar sobre encontros, sobre oraes, ou sobre 
continuar a ter aliana conosco. Na verdade, nunca houve 
aliana alguma. Pouco a pouco, voltou a ter o mesmo 
comportamento de antes: quer dizer, nem mesmo nos olhava, 
quanto mais dizer que nos cumprimentava. Bastante 
desapontados, continuamos nos encontrando com Dona Clara. 
Ela j sabia de tudo o que tinha acontecido.
Havia um certo temor pairando no ar. A verdade  que 
algumas pessoas sabiam da histria de Eduardo, aquilo de 
alguma forma tinha vazado. s vezes, na Igreja, pessoas nos 
olhavam com olhares assustados quando pensavam que no 
estvamos vendo.
Mas estava escrito no rosto de alguns deles que tinham 
pavor s de estar perto de ns dois.
Dona Clara orou conosco, e confirmou uma direo que 
ns mesmos tnhamos tido, nem me pergunte como. 
Simplesmente, a gente sabia que tinha que ser assim. Quando 
Dona Clara falou a mesma coisa, concordamos dizendo que 
aquela tambm era nossa impresso.
 Vocs no repreendam este demnio, no fiquem 
confrontando o Poder dele, entenderam? Se limitem a pedir 
cobertura para Deus, se limitem a pedir proteo... faam a parte 
de vocs, continuem com o jejum, peam a presena dos anjos e 
do sangue de Cristo sobre vocs. Mas no faam Batalha 
Espiritual!
Pode parecer uma direo estranha: no mandar embora 
aquele que estava vindo contra ns! Mas aquilo testificou 
sobremaneira nos nossos coraes. O que Dona Clara estava 
dizendo no era nenhuma direo nova, antes traduzia o que j 
estava dentro de ns mesmos. Eu e Eduardo no assumamos 
aquela postura triunfalista de ficar batendo no peito, chamando 
os demnios para briga, para o "Pau". Recitando versculos de 
que "Deus  maior". Respeitvamos o Poder deles, e naquele 
momento parecia claro que no tnhamos autoridade espiritual 
para confrontar Abadom.
Ns ainda no podamos divisar por que Deus permitia 
tudo aquilo. Mais tarde, quando entendemos que era necessrio 
atravessar aquele deserto, e aprendermos coisas que s so 
ensinadas no deserto, aquele demnio foi um instrumento nas 
mos de Deus para nos lapidar. Naquele momento, o cerne do 
aprendizado era outro. No era guerrear! No era hora de 
guerrear!
Assim terminou a nossa tentativa de arrebanhar 
intercessores. Pelo menos em nossa Igreja.
De tudo aquilo, restou a cesta bsica. Que no resolvia 
nosso problema, porque vinha muito leo, muito arroz, muito 
feijo, muito sal e acar... a nica coisa que a gente realmente 
aproveitava era o macarro, a lata de molho, a bolacha cream 
cracker, as latas de sardinha, de milho...
O ms de abril chegou ao fim, nosso dinheiro de reserva 
tinha definitivamente acabado. A partir daquele momento, 
acumularamos dvida em cima de dvida.
Em contrapartida, o jejum estava quase terminando.
* * * *
Mais ou menos naqueles dias, num final de semana, 
fomos a um batismo que aconteceria na casa de Sarah e 
Jefferson. Ela iria batizar duas pessoas. J fazia um bom tempo 
que ns no nos vamos pessoalmente, e eles nos receberam 
muito bem, com largos sorrisos.
Todos os preparativos estavam prontos, houve um 
pequeno Culto antes, e depois haveria um almoo para todos. 
Tinha bastante gente! A casa deles era bem grande e o batismo 
seria feito ali mesmo, na piscina. Estava um lindo dia de sol!
Quando terminou o Culto, Sarah pediu que ns todos 
fssemos indo para a beira da piscina e nos mantivssemos em 
esprito de orao. Logo depois comeou o batismo. Eu estava 
parada no muito distante da gua, de braos dados com 
Eduardo. Eu gostava de ver batismos!
Orando pela mulher que estava ali na gua, de repente 
algo me fez desviar a ateno para Eduardo. Ele estava com 
aquela estranha expresso no rosto. E olhava para cima.
Puxei de leve o brao dele, e cochichei:
 O que foi, Nen?
Ele nem pareceu me escutar. Adivinhei logo o que 
deveria estar acontecendo. Vi que algumas lgrimas escorreram 
pelo seu rosto, ento ele olhou para os lados, vagarosamente. 
Depois tornou olhar para cima... a olhou para trs! Eu tambm 
olhei para trs mesmo sabendo que no iria ver nada. Fiquei 
quieta e apenas esperei.
Quando ele pareceu voltar a realidade, perguntei mais 
uma vez:
 O que foi que voc viu?
 Eu ainda estou processando... daqui a pouco te conto.
Quando terminou o batismo, ns dois estvamos com o 
corao bastante sensvel. Enquanto todos foram se dispersando, 
 espera do almoo, o Louvor continuou tocando, vindo do 
aparelho de som. Aquela bonita tarde continuava em 
andamento...
Parados ali no jardim, numa sombra, estava ansiosa em 
que Eduardo me contasse o que tinha acontecido.
 Eu estava ali parado, estava orando pela pessoa 
dentro d'gua, tinha os olhos meio fechados, meio abertos... 
ento parece que vi uma luz mais forte na minha frente! At 
pensei comigo mesmo: "Puxa, ser que o sol j mudou de 
posio?". A luz era forte, mas no ofuscava... tentei abrir 
melhor os olhos e de repente a imagem dele se formou.
 Do anjo ruivo?
 Minha vista foi como que se acostumando at que 
aquele contorno deixou de ser apenas um contorno... e ele 
apareceu!
 Garanto como ele estava em cima do muro. Eu via 
voc olhando para cima como se estivesse vendo alguma coisa 
em cima do muro!
 No... ele estava ali mesmo, no jardim. Mas  que ele 
 muito grande!
 Caramba! Deve ser mesmo... pra mim, estava em 
cima do muro. Eduardo se emocionou um pouco ao lembrar da 
fisionomia do anjo ruivo.
 Ele estava olhando para ns, pra ns dois, e estava 
sorrindo! Ento percebi que aquela pessoa que estava sendo 
batizada tinha um anjo ao lado dela... e quando ela saiu da 
piscina, aquele anjo a acompanhou, e ficou bem perto. Quase 
que tocava nela. Ento me veio um sentimento, uma convico 
forte de que Deus estaria trazendo uma restaurao especfica na 
vida daquela mulher. Depois disso percebi que algumas pessoas 
que estavam ali em volta da piscina tinham tambm anjos perto 
delas. Eu podia perceber a luminosidade forte que emanava 
deles! Mas no eram grandes como o anjo ruivo, nem tinham os 
adornos azuis e dourados nas roupas, nem os braceletes at os 
cotovelos como ele. Eram apenas um pouco mais altos do que 
os seres humanos. Mas eu no conseguia v-los de forma 
definida, no conseguia divisar o rosto ou as roupagens. Muito 
diferente da viso do anjo ruivo, que era perfeita, eu podia v-lo 
to bem quanto vejo voc! Os braceletes dele reluziam! E ele 
mesmo  incrivelmente grande, forte... a manga da camisa tinha 
um tom de azul lindo, diferente, e ele usava como que umas 
ombreiras azuis tambm. De um tom azul-celeste, mas quando o 
dia est comeando a anoitecer.
Eu tambm me emocionei com o relato.
 Que lindo...
 Depois que vi aqueles anjos  volta das pessoas, olhei 
primeiro para o meu lado. Depois para o outro lado... e nada! E 
pensei, apenas: "Por que eles tm uma guarda... e ns no 
temos? Ser que no tem ningum tomando conta da gente?". 
Olhei novamente para o anjo ruivo e ele me deu um sorriso, 
como quem diz: "Que pergunta boba!". Ento ele apontou para 
mim e para voc, apontou com dois dedos, o indicador e o 
mdio, na nossa direo. Depois, apenas com o indicador, 
apontou acima do nosso ombro, para trs de ns...
 Eu vi voc olhando! Vi voc olhar para os lados, 
depois para trs! At olhei tambm!
 Quando olhei para trs, pude contar oito na fileira da 
frente... mas era to  somente a fileira da frente, atrs deles 
tinha um verdadeiro peloto. Enchiam o quintal da Sarah e 
ultrapassavam os limites dele... a impresso que eu tinha  que 
aquele grupo de anjos chegava at l fora, na rua. Tinha muitos, 
muitos! Talvez uns cinqenta!
 Nossa! Srio? Ento Deus aumentou a guarda, antes 
eram s doze com cada um de ns!
 A luta est aumentando... todos eles eram como o 
anjo ruivo, enormes, usavam os braceletes, tinham aquelas 
ombreiras... mas estavam com espadas empunhadas na mo. Eu 
fiquei completamente fascinado por aquelas espadas! Estavam 
desembainhadas, com a ponta virada para baixo, apoiadas no 
cho, e eles as seguravam com as duas mos, a mo direita no 
cabo, e a outra mo sobreposta. O brilho delas era indescritvel! 
Estavam cravejadas de pedras de cores azuladas, prateadas, 
douradas! E a lmina da espada era... era pura luz... pura luz! 
No trazia nenhuma sensao de que fosse de metal. Mas 
tambm no era de fogo... a melhor palavra  essa mesmo, luz! 
Espadas de luz!
 Puxa... que coisa linda! E voc no viu o rosto de 
nenhum daqueles que estavam na frente?
 No. Me chamou muito a ateno aquelas espadas... 
no conseguia ver mais nada! S consegui vislumbrar toda 
aquela luminosidade que emanava deles, daquele peloto... que 
ia at a rua!
Tive que rir.
 Eduardo! E ento? Depois voc olhou pra frente de 
novo.
 Aqueles oito que pude ver melhor tinham o rosto 
voltado na nossa direo...  novamente a voz de Eduardo 
ficou embargada, como sempre acontecia. Ele ainda no 
adiantava o relato.  Estavam muito compenetrados. Ficou 
clarssimo que estavam ali montando guarda, tomando conta da 
gente!... Da voltei a olhar para o anjo ruivo, com o corao 
extasiado e grato ao mesmo tempo por ele ter revelado a nossa 
guarda. Ento ele me fez um sinal, ergueu a mo e fez com o 
polegar e o indicador como se fossem os dois ponteiros de um 
relgio... entendi muito fortemente... as impresses que vm do 
esprito nessas horas so muito marcantes! E eu entendi que o 
tempo estava perto... estava chegando...
 Tempo de qu?  indaguei de pronto.
Eduardo falou de maneira simples e convicta ao mesmo 
tempo.
 Do nosso Ministrio. Do nosso Ministrio comear! 
O Ministrio de verdade. Compreendi que aquele era um sinal 
para nossa tranqilidade. Como se me dissesse: "Fica tranqilo. 
Deus est guardando vocs. Ns estamos com vocs!"
* * * *
No 37 dia do jejum, uma segunda-feira, aconteceu o 
pior.
Na sexta-feira anterior havia um recado para mim na 
casa de minha me. Eu tinha deixado o telefone dela como 
contato no meu servio. De tardezinha minha me nos passou 
um bip pedindo que a gente ligasse para ela.
 Como tenho que ir  padaria, j vou descer j e 
aproveito para dar o retorno  falou Eduardo.  Voc quer 
que eu traga broinhas para o caf?
 Pode ser, Nen!  eu estava saindo do banho e gritei 
de dentro do quarto. Ouvi a voz de Eduardo j na porta:
 T bom, estou indo, "M"!
Ele levou mais ou menos uma meia hora para voltar. 
Vinha com as broinhas, e tambm com um recado bastante 
estranho do meu trabalho.
  um recado da sua chefe. Pediram para voc 
comparecer na segunda-feira s oito horas da manh l no 
prdio central deles...
 U?  estranhei.  Mas por qu?
 Disseram que  uma reunio.
Fiquei com a pulga atrs da orelha. Alguma coisa no 
me caiu bem naquela informao.
 Mas que reunio? Ningum falou nada, ningum 
comentou nada no servio... que ser?
No arriscamos cogitar nada. A melhor coisa a fazer era 
esperar para ver. Durante o final de semana ainda oramos em 
relao quilo, j entregando a Deus aquela reunio. Algo nos 
dizia que talvez no fosse uma boa notcia.
 Essa mulher no  de confiana... todo mundo tem o 
p atrs com ela... Na segunda-feira, levantei bem mais cedo 
porque o prdio central ficava l perto da ponte da Cidade 
Jardim, e tinha muito trnsito de manh. No queria me atrasar.
Cheguei s oito horas em ponto. Me fizeram esperar um 
pouco. Mas logo a dita cuja apareceu e, educadamente, 
convidou-me a entrar na sala dela. A conversa foi bem simples, 
alis, curta e grossa. Eu estava sendo sumariamente demitida 
por um motivo ftil.
 Ns recebemos algumas reclamaes sobre voc. Em 
especial nos chamou a ateno esta aqui.
Ela estendeu o pronturio para mim. Eu sabia do que se 
tratava.
 Acho que voc tambm deve estar lembrada desta 
paciente, voc estava l naquele dia, lembra? Eu at comentei 
com voc sobre ela.
 Pois , eu me lembro.
 Eu expliquei o que aconteceu naquele dia. E voc 
concordou comigo, disse que estava certa.
 Mas depois tivemos problemas no departamento, 
porque ela foi embora do mesmo jeito.
No tinha nem p nem cabea aquela histria. Tratava-se 
de uma funcionria que apareceu no Ambulatrio com um 
furnculo na parte posterior da coxa. Eu examinei. Estava um 
pouco edemaciado, com uma leve hiperemia, nada de 
excepcional. No tinha formado abscesso. Ela queria porque 
queria ser dispensada
Eu expliquei que se tivesse um abscesso que 
necessitasse ser drenado, certamente seria o caso dela ficar em 
casa uns dois ou trs dias depois da drenagem' Mas daquele 
jeito no justificava a dispensa. Realmente no achei nada 
terrvel, eu conhecia muito bem um abscesso infectado, tinha 
drenado montanhas deles na Faculdade. At para os maiores a 
gente costumava dar cinco a sete dias de dispensa. Aquilo na 
perna dela era pouco mais do que uma espinha!
Pelo que expliquei calmamente sobre a medicao e 
orientei o retorno caso piorasse. Se piorasse, ela teria que voltar 
para a gente drenar. Mas a mulher virou um bicho!
Por uma casualidade minha chefe estava l naquele dia, 
de forma que eu tinha comentado com ela em primeira mo. A 
reao dela tinha sido:
 Voc fez bem. A gente tem que ter pulso firme com 
este pessoal.
Como explicar agora que eu estava sendo chamada  
ordem por causa justo daquilo??
A bem da verdade, nem consegui entender direito por 
que ela estava me demitindo. Reclamou que eu no estava 
anotando as consultas direito no pronturio. Uma coisa 
totalmente nada a ver, ser sucinta no significa deixar de fazer. 
Eu tinha conscincia de fazer meu trabalho direito. Mas logo 
percebi que no haveria argumentao possvel com ela. A 
deciso j estava tomada!
Ento fui at meio irnica:
 Gozado que o elogio que a Diretora do Departamento 
Financeiro me fez est passando despercebido agora, n? Vocs 
querem ver apenas o que querem ver, e no os fatos.
Um dia, quinze minutos antes do meio-dia, s eu estava 
no Ambulatrio, claro! Todos os outros j tiniram sado antes da 
hora. Ento chegou aquela mulher, uma funcionria de alto 
escalo da Empresa.
 Eu no tinha vindo antes porque imaginei que fosse 
passar... mas no passou, ento corri aqui agora, quase no 
horrio de almoo, porque foi a hora que consegui sair.
Ela foi me contando uma histria digestiva com 
sintomas um pouco nebulosos, que tinha comeado naquela 
mesma manh. Umas dores abdominais estranhas que 
comearam na regio umbilical, um episdio de vmito, sem 
diarria, com febre. Examinei o abdome e pensei logo em 
apendicite. O que acontece com os diagnsticos de apendicite  
que so difceis de serem feitos clinicamente.
Pelo sim, pelo no, expliquei no que estava pensando e 
achei melhor encaminh-la para o seu Hospital de referncia. 
Que era nada mais, nada menos do que o Einstein. Nem passava 
pela cabea da mulher estar com apendicite.
Voc tem certeza, doutora? A senhora acha mesmo 
que eu tenho que ir para o Hospital? Se a senhora disser que 
sim, eu vou... mas se dependesse de mim, ficava aqui mesmo no 
servio.
 Eu acho melhor voc ir  e expliquei 
detalhadamente.
No porque ela fosse Diretora, eu nem sabia qual era o 
seu cargo, mas porque fiquei com d. Ela estava to preocupada 
com o servio que no queria sair de jeito nenhum, bem 
diferente daqueles outros pacientes folgados. Fiz um 
encaminhamento detalhado e mandei-a direto para o Pronto-
socorro Cirrgico.
Depois, at esqueci.
Umas duas semanas mais tarde a mulher veio at o 
Ambulatrio somente para me agradecer. Contou que tinha sido 
operada naquele mesmo dia e o Mdico do Einstein tinha me 
elogiado pelo diagnstico.
 O diagnstico de apendicite  difcil de ser feito... a 
Mdica da sua Empresa est de parabns!
Ela me contou que ia fazer um elogio formal  chefia do 
Ambulatrio.
No bastasse isso, minha prpria chefe havia me 
agradecido pessoalmente pela colaborao durante a auditoria 
dos exames peridicos. Quem  que havia feito todos eles? A 
doutora Isabela, a otria que agora estava sendo mandada 
embora por puro capricho.
Levantei-me e no dei muita trela para os comentrios 
sarcsticos que ela me fez antes de apertar minha mo. Que 
vontade de esmurrar aquela cara falsa dela!
 Numa prxima ocasio voc procure fazer melhor o 
seu trabalho.
 Eu j fao bem meu trabalho. Pena que voc no  
capaz de ver isso!
Sa de l completamente perdida. Meu emprego era 
nosso ltimo recurso.
"Bem que Ricardo comentou que tinha visto um ataque 
contra o meu trabalho... mas, Senhor.... realmente no d para 
entender! Faltam apenas trs dias para acabar esse jejum e Voc 
me apronta uma dessa?"
Quando cheguei, meu carro tinha sido multado. Eu no 
tinha visto que justamente ali era zona azul. Arranquei a multa 
do limpador de pra-brisas furiosa e inconformada. Entrei no 
carro olhando para o vazio, tive at que pensar um pouco para 
lembrar o caminho de casa.
Naquela manh Eduardo no tinha nenhuma entrevista 
marcada, teria apenas no dia seguinte. S imaginava a cara dele 
quando eu entrasse porta adentro com aquela adorvel notcia...
Fui para casa devagar, orando, perguntando para Deus o 
que Ele queria com tudo aquilo. Se j estava difcil com meu 
salrio, imagine agora sem ele! Justamente agora quando nossa 
reserva no banco tinha minguado, o resqucio da resciso de 
Eduardo. Isso queria dizer que ns somente contvamos com o 
saldo de salrio que eu iria receber...
 * * * *
 dispensvel dizer o quanto aquilo nos entristeceu e 
abalou. Mas no ficamos nos lamentando, nem chorando. Tinha 
que estar no controle de Deus, afinal... o jejum estava acabando. 
Ns tnhamos incessantemente buscado Deus naquele perodo, 
clamado, suplicado por direo, pedido por consagrao das 
nossas vidas ao Senhor. Alm disso, orar por proteo era algo 
dirio.
Se assim acontecia, era porque o Senhor estava 
permitindo. Eu tinha procurado me alinhar em todas as coisas 
no emprego. Tinha conscincia de ter feito o melhor possvel, 
no tinha entregado nas mos do inimigo aquilo que era meu, 
como fiz das outras vezes. Eu tinha conscincia disso, tinha 
certeza absoluta. Mais tarde eu perceberia que Deus estava 
esperando apenas aquilo de mim: alinhamento. No momento em 
que eu me alinhei, Ele me tirou de l. Porque j tinha falado que 
eu no estava trabalhando para sustentar a casa, mas ali eu ia 
aprender a obedecer.
Mas naquela segunda-feira, 37 dia de jejum... realmente 
no pensei em nada disso. Eduardo tambm no. Muito menos 
minha me, que ficou muito triste e preocupada com a nossa 
situao que se apertava.
 No jornal de domingo sai bastante anncio de 
emprego.  falei.  Sempre arrumei emprego em uma 
semana, dez dias, nunca foi diferente. No tenho outra 
alternativa seno procurar outro, no ?
 Voc devia descansar um pouco  fez Eduardo, 
inconsolvel.
 No posso fazer isso, voc sabe... tenho que partir 
imediatamente pra outra!
* * * *
Que o diabo estava por trs disso, era certo. Eles tinham 
cantado a bola muitas vezes! Ns entendamos que havia nessa 
situao uma permisso do Senhor. Ainda estava longe o dia de 
compreendermos por que Deus dava essa permisso... mas uma 
certeza ns tnhamos, que o diabo vinha contra ns, sim... mas 
debaixo desta permisso de Deus.
Certamente que aquele momento foi muito bem 
escolhido, oh, como foi. Extremamente bem planejado. Nossos 
inimigos estavam longe de serem idiotas, davam a cartada no 
momento exato...! Eles haviam dito sobre o deserto financeiro 
que iramos enfrentar. Aquele era s mais um passo nessa 
direo. Ns havamos recebido um ou dois bips naquele 
sentido, nas entrelinhas ficava claro que a situao iria piorar e 
ns no receberamos ajuda de ningum. Eram mensagens 
curtas, de uma ou duas frases. Mas serviam para colocar um 
enorme peso nas nossas costas.
E agora, estava acontecendo...
Logo eu viria a perceber que no seria fcil arrumar 
outro emprego.
Conforme fui percebendo nas entrevistas, segundo me 
informaram, havia pouco mais de dois meses tinha sido 
aprovado um certo ISO dentro do Sistema de Sade. Isso queria 
dizer que eles no estavam mais aceitando Mdicos sem 
Residncia comprovada. O que at ento nunca tinha sido 
problema, passou a ser.
Ningum estava mais levando em conta a Faculdade que 
eu tinha feito, muito menos que aquilo era suficiente para 
exercer aquele cargo simples de Ambulatrio de Clnica Geral. 
Os raros empregos que apareciam eram todos irregulares, no 
registravam, eram nos cafunds do Judas... uma coisa 
impensvel!
Eu no fiz corpo mole. Toda semana procurava no 
jornal, telefonava para os Convnios. E neca!
A partir da, sem renda de espcie alguma, comeamos a 
nos virar de uma maneira desesperada. Economizvamos ao 
mximo, mas a gente precisava comer, precisava pr gasolina 
no carro, precisava continuar pagando as contas e o aluguel... 
ento, como foi que nos viramos?
Eu tinha dois cartes de crdito. Comeamos a fazer 
supermercado com carto de crdito. E pr gasolina em postos 
que cobravam mais caro, mas em contrapartida tambm 
aceitavam carto de crdito. O saldo de salrio que recebi deu 
para pagar mais um ms de aluguel.
Continuvamos suplicando a Deus que abrisse uma porta 
de emprego para Eduardo, pois se ele fosse empregado daria 
para segurar a barra por mais algum tempo. Como nada 
acontecesse, logo Eduardo comeou a sacar do Cred-Cash 
pequenas quantias, que usvamos para despesas urgentes.
 Quando chegou a primeira fatura dos cartes de crdito, 
conseguimos segurar  a avalancha pagando apenas a quantia 
mnima. A partir da, era repetir a operao.  Alm disso, 
comeamos a detonar o cheque especial, porque no tinha outra 
soluo.
Captulo 34
Nesse nterim, acabamos comentando com Sarah e 
Jefferson sobre nossa situao. Nas reunies de segunda-feira 
pedamos orao a eles, compartilhvamos um pouquinho de 
toda aquela tempestade.
 Podem ter certeza de que isso est sendo treinamento 
para vocs!  costumava dizer Sarah, nos incentivando.  
Quando o Senhor der livramento, vocs vo ver o quanto 
aprenderam.
Ela falava com convico e ns nos sentimos animados. 
No fundo, a gente sabia que ela tinha razo. A melhor coisa a 
fazer era continuar orando, continuar indo ao Culto, continuar 
freqentando seminrio, continuar freqentando o curso da 
Grace... enfim, continuar levando nossa vida "normalmente".
Claro que uma vida normal ns no estvamos tendo. Os 
demais tomavam conscincia dos nossos problemas e 
intercediam por ns uma vez por semana. Mas todo o resto do 
tempo ramos ns que vivamos em funo daqueles problemas. 
Nossa vida era essa: procurar emprego, economizar, no ter um 
sono tranqilo. E, principalmente, no nos desesperarmos com 
isso. Mas nos mantemos fiis em tudo ao Senhor.
De fato no ficamos revoltados com Deus. Isso em 
momento algum aconteceu. A gente continuava tirando fora 
dos momentos de adorao nos Cultos de quarta e domingo. 
Geralmente saamos de l renovados, revigorados pelo Louvor e 
pela Palavra.
Creio tambm que o jejum nos havia fortalecido para 
aquele perodo. Embora a gente no estivesse compreendendo, 
tnhamos plena convico de que era necessrio continuar 
caminhando. Haveria de chegar o momento em que Deus traria 
realmente o livramento! Pelo menos, tnhamos que continuar 
crendo nisso...
Eduardo havia dito que talvez fosse necessrio a gente 
ler o livro de J. Mas eu no quis fazer isso. Ficava apavorada 
s de pensar. Ele leu, mas eu no consegui. A gente ia passar 
por um perodo difcil, e eu no queria antecipar nada lendo a 
Bblia. Preferia ler outros textos, meditar em outras coisas.
Outra coisa que no quis ler foi o livro de Rebecca 
Brown. Um dia, no curso da Grace, folheamos rapidamente um 
dos livros dela. O pouco que li me fez ter certeza que no queria 
saber de mais nada. Era identificao demais naquele momento. 
Eu no suportaria!
Preferia no ter que imaginar o que viria pela frente. 
Preferia esperar para ver o que ia acontecer, e no ficar 
sonhando de antemo com possveis tragdias...
Sarah e Jefferson tinham uma grande convico de que 
Deus estava nos Preparando para um grande Ministrio. Ento, 
resolveram dar uma oportunidade de sermos treinados neste 
sentido.
 J que vocs dois no esto trabalhando, querem nos 
acompanhar em uma ou outra viagem? Vocs podem estar 
conosco nos trabalhos Missionrios que fazemos, nas Igrejas 
que visitamos... a gente sairia na sexta-feira e voltaramos no 
domingo, isso no vai atrapalhar a semana de vocs, nem a 
busca de emprego  sugeriu Sarah certo dia, pouco depois de 
encerrarmos o jejum.
 Puxa, seria uma coisa boa...
Ela explicou um pouco melhor que tipo de trabalho eles 
desenvolviam. Realmente seria interessante poder acompanh-
los, poder aprender um pouco mais com eles. Mas, acima de 
tudo, nos alegramos porque, de certa forma, era a primeira 
direo que vinha at ns depois dos 40 dias.
Neste dia ela falou ainda um pouco mais:
 Ns estamos praticamente de partida do Brasil. 
Estamos indo para o exterior, para os Estados Unidos. Eu 
gostaria muito de sair daqui com uma equipe. Orem a respeito, 
mas pensamos em vocs e num outro casal amigo nosso.
Quanto a isso nada dissemos na hora, apenas achamos 
uma sugesto curiosa e interessante. Ela falou bastante naquela 
noite sobre isso, contou muita coisa sobre os Estados Unidos, 
muita coisa sobre seu prprio Ministrio. Samos de l tarde, 
quase de madrugada.
Fizemos muitas perguntas, escutamos muitas histrias. 
Ela nos contou como tinha sido seu chamado ministerial, 
algumas experincias que tinha vivido. A gente gostava de 
conversar com ela.
Samos de l naquela noite dispostos a acompanh-los 
na viagem, e tambm dispostos a orar a respeito dos Estados 
Unidos. Se por um lado era uma proposta tentadora, por outro 
ns jamais daramos qualquer passo sem ter certeza de ser 
aquela a direo de Deus.
Mas ficamos pensando... a gente tinha orado tanto por 
aquilo! Por direo...
 Se eu ainda estivesse empregada, no poderamos 
viajar com eles  comentei enquanto dirigia o Palio a caminho 
de casa.  No teria jeito de trabalhar a semana inteira e ainda 
viajar a trabalho no final de semana. Do jeito que estou cansada, 
no ia agentar este repuxo. Mas, agora que perdi o emprego...
Fomos nos deitar naquela noite bem mais aliviados, mais 
satisfeitos. Pelo menos, alguma coisa estava acontecendo na 
nossa vida.
* * * *
Eu no estava podendo escrever o livro como gostaria 
at aquele momento. A partir daquela data, logo depois da 
minha demisso, embora continuasse procurando emprego, 
agora tinha todo o tempo da semana livre. Sentei no computador 
e comecei a escrever desabaladamente. Tinha que terminar de 
digitar a parte que estava escrita  mo, e depois, era preciso 
escrever toda a terceira parte do livro. O que era bastante coisa!
Nossa semana era assim: Eduardo passava quase o dia 
todo na rua procurando trabalho incansavelmente. Eu fazia das 
tripas corao para suportar o barulho do meu vizinho e ainda 
assim me concentrar na escrita do livro.
No raro eu passava oito, s vezes dez... s vezes at 
doze horas por dia no computador. Comeava mais ou menos a 
uma hora da tarde, depois de comer alguma coisa. Trabalhava 
at de tardezinha, quando Eduardo chegava. Ento a gente 
tomava um caf enquanto ele me contava as novidades, depois 
ele ia tomar banho, descansar. Ento eu continuava trabalhando. 
Geralmente era Eduardo quem fazia um arroz com carne moda 
mais tarde. Ns tnhamos ganhado o microondas e aprendemos 
a fazer um arroz bem gostoso nele. Depois de vrias tentativas, 
aprendemos tambm a temperar a carne moda. Outras vezes, a 
gente fazia macarro. Outras vezes, era s sanduche mesmo. 
Outras vezes, sopa pronta. Outras vezes, eu fazia sopa de 
verdade. Sopa de legumes, ficava bem boa! Como no tnhamos 
forno comum, no dava para fazer muita coisa. Mas a gente ia 
se virando.
Nosso arroz, em especial, era um espetculo! 
Aprendemos a fazer um tempero todo especial, misturando com 
milho, ervilha, azeitona, queijo.
Depois da janta quase sempre ns tnhamos algum 
compromisso com a Igreja. Na volta, Eduardo ia direto para a 
cama porque levantava cedo. E eu voltava para o computador. 
Aquele era o horrio que mais rendia para mim, eu sentia aquele 
silncio caindo ao meu redor cada vez mais,  medida que 
entrava a madrugada. Finalmente no havia mais barulho de 
nenhum vizinho, e a avenida ficava praticamente silenciosa.
Deus me deu uma fora muito especial nesse perodo.
Eduardo costumava brincar comigo:
 A Gatinha  uma mquina de trabalho!
 Eu me esforava assim na Faculdade, nos plantes, 
nos estudos, sempre que era preciso... no iria me esforar agora 
para escrever esse livro? J est atrasado... o anjo ruivo tinha 
dito que estaria publicado at o final do ano passado. J estamos 
em maio deste ano, tem que acabar o quanto antes.
Realmente eu sentia aquele senso de urgncia dentro de 
mim. Era to forte que eu no fazia outra coisa a no ser 
escrever, escrever e escrever. No tempo que me sobrava, eu e 
Eduardo gravvamos as fitas que me permitiriam romancear a 
histria.
O tempo passava voando  noite. Durante a parte da 
tarde s vezes eu tinha sono e me sentia letrgica. s vezes era 
preciso me obrigar a continuar trabalhando, e o trabalho no 
rendia tanto. Nunca funcionei muito bem na parte da tarde. No 
entanto, de noite uma fora diferente me invadia. A inspirao 
tambm parecia ser diferente. Eu no via o tempo passar, cada 
vez que olhava para o relgio na minha frente os ponteiros 
tinham rodado bastante sem que me desse conta.
Fazia uma pausa de quando em quando, ia at a cozinha 
e punha uma xicarazinha de gua no microondas durante um 
minuto. Aquilo era suficiente para fazer um Nescaf bem 
gostoso. Eu levava meu caf para o computador, e tomava com 
uma ou duas bolachas, s vezes um bombom. Aquilo tinha um 
gosto indescritvel, me trazia conforto naquelas noites longas de 
trabalho rduo.
Vez por outra levantava para esticar as costas durante 
dois ou trs minutos, e olhava pela janela do apartamento... no 
tinha ningum na rua, nenhum carro... eu ficava pensando 
naquela estranha histria que ns dois estvamos vivendo. 
Ficava introspectiva por alguns instantes, pensando por que 
Deus tinha me escolhido... por que eu estava ali, naquele quarto, 
escrevendo aquela histria.
Mas eu no perdia tempo, nunca parava mais do que 
cinco minutos. Quando meus olhos comeavam a arder e pesar 
de cansao, era hora de salvar o trabalho do dia em disquete. 
Aquilo era muito importante!
Eu trabalhava normalmente at trs ou quatro da manh. 
s vezes at mais tarde. Uma ou outra vez fui deitar quando o 
dia estava clareando. Entrava de mansinho no quarto para no 
incomodar Eduardo. De manhzinha, ele saa de mansinho do 
quarto para no me incomodar.
Se precisasse sair, ele saa. Se no, me ajudava com o 
servio da casa porque sabia o quanto eu estava atarefada com o 
livro. Quanto a mim, dormia normalmente at meio-dia. Ento 
comeava tudo de novo. Com certeza no era uma vida de 
casados normal. Era tudo, menos normal.
Outro aspecto desta falta de normalidade era que, com 
quase trs meses de casada eu ainda no conseguia olhar para 
aquele apartamento e ver nele um lar. Algumas vezes chorava 
por causa disso. No era apenas pelo fato de ter sado da casa da 
minha me, ter deixado aquela segurana. Era mais por causa da 
extrema inquietao causada pela vida que levvamos. Para 
dizer a verdade, ns nem conseguamos reconhecer a nossa 
vida! Nada mais parecia estar no lugar, no havia nenhum ponto 
de apoio slido.
Claro, a presena de Eduardo era para mim um ponto de 
apoio. Mas, se parasse para contemplar muito todo o resto... 
acabava ficando um pouco deprimida. Ento, s vezes me batia 
uma saudade grande da casa da minha me. S de estar ali, de 
ver o Gorbie, a Harpa, a Viola, a Marina, minha me... tudo 
aquilo parecia ter um efeito analgsico na minha alma. Sim, de 
fato esta  a melhor palavra... analgsico! Por alguns momentos 
parecia haver terra firme sob meus ps outra vez, por alguns 
momentos parecia que naquela casa eu estaria intocada.
Por outro lado, no apartamento... tinha a impresso de 
que qualquer coisa podia acontecer. Tudo podia desmoronar a 
qualquer momento!
Claro que eu no acreditava que tudo fosse de fato 
desmoronar, tinha que acreditar que Deus iria nos valer. Mas 
minhas emoes se ressentiam, sem dvida.
Por isso, s vezes me dava um faniquito  noite, uma 
sensao de inquietao, de angstia... Eduardo j conhecia essa 
reao. Ento perguntava:
 Voc quer dar um pulo na casa da sua me?
 Vamos, ento? Queria ver a Viola... estou com 
saudade dela.
A a gente ia, aparecia l de surpresa. Imediatamente me 
sentia melhor, ia para a cozinha tomar lanche, conversar com 
minha me. Uma vez, de madrugada senti uma vontade louca de 
comer po-de-l. No tinha forno em casa, ento fomos para a 
casa da minha me. Fizemos o bolo, comemos, batemos papo. 
Outra vez demos um pulo l s para fazer macarro!
Da eu voltava para o apartamento me sentindo um 
pouco mais centralizada nas minhas emoes.
Mas claro que no era sempre que isso acontecia. Era de 
vez em quando, quando acumulava muita tenso, quando eu 
estava muito cansada, quando tinha falado demais sobre os 
assuntos do livro. No tinha outro jeito de adiantar o trabalho a 
no ser trabalhando muito... eu ficava mergulhada naquilo noite 
e dia. E se por um lado nosso dia-a-dia no ajudava muito, 
remexer o passado de Eduardo ajudava menos ainda.
O fato  que tinha que "respirar" Satanismo. Dia aps 
dia, semana aps semana. Ms aps ms.
* * * *
Fizemos a primeira viagem com Sarah e Jefferson.
Eles passaram no nosso apartamento na sexta-feira de 
manh, conforme combinado. Eduardo estava particularmente 
animado, cheio de entusiasmo com a perspectiva de estarmos 
juntos. Eu gostava muito de Sarah e Jefferson, mas estava 
desgastada pelo trabalho excessivo com o livro. Talvez j tenha 
dito isso mais de uma vez, mas eu me sentia extremamente 
cansada. No entanto, compreendemos que aquela era uma 
direo de Deus. Pelo menos assim nos pareceu a princpio.
Ento, embora me sentisse pressionada para terminar a 
escrita, sabia ser importante participar da viagem.
Quando o interfone tocou, ns j estvamos prontos e 
com as coisas  mo. Descemos com Sarah, que tinha subido 
para usar o banheiro, e encontramos Jefferson parado com o 
carro na calada. Assim como tnhamos feito com Sarah, 
abraamos Jefferson entre sorrisos. O porteiro do nosso prdio 
ficou olhando, certamente estranhando aquela amizade com 
uma diferena de idade to grande entre ns. Jefferson j tinha o 
cabelo quase todo branco.
Ele acomodou nossas mochilas no carro e todos ns 
entramos para dar incio quela primeira aventura Ministerial. 
Dia-a-dia ns dois aprendamos a gostar mais daquele casal. J 
fazia mais de um ano que vnhamos mantendo um 
relacionamento que, agora, tinha tudo para estreitar. Nossa 
amizade e admirao eram sinceras, gostvamos deles pela 
pessoa deles. A reciprocidade da sua amizade parecia ser 
tambm sincera.
Fomos conversando de tudo um pouco, entre risadas, 
entre brincadeiras. Logo pegamos a estrada. O aparelho de som 
do carro tocava Louvor baixinho e no atrapalhava o dilogo.
 Ento, esto animados?  perguntou Sarah l pelas 
tantas. Ns confirmamos.
 Cremos que isso est sendo preparado por Deus. 
Agradecemos muito a vocs pela oportunidade que esto nos 
dando.
 Ns no fazemos esse tipo de coisa com qualquer um, 
queremos que isso fique claro desde j. Mas vemos em vocs 
muito potencial, reconhecemos que Deus est preparando vocs 
dois para um grande Ministrio.  muito difcil achar lderes 
que estejam dispostos a dar oportunidade queles que esto 
comeando... ns queremos fazer isto por vocs! Reconhecemos 
o seu corao sincero em agradar a Deus, reconhecemos uma 
busca genuna.
No era distante a cidade aonde amos. Paramos no 
caminho para tomar um caf e estava sendo tudo muito 
agradvel. No parecia esgotar o assunto nem a conversa. 
Quando retomamos a viagem, Sarah e Jefferson comearam a 
contar um pouco da histria da Igreja que estvamos indo 
visitar.
 Tudo comeou com este casal de Pastores que ns 
discipulamos. J estamos treinando esta Igreja faz tempo. Eles 
tm sido muito obedientes a Deus, so pessoas que tm muito 
dinheiro, mas muito dinheiro mesmo, e  fcil a gente se desviar 
da Vontade de Deus quando  assim. Mas  gente muito boa, 
vocs vo gostar deles, do Adriano e da Noemi.
Ela foi contando como o Pastor Adriano tinha se 
convertido, como foi o seu processo de libertao, como era a 
Igreja deles.
 Eles literalmente jogaram fora obras de arte 
carssimas! Entenderam que precisavam agradar a Deus.
Ele e a esposa, Noemi, eram os principais Pastores, 
juntamente com o filho Amauri e a sua recm conquistada 
esposa, Luciana.
 Desta vez estamos indo especialmente para ungir 
Pastora a nora deles, a Luciana. Ela queria ser ungida por mim 
de qualquer jeito, ento esperaram at que a gente pudesse ir. 
Essa Igreja  como se fosse uma filha nossa!  falou Sarah.
Durante um bom tempo eles ficaram contando sobre a 
uno de todos eles, especialmente do Pastor Amauri.
 Ele j manifestou a uno de Evangelista, comeou 
assim o seu Ministrio. Depois manifestou a uno Proftica. 
Mas agora, ns o consideramos um Apstolo.  Jefferson 
continuou.
 A Noemi e a Luciana tm chamado Pastoral 
realmente. Mas o Adriano, embora seja Pastor, tem mais uma 
uno de Mestre!
Eu ouvia tudo aquilo e me sentia extremamente pequena. 
Quem era eu diante de tudo aquilo? Por uns instantes, j no 
sabia o que estava indo fazer l. Eu era somente a Isabela. Eu 
no tinha a menor idia de qual fosse a minha uno. De 
repente, no tinha a menor idia se aquele era o lugar certo para 
mim... ser mesmo que eu tinha que estar naquela viagem??
 Ns falamos de vocs para eles. Certamente vo se 
tornar seus intercessores, eles so guerreiros de verdade, so 
guerreires! Podem ter certeza que eles no vo ficar 
intimidados com nada. O Pastor Amauri e a Luciana tm 
praticamente a idade de vocs, certamente vo fazer amizade...  
tambm por isso que estou com tanta expectativa neste nosso 
encontro!
Eduardo falava vrias vezes a mesma coisa, eu sabia o 
quanto ele estava ansioso em conhecer aquelas pessoas. Talvez 
Deus realmente estivesse nos trazendo quele lugar para 
conhecermos gente que seria capaz de estar ao nosso lado, que 
seria capaz de ter uma aliana verdadeira conosco. Seria muito 
legal a gente poder contar depois para Dona Clara e Grace!
Depois mudamos novamente de assunto, Sarah foi 
explicando alguns dos tpicos que costumava ensinar nos seus 
seminrios. Continuamos escutando, fazendo perguntas, 
procurando aprender com a experincia dela. Quando a gente 
no entendia alguma coisa  Sarah tinha algumas idias 
diferentes em relao a alguns pontos doutrinrios  
procurvamos ir mais a fundo e esclarecer nossas dvidas.
Quando assustamos, j estvamos entrando em uma 
chcara. A alameda de terra dava lugar a uma estrada de pedra, 
daqueles tijolinhos de pedra, que ia terminar numa enorme e 
bonita garagem de pedra. Sarah havia comentado sobre a casa 
deles, tinha dito que era um verdadeiro castelo, construdo sob 
medida no exato estilo que o casal gostava.
Apenas os dois moravam naquela chcara agora. O 
Pastor Amauri e sua esposa Luciana moravam na cidade 
prxima, na casa deles, e somente viriam mais tarde, para o 
jantar.
Fomos apeando do carro, e enquanto Jefferson abria o 
porta-malas para tirar nossa bagagem, a Pastora Noemi 
apareceu.
 Ol, amada!  ela abraou imediatamente a Sarah. 
 Estava esperando vocs at mais cedo!
Ela tambm abraou Jefferson, enquanto o Pastor 
Adriano aparecia tambm. Esperamos que eles terminassem os 
cumprimentos, os sorrisos e os abraos, para ento sermos 
devidamente apresentados.
 Este  que  o Eduardo, aquele rapaz de quem falei. E 
esta  a esposa dele, a Isabela.
 Sejam bem-vindos! Espero que vocs gostem da 
estadia.
Fomos entrando na casa. Daquele ngulo a gente no 
podia ver o resto da propriedade, que ficava para o outro lado. 
Mas dava para sentir o silncio daquele lugar. Eu estava to 
cheia da barulheira do vizinho que intimamente agradeci a Deus 
por ele me proporcionar dois dias de sossego. Quem sabe ali 
conseguia dormir melhor.
A Pastora Noemi nos levou at nossos quartos, Sarah e 
Jefferson costumavam ficar sempre no mesmo, um quarto no 
fundo do corredor. A casa era enorme, cheia de salas e de 
passagens. O quarto que nos coube ficava no incio do corredor 
e no tinha cama de casal.
 Espero que vocs no se importem, no tnhamos 
outra cama de casal para emprestar a vocs.
 Imagine, no se preocupe com isso, est timo!
Mais tarde conhecemos melhor o restante da casa e da 
chcara. Era um lugar realmente muito bonito, gostoso, com 
uma rea enorme ao redor. Havia um lago com patos, que o 
Pastor Adriano mesmo tinha mandado construir, com um 
bosque ao redor, uma trilha para caminhar dentro do bosque. 
Caminhamos um pouco, conhecemos tudo, elogiamos tudo.
Mais tarde, depois do jantar, conhecemos o Pastor 
Amauri e sua esposa Luciana, que seria ungida Pastora no dia 
seguinte.
Fomos dormir tarde naquela noite. Felizmente, de fato a 
chcara era silenciosa.
* * * *
Sarah havia pedido a Eduardo que desse um pequeno 
testemunho na Igreja, para os jovens. Ns dois no 
questionvamos as diretrizes dela porque tnhamos muito 
respeito pelos dois. Ningum parou pra pensar se aquilo era 
realmente a coisa certa a fazer.
Ns estvamos debaixo de um ataque violento e no 
havia cobertura de orao. Eu j tinha aprendido que aquilo era 
uma coisa fundamental! Sinceramente eu no me sentia  
vontade com aquela situao. No entanto, no seria eu a 
questionar coisa alguma.
No dia seguinte, assim aconteceu. Eu orei em lnguas 
durante todo o tempo em que Eduardo falou. Sarah tinha 
inteno de abrir o perodo aps o testemunho para o pessoal 
fazer perguntas. Mas depois que Eduardo entregou o microfone 
para Sarah, no final, e ela orou, e Jefferson tambm orou, e o 
grupo de Louvor voltou a tocar (com muita uno, por sinal), o 
clima mudou bastante ali na Igreja.
No seria inteligente interromper aquele mover do 
Esprito Santo para fazer perguntas. Ento aquela idia foi 
deixada de lado, e continuamos durante um bom tempo em 
adorao e orao.
Notei que aquela era uma Igreja aparentemente bastante 
avivada, as pessoas se movimentavam bastante, batiam muitas 
palmas, erguiam as mos, choravam, riam, se emocionavam...
Eduardo tinha mais facilidade para se entregar a este 
mover, talvez porque j tivesse contemplado vrias vezes o 
sobrenatural de Deus, tanto nas vises angelicais, como nas 
experincias com discernimento espiritual. Mas eu estava 
entrando num perodo um pouco estranho da minha vida com 
Deus... como vou explicar isso?
Eu acreditava em Deus, acreditava piamente no 
sobrenatural de Deus! Mas eu particularmente nunca havia 
experimentado isso, no de verdade, como tinha sido com 
Eduardo. Desde o perodo do jejum que eu vinha sentindo uma 
falta especial destas coisas. A f deve existir independentemente 
daquilo que vemos, "bem aventurados aqueles que no viram, 
mas creram...".
Sim, eu sabia disso, nunca baseei minha f naquilo que 
pudesse ver ou sentir para mim bastava o fato de estar escrito. 
Isso era mais importante do que tudo!
Ento, quando observei as pessoas to eufricas ao meu 
redor, sem exceo, novamente me sobreveio aquela sensao 
do incio da viagem: parecia que estava no lugar errado, parecia 
que somente eu no estava sendo tocada da mesma maneira que 
os demais. Parecia haver alguma coisa errada somente comigo.
Ento, em vez de me alegrar, me entristeci naquele 
momento...
"Quem sou eu? Quem sou eu para estar aqui? Eu sei 
quem eu sou, e sei que no tenho nada de especial em mim..."
Me sentia muito mal em no conseguir rir como os 
outros, em no conseguir me alegrar como os outros. Em no 
conseguir sentir como a maioria parecia estar sentindo! Um 
peso se abateu sobre o meu corao, no saberia nem explicar 
direito em palavras... apenas uma tristeza profunda.
Quando voltamos para casa, Eduardo estava falante e 
satisfeito, bem como todos os demais. Mas aquela sensao me 
perseguia e, embora me esforasse, estava mais calada do que 
antes. Talvez as pessoas reparassem, talvez no. Eu esperava 
que no reparassem...
Naquela noite, no nosso quarto, Eduardo perguntou o 
que eu tinha. Esforcei-me para explicar, mas no sei se consegui 
me fazer entender.
 Por que voc no conversa sobre isso com a Sarah? 
 incentivou ele. Talvez fosse uma boa sugesto.
 Acho que vou fazer isso  eu confiava nela. Ento 
Eduardo sorriu de novo.
 Mas eu tenho uma coisa legal pra te contar. No final 
ns estvamos ali, lado a lado, orando, lembra?
 Lembro.
 E da veio aquela senhora falar comigo... ainda no 
meio do Louvor. Mas antes ela tinha falado com a Sarah, 
perguntando se podia compartilhar a viso comigo.
 Que viso?
 Ela me falou que tinha visto ao nosso lado  ao 
nosso lado, viu?  um anjo muito grande, com asas, que 
refletia uma luz dourada. Como ela nunca tinha visto nada igual, 
foi primeiro perguntar para Sarah. E a Sarah disse que, pela 
descrio, aquele anjo era um Querubim. Ele estava ali conosco!
Fiquei quieta um pouco. Eduardo continuou:
 Sarah comentou comigo que isso era um sinal 
evidente da nossa mudana de patente. Parece que, ao 
terminarmos esses 40 dias de jejum, Deus est renovando a 
nossa guarda... aumentando a nossa guarda!
No dia seguinte pela manh, domingo, levantei depois 
de todo mundo. Eduardo j tinha passado a manh toda falando 
novamente, s que dessa vez ali mesmo na chcara, a portas 
fechadas, apenas para os chamados "guerreiros da Igreja".
Sarah e Jefferson dirigiram aquele perodo mais ou 
menos como Grace tinha feito, pedindo que ele contasse esta ou 
aquela experincia, este ou aquele fato. Quando levantei, antes 
do almoo, ele me contou rapidamente como tinha sido. Mas 
falou algo que no gostei.
 O Jefferson me fez falar algumas coisas que acho que 
seria melhor no ter dito, eram particularidades da 
Ministrao...  Eduardo estava um pouco passado, mas no 
queria admitir isso.  Antes mesmo de comear a reunio, ele 
j tinha falado tudo...
Fiquei incomodada, sentindo um peso no estmago:
 Pera! Como assim? Ele falou sem pedir a sua 
permisso, sem perguntar se podia? S porque participou de 
duas Ministraes junto com a Grace, s porque ouviu algumas 
coisas, isso no significa que sejam coisas que podem ser 
espalhadas desse jeito! Que ele pode ir falando por a...
 Pois , Isabela, mas agora no tem jeito... ele j tinha 
falado antes de mim. Veio dizendo que aquelas pessoas eram 
todas guerreiras, eram de confiana, no tinha problema, era 
importante que eu falasse, essas coisas... no me deu nenhuma 
chance de decidir coisa alguma!
Fiquei indignada. Embora gostasse muito de Sarah e 
Jefferson, eles no podiam passar desse jeito por cima da nossa 
vontade. Mais ainda, da nossa vida. Eduardo tinha o semblante 
cansado. E acrescentou:
 Depois do almoo, tem mais... eles querem que eu 
fale mais algumas coisas somente para os Pastores. Quer dizer, 
aquelas coisas que eles acham mais importantes, mais srias...
No havia como a gente se esquivar daquilo. Depois, no 
final, como recompensa todos oraram por ns com muita 
intensidade. Houve uma sesso de abraos, de lgrimas e de 
promessas de aliana. O Pastor Adriano colocou a mo no 
ombro de Eduardo e afirmou, entre lgrimas:
 Se algum dia chegar a tempestade, aqui tem teto...
Eduardo chorou, comovido, olhando bem fundo nos 
olhos daquele homem que lhe prometia acolhimento. Eu o 
conhecia bem, sabia que ele estava entendendo aquelas palavras 
de maneira literal.
No final da tarde eu j havia pedido a Sarah para 
conversar com ela sobre aquele meu assunto. Como estvamos 
todos cansados, ficou para o dia seguinte. Resolvemos ficar para 
o Culto da noite e voltar apenas na segunda-feira para So 
Paulo. Afinal, nenhum de ns tinha compromisso na segunda-
feira de manh.
Assim fizemos. Ento todo mundo aproveitou para 
descansar um pouco no final da tarde.
Eu no me sentia bem. Estava com dor de estmago e 
indisposio. Tentei dormir, mas no consegui. Mas o fato de 
ficar deitada um pouco ajudou.  noite estava fazendo bastante 
frio, naquele final de outono. E eu me sentia como se um 
caminho tivesse me atropelado. Eduardo olhou para mim e 
ficou com pena:
 Acho melhor voc no ir  Igreja... melhor voc ficar 
aqui descansando deitada...
Ele se aproximou de mim, sentou-se na beirada da cama 
e encostou a mo na minha testa. Eu estava com muito frio, 
tinha colocado toda a coberta em cima da minha cama.
 Ser que voc est com febre?  No sei. Mas estou 
com frio.
 Acho melhor voc ficar.
 Vou ficar me sentindo culpada...
 Mas eu estou vendo, voc no est bem... eu te 
conheo! No meu ntimo no me sentia  vontade em ficar 
sozinha na casa embora fosse esta a minha vontade. Tinha sido 
um final de semana agradvel e desgastante ao mesmo tempo. 
Porm algo me dizia que se ficasse deitada seria muito julgada, 
seria mal interpretada.
Eduardo foi falar com Sarah, que veio at nosso quarto.
 Se voc no est bem,  melhor mesmo voc ficar...
Eu sabia que Sarah talvez fosse a nica que no estava 
me julgando. Mas eu sabia que os outros todos no pensavam 
assim. Eu no tinha sentido da parte deles todo o amor que 
diziam ter. Na verdade, em momento algum conversaram 
comigo, quiseram saber qualquer coisa a meu respeito, sobre 
minha pessoa. O final de semana inteiro apenas cercaram 
Eduardo, interessados numa nica coisa: Satanismo.
Eu percebia que Eduardo era tratado como se fosse um 
bibel, um objeto a ser observado, analisado... quisera eu estar 
enganada, mas o tempo mostraria que no estava. Eduardo foi o 
centro das atenes porque ele era o ex-Satanista, a fonte das 
informaes que eles desejavam ter. E eu, o que era? Apenas 
uma pessoa comum, apenas a esposa dele... apenas algum mais 
que estava ali.
Durante todo aquele final de semana eu cruzei com 
aquelas Pastoras o dia inteiro naquela casa, na mesa de 
refeies, na varanda, na Igreja, na sala onde Eduardo ficou 
testemunhando... mas ningum me olhou como um ser humano 
que necessitava ser tratado como ser humano, ningum me 
tratou como uma pessoa!
Por causa disso eu j estava me sentindo pouco  
vontade. Eduardo no entendia isso, Eduardo era cercado... 
todos queriam conversar com ele, todos queriam estar perto 
dele, todos queriam perguntar alguma coisa a ele. Era fcil 
confundir essa ateno com amor...
Na verdade, havia apenas um interesse por causa da sua 
histria.
Mas eu no tinha nenhuma histria para contar, eu fui 
tratada como uma pessoa normal, por isso pude perceber melhor 
onde estava exatamente o corao daquelas pessoas. E, como 
pessoa normal, no recebi nenhuma ateno especial.
Infelizmente... o corao deles no estava em ns. 
Estava na histria.
Talvez tudo aquilo estivesse me pondo doente, porque 
era um final de semana falso. A gente estava ali no para 
aprender, mas para saciar a curiosidade daquelas pessoas...
Eu no conseguia concatenar as idias, no conseguia 
pensar, no conseguia chegar a nenhuma concluso lgica... por 
um lado confiava em Sarah... sabia que ela estava fazendo o 
melhor. Por outro lado, aquela viagem no estava me caindo 
bem... uma coisa no parecia estar casando com a outra... alm 
disso, aquele cansao... aquele mal-estar... me sentia sugada.
Tudo que queria era no ser julgada, no ficar em 
evidncia. Pelo menos, no numa evidncia negativa! Tudo 
aquilo estava borbulhando dentro de mim, ento quando Sarah 
fez a sua sugesto, recusei.
 No, est tudo bem... vou tomar um banho, me 
aprontar rpido e j deso. Vou com vocs!
 Tem certeza?
 Tenho. Tenho certeza.
Sa da cama, entrei no chuveiro, me troquei. Depois do 
banho quente estava mais inteira. Enquanto espervamos na 
porta da casa pela manobra dos carros, Pastora Noemi 
perguntou se eu estava melhor.
 Estou, sim.
E a conversa morreu ali. Parecia que ela no ia com a 
minha cara por algum motivo. Na Igreja, durante o Louvor, abri 
meu corao diante de Deus. Algumas lgrimas escorreram pelo 
meu rosto, contei a Ele como me sentia, e tambm tudo o que 
no conseguia entender, mas que estava l, bem l dentro, bem 
l na minha alma.
No fiquei em p apenas por estar indisposta, mas meu 
corao estava adorando ao Senhor. De repente, Pastora Noemi 
estava ali do meu lado. Ergui para ela uma face cheia de 
lgrimas, de olhos vermelhos.
 Procure se colocar em p. D um sinal ao Senhor 
para que Ele possa agir! Me levantei mais por respeito do que 
por concordar com o que ela estava dizendo.
 No estou muito bem... depois, se a senhora quiser, 
posso contar mais ou menos...
Eu queria dizer que novamente aquele mesmo 
sentimento do outro Culto estava invadindo todo o meu ser: eu 
via as pessoas felizes, pulando... e no conseguia sentir aquele 
mover na minha vida. Isso me entristecia muito.
Ela fez que sim, assentindo. Foi bom ter ido, escutava a 
Palavra.
Depois que voltamos para casa, jantamos e ficamos 
todos ao redor da mesa escutando Sarah e Jefferson contarem 
histrias de viagens. Demos muita risada com algumas, foi 
divertido. Depois, Pastor Adriano e Noemi contaram tambm 
sobre algumas viagens que tinham feito. Eu e Eduardo no 
tnhamos nenhuma viagem para contar, ento ficamos 
escutando. Fomos dormir de madrugada.
* * * *
Captulo 35
No dia seguinte, quando levantei, para variar depois de 
todo mundo, Sarah logo me chamou para termos aquela 
conversa que eu queria.
Eu tinha aprendido a gostar dela. Quando subimos para 
o nosso quarto e sentamos frente a frente, cada uma em uma 
cama, olhei para ela com simpatia. Entrava um sol pela janela, o 
que me fazia sentir bem melhor do que na vspera, com todo 
aquele frio.
 Vamos orar primeiro?  indagou ela sorrindo.
Concordei. Sarah tinha uma disposio diferente, 
especial. No levei muito tempo para compartilhar aqueles 
estranhos sentimentos.
 No faz muito tempo, Sarah. Antes, eu costumava 
ficar super feliz quando Eduardo tinha alguma viso de anjo, ou 
quando Deus trazia para ele algum discernimento espiritual. 
No deixava de ser uma direo para mim tambm! Mas de uns 
tempos pra c, isso tem mudado... no vou dizer que estou com 
inveja dele, porque no  nada disso, longe de mim! Alis, Deus 
sabe disso muito bem... pensei um pouco a respeito, tentando 
entender melhor esse sentimento. Mas, ah! A coisa  muito 
simples: se Deus quer que eu continue trilhando este caminho, 
Ele vai ter que me dar alguma experincia sobrenatural! Estou 
sendo muito sincera com voc, pode at parecer criancice da 
minha parte...
 No  criancice, no! Vivendo o que vocs esto 
vivendo, nada mais justo!
 Eu nunca fiquei cobrando essas coisas de Deus, 
achava mais importante ter f na Bblia, na Palavra escrita. 
Sempre tive um pouco de medo dessas manifestaes 
sobrenaturais... porque a maior parte das vezes, pelo menos na 
minha experincia passada, percebi que elas no vinham de 
Deus, mas eram fruto da alma das pessoas, da vontade das 
pessoas... ento tinha minhas restries. Voc sabe do que eu 
estou falando,  uma coisa complicada.
 Eu sei, sim. Infelizmente, a Igreja de Cristo est cheia 
de profetadas, cheia de fogo estranho.  prudente a gente tomar 
cuidado com isso.
 Pois ento! Mas de uns tempos pra c eu tenho visto 
que os Dons verdadeiros existem, no s pela manifestao na 
vida de Eduardo, mas tambm na vida do Ricardo, aquele 
intercessor da Grace. Sarah,  incrvel quando Deus de fato se 
move e mostra alguma coisa! A  certeiro,  verdadeiro,  preto 
no branco, no tem conversa... no  aquela coisa nebulosa, 
aquela coisa que a gente no consegue digerir, aquelas profecias 
que nunca se cumprem, aquelas direes absurdas, que as 
pessoas insistem em dizer que vieram de Deus. Todo mundo j 
viu muito disso! Mas agora... eu estou meio que num beco sem 
sada... agora eu sei que os Dons verdadeiros so palpveis! 
Algo real! Uma coisa que eu quero muito... no estou nem 
falando de receber um Dom especfico de Deus, mas de ter pelo 
menos uma experincia sobrenatural com Ele...
 O seu desejo  justo,  genuno. O apstolo Paulo nos 
incentiva a buscar os Dons, nos incentiva a buscar o 
sobrenatural de Deus. No  errado buscar isso como uma 
conseqncia da vida que levamos com Deus, como uma 
conseqncia da nossa consagrao. Claro, no devemos buscar 
o sobrenatural pelo sobrenatural, naquela nsia de apenas ver 
coisas acontecendo, a gente no tem que se mover por vista... e 
eu sei que este no  o seu caso... se achasse que fosse, nem 
estaria te incentivando!
  que eu s tenho visto o sobrenatural do diabo... eu 
vejo eles cantando a bola, e a coisa acontecendo, vejo eles 
decretando... e no final, tudo se cumprindo. Vou te dizer uma 
coisa: assim t difcil! Eu sei que eu no vou conseguir 
continuar se Deus no me atender, sei que vou acabar 
desistindo, jogando tudo pro alto! Eu me conheo, sei como 
estou me sentindo... como que jogada para as traas!  como se 
Deus olhasse para Eduardo como o filhinho preferido Dele, e 
no estivesse se importando comigo... eu sei que Eduardo 
precisava muito, muito mais do que eu. Ns oramos muito por 
isso! Mas agora... quem est precisando sou eu! Cada vez que 
ele recebe um presente desses de Deus, que tem um 
discernimento, uma viso... me desculpe, mas eu fico com raiva 
at! Estou te falando isso porque confio em voc, e tambm 
porque Deus j sabe... fico com raiva porque parece que Deus 
no percebe o quanto estou precisando ver alguma coisa mais! 
No vou ser falsa de dizer que tudo bem continuar caminhando 
por f, estou sendo clara em dizer que agora preciso ver!
Depois daquela explicao, Sarah disse que certamente 
iramos orar naquele sentido, mas antes ela queria saber se eu j 
tinha passado pela Libertao.
 Olha, Sarah... eu j busquei vrias vezes. A primeira 
foi quando ainda ia  minha antiga Igreja, a Igreja que minha 
me freqenta hoje, antes de conhecer Eduardo. Eu busquei a 
libertao, sim, porque achava que precisava. Tinha um 
pequeno grupo ali que trabalhava com isso. Preenchi a ficha e 
fui ministrada. Mas, sinceramente... no notei qualquer 
mudana. Apesar disso eu sempre acreditei nessa questo da 
libertao, tanto  que quando conheci Eduardo fui eu que o 
incentivei a procurar a Grace. A, durante o curso dela, fiz 
novamente a libertao, tanto em grupo, como individualmente. 
Foi at um senhor que me ministrou... agora, no sei se sou eu 
que no consigo receber as coisas que Deus faz... ou qual  o 
problema. Porque de novo...
 No adiantou, n? Ergui um pouco os ombros, meio 
constrangida, sem saber o que falar.
 Ento... no acho que o problema est nas pessoas, 
acho que o problema est em mim, eu que no consigo...
 s vezes no  isso. Claro, Deus sempre vai atuar, de 
uma maneira ou de outra. Mas existe uma coisa que a gente no 
pode esquecer, que  a uno da pessoa que ministra. Tem gente 
que realmente foi chamada para isso, mas tem outros que esto 
no lugar errado... cheios de boa inteno, mas no lugar errado. 
A a coisa fica meio atravancada! Mas quando voc se submete 
 Ministrao no tempo certo, com a pessoa certa, tudo flui 
diferente.
 Eu imaginei que fosse isso. Tanto  que quando 
chegamos na Comunidade Evanglica, nossa Igreja, conheci l 
uma Pastora que fez parte da equipe da Grace durante vrios 
anos. E ela me ministrou algumas vezes, inclusive Dona Clara 
participou como intercessora. Eu sei que Deus fez alguma coisa, 
como no podia deixar de ser...
Fiquei quieta. Sarah completou:
 Mas ainda assim, voc no se sente liberta? Voc se 
envolveu com muita coisa no passado, era muito complicada 
sua libertao?
 Essa  a questo: no! Nunca me envolvi com nada, 
nunca fiz nada, minha libertao  a coisa mais simples do 
mundo.
 A Cura Interior voc fez comigo no ano passado, no 
foi?
 Foi, sim. Bem no final do ano, pouco antes do 
casamento.
 E voc no sentiu a diferena?
 No sei dizer... no comeo, parece que sim. Mas 
depois, no sei dizer. Por isso que eu acho que deve ter alguma 
coisa errada comigo. Mas eu no queria simplesmente desistir!
 A Cura Interior s vezes  longa. Deus trata uma 
ferida, depois trata outra, depois Ele trata outra. Nem sempre 
tudo vai acontecer numa nica vez. Pode ser que esteja 
chegando tempo de voc ser ministrada de novo. Pode ser que 
seja a hora de entrar numa outra fase, esses sintomas que voc 
est apresentando, essa inquietao, esse incmodo... so apenas 
sinal verde para novamente voc se submeter  Ministrao.
 No tinha pensado nisso, mas  verdade, eu vejo pelo 
Eduardo mesmo. Quando a gente acha que acabou tudo, vem 
mais alguma coisa  tona. Realmente Deus comeou a tratar 
algumas feridas minha desde aquelas Ministraes com a 
Pastora da Comunidade. A gente esbarrou em algumas delas, 
tratamos de alguns pontos principalmente familiares... depois, 
naquela tarde, com voc, foi muito diferente... muito diferente 
das outras vezes, e no duvido que Deus tratou outras coisas.
 Pra mim est claro que voc precisa muito desta 
parte, desta parte da Cura Interior. Quando voc estiver curada, 
vai conseguir ver o Senhor de uma outra maneira, vai conseguir 
receber o Amor do Senhor de uma outra maneira, vai conseguir 
enxergar tudo por um outro prisma! Quando a gente est muito 
ferido, essas coisas impedem a gente de levar uma vida crist 
saudvel.
 Eu sei, sabe... acho sinceramente que eu j deveria 
estar diferente... eu no sei te dizer, quando eu comparo a minha 
vida com a de Eduardo, vejo que com ele funcional Parece que 
as Ministraes vo exatamente no ponto certo. Por isso tem 
resultado! Mas comigo  e agora posso fazer uma comparao 
 no  assim que acontece. No sei dizer o que , mas a 
verdade  que sinto como se dssemos voltas e mais voltas, mas 
nunca consegussemos atingir o lugar certo. No me pergunte 
qual  esse lugar certo,  apenas uma sensao que eu tenho... 
de que a gente tem tratado a periferia. E por causa disso, no 
consigo ir pra frente.
Depois disso, ela me perguntou de novo sobre minhas 
relaes familiares. Eu sabia que ainda havia em mim muitas 
feridas nesta rea. Fui sucinta porque no havia tempo hbil, 
mas completei:
 Voc est perguntando uma coisa certa... muita coisa 
na minha vida est atravancada por causa de coisas que 
aconteceram dentro da famlia. Muita coisa que eu no consigo 
nem sequer falar a respeito  senti minha voz embargada.
Sarah compreendeu.
 Voc precisa ser curada. Vai ver como muita coisa 
vai mudar depois disso. Estou pretendendo levar voc e 
Eduardo para o meu grupo de elite, aquele grupo, sabe?
Ns sabamos. Sarah tinha um grupo pequeno e fechado 
de mulheres, de guerreiras, que se reuniam uma vez por semana 
na sua casa.
 A reunio  toda quarta-feira de manh. Agora que 
vocs esto mais livres, podem participar. No era tempo ainda, 
vocs no estavam preparados antes. Mas agora sinto paz no 
Senhor em lev-los para l. Vocs podem comear a participar 
das reunies de orao conosco. E podemos marcar um dia para 
voc ser ministrada nessa rea de Cura Interior.
 Que bom!
 Mas desta vez vou pedir para o Jefferson, ele tem 
muita uno nessa rea. Quando Deus realmente o usa, as coisas 
acontecem!
Aquilo foi como uma luz no fundo do tnel para mim. 
Quem sabe aquela no era realmente a soluo? Sarah sorriu e 
me animou:
 Voc vai ver s. Deus vai fazer muita coisa! E voc 
j est com uma cara melhor!
Sorri em resposta.
 Acho que sim.
 Ento vamos orar, vamos colocar todas essas coisas 
diante de Deus. E voc vai ver que o sobrenatural vai vir... 
naturalmente] Claro que voc no pode continuar andando em 
aridez, mas tudo isso  por causa das feridas.
Oramos. E sa de l me sentindo mais animada.
* * * *
Quanto  Pastora Noemi, ela no veio me procurar para 
conversarmos. Eu havia dito que conversaria com ela, mas ela 
no pareceu interessada, e eu tambm no estava disposta a 
repetir tudo para uma pessoa em quem no confiava. Por isso 
deixei por menos.
Logo depois do almoo, tomamos o rumo de casa, aps 
longas despedidas e vrias promessas por parte deles. Pastor 
Adriano nos ofertou R$ 210,00. Quando Sarah e Jefferson nos 
deixaram em casa, Sarah nos acompanhou at o saguo do 
apartamento. Ali, nos estendeu um cheque de R$ 350,00.
 Este dinheiro nos foi ofertado pelo Pastor Adriano. 
No costumamos fazer isso, mas vamos repassar o valor a 
vocs...
Nossa surpresa foi to grande na hora que nem 
reparamos direito na somatria daqueles dois cheques, o nosso e 
o dela. Foi s mais tarde, em casa, que demos ateno: o valor 
era exato o da prestao do financiamento do Palio!
Aquele seria o primeiro ms em que no teramos de 
onde tirar esse pagamento. Mais tarde, depois de agradecer 
novamente a Sarah e Jefferson, Eduardo at tirou uma cpia 
xrox daqueles cheques. Para ficar documentado que Deus tinha 
sido preciso em trazer a proviso!
 * * * *
Mas ns nunca mais veramos nenhum dos Pastores 
daquela Igreja. Tinha ficado nas entrelinhas que eles estavam 
interessados em manter uma aliana conosco, pelo menos de 
intercesso. Mas no aconteceu assim. A tempestade veio, e eles 
no se importaram, nunca responderam nenhuma das nossas 
cartas, nunca nos deram mais nenhum sinal de vida.
Uma vez saciada a sua curiosidade, esqueceram de ns.
Eduardo em especial ficou muito triste, extremamente 
triste. Ele tinha acreditado naquelas palavras. Tinha acreditado 
que eles pudessem ser nossos intercessores, nossos amigos.
Mas no passou de mais um alarme falso.
* * * *
Quanto a mim, durante aqueles dias fiquei 
particularmente introspectiva pensando naquela questo das 
Ministraes. Agora parecia estar surgindo mais uma 
oportunidade... eu queria aproveit-la! No iria desistir to 
facilmente assim. Eu acreditava no Poder de Deus, tinha que 
funcionar tambm comigo.
Eu costumava anotar em tpicos os principais pontos 
levantados durante as minhas Ministraes, aqueles que mexiam 
mais comigo, aqueles que eu tinha certeza que vinham de Deus. 
Assim anotados eu no corria o risco de me esquecer deles. Fui 
remexer um pouco naquilo. Muita coisa eu j no me recordava, 
muitas "coincidncias" e semelhanas tinham me passado 
despercebidas.
Aquela primeira Ministrao, na minha antiga Igreja, 
tinha sido incua. Mas a Pastora Ana, aquela que me ministrou 
tendo Dona Clara por intercessora, em nossa Igreja atual, j 
tinha mexido em alguns pontos importantes. Os mais 
importantes eram familiares, mas naquela altura eu no 
conseguia falar muito bem sobre meu pai. S de pensar naquilo, 
ficava travada.
Com a cabea apoiada nos braos, deitada no cho da 
nossa sala, ouvindo uma msica suave, comecei a relembrar.
Especialmente no nosso ltimo encontro, Deus preparou 
para que o marido da Pastora Ana orasse por mim. Ele no me 
conhecia, a no ser de vista. No tinha participado do processo 
da Ministrao conosco, mas assim Deus preparou e fez.
 Ele te ungiu para pregar boas-novas aos cativos...! 
Embora voc seja crist, no est vivendo a plenitude da Vida, 
mas  isso que voc busca, por isso o Senhor vai te colocar de 
volta no trilho.
Aquele era o desejo mais premente do meu corao. Eu 
queria aquela vida! Eu queria a vida em abundncia.
 Voc  linda para o Senhor, Ele conhece o teu corpo 
desde o ventre materno, o teu rosto, o teu cabelo, o nmero de 
sapato e de roupas. O Senhor fez tudo exatamente como , e fez 
voc linda e perfeita...
Eu entendi perfeitamente porque Deus orientava o Pastor 
a falar daquela maneira. Aquilo testificava para mim. A seguir 
falou do fardo pesado que eu estava carregando sobre os 
ombros, sobre as costas.
 O fardo do Senhor  leve e Ele pode tirar esse peso de 
cima de voc. Pediu ento para que Deus resumisse a minha 
alegria, eu tinha certeza que era Ele quem me falava aquelas 
coisas. Depois o Pastor repreendeu o esprito de morte, aquele 
que tem me roubado, destrudo e bloqueado. E afirmou 
categoricamente:
 Este no  um demnio qualquer, mas um forte 
Principado.
Ele me ungiu as mos e profetizou pela primeira vez 
sobre um Dom que o Senhor me daria. Essa profecia veio 
muitas vezes depois, sempre da mesma maneira.
Ento continuou:
 Eu, o Senhor, te levanto como guerreira, para 
desbaratar as foras inimigas, com poder. Eu te dou este poder. 
Percorri a Terra procurando pessoas, tem quem suba nos 
plpitos e fale, mas sem ter o corao sincero. Eu conheo o teu 
corao e sei que h sinceridade nele. Eu te escolhi, filha minha, 
no tema! No h acusao sobre voc. Eu te falarei nestes 
tempos, com voz suave e baixinho. Preste ateno no que Eu 
vou te dizer.
A Pastora Ana no havia compartilhado nada com ele 
sobre a minha Ministrao.
Por isso, quando ele falou do peso que eu sentia e da 
vontade de levar uma vida crist abundante, em restituir a 
alegria, libertar-me da acusao, do forte esprito de morte, e 
tambm do chamado ministerial... tive que reconhecer que tudo 
aquilo vinha do Alto!
Isso tinha acontecido poucos dias antes da visitao que 
Eduardo tivera com o anjo ruivo. Nessa ocasio, Deus falou 
novamente sobre o meu chamado, confirmou-o atravs da boca 
daquele anjo.
Nove meses depois, depois de 21 dias de jejum, eu 
passei por uma outra 
Ministrao de Cura Interior. Desta vez foi com Sarah e 
uma das mulheres que faziam parte da sua equipe. Assim como 
eu estava vendo na equipe da Grace pessoas que realmente tm 
Dom de viso e de discernimento, aquela mulher que me 
ministrou tambm tinha. Seu nome era Suzana.
Foi um episdio muito diferente para mim. Durou 
algumas horas. Eu no precisei falar nada, mas apenas fiquei 
deitada enquanto ela orava de acordo com as vises que Deus ia 
trazendo. Ela no sabia absolutamente nada a meu respeito, 
nunca tinha me visto na vida, Sarah no havia dito nada a ela 
propositalmente.
Aquele foi um perodo em que, no sei se decorrncia 
direta do mover espiritual causado pelo jejum, mas vinha me 
sentindo muito cansada. Espiritualmente cansada.
A Ministrao comeou imediatamente com a viso de 
um anjo que chegou com uma bandeja cirrgica nas mos. 
Prenunciando que ia haver ali uma manipulao para cura! Era 
uma alegoria clara sobre a interveno do Mdico dos Mdicos 
em algum que est doente.
Depois Deus foi mostrando alguns momentos 
especficos da minha vida. Mostrou-me no perodo dos quatro 
aos seis anos, com uma risada alegre, gostosa, que foi sempre 
uma caracterstica minha. Suzana viu o quanto eu era 
afoguetada, bagunceira... Deus me mostrava batendo portas, 
jogando as coisas, rindo e rindo.
Aos 14 anos, ela viu que tinha um muro me separando 
dos meus pais. Aos 17, ela me via comeando a mudar, me 
olhando no espelho. Essa informao foi extremamente precisa 
porque eu escrevi exatamente isso no meu antigo dirio, aos 17 
anos. A mudana, que geralmente ocorre nas moas aos 15, 
comigo veio aos 17.
Ento com 18, 19 anos ela viu Deus me trazendo muitos 
livramentos. Os anjos corriam  minha frente para me proteger. 
Mais tarde ela me viu com um avental branco, de tnis, 
carregando minhas coisas no brao direito, muito triste e muito 
preocupada. Porque precisava tomar uma deciso. Aquilo bateu 
no meu corao. Certamente tinha sido a poca em que optei 
por abandonar a residncia.
Mas ela garantiu:
 Deus no te deixou tomar a deciso errada!
Eu acompanhava suas oraes orando em lnguas, de 
olhos fechados. Eu no sabia exatamente o que ela estava 
vendo, a maioria das vises s foram compartilhadas mais tarde, 
depois que terminou a Ministrao. Mas eu conseguia 
compreender do que ela estava falando, e de acordo com que 
Deus mostrava, ela ia orando.
Depois, Deus comeou a fazer uma cura em regra na 
minha vida. Eu j tinha entendido a questo da linguagem 
simblica das Ministraes. Por isso no estranhei quando ela 
foi falando dos diversos rgos que estava vendo, e o que 
acontecia com eles.
Aconteceu uma limpeza geral no fgado e nos rins. 
Destes saa uma gua muito preta. Compreendo que estes 
rgos tm alguma coisa a ver com a desintoxicao do 
organismo. De certa forma, Deus estava dizendo que Ele estava 
me limpando de tudo aquilo que era prejudicial na minha vida, 
toda contaminao, toda impureza.
Eu sabia quantas impurezas existiam na minha alma, nas 
minhas emoes... traumas... sentimentos distorcidos... 
mgoas... aquela gua preta simbolizava tudo isso. Pelo menos 
foi assim que entendi.
Ela viu tambm Deus restaurando neurnios na minha 
mente. Mas o que estava mais feio, segundo ela contou depois, 
era o meu corao. Havia nele feridas como aquelas de joelho, 
que a gente faz quando cai no cho, e elas estavam cheias de 
crostas.
Ento veio um anjo que segurou o meu corao e foi 
limpando, limpando, tirando aquelas crostas. Ento ela pde ver 
como eram profundas aquelas feridas!
 A o anjo passou em cima uma coisa chamada... 
chamada dake...  falou Suzana no final.  Eu no sabia o que 
era aquilo, mas o Senhor falou que voc sabia o que era.
Tive que sorrir.
 No  dake,  Dakin, uma espcie de desinfetante que 
a gente usa no Hospital! Suzana tambm viu que havia um anjo 
que limpava os meus ovrios. E disse que Deus me tinha feito 
frtil. Essa foi tambm uma informao que me veio vrias 
vezes, de vrias pessoas diferentes. Por algum motivo Deus 
queria me fazer saber que Ele estava protegendo o meu sistema 
reprodutor. Naquela poca no entendi, mas o futuro mostraria o 
porqu daquela revelao.
Deus mostrou que eu me sentia como que querendo 
parar, de tanto cansao, mas ainda no era hora do meu corpo 
parar.
Uma das coisas que mais me chamaram a ateno foi 
quando ela disse que tinha visto um anjo que me trazia uma 
caixinha. E nela estava escrito "espontaneidade e alegria"! 
Aquelas palavras eram certeiras demais para serem mero fruto 
do acaso, e passarem despercebidas.
Suzana tambm viu quando Deus me deu um espelho, e 
disse que eu ia poder me ver com novos olhos. Falou algumas 
coisas extremamente pessoais sobre a maneira como eu via a 
mim mesma, e tambm algo muito especfico sobre 
relacionamentos de amizade.
Depois de toda esta fase de limpeza do meu corpo, 
Suzana viu a abertura de um quarto. E dali os anjos tiravam 
coisas velhas e antigas. Eu no compreendi o que isso poderia 
ser, compreenderia apenas no futuro.
Ento, depois de limpa, eu recebi uma roupa nova. E 
sobre meu corpo foi passada uma substncia fluda, alguma 
coisa como um blsamo. Nesse ponto Suzana queria me abraar, 
mas por algum motivo no conseguiu chegar perto de mim por 
causa da presena de um anjo enorme que estava bem ali, de 
costas para ela e de frente para mim. Era ele quem me abraava!
 Ento vi descortinar-se um caminho  sua frente, e na 
beira deste caminho, que ia muito longe, estava escrito "A 
segurana  o Senhor". E Ele j estava indo  sua frente. s 
vezes eu no compreendia exatamente todas as vises, mas o 
Senhor me dizia que voc estava entendendo. Jesus disse que te 
ama muito, eu vi e senti muito isso, muito amor nesta 
Ministrao.  como se voc fosse uma queridinha especial para 
Deus! Em algum momento eu vi voc, seu irmo e sua me 
vestidos com vestes brancas, e havia um anjo que passava uma 
espcie de esparadrapo em torno de vocs. Isso se refere a esta 
vida! No  a vida futura, na glria. Eu vi um brao quebrado, e 
o Senhor falou que esse brao representava a sua famlia. Mas 
ele foi enfaixado por algum tempo. E depois, quando aquela 
faixa foi retirada, o osso no tinha cicatriz. Isso tem a ver com a 
sua vida familiar.
Eu ouvi tudo com ateno.
 Deus vai te dar alguns presentes. Outros esto sendo 
preparados e esto guardados  disse ela por fim.
Naquela tarde eu sa de l muito contente. Sabia que 
Deus tinha feito alguma coisa que eu ainda no podia 
contemplar, mas Ele tinha feito. E eu queria muito receber!
Depois disso vieram dias de muita opresso e desnimo.
Me virei de bruos sobre o tapete. At suspirei, 
relembrando aquelas coisas.....
"Eu sei que Deus fez.... no tenho a menor dvida disso. 
Mas eu no sei se consegui receber! O tempo passou, j so 
quase oito meses desde esse dia. E nem tudo eu consigo ver na 
minha vida, nem tudo consigo perceber na minha vida. Parece 
demorado demais comigo, o que est acontecendo? Ser que eu 
no estou tendo f suficiente?! Eu vejo que o processo de 
Ministrao funciona de uma forma diferente com Eduardo, por 
que comigo parece to demorado, por que parece que eu no 
consigo contemplar os resultados?"
.......................................................................................
Havia algo escondido na minha vida, na minha histria, 
no meu passado. Eu no sabia disso, no tinha a menor idia. 
Deus mostraria o cerne daquela questo, mas no ainda! No 
tinha chegado o tempo.
Por ora, eu iria continuar tentando... eu tinha que 
continuar tentando!
Era como havia dito: "Se Deus quer que eu continue 
trilhando este caminho, Ele tem que mostrar algo mais, eu tenho 
que ver a Deus, no posso apenas continuar ouvindo falar Dele, 
no posso viver das experincias sobrenaturais do Eduardo... a 
minha vida tem que mudar, tenho que conhecer Deus melhor, 
tenho que conhec-Lo face a face, e se tem alguma coisa na 
minha vida que est impedindo isso... eu vou continuar correndo 
atrs, continuar tentando!"
A maneira que entendia, a maneira de "continuar 
tentando" era uma s: novamente buscar a Ministrao, a Cura 
Interior. Compreendia que aquelas duas Ministraes anteriores 
tinham tido a sua razo de ser, tinham tido o seu significado. 
Era como aquela histria da cebola: Deus vai descascando, vai 
tirando as pelculas externas para conseguir chegar ao miolo.
"Talvez Deus no tenha ainda chegado ao cerne, talvez 
ainda no tenha tocado o verdadeiro ponto nevrlgico da minha 
alma. Eu sei, eu sinto\ Ele no terminou de me curar. Eu j 
entendi que isso  um processo... Ele tem que continuar."
Como Mdica, eu sabia que o processo de cura de 
algumas doenas  lento, doloroso e precisa de vrias 
intervenes. Tanto medicamentosas quanto cirrgicas, 
dependendo do mal em questo. Isso me fazia aceitar que a cura 
da alma muitas vezes no  diferente.
Ento fiquei esperando ansiosamente pela Ministrao 
que Sarah iria marcar para mim com o Jefferson.
* * * *
Foi com entusiasmo e expectativa que eu e Eduardo 
fomos  primeira reunio do grupo da Sarah. Aquele que ela 
chamava "grupo de elite", e que se reunia toda quarta-feira de 
manh, na casa dela. Aquele era um grupo que Sarah estava 
treinando, um grupo de guerreiras, e ela nos esclareceu que 
escolhia a dedo as pessoas, no era aberto a qualquer um.
Sarah havia dito que Grace estava sendo usada no 
processo de libertao de Eduardo, mas o seu grupo seria uma 
fonte de resistncia para ns. Ela tinha certeza que ns 
precisvamos daquele grupo. No comeo, achamos que 
realmente estvamos no lugar certo. Afinal, continuvamos 
naquela busca por intercessores.
Mas no foi assim que aconteceu. Nosso relacionamento 
no chegou a durar dois meses.
Naquela manh Sarah j havia adiantado sobre a nossa 
vinda e as mulheres estavam, assim como ns, na expectativa. 
Suzana era uma das mulheres que faziam parte do grupo. Alis, 
o grupo s tinha mulheres. Uma meia dzia. Jefferson 
participava de vez em quando.
Naquele primeiro dia Sarah pediu que Eduardo 
compartilhasse brevemente seu testemunho para que elas nos 
conhecessem melhor.
Ento participamos da orao depois disso. Foi um 
perodo gostoso e especial. Mesmo assim eu ainda continuava 
me sentindo daquela mesma maneira, incomodada por no estar 
sentindo o mover de Deus como os demais.
Todas elas eram mais velhas do que ns, casadas, e no 
final nos cercaram para   . conversar:
 Podem contar conosco para o que precisar!  disse 
uma delas.
 Sintam-se acolhidos no nosso meio, ns queremos ter 
uma aliana com vocs.
Depois da reunio, depois que elas foram embora, ainda 
ficamos ali para almoar com Sarah e conversar durante a tarde.
Na semana seguinte, aps a reunio, de livre e 
espontnea vontade Sarah abriu um pouco nossos problemas 
financeiros diante daquelas mulheres. Ns ficamos um pouco 
constrangidos, em momento algum tivemos coragem de pedir 
qualquer coisa para Sarah ou Jefferson. Eles estavam muito bem 
financeiramente, mas ns no estvamos ali por causa disso, 
Deus conhecia nosso corao.
Todas aquelas mulheres eram tambm bastante 
abastadas financeiramente. E Sarah pediu que, se Deus assim 
confirmasse, elas pudessem ofertar alguma coisa. Ns dois no 
estvamos acostumados com essa situao, era ainda algo que 
nos punha bastante envergonhados.
Depois que Sarah computou a oferta, e nos entregou 
mais tarde, percebemos que dava um valor redondo de R$ 
400,00. Trs dias antes ns havamos ofertado para Karine R$ 
40,00. Dada a nossa situao, aquele era um valor substancial, 
mas Karine estava sem emprego e passando por muita 
dificuldade. Como fosse nossa amiga, ajudamos como pudemos.
 Puxa...  falei com Eduardo enquanto ns dois 
espervamos na sala pelo almoo.  Voc reparou que Deus 
nos deu dez vezes a quantia que ofertamos para Karine?
  mesmo!
Sarah tinha nos convidado para almoar novamente, e 
dava ordens na cozinha. Quando ela voltou, compartilhamos 
imediatamente. Assim como ns, ela tambm ficou bastante 
satisfeita com a Fidelidade inequvoca de Deus.
Na terceira reunio, uma das senhoras do grupo trouxe 
para ns algumas roupas. Havia em especial um casaco preto 
que me serviu muito bem. At mesmo um sapato novo ela me 
deu.
Ainda com o porta-malas do carro aberto, ela olhou para 
ns dois e falou:
 Vocs dois so como filhos para mim...
Como ns estivssemos procurando um grupo que nos 
acolhesse, e no tnhamos encontrado na Igreja, nem na Igreja 
do Pastor Adriano, ficamos tocados, pensando e sonhando...
 Ser que estas vo ser realmente as intercessoras que 
Deus est colocando no nosso caminho?  perguntou Eduardo 
quando voltvamos para casa.
 Quem sabe, n? Por enquanto, est tudo indo bem!
Recebemos mais algumas ofertas naquele ms. Foi o que 
salvou as nossas contas, isso fez com que o carto de crdito e o 
cheque especial durassem ainda um pouco mais. Trs dessas 
ofertas vieram de trs mulheres deste grupo. Grace nos ofertou 
tambm. Aquele casal de Missionrios que freqentava nossa 
Igreja tambm. At mesmo Dona Clara nos deu uma quantia 
simblica uma vez, dentro da sua possibilidade. Tudo isto 
somado deu R$ 1.500,00!
Mesmo assim, ns dois sem emprego, com o oramento 
totalmente estourado, ainda faltava. Ns orvamos a Deus em 
concordncia, em concordncia com Dona Clara, e esperamos 
para ver o que ia acontecer. As pessoas mais prximas de ns 
sabiam das nossas necessidades.
Certa noite, Eduardo estava quase que em franco 
desespero por causa de contas que tnhamos que pagar no dia 
seguinte. Impreterivelmente. E no tnhamos quase que nem um 
centavo no bolso. Eu acordei tarde de manh porque tambm 
tinha deitado muito tarde, de madrugada, como era meu 
costume por causa da escrita do livro.
Nem bem abri os olhos e ele entrou no quarto, me 
comunicando antes mesmo que eu me levantasse:
 Deus foi fiel! A Grace me mandou um bip agora 
dizendo que acabou de depositar R$ 1.000,00 na nossa conta.  
um dinheiro do seu Ministrio, e ela est podendo nos 
emprestar. No tem pressa para pagar! Isso salva a nossa 
situao no ltimo instante!
Compartilhamos aquela bno com todos que oravam 
por ns: Dona Clara e o grupo da Sarah.
Dona Clara continuava sempre a mesma, mas 
comeamos pouco a pouco a notar uma diferena na posio das 
mulheres do grupo. Um dia, uma delas comentou que aquela 
que nos havia ofertado as roupas e nos chamado de filhos estava 
sendo retaliada. E estava com medo. Nunca mais ela nos ajudou 
de nenhuma forma.
Uma outra, que tinha pedido o currculo de Eduardo para 
levar ao marido, um empresrio de alto escalo, veio com uma 
resposta negativa. Ela tinha nos dito antes que o marido dela era 
o responsvel pelo departamento, ele contratava quem queria, a 
palavra final vinha dele. Ela tinha certeza que ele poderia 
empregar Eduardo porque estava precisando justamente de 
algum na rea.
Mas depois, conversa vai, conversa vem dentro do 
prprio grupo ficamos sabendo que ela havia repensado aquela 
deciso. Era uma coisa muito sria colocar algum como 
Eduardo no departamento do marido dela, as coisas podiam 
ficar muito complicadas para eles. Espiritualmente falando.
Sarah tinha pedido que Eduardo desse um pequeno 
testemunho na casa de uma dessas mulheres, a mais simples do 
grupo, porque ela enfrentava problemas com os filhos. Um 
pequeno nmero de pessoas se reuniu ali e Eduardo 
compartilhou. No muito depois disso a casa dela quase pegou 
fogo num acidente banal. Mas eles entenderam o recado!
Todas as mulheres do grupo eram casadas, mas algumas 
tinham bastante problema com os maridos. Os problemas 
aumentaram.
A verdade  que em pouco mais de um ms elas j 
tinham percebido um levante espiritual intenso. No que algum 
tenha nos dito isso cara a cara, verbalizado ipsis litteris. Mas as 
mudanas de atitude comearam a se fazer sentir. Especialmente 
quando Sarah e Jefferson viajaram aos Estados Unidos para 
resolver seus assuntos pessoais.
Nesse perodo, ns deveramos continuar freqentando o 
grupo uma vez por semana, mas sem a presena de Sarah. Foi 
neste momento que nosso relacionamento com elas degringolou. 
Alis, no poderamos nem chamar aquilo de relacionamento! 
Nosso contato tinha se limitado a quatro ou cinco vezes, era 
algo que estava ainda comeando.
Eu mesma nunca havia conversado de maneira pessoal 
com nenhuma delas! Meu contato maior era com Suzana, que 
tinha me ministrado, mas no tinha passado muito disso. No 
houvera tempo hbil porque quando acabava a reunio de 
orao normalmente elas tinham horrio para pegar os filhos na 
escola, saam bastante apressadas. Eduardo e eu ficvamos 
sozinhos com Sarah.
Ento no tinha ainda acontecido um estreitamento 
maior por fatores puramente circunstanciais. Se continussemos 
a nos relacionar, certamente haveramos de realmente forjar 
uma aliana. Mas no deu tempo...
Sarah havia orientado, antes da sua partida:
 Cuidem bem deles enquanto estamos fora.
Foi o que elas tentaram fazer. No duvido da boa 
inteno de todas. Mas aquele foi um momento que os 
demnios usaram para pr fogo naquela situao e confundir 
muitas mentes. A presena de Sarah, creio eu, impunha um 
certo respeito. Mas quando ela se afastou, vrias foram as 
brechas que os demnios encontraram para atuar.
Nenhuma delas era membro de Igreja. No tinham 
cobertura de orao de nenhuma liderana, excetuando Sarah. 
Mas mesmo Sarah e Jefferson no pertenciam a uma Igreja. Era 
um grupo meio solto, mas eles acreditavam ter um chamado 
especial para altos nveis de guerra. Eu e Eduardo em momento 
algum questionamos aquilo, nossa confiana em Sarah e 
Jefferson era total.
Mas hoje entendemos a importncia de uma cobertura 
ministerial. Entendemos a importncia de uma rede de 
intercessores, a importncia de passar por um processo de 
santificao, de fechar as brechas em nossas prprias vidas.
Embora no soubssemos, muitas delas tinham brechas 
abertas. Problemas familiares, pequenas rivalidades, feridas no 
curadas. Ns no poderamos dizer o que mais havia, mas 
certamente havia alguma coisa, e aquelas portas abertas 
facilitaram a ao do inimigo.
Se no fosse assim, no teria terminado como terminou.
 * * * *
Eduardo e eu, desde o perodo do namoro e do noivado, 
experimentamos diversas vezes algumas brigas de carter 
estranho. Na poca ns no entendemos muito bem, nem 
discernimos perfeitamente a questo espiritual nestas situaes.
Elas aconteciam sempre do mesmo jeito, comeavam 
por um motivo banal, tolo, corriqueiro... mas o seu desenrolar 
era desastroso! A ira despertada tanto na vida dele quanto na 
minha era a porta fundamental que se abria para a atuao dos 
demnios.
Ento, podemos dizer que uma parte da culpa era nossa.
Por outro lado, no fosse o nosso contexto espiritual e o 
chamado de Deus, ns dois teramos tido uma trajetria 
diferente. Quer dizer, se o nosso relacionamento no fosse to 
visado pelo Inferno e pela Irmandade, temos certeza absoluta 
que nada disso teria acontecido.
Olhando por este ngulo... a outra parte da culpa no era 
nossa\ Era uma conseqncia direta dos ataques do diabo.
Todas as pessoas cometem erros, todas as pessoas tm 
fraquezas. Muitas destas fraquezas so consideradas 
perfeitamente "normais", sem muita importncia. Se a gente 
fosse pensar assim, no havia muita coisa em ns que pudesse 
ser considerada uma ferramenta to destrutiva, por si s. A 
agressividade? A impulsividade do carter? No... 
humanamente falando, nem eu nem Eduardo ramos to 
"ruins"... nenhum de ns tinha um poder to grande de 
destruio...
Hoje tenho certeza de que nada disso, nada na nossa 
alma, por si s, poderia causar tanta desgraa. Tanta angstia. 
Tanto desespero. Era alguma coisa mais, alguma coisa que 
vinha de fora. Alguma coisa que sabia exatamente aonde tocar. 
Com muita inteligncia descobria as menores frestas, e com 
indescritvel habilidade manipulava a mim e a ele. 
Transformava aquilo que era meramente humano em algo 
totalmente sobrenatural. Fazia uso das fraquezas no tratadas da 
alma, e construa em cima delas uma resposta totalmente 
maligna, que nos levou a situaes de absoluto desespero,  
beira do precipcio, quase s portas da morte.
No haveria palavras fortes o suficiente para expressar 
aquilo que passamos a viver naquele primeiro ano de casados. E 
tambm no segundo ano. Em se tratando de brigas. Elas 
passariam a ter um mrbido colorido...
Assim aconteceu conosco.
Comeamos a perceber que os menores deslizes de 
carter eram indescritivelmente potencializados pelos demnios. 
Aqueles desentendimentos pequenos, que todo casal tem, afirmo 
isso categoricamente, todo casal tem, comearam a transformar-
se em situaes desesperadoras. Comeava como um sopro, 
nada muito srio, nada muito grande, uma pequena fasca no 
relacionamento, uma rusga... ou, como Eduardo ironicamente 
gostava de dizer: "uma mudana no vento..."
Mas aquela mudana de vento explodia numa terrvel 
tempestade de violncia...
Acontecia uma vez por ms, s vezes duas. Eram horas 
de uma incalculvel e monstruosa tortura emocional, fsica e 
espiritual. Depois, milagrosamente, vinha a reconciliao. E 
passvamos o resto do ms como se aquilo nunca tivesse 
acontecido.
Ento vinha novamente aquele sopro...
No fizermos segredo disso para Grace e Dona Clara. 
Buscamos conselho, buscamos orao... a princpio sem 
sucesso.
A Irmandade jurou destruir o nosso relacionamento. No 
aconteceu como eles queriam por Misericrdia Divina. Mas 
chegou muito perto disso!
Se por um lado nossa fonte de sustento tinha secado 
progressivamente e a maioria das pessoas que se aproximavam 
de ns era derrubada, uma aps outra... o ataque principal, o 
ataque macio, o ataque mais ferrenho foi sobre o 
relacionamento. Foi sobre a nossa aliana!
No temos nenhum orgulho das nossas brigas. Antes nos 
envergonhamos delas sobremaneira. Mas foi assim que 
aconteceu. Muitos momentos dessa histria no so bonitos de 
serem contados, no so agradveis. At hoje ainda mexem 
conosco. Foram terrveis, e expuseram toda a podrido da nossa 
alma.
Fomos culpados porque erramos muitas vezes, porque o 
processo de santificao no tinha sido completado em ns. Mas 
tambm fomos vtimas. Vtimas nas mos de um terrvel e 
inclemente algoz. Os Poderes de Principados e Potestades do 
Inferno...
Quase que em cem por cento das vezes essas brigas 
aconteciam em dias numerologicamente especficos. Era uma 
marca dos Filhos do Fogo, eles faziam de propsito para 
sinalizar muito bem. E sempre precediam golpes maiores. 
Agora no apenas sobre Eduardo, mas tambm sobre mim.
O diabo conhecia isso muito bem. Ele sabia tocar nas 
feridas mais profundas.
A primeira vez que recebi um recado pessoal da 
Irmandade foi depois de uma dessas brigas. O bip tocou e ns 
olhamos, ainda estremecidos. Dizia assim:
"Voc est sendo uma tima aliada. Voc ser a coroa 
da nossa vitria. Em breve ter a sua recompensa. Leviathan."
O gosto daquelas palavras... era poderosamente amargo. 
Me corroa como um cncer e contaminava o corao de 
Eduardo. Eu logo comearia a escutar palavras semelhantes 
muitas vezes, vindas de todos os lados. Dentro da Igreja haveria 
poucos capazes de repetir para mim as palavras de Deus... mas 
muitos que fariam coro com os demnios!
* * * *
Num desses dias estrategicamente bem elaborados 
Eduardo foi sozinho  reunio do grupo de Sarah. Eu no tinha 
dormido praticamente nada  noite, chorando, e no tive 
condies de ir com ele. Eu j tinha faltado na outra semana 
porque tinha ido dormir muito tarde e estava gripada. Nessa 
ocasio uma das mulheres, a que tinha uno especial para 
adorao e sempre presidia o perodo de Louvor, tinha 
convidado a mim e a Eduardo para um tempo de adorao 
juntos. De tarde, na casa dela.
Eu no estava presente, mas ela fez o convite a Eduardo 
e ficou marcado para aquele dia. No fosse o nosso 
desentendimento da vspera, eu estaria l.
Quando Eduardo chegou, ningum perguntou por mim. 
A reunio transcorreu normalmente e depois, no final, essa 
moa se aproximou dele e muito naturalmente perguntou:
 Vamos indo?
Eduardo no entendeu bem.
 Vamos indo aonde?
 Para minha casa. A gente tinha combinado na semana 
passada, lembra?
 Mas a Isabela no veio, no acho muito bom irmos s 
ns dois... vamos
deixar para outra ocasio.
 No tem nenhum problema, meu marido tambm no 
est em casa, no precisamos desperdiar essa oportunidade de 
buscar a Deus.
Eduardo achou esquisitssimo, e recusou. Achava 
incabvel ficar sozinho com aquela mulher, na ausncia do 
marido dela, na minha ausncia... pode ser at que no tivesse 
nada demais, mas devemos fugir at mesmo da aparncia do 
mal.
Embora concordasse com a deciso de Eduardo, ela o 
aconselhou:
 Deus me disse que a estratgia para sua vida  
Louvor e adorao.
 Bom... eu sei do Poder disso tudo, mas no  apenas 
isso.
Ele no ia ficar discutindo com ela todos os pormenores 
da nossa vida, ou porque ele tinha chegado nessa concluso. 
Mas ela deu a entender que no gostou muito.
No meio das despedidas, antes de sair, Eduardo ainda 
comentou com todas:
 Que pena que minha esposa no pde vir... foi uma 
reunio to boa!  e nisso eu sei que ele estava falando 
sinceramente, a sua raiva j tinha passado e ele estava com 
remorso. Depois de ouvir isso, ainda sem falar nada a meu 
respeito, uma delas comeou:
 Olha, ns temos uma coisa para te falar... no deixa o 
diabo tirar essa coisa preciosa que Deus te deu.
Eduardo imediatamente pensou que elas estivessem se 
referindo a mim. Talvez tivessem discernido de alguma maneira 
os nossos problemas pessoais.
 De fato... eu tenho realmente procurado cuidar bem 
dela, mas... Para sua surpresa, no era nada daquilo.
 No, no! A gente no est falando dela, ns estamos 
falando deste grupo! Este grupo  especial, Deus te deu! Vai 
preparado porque quando voc chegar em casa vai ter que 
enfrentar Jezabel... tem um Principado dentro da sua casa que 
est usando sua esposa para destruir voc e o seu Ministrio.
Parecia uma coisa to fora de propsito que Eduardo 
nem soube o que responder.
 Eu acho que vocs esto vendo a coisa um pouco 
distorcida...
Elas mantiveram-se firmes em sua posio. Eduardo 
voltou para casa pensativo, apesar daquilo no ter cado bem no 
seu esprito, havia a situao do dia anterior... estrategicamente 
bem planejada!
Eu estava em casa, muito triste, fragilizada, mas 
extremamente ansiosa em fazer as pazes com Eduardo. A 
primeira coisa que ele fez foi praticamente despejar aquelas 
afirmaes sobre mim.
 Mas por que elas esto dizendo isso? Eu sempre 
gostei de ir ao grupo, estava aprendendo a confiar nelas. Nunca 
imaginei que fossem falar desse jeito. Elas nem me conhecem, 
praticamente nunca conversaram comigo. Eu nunca te impedi de 
ir l, voc no foi ficar em adorao porque no quis, porque 
no era certo...
Ainda magoado, Eduardo usou aquela acusao para se 
justificar. Para aumentar ainda mais a dor no meu corao. Perdi 
o controle novamente, aquelas palavras tinham poder de facas 
afiadas na minha carne.
 Isso  mentira! Eu sempre estive ao seu lado, sempre 
te incentivei, sempre fiz tudo por voc! No sou perfeita, mas 
nunca pretendi destruir ningum, isso  um absurdo! No  
possvel que voc acredite nisso!
 No sou eu que estou dizendo,  Deus quem est 
dizendo!
 Se destrusse o seu Ministrio, estaria destruindo o 
meu Ministrio, voc no foi chamado sozinho. Fao parte disso 
tambm! Eu no quero fazer nada disso, nunca fiz nada disso! 
 eu gritava, cada vez mais nervosa.  No  possvel que 
voc acredite nisso!
Minha reao desastrosa irritou Eduardo novamente. Ele 
sabia usar muito bem as palavras contra mim. A coisa pegou 
fogo novamente. Somente fomos nos acertar muito mais tarde...
* * * *
Depois disso, Eduardo por livre e espontnea vontade 
no voltou ao grupo. Eu no tinha dito nada, foi ele que veio 
comentar:
 Vou esperar a Sarah e o Jefferson voltarem...  
melhor assim! Continuamos levando nossa vida normalmente. 
Sempre encontrando com Dona Clara, isso nunca ns tnhamos 
deixado de fazer. Ela sabia das reunies com o grupo da Sarah, 
por isso eu compartilhei com ela aquela triste situao. Dona 
Clara, que realmente me conhecia h mais de dois anos, que 
conversava comigo todas as semanas, ficou indignada com 
aquele posicionamento.
 Isso  pura carne, pura alma, pura direo da alma! 
Essas coisas acontecem, "Bem"...! O "co"  esperto e usa as 
pessoas.  melhor mesmo vocs esperarem a Sarah voltar... est 
havendo alguma confuso a nesse meio... Deus jamais ia agir 
dessa maneira, Deus jamais coloca peso! Deus  sempre 
cavalheiro, Ele usa de uma arma poderosa, do Amor. Essa 
direo nunca ia vir de Deus. Por mais que realmente estivesse 
acontecendo alguma coisa nesse sentido  e eu sei que no est 
 o Esprito Santo ia falar com Amor... Ele ia te constranger 
pelo Amor.
Eu suspirei aliviada. Aquilo me trazia uma sensao 
incrvel de leveza.
 A senhora acha mesmo?
 Eu tenho certeza disso.
Aproveitamos para orar em concordncia quebrando as 
palavras que tinha recebido atravs do bip. De certa forma, 
aquelas mulheres repetiram as palavras daquele demnio. A que 
ponto pode chegar a manipulao das mentes! Eu e Eduardo j 
tnhamos quebrado aquilo, mas era bom fazer em concordncia 
com Dona Clara.
Ainda por esses dias, chegamos no curso da Grace um 
pouco mais cedo, e logo ela veio falar conosco.
 Faz tempo que no conversamos, n? Eu vejo vocs 
toda tera e quinta, mas quase no d pra gente se falar.
Compartilhamos com ela como andavam as coisas 
conosco. Ela escutou atentamente e depois foi chamar algum 
da sua equipe para ajudar a orar em concordncia por ns 
naquele momento.
Grace orou, nos ungiu. Quando ia dando por encerrada 
aquela breve conversa, a intercessora que estava ali presente 
interrompeu:
 Tem s mais uma coisa... Deus est mostrando um 
ataque muito grande contra a vida da Isabela. Eles concentraram 
suas foras contra ela, mais at do que em relao a Eduardo. 
Havia uma feiticeira morena que estava fazendo Encantamentos 
contra ela...
 No faz muito tempo o Ricardo comentou que tinha 
visto uma Feiticeira loira fazendo Encantamento contra mim... 
 lembrei.
No precisava ir muito longe para saber que se tratavam 
de Thalya e de Rbia. Oramos para desfazer tudo aquilo.
* * * *
Eduardo Conta
Captulo 36
Pouco antes de Sarah e Jefferson viajarem aos Estados 
Unidos e ns termos toda aquela confuso com o grupo, eu 
tinha participado de um excelente processo de seleo. A coisa 
era perfeita demais, maravilhosa demais. Se desse certo, eu 
ficaria muito satisfeito! Meus entrevistadores estavam bastante 
entusiasmados comigo e eu me sentia tambm bastante otimista.
No entanto, no me perguntem como, tudo aquilo deu 
pra trs. De repente. A vaga foi cancelada de maneira inusitada. 
Pediram-me mil desculpas, os entrevistadores estavam to 
frustrados quanto eu.
Aquilo teve um efeito desastroso sobre mim. Fazia 
muito tempo que no me sentia to desanimado. Mais um 
processo de seleo que terminava em nada! De nada haviam 
adiantado nossas oraes e splicas. Eu no entendia mais nada, 
no sabia mais o que fazer, nem onde procurar trabalho.
Era quase o final do ms de junho e eu no tinha idia de 
como arrumar dinheiro para pagar minhas contas. No havia 
outra soluo seno ir em busca de outros processos de seleo. 
Eu continuava me esforando o quanto podia, gastando a sola 
do sapato nas ruas. Mas me sentia perdido, no sabia a quem 
recorrer...
Por outro lado, eu e Isabela comeamos a estranhar 
muito a atitude de Sarah e Jefferson.
 Eles no deram nem um telefonema para ns...  
comentei com Isabela certo dia. Eu j vinha pensando naquilo 
havia algum tempo.
 ...
 Eu acho isso muito estranho, quando eles saram 
daqui sabiam exatamente da nossa situao delicada. Que tudo  
nossa volta estava estourando, debaixo de decreto do inimigo. 
Sarah sempre deixou bem claro que ela tinha um chamado de 
guerra contra Principados e Potestades! No entendo esse tipo 
de aliana...
Isabela estava pensando mais ou menos da mesma 
maneira.
 A Grace j nos ligou de fora do pas mais de uma 
vez. A distncia nunca anulou a responsabilidade e interesse que 
ela tem por ns. Realmente, no custava nada dar uma 
ligadinha...
 Eles mais de uma vez nos chamaram de filhos. Mas 
eu me sinto abandonado! Nessas horas eu vejo que no existe 
aliana verdadeira entre a gente, eu no consigo conceber 
aliana nessas condies.
  E mesmo... eles sempre nos chamaram de filhos, de 
"amados". Nos convidaram para formar uma equipe e viajar aos 
Estados Unidos... mas parece que se esqueceram completamente 
de ns. Me sinto mais ou menos como voc, 
largada  prpria sorte!
Naquele momento aquilo pesou muito. Certo ou errado, 
nossas emoes estavam  flor da pele. Um telefonema teria 
feito toda a diferena, com um telefonema eles estariam 
demonstrando interesse pela nossa vida e pela nossa situao. 
Algo de que muito necessitvamos!
Demonstrar interesse no tinha preo para ns! No 
queramos dinheiro, nunca pedimos nada. A gente 
compartilhava os problemas com eles da mesma maneira que 
compartilhvamos com Dona Clara e Grace. No tinha uma 
segunda inteno. Alis, vez por outra a gente at deixava por 
menos... era um pouco incmodo falar de assuntos financeiros 
com eles porque Sarah e Jefferson tinham condio real de nos 
ajudar nessa rea. Era bem mais fcil falar com Dona Clara e 
Grace porque elas no tinham a mesma facilidade.
Ento, compartilhar com eles tinha o mesmo intuito de 
compartilhar com elas: era buscar sustento espiritual. Se ia 
haver sustento financeiro, isso no sabamos. E nem 
espervamos. Deus  que ia falar com eles. Ou no.
Pelo visto, Deus no havia falado nada porque eles 
pareciam no estar nem um pouco preocupados se a gente tinha 
sido despejado, se estava faltando comida em casa... aquela 
atitude, naquele momento, nos feriu bastante.
Eles no tinham obrigao de ajudar com dinheiro. 
Alis, nesse sentido nunca ajudaram mesmo. Mas depois que 
cativaram o nosso corao, depois que conquistaram a nossa 
confiana, tinham obrigao de pelo menos demonstrar 
interesse. Especialmente Sarah j tinha certeza de que realmente 
deveramos ir com eles aos Estados Unidos. Isso implicava uma 
aliana muito forte! Pelo menos ns assim enxergvamos.
Sarah sempre procurava fazer o que podia. Quando 
amos  sua casa geralmente ela nos dava coisas para comer, 
para levar para casa. Nos emprestou tambm um pequeno 
fogozinho de acampamento que era melhor do que o nosso, 
cozinhava tudo muito mais rpido. Ainda assim, era um fogo 
de acampamento. Ela costumava lev-lo em viagens de carro.
Mas, naquele momento... faltou o interesse! Isso pesou 
muito.
Ns tnhamos atendido s suas solicitaes em todos os 
momentos. Compartilhamos o testemunho todas as vezes que 
pediram, com todas as pessoas que quiseram. Alm daquela 
primeira viagem para o interior, fizemos mais duas. Eu fui 
exposto diante de pessoas, sem cobertura de orao e sem 
preparo. E isso foi por amor a eles, por respeito a eles, por 
respeito  autoridade espiritual que julgvamos que eles tinham. 
Mas at mesmo num saguo de hotel eu tive que falar. Um dos 
Pastores no agentou o levante espiritual, e dormiu quase o 
tempo todo. Jefferson tambm foi dormir.
A nica que sustentou todos aqueles momentos de 
testemunho foi Isabela, sempre orando em lnguas. Mesmo 
estando muito gripada e com febre, ela foi a nica que orou 
naquele saguo de hotel enquanto eu falava.
Fazia j um bom tempo que estvamos buscando 
resposta de Deus a respeito daquela questo de acompanh-los 
aos Estados Unidos. Tnhamos comunicado a Grace, que no 
interferiu na nossa opinio, mas disse que estaria orando por 
isso. Dona Clara tambm tinha sido comunicada. Elas foram as 
duas nicas pessoas com quem falamos sobre aquele convite.
Quanto a ns, vnhamos literalmente suplicando a Deus 
que nos desse um sinal claro. No podamos errar, era 
impensvel tomar a direo errada, sair do caminho da Vontade 
perfeita de Deus. Embora tenhamos ficado interessados  e 
tentados  com aquele convite, era fundamental saber se Deus 
estava ou no naquela histria.
Ns tnhamos muito carinho e apreo por Sarah e 
Jefferson. Realmente no cremos que tenham agido com dolo. 
Mas, naquela situao desesperadora e crtica, no conseguimos 
mais v-los da mesma maneira. Por si s, aquilo j era um sinal 
claro. J no testificava no nosso ntimo formar uma equipe com 
eles. A lealdade daquela aliana no parecia slida.
E o tempo foi passando. E nada deles entrarem em 
contato. Aquilo realmente foi me irritando. E a aconteceu a 
gota d'gua.
Uma pessoa prxima deles... e prxima de algum da 
nossa Igreja... sabendo do nosso contato com Sarah e Jefferson, 
comentou comigo:
 Sabia que o Jefferson est aqui no Brasil? Aquilo foi 
uma incrvel surpresa.
 Est, ?
Ficamos sabendo que ele tinha vindo apenas durante 
uma semana para cuidar de assuntos profissionais, coisas 
importantes que tinha que resolver. Sozinho, sem a Sarah. Ns 
sabamos do que se tratava, e ele tinha estado do lado de nossa 
casa havia poucos dias. Tinha passado a poucas quadras da 
nossa casa...! Mas no ligou, no se comunicou, no quis nem 
saber...
Ficamos chocados. Talvez essa no seja a palavra, mas 
traduz parte do nosso sentimento. Foi um duro golpe, porque 
confivamos neles. Imaginvamos aquela indiferena partindo 
de qualquer pessoa, menos deles!
Neste mesmo perodo outras pequenas informaes 
acabaram chegando at ns. Coisas que nunca compreendemos. 
E de fonte segura.
Nossa deciso estava tomada. Aquilo bastava. E foi 
tomada com convico. Podia no ser culpa deles, mas tambm 
no era nossa. Tnhamos confiado at aquele momento. Mas 
depois que o elo de confiana  quebrado, fica muito difcil. 
No que fssemos deixar de ter amizade, mas no poderamos 
chamar aquela amizade de aliana e muito menos mudar a nossa 
vida em funo dela.
Mesmo por aqueles dias, recebemos um bip 
desagradvel. Que, claro, como sempre vinha espetar 
exatamente na ferida. Quando lemos, soubemos imediatamente 
do que eles estavam falando. De quem.
Comeava assim: "Elevo os olhos para os montes, de 
onde me vir o socorro?"
A princpio, enquanto as letrinhas corriam pelo visor, 
imaginamos que era algum conhecido mandando uma 
mensagem de incentivo. Mas logo vimos que no era nada 
disso...
"O socorro no vai vir nem de cima, nem de baixo, e 
muito menos de quem est ao seu lado. Voc perdeu a chance. 
Leviathan."
Diante de toda aquela somatria, optamos por escrever 
uma carta falando a respeito da nossa deciso, da nossa 
decepo, de todas estas coisas. No queramos sair 
mexericando, nem fofocando. O melhor a fazer era falar 
diretamente com eles.
 Remoer tudo isso no  a coisa certa...  
comentamos um com o outro.
 Tambm acho. O diabo est por trs desta situao. 
Se no formos claros, a coisa pode distorcer ainda mais. Eles 
precisam saber como ns estamos nos sentindo!
Ento, aquela carta na verdade era um desabafo. No era 
uma acusao. A gente s queria ser sincero, ser transparente. 
Se quisssemos criar contenda, teramos sado falando mal pelas 
costas deles. Isso ns nunca fizemos! Realmente preferimos ser 
transparentes, era o nico modo de acertar aquela situao. Esse 
era o nosso desejo: acertar a situao.
Por isso at mesmo dissemos isso no final da carta: 
estamos falando com vocs, estamos falando para vocs.
Talvez tenhamos errado em escrever. Na nossa 
ansiedade e amargura, no pedimos opinio para ningum, e 
fizemos a coisa no impulso. Esse foi nosso erro. Nossos 
sentimentos eram at justificveis, mas teria sido melhor esperar 
que eles regressassem para conversar frente a frente. Teria sido 
melhor falar, do que escrever.
Mandamos a carta. Que ficou esperando por eles.
Certo dia, o bip tocou. Era Sarah. Eu desci e fui 
telefonar do orelho.
 Oi, amado! Como  que voc est?  a voz de Sarah 
vinha efusiva pelo telefone. Ela comeou a contar sobre os 
Estados Unidos.  Foi tudo bem, foi to bom! Conhecemos a 
Igreja, conhecemos o Pastor, falamos de vocs, est tudo certo... 
vo se preparando!
Eu fui ouvindo o que ela dizia. Mas em certo momento, 
acabei perguntando:
 Sarah, voc recebeu a nossa carta?
 Nem deu tempo de olhar. Como ficamos muito tempo 
fora, tem um monte de correspondncia aqui.
 Ah! Ento acho que vou te adiantar... pode ser?  fui 
falando com educao, calmamente.
Comecei a explicar sobre os nossos sentimentos, nossa 
frustrao, como tnhamos ficado chateados porque eles no 
telefonaram, etc. etc.
 Puxa vida, Sarah... nem um telefonema... vocs 
esqueceram da gente!
 Mas eu tentei ligar! Mas como esto mudando os 
sistemas de telefonia a no
Brasil, no consegui ligao.
 Ser possvel? Porque Marco tem ligado do exterior 
normalmente. Pode ter sido uma coincidncia, mas entenda a 
nossa posio, se foi isso que aconteceu eu entendo que voc se 
preocupou. Mas o Jefferson esteve aqui no Brasil e a no tinha 
nenhum problema com o telefone.
 Mas ele estava muito ocupado... foi um tempo 
corrido.
 Sarah, eu at entendo. Mas nunca a coisa  to 
corrida que no d tempo nem de telefonar. Ser que vocs no 
tinham nem curiosidade de saber o que tinha acontecido 
conosco? Vocs sabiam exatamente da nossa histria, sabiam 
aquilo que poucos sabiam. Quando vocs foram embora, sabiam 
que a nossa situao estava crtica. Se ele estivesse realmente 
interessado, inclusive porque vocs tentaram ligar e no 
conseguiram... teria tido tempo de dar um al. No estou 
falando isso para acusar ningum, no me entenda mal. Ns 
gostamos muito de vocs! Mas foi difcil lidar com isso. 
Realmente a gente ficou se sentindo jogado para as traas, como 
se vocs nem nos conhecessem...
Falei com toda a sinceridade do mundo. Sarah 
compreendeu de imediato.
 Nisso voc at tem razo. Um telefonema no 
custava nada. Acho que foi tudo um grande mal-entendido, 
porque ns tambm amamos vocs. Mas eu tinha certeza que 
voc estava empregado, Deus tinha me falado que voc estava 
empregado! Por isso no me preocupei...
 Mas no foi assim que aconteceu.  Puxa vida...
Ela foi conversando comigo naturalmente, sem sentir-se 
ofendida. E, aos poucos, tudo o que estava escrito na carta, eu 
falei ali para ela. No final da nossa conversa eu j estava mais 
calmo e realmente no teria nenhum problema em liberar perdo 
a eles. Tambm entendi que eles no tinham feito de propsito.
  Ento vamos marcar um dia para a gente conversar. 
Ns quatro, pessoalmente, e vamos pr um ponto final nessa 
histria.
 Eu acho isso timo. Mas, Sarah... entenda que 
estivemos orando... nossa amizade vai continuar a mesma, mas 
Deus no confirmou no nosso corao a ida para os Estados 
Unidos. Podemos conversar sobre isso melhor quando nos 
encontrarmos.
Senti que ela ficou um pouco chocada. Certamente no 
esperava por aquela reao. No vamos querer nos justificar... 
mas estvamos debaixo de muita presso e talvez nossa reao 
tenha sido um pouco exacerbada. Hoje a gente j no se 
incomodaria tanto com o fato de sermos momentaneamente 
esquecidos. Sabemos que isso acontece. Muitas vezes, 
infelizmente, o povo de Deus se comporta assim mesmo.
Mas naquela poca eu acreditava. Eu acreditava nas 
palavras, eu acreditava nas promessas, eu acreditava que quando 
algum me chamava de filho... estava querendo dizer isso 
mesmo! Quando Marlon me chamou de filho eu experimentei 
uma coisa diferente. Infelizmente, eu ainda no estava 
plenamente curado. E aquilo me feriu profundamente.
Apesar disso, a deciso sobre os Estados Unidos no 
tinha nada a ver com aquilo. Era uma convico diferente, uma 
convico de que no era o tempo, no era o modo.
 Tudo bem, Eduardo. Vamos nos encontrar e 
conversar pessoalmente. Da minha parte est tudo bem!
Marcamos o encontro. Quando desliguei o telefone, 
minha impresso  de que estava tudo bem. Da mesma maneira 
como ns seramos capazes de entender e perdoar aquilo que 
vimos como sendo um deslize deles, imaginei que eles tambm 
seriam capazes de entender a nossa mgoa at mesmo infantil, e 
nossa recusa daquele convite ministerial. Saberiam separar as 
coisas! Nada disso precisaria ter abalado nossa amizade.
Mas no aconteceu como a gente previa. No dia do 
encontro, Jefferson estava frio. Nos cumprimentou, mas no 
ficou na sala para participar da conversa. Ficou trabalhando no 
escritrio e s voltou para se despedir.
Sarah explicou que ele tinha ficado muito chateado com 
a carta. Irado, inclusive. Nem sequer deixou Sarah ler o que 
estava escrito, embora fosse exatamente aquilo que eu tinha dito 
pelo telefone. E que ela j entendera.
A reunio entre ns trs foi boa. Conversamos 
longamente, expusemos mutuamente nossos sentimentos e 
compreendemos que tudo aquilo poderia ser perdoado e 
esquecido. Foi o que fizemos, ns pedimos perdo, e ela 
tambm. Depois oramos por Jefferson para que Deus acalmasse 
seu corao e preparasse o momento certo de uma nova 
conversa.
No final, nos abraamos e ficamos aguardando.
Um pouco antes de sair, comentamos tambm sobre a 
posio que as mulheres do grupo tinham tomado em relao  
Isabela. Explicamos que tinha sido por isso que no voltamos s 
reunies.
 Elas so inexperientes ainda...
Fato  que aquela postura de Jefferson impediu que a 
gente continuasse convivendo como antes. No nosso corao, 
ele estava perdoado. Restava que ele tambm nos perdoasse 
pela precipitao em expor nossas emoes feridas...
Meses mais tarde, tornamos a escrever uma carta para 
Jefferson. Uma carta s para ele. Explicamos novamente o que 
havia acontecido, como tinha ficado nosso corao, que nossa 
inteno no era ofend-lo. Que realmente ns o tnhamos visto 
um pouco como pai, e justamente por ele ser caro ao nosso 
corao  que tinha dodo tanto aquela aparente indiferena. 
Justamente porque eles representavam algo para ns!
Ento pedimos novamente que ele nos desse a chance de 
acertarmos o relacionamento, que pudssemos ter aquela 
conversa.
Mas no tivemos resposta.
Ainda em outra ocasio, quando ele foi ungido Pastor, 
eu telefonei no dia especialmente para cumpriment-lo. E falei 
outra vez:
 Olha... no viaja sem antes a gente se encontrar. No 
vamos deixar essa pendncia nas nossas vidas!
 Vamos ver se marcamos.
Mas no marcou. Foi uma pena que tivesse sido assim. 
Todas as tentativas de nos aproximarmos de outras pessoas, 
embora quisssemos muito, terminavam em frustrao.
* * * *
Mais uma vez cheguei ao final de outro processo de 
seleo.
Durante todo o perodo ns estivemos orando, Isabela e 
eu, por cada etapa. Porm,  medida que eu ia avanando, 
continuvamos orando mais por obedincia do que por 
convico. Era necessrio manter tudo aquilo debaixo de uma 
cobertura especfica, mas a gente j no conseguia acreditar que 
Deus fosse realmente nos coroar com vitria.
Por algum motivo Ele se mantinha calado, por algum 
motivo Ele no me abria aquela porta de emprego.
Nossas oraes j no pediam pelo emprego, mas para 
que Deus fizesse a Sua Vontade Soberana nas nossas vidas. E se 
era preciso passar por aquele deserto, que assim o fosse, que Ele 
nos desse a Sua Fora.
No fundo dos nossos coraes sabamos que Deus estava 
no controle daquela situao!
No final daquela manh recebi um bip da agncia de 
empregos. Telefonei em seguida, esperanoso.
 Voc poderia vir aqui hoje?  falou a selecionadora.
 Posso, sim.
Eu conhecia um pouco do protocolo. Eu j tinha feito a 
entrevista final na Empresa, de forma que, se ela estava me 
chamando para ir diretamente  agncia, talvez fosse para me 
dar uma boa notcia. Quando a notcia no era to boa assim, 
normalmente comunicavam por telefone mesmo.
Me arrumei todo, super lampeiro. Por mais que Deus 
tivesse falado em Ministrio, se nada acontecia, eu no podia 
ficar esperando de braos cruzados, morrendo de fome!
Fui, j imaginando que certamente seria contemplado e 
pensando no que fazer para agentar at o recebimento do meu 
primeiro salrio. Minha cabea fazia contas e mais contas, 
incessantemente, imaginando o que era mais urgente e o que 
poderia ser deixado para um pouco mais tarde.
Quando sa, Isabela ainda estava dormindo, de forma 
que eu esperava poder dar-lhe uma boa notcia to logo 
acordasse, fazendo surpresa.
Quando cheguei  agncia, fiquei aguardando um pouco 
como era praxe, estava tudo lotado. Como eu estava animado, 
aquilo realmente pareceu "um pouco". Na verdade, tomei o 
maior ch de cadeira...
Quando finalmente a moa me chamou, foi para me dar 
a pssima notcia de que eu no tinha sido aprovado. Mais uma 
vez! Exatamente como estava acontecendo desde novembro do 
ano passado, quase nove meses! Aquele j deveria ser o 
duodcimo processo de seleo, pelo menos, em que eu chegava 
 final... e dava com os burros n'gua! Morria na praia!
Ela deve ter percebido pelo meu rosto que a notcia teve 
o efeito mais ou menos de um banho de gua gelada...
 Mas, olhe, no fique desanimado! Eu chamei voc 
aqui para dar a resposta pessoalmente porque tenho um outro 
processo comeando, que se encaixa perfeitamente no seu 
perfil, numa tima Empresa tambm, e gostaria de saber se voc 
quer participar.
 Claro, n?  preciso continuar tentando.
Sa de l anestesiado. Estava muito, muito triste. 
Novamente sem saber para onde ir e muito menos o que fazer. 
De quebra eu no tinha quase que nem um tosto no bolso. Para 
no ser excessivamente dramtico, tinha R$ 5,00!
Perdi minha oportunidade de fazer uma surpresa para 
Isabela e, de repente, no parecia uma boa idia ir direto para 
casa. A tarde estava findando e os nibus estariam muito cheios.
Ento resolvi dar um pulo ao Shopping Paulista, ali 
perto, para tentar esfriar um pouco a minha cabea.
Fui caminhando devagar, subi a Avenida Brigadeiro sem 
conseguir prestar ateno em nada, perdido nos meus prprios 
pensamentos, remoendo aquelas sensaes ruins, aquela 
incerteza, aquele sentimento de angstia, aquela impresso de 
que cada vez mais o cho saa de debaixo dos meus ps...
Nada parecia ter graa para mim naquele momento, me 
senti profundamente deprimido.
"Vou sentar um pouco e tentar me acalmar, pensar no 
que fazer... vou tomar um caf, para isso ainda tenho dinheiro."
A praa de alimentao estava praticamente vazia, ainda 
no era hora de pico no Shopping. Comprei um cafezinho 
expresso ali mesmo na gndola, bem perto de onde tinha a 
sorveteria por quilo da Ofner e a Baked Potatoe.
Sentei diante do meu caf e por algum motivo at me 
esqueci de tom-lo, fiquei apenas observando a fumacinha que 
saa de dentro da xcara. O caf na verdade era uma desculpa, 
uma vlvula de escape. Mais tarde poderia dizer a mim mesmo 
que aquele dia no tinha sido de todo perdido, afinal sentei para 
tomar um caf no Shopping! Mas eu no tinha nem foras para 
tom-lo...
Suspirei. No contemplava nenhuma sada, a nica coisa 
que podia perceber  que cada vez mais tudo estava ficando 
pior. O que seria de ns?! Estar ali no me acalmava, de modo 
algum, pelo contrrio... foi me dando um desespero intenso... 
aquela angstia aumentava.
"Casei... e nenhum de ns dois quer voltar pra casa da 
mame! No  possvel que isso v acontecer. Por que Deus 
permitiu o casamento, ento? Ns nos aconselhamos com todo 
mundo, todo mundo nos incentivou apesar da situao, todo 
mundo acreditou que era tempo. Quer dizer, todo mundo se 
enganou?!."
L estvamos ns, Isabela e eu, naquela sinuca de bico. 
E me lembrei do que Marlon tinha dito... realmente no 
conseguia ver muitas pessoas me ajudando. Especialmente 
aquelas que tinham condio! Embora batssemos de porta em 
porta, elas tambm se fechavam uma aps a outra. Me senti 
revoltado.
Eu sabia perfeitamente a que espcie de ajuda ele tinha 
se referido, Marlon estava falando de uma ajuda financeira. Ele 
me avisara de que eu ia precisar disso, desde aquele dia, no 
ponto de nibus, quando me ofereceu R$ 5.000,00!
Eu continuava olhando a fumaa no caf sem v-la, 
quando de repente algum interrompeu o rumo dos meus 
pensamentos. Eu nem os tinha visto chegar, quando dei por mim 
uma voz me perguntou, com extrema educao:
 Voc d licena da gente sentar aqui com voc?
Quando olhei para cima vi um homem que estava em p 
na minha frente, ao lado de duas moas. Eu o reconheci 
imediatamente. Era Grion, um antigo amigo que tinha feito 
parte do meu Grupo de Conselho, na Irmandade. Minha reao? 
A bem da verdade, nenhuma. Olhei e continuei anestesiado. Eu 
ainda no conseguia v-los como meus inimigos em potencial. 
Tudo que podia perceber  que ali na minha frente estava uma 
pessoa que eu conhecia. Algum com quem tinha convivido 
durante muito tempo. Quanto s outras duas, no sabia quem 
eram.
 Pode sentar  falei, sem nfase.
Os trs se acomodaram. Grion olhou para mim e tinha 
um semblante sincero de compaixo. Comeou sem muitos 
rodeios, dispensando explicaes.
 Voc no precisa estar passando por isso... pra que 
isso? At quando voc vai insistir no erro?  falava com voz 
mansa, sem tom de acusao.  Voc no v que nada est 
dando certo, que ningum est do seu lado? Os crentes gostam 
de bater no peito e falar que " mais forte aquele que est em 
ns do que aquele que est no mundo"... mas... como pode 
haver fora no meio da desunio? Como pode haver fora na 
diviso? Voc est vendo isso com seus prprios olhos hoje de 
maneira mais clara do que nunca. O prprio Jesus j disse que 
uma casa dividida no prevalece! Ento... cad a fora? A fora 
est na unidade! Ns somos unidos. E ainda te amamos muito. 
Voc est fazendo falta...
No parei para pensar naquela hora que, para todos os 
efeitos, a data limite j tinha esgotado. Talvez essa histria de 
data limite tivesse sido to-somente mais uma cartada deles. 
Como quisessem uma resposta rpida da minha parte, usaram 
aquilo para me pressionar, me obrigar a tomar a deciso logo.
Mas talvez aquele no fosse ainda de fato o ltimo 
instante.
E como eu tinha tomado uma deciso contrria ao que 
eles imaginavam, acabaram mudando a estratgia e agora 
novamente tentavam me persuadir a voltar.
Era isso. Aquilo passou em milsimos de segundo pela 
minha mente.
 Voc vai ser bem-vindo!  continuou Grion sem 
pestanejar.  Olha, deixa te apresentar as nossas 
companheiras...
Ele falou o nome das moas, que sorriram para mim e 
estenderam a mo. No me lembro dos nomes, nem estendi a 
mo de volta. Uma delas, a que me olhava com mais interesse, 
ainda cochichou para ele, meio sorridente:
 Ento esse que  a alma gmea da Tassa?  E 
parecia muito espantada. No tenho idia do que ela podia estar 
pensando, mas pelo visto eu devia ser uma pessoa muito 
comentada no meio deles.
Grion mudou um pouco a expresso do rosto, fez 
apenas um sinal de "sim" com a cabea, e ao mesmo tempo um 
"fica quieta". Seu olhar foi um pouco mais enrgico para ela. 
Ele tinha plena conscincia de que no estava ali para 
brincadeiras, era uma situao sria e delicada. Hoje sei que 
talvez fosse muito mais sria e delicada para eles do que para 
mim.
 Voc conquistou uma patente dentro do Reino de 
Deus. Isso  claro. Alis, ns s pudemos nos aproximar e 
sentar aqui nessa mesa com voc porque houve um acordo entre 
as nossas Guardas. Ns temos os nossos Guardies, voc sabe... 
mas voc tambm tem um Guardio! Digamos que houve uma 
permisso da parte dele na nossa aproximao...  um encontro 
autorizado!  ele sorriu.  Nossos Guardies entraram em 
acordo! E se houve esse sinal verde para ns, talvez esse seja 
realmente... um sinal. Um sinal de que voc pode escolher...
Certamente meu "Guardio" estava muito bem 
posicionado ali ao meu lado. Talvez por isso Grion tivesse sido 
um pouco rspido com aquela moa bisbilhoteira. Qualquer 
passo em falso poderia ser fatal! A velha histria daqueles que 
vibram muito negativo chegando perto de algum que vibra 
muito positivo... (Leia Filho do Fogo).
Mas naquele momento no pensei em nada disso, apenas 
continuei olhando para ele, esperando, sem dar resposta. Na 
verdade, me sentia sem foras para nada. Ento Grion 
empurrou na minha direo um envelope grande que envolvia 
alguma coisa.
 Aqui esto as nossas verdades, para que voc no 
esquea. Esta  a verdadeira verdade que liberta! A Verdade que 
voc vive...  uma mentira. Quem vive a Verdade, afinal? Os 
crentes, de uma forma geral, vivem uma mentira! Uma 
fachada... um farisasmo. Mas ns, no. Voc sabe disso. Acho 
que voc j teve tempo suficiente para comparar.
Ele no estava batendo de frente comigo, no estava me 
recriminando, apenas falava com mansido. Ento peguei o 
envelope e abri para ver o que tinha dentro. Era um livreto de 
capa preta, com o pentagrama e o bode desenhado nele...
  claro que esta no  a mesma bblia que voc 
conheceu, e que tinha com voc, inclusive... mas que, 
infelizmente, voc destruiu...! Este  o nosso livro doutrinrio. 
Tem sido hoje uma das nossas ferramentas mais poderosas para 
recrutar pessoas, em todos os segmentos, em todos os cantos do 
mundo. J foi traduzida para muitos idiomas! Ento... releia, n? 
Voc vai relembrar as nossas verdades.
Abri o livro e, por algum motivo que no entendi, estava 
em ingls. Acho que eles deviam estar lembrados que eu no era 
fluente no ingls, no entanto... ali estava ela, uma bblia 
satnica. Resumida, sim, mas ainda assim... uma bblia satnica.
Suspirei, passei a mo pela cabea. E no falei nada 
novamente. No estava a fim de falar nada. Continuei 
escutando. Grion carregava consigo uma mochila. Ele colocou 
a mochila no colo e tirou de dentro dela um outro pacote. Um 
embrulho de papel pardo.
 Aqui tem US$ 30.000. Ns estamos dando isso para 
voc como uma ajuda, no estamos te comprando, hein, por 
favor...  realmente uma ajuda, porque sabemos da sua 
dificuldade. Ns te amamos de verdade, por isso estamos te 
oferecendo isso. Queremos o melhor para voc... e j que 
ningum do seu lado te ajuda, nem nunca vai te ajudar, ns 
estamos te ajudando! Demonstrando que de fato ns nos 
preocupamos com voc...
Ele fez uma pausa. Eu esperei.
 Isso aqui vai fazer com que voc consiga pensar, 
refletir. Porque ningum consegue pensar nesse estado que voc 
est! O que Deus est fazendo com voc, e o que a Igreja est 
fazendo com voc no se faz nem com o pior dos bandidos na 
face da Terra! Voc est sendo torturado fsica, emocional e 
espiritualmente. Ento... esse dinheiro vai trazer um pouco de 
tranqilidade para a tua alma, paz no seu esprito... equilbrio 
para sua mente. E voc vai conseguir ponderar as coisas, vai 
chegar  concluso bvia: onde est a verdadeira Verdade, a 
verdadeira vida! Realmente entenda este nosso passo como uma 
ajuda que estamos te dando voluntariamente, no se trata de te 
"comprar". S queremos que voc tenha a cabea fria para 
poder pensar.
Grion empurrou o pacote na minha direo. E aquilo 
ficou diante dos meus olhos.
 Repensa  disse ele mais uma vez. E fez uma 
pequena pausa antes de dar continuidade.  Fora isso, h algo 
mais em que repensar... esse casamento que voc fez s est te 
trazendo runa e destruio. Ns estamos te esperando de braos 
abertos, voc sempre foi especial...  Grion emocionou-se um 
pouco, deixando cair algumas lgrimas.
Ele pareceu muito sincero. Eu olhei novamente para 
aquele tijolo na minha frente. Era realmente um tijolo! Um 
tijolo de dinheiro... e pensei l com meus botes, a mente 
voando to rpida quanto o vento...
"Eu s tinha R$ 5,00 no bolso... agora tenho R$ 4,00 
porque comprei o caf... depois que pegar conduo, vou ter 
apenas R$ 3,00... eu posso voltar para casa com esses R$ 3,00, 
ou... posso voltar com US$ 30.000!"
O pensamento que se seguiu imediatamente aps foi a 
respeito do dinheiro que tinha sumido da nossa conta, havia 
pouco mais de um ano.
"Puxa vida... Deus est restituindo! Est tirando do 
mpio para dar ao justo! E est vindo com juros, aqui tem mais 
do que ns tnhamos antes..." Naquela poca o dlar estava 
praticamente empatado com o real. "Eu mereo isso!"
E estava pronto para aceitar. Pus a mo em cima do 
dinheiro, para puxar pra mim. Mas imediatamente veio um 
alerta no esprito, um sinal vermelho. Certamente era o 
discernimento que Deus tinha me dado, mas naquela hora to 
imprpria?!
Fui invadido por uma sensao ruim, ruim, um mal-
estar, uma angstia forte... aquele foi o "no" mais claro que eu 
j tinha ouvido de Deus at ento. Era um sinal de morte. De 
luto. Uma sensao sombria, de pesar, densa. Indescritvel. 
Realmente uma coisa horrvel. Horrvel!
"Meu Deus do cu..."
Eu praticamente podia ouvir dentro de mim aquela voz 
que me dizia, fortemente:
"No aceita. No aceita! Isso vai dar legalidade, essa  a 
chave, essa  a porta.
No abre essa porta."
Como estivesse ainda com a mo sobre o dinheiro, 
lentamente empurrei-o de volta na direo de Grion.
 No... isso eu no posso aceitar... mas o livro eu 
aceito!
Peguei o livreto para mim. Deus no tinha sinalizado 
nada perigoso naquilo. Na verdade, eu gostaria de mostr-lo 
para Grace. Mesmo porque, nem que quisesse poderia l-lo.
Grion olhou primeiro para o pacote. Depois, quando 
ergueu os olhos para mim, eles j estavam diferentes. 
Demonstravam irritao. Mas no dio. Apenas irritao... 
indignao... o semblante de quem se sente afrontado com tal 
negativa. As duas tambm olhavam para mim com uma mistura 
de admirao e espanto.
Ento ele me olhou fundo e falou baixinho. Bem 
baixinho. Isso  uma caracterstica deles, dos Satanistas. Podem 
lanar o mal e a morte sem fazer escndalo.
 Se vocs botarem os ps nos Estados Unidos, a 
famlia de vocs vai sofrer as conseqncias aqui. Ns vamos 
acabar com eles! Ali  o olho do ciclone... vocs no esto nem 
preparados para isso, para pisar naquela terra.
Novamente. Nossa vida parecia um livro aberto! Ento 
eles sabiam daquele convite...
Grion simplesmente continuou, quase sem piscar:
 Aquele crentinho de bosta, por exemplo, vai invejar 
os mortos. Ele vai buscar a morte e no vai encontrar... vai 
desejar a morte, e a morte no ir ao encontro dele. Porque 
aquilo que est reservado para a vida dele  sofrimento, muito 
sofrimento, muita dor! E com isso ns estamos fazendo um 
benefcio a voc, no  mesmo? No seu corao tambm h 
ira... mas voc no pode fazer isso com suas prprias mos! E 
por qu? Porque Deus no permite que voc faa, quer que voc 
d a outra face. Pois ns no damos a outra face! Ns vamos te 
vingar... porque ainda amamos voc.
Tambm entendi o que ele estava falando. J fazia at 
que um bom tempo, mas uma vez Marco e eu brigamos feio. 
Naquela ocasio, no fosse pela interveno de Isabela, eu e ele 
teramos cortado relaes. Mas ela, com toda a intensidade do 
seu corao, com toda splica e perseverana, me fez ver que 
tambm aquilo era um golpe do diabo. Falou sobre sua famlia, 
cuja marca era a diviso. E que se eu cedesse a isso,  diviso 
entre ns dois  Marco e eu  seria somente um trunfo a mais 
para o diabo.
 A carreira dele est morta. Ns nunca vamos permitir 
que ele suba um degrau. Grion era uma importante pea dentro 
do contexto publicitrio brasileiro.
Ele era um dos 90 escolhidos que preparariam o cenrio 
poltico brasileiro para o advento do anticristo (Leia Filho do 
Fogo). Estes 72 homens e 18 mulheres estariam quase todos 
inseridos na poltica, mas tambm penetrariam alguns patamares 
importantes da mdia.
Depois disso, ele simplesmente se preparou para ir 
embora.
 E voc tem certeza do que est fazendo?  ainda se 
referia ao dinheiro. Assenti. Mas foi muito difcil. Se dissesse 
que foi fcil, estaria mentindo.
 Tenho. Deus vai cuidar de mim...
 Espero que voc esteja certo...  ele tocou no meu 
ombro, com pesar. Levantaram os trs, e foram embora. 
Instintivamente baixei os olhos para o caf. Ele continuava ali, 
exatamente do mesmo jeito. Mas j no saa fumaa. Me passou 
pela cabea aquilo que Marlon costumava falar sobre o caf... 
que tinha uma moeda no fundo...
"Absorver o negro... para conhecer a verdade... meu 
Deus, quanto engano!" Levantei os olhos num misto de 
sentimentos contrrios e estranhos. Agora minha alma estava 
gritando. Na hora, eu tinha escutado o esprito. Mas agora, era 
minha alma que falava.
"Ser mesmo que no devia ter aceitado??"
Vi os trs caminhando, descendo pela escada rolante.
"Se correr atrs deles, e falar que eu quero... acho que 
eles me do o dinheiro!"
Mas repensei. No. Deus iria dar um jeito. Orei ali um 
pouco, num desabafo:
 Eu estou sendo fiel... ah, Deus, que o Senhor tambm 
seja Fiel! Foi muito, muito difcil!
Novamente me bateu aquele desespero. Larguei o caf 
ali mesmo, praticamente corri at o banheiro. Tranquei a cabine 
e chorei, chorei, chorei... depois sa, lavei o rosto... e fui embora 
para casa com a bblia satnica.
Quando cheguei, j era noite. Isabela estava na cozinha 
tentando inventar um jantar. Notei pelo seu rosto que tinha 
estado bastante preocupada.
Nem bem abri a porta da rua e ela me olhou ali da 
cozinha. A cozinha ficava bem pertinho da porta.
 Nen... puxa, aonde voc andou, hein? Quando 
acordei voc no estava em casa, no deixou nenhum recado... e 
j  noite! Chegou uma hora que eu no conseguia fazer mais 
nada, no conseguia escrever, no conseguia me concentrar em 
nada de preocupao com voc. Fiquei orando... e pensando 
onde voc podia estar. Que aconteceu?
Dei um longo suspiro.
 Deixa eu ir ao banheiro, j te conto.... Quando voltei, 
ela terminava de pr a mesa.
 Senta, Nen... improvisei como deu... no sei se est 
muito bom.
 Ah! est bom, sim.
Sentamos, nos servimos. No tinha nada de especial: 
arroz, carne moda, tomate... mas estava gostoso!
Eu ainda me sentia passado, chocado, anestesiado. E 
muito desanimado. Isabela certamente notou meu estado de 
nimo. Mas ficou esperando que eu falasse. Ento, comecei 
contando que o emprego no tinha dado certo.
Ela no falou nada. Naturalmente que ficou triste, mas 
no era a primeira vez que ela ficava triste por causa disso.
 No consigo entender...  quase como se Deus 
estivesse dizendo: "Voc  capaz, Eduardo... como voc mesmo 
v, todas as vezes voc vai at a final... Eu sei que voc sabe, e 
Eu quero que voc saiba que voc sabe! Mas Eu no quero abrir 
essa porta de trabalho"...
Fiquei quieto por um pouco. Talvez ela tivesse razo. 
Cada vez mais eu tambm comeava a crer nesta possibilidade. 
Deus estava permitindo aquela situao porque, por algum 
motivo, era preciso atravessar aquele deserto. Mas aquele 
deserto estava rido, estava escaldante, estava desesperador...
  No acredito que isso seja pura obra da Irmandade. 
Lgico, eles esto lanando Encantamentos... mas Deus est 
permitindo. Afinal, nossas oraes tm que ter algum poder! 
Quem sabe, mais tarde... a gente consiga entender o por que 
disso tudo.
Mas ela tambm estava desanimada. Aquela foi uma 
tentativa de fazer com que eu me sentisse melhor. Mas agora, 
pela primeira vez, ns dois estvamos abatidos ao mesmo 
tempo. At ento, no tnhamos recordao de nenhum outro 
momento semelhante. Em quase todas as lutas, ou um, ou outro 
estava mais forte. Se eu estava fraco, Isabela conseguia estar 
forte, e me animar. Se era ela que estava muito ruim, eu 
conseguia me manter em p.
Mas naquela noite no foi assim. Especialmente depois 
que contei o que aconteceu no Shopping. Isabela ouvia, calada, 
introspectiva. No soube muito bem o que dizer, compreendia o 
quanto aquilo tinha sido difcil para mim. E no estava sendo 
menos difcil para ela.
 At quando isso vai continuar?... No sei at quando 
vamos suportar esse tipo de coisa.
 Ser que deveria ter aceitado o dinheiro?  falei com 
inquietao. Nesse momento, Isabela foi veemente.
 Imagina, Eduardo! Dinheiro do diabo?!. Ainda bem 
que voc no fez uma loucura dessas. Vai saber o que podia 
acontecer depois. Se voc aceitasse, era bem capaz de estar com 
alguma doena grave daqui a um ms.
Interessante ela ter falado aquilo. Porque quando toquei 
o pacote senti aquele terrvel peso de morte.
 Voc tem certeza? Tem certeza de que fiz o certo?  
precisava escutar aquilo de novo.
 Lgico, Nen... voc ainda tem dvida? Graas a 
Deus que voc no aceitou nada deles. Graas a Deus!!
Oramos, nos reconciliamos totalmente. Mas aquela 
tristeza ficou no nosso corao. Ficamos trs dias muito mal, foi 
algo realmente indito. Por mais rdua que tivesse sido a luta 
at ento, nunca ficamos trs dias seguidos quase que em estado 
de depresso. Parecia haver um peso de morte sobre ns. Uma 
coisa diferente, mais densa, mais tenebrosa. Oramos, mas 
nossas oraes no pareciam ter impacto. Eram desanimadas, 
melanclicas... assim ns nos sentamos.
Numa daquelas trs noites, Isabela sentou no meu colo, 
na cozinha, e ficamos abraados... choramos enquanto 
orvamos. Tanto no meu corao quanto no dela parecia haver 
uma certeza de que no viveramos muito.
 Vamos aproveitar o tempo que nos resta...
Alm disso, Isabela em especial se preocupava muito 
com sua famlia. O ataque  casa dela no era uma coisa nova 
para ns. Desde que Deus tinha me dado o Dom de 
discernimento volta e meia eu percebia coisas em relao a eles. 
A primeira vez j fazia bastante tempo, tinha sido logo depois 
que o anjo ruivo derramou aquela uno sobre mim. Um dia, 
por um motivo que j no me recordo, combinamos de nos 
encontrarmos todos na Igreja. Eu fui antes com Isabela, e mais 
tarde Marco chegou com Dona Mrcia. Ns dois estvamos l 
na frente, e antes do Culto comear vi quando eles entraram.
De repente, at levei um susto! Junto com eles estava 
entrando um demnio grande, forte.
Toda procura por ajuda sempre era frustrada. Isabela se 
esforava... conversou primeiro com os Pastores da Igreja de 
Dona Mrcia. Tudo o que ns queramos era que eles dessem 
um acompanhamento mais prximo, um discipulado, que 
orassem junto com ela. Dona Mrcia costumava fazer todos os 
cursos da Igreja, costumava estar presente s reunies de clula, 
era participante e ativa.
Apesar disso, no conseguimos que eles assumissem o 
compromisso de pastore-la melhor. Um dos Pastores foi uma 
nica vez  casa de Dona Mrcia, garantiu que estaria vindo 
toda semana, mas por algum motivo nunca mais voltou. Alegou 
falta de tempo, coisas tolas.
As dificuldades de relacionamento na famlia de Isabela 
eram profundas, era algo que fugia ao controle de todos. Por 
mais que quisessem acertar, parecia no estar ao alcance deles. 
Depois do nosso casamento, progressivamente o relacionamento 
entre Isabela e Dona Mrcia foi melhorando. Mas no estava 
nada bem entre Marco e a me, s vezes parecia tambm que 
Isabela e Marco nem se conheciam, nem eram irmos. Isso 
mortificava Isabela. Ela orava muito nesse sentido, sempre 
pedindo que eu orasse junto, buscando de Deus uma soluo. 
No se conformava em pensar que no havia soluo!
Todo acompanhamento que tentvamos conseguir para 
Marco tambm no durava muito, no dava certo. Naquela 
poca ele estava sem Igreja, e nas frias comeou a freqentar 
conosco ali na Comunidade. Mas quando ia embora para o 
exterior, ficava muito sozinho, muito sem acompanhamento. 
Parecia haver uma imensa e inexpugnvel muralha cercando a 
famlia de Isabela do resto do mundo. E isso a incomodava 
demais.
Conversamos tambm com Grace, pedimos orao, 
conversamos com Dona Clara... mas a verdade  que todo 
acompanhamento no durava muito.
Quanto a ns... depois daqueles trs dias, durante o 
Culto, na Igreja, fomos renovados. De uma maneira 
sobrenatural, intensa, vigorosa. Aqueles sentimentos de morte e 
de opresso nos abandonaram totalmente. No era a primeira 
vez que isso acontecia, ns tnhamos momentos de desespero, 
momentos de desnimo, de abatimento, de dor, de solido, de 
tristeza, de insegurana, de dvida... mas no permanecamos 
neste estado por muito tempo.
Geralmente, o recebimento da Palavra, o Louvor e a 
adorao, o aconselhamento, as oraes individuais e em 
concordncia, a presena do Esprito Santo de Deus... tudo isso 
tinha o Poder de nos fortalecer e reanimar.
O que trazia tanto cansao para ns  que estes 
momentos de baixa, embora fossem momentos, eram muito 
numerosos! Quase todos os dias havia muito desgaste, muitas 
situaes de estresse.
Desta vez tinha sido diferente, tinha durado trs dias, 
mas agora tornvamos a sentir paz no meio daquela luta. 
Quando digo paz no estou querendo fazer poesia, no quero 
com isso dizer que a gente dormia muito bem  noite, que a 
gente no se preocupava com as contas, que no tinha temor 
pelo que poderia acontecer. Mas aquela sensao de morte tinha 
sido retirada!
A Luz de Deus incidiu sobre ns e nos iluminou. Nosso 
esprito foi novamente invadido pela convico de que havia um 
deserto, sim, para ser atravessado, um deserto longo e solitrio... 
mas o Senhor dos Exrcitos iria conosco!
Por sinal... nossa situao financeira foi salva pelo 
gongo mais uma vez! De novo, foi Grace. Nos emprestou 
novamente R$ 1.000,00!
* * * *
Captulo 37
A Ministrao de Isabela com Jefferson no tinha dado 
certo. Duas vezes ele marcou e desmarcou, antes da viagem aos 
Estados Unidos.
J fazia alguns meses que Grace tinha inteno de 
ministr-la. Ao longo daquele tempo em que Grace tinha o 
cuidado de mim, aos poucos foi conhecendo tambm Isabela. E 
tinha ficado clara a necessidade de Cura Interior.
Ns tnhamos comentado sobre a tentativa frustrada de 
Sarah e Jefferson, ento Grace espremeu sua agenda, ciente de 
que, agora, cuidar dela tambm se tratava de uma urgncia.
Ficou marcado para dia 30 de junho, uma tarde como 
outra qualquer.
Quando chegamos  Igreja onde Grace costumava 
atender naquela poca, estava tudo vazio e silencioso. Tivemos 
que bater vrias vezes na porta de vidro, espiando atravs dela, 
at que Grace aparecesse.
Entramos, nos cumprimentamos, fomos entrando na 
sala. Desta vez Isabela estava um pouco mais calada do que 
normalmente. Enquanto a intercessora no chegava, Grace quis 
saber um pouco de ns. Compartilhamos, e depois Grace 
comeou a conversar mais especificamente com ela.
 Grace... vou te ser sincera...  respondeu Isabela  
eu j fui ministrada tantas vezes, e no senti uma melhora real, 
que agora estou um pouco desacreditada. No estou me sentindo 
muito bem nestes dias e, a bem da verdade, acho que no vai 
acontecer nada dessa vez tambm. Se depender da minha f... 
estou sendo sincera: estou sem f! No fundo, no fundo eu queria 
muito que alguma coisa nova acontecesse. Por isso que estou 
aqui, por causa desse fiapo de esperana. Mas a minha dvida  
certamente bem maior do que o fiapo.
Isabela era sempre muito franca. No fazia mdia para 
que os outros gostassem dela, para que pensassem que ela era 
algo alm da realidade.
 Que  isso, irm?  falou Grace com convico, mas 
carinhosa.  s vezes  assim mesmo, eu j vi vrios casos 
assim, sabe?... Que a pessoa vinha e ficava do mesmo jeito, 
vinha e ficava do mesmo jeito. Mas, de repente, Deus mostrava 
alguma coisa a mais, e ento acontecia! A cura pode ser um 
processo lento...
Mesmo sem perceber, Isabela foi falando dos seus 
sentimentos, ali mesmo na conversa:
 Eu gostaria de acreditar que Deus realmente se 
importa comigo, que realmente me ama... eu sei que me ama 
porque est escrito na Bblia...
 Mas voc no sente isso de forma pessoal, no ? 
Mais ou menos...
Grace comeou a fazer algumas perguntas sobre seu 
passado, para entender qual seria a provvel origem daquele 
sentimento. Foi perguntando sobre o relacionamento familiar. E 
Isabela comeou a contar a histria do seu pai. No era fcil 
para ela. Seu rosto estava triste e abatido.
 Ento... eu sinto como se tivesse perdido o amor dele. 
E perdi o amor dele por ser ruim, por ser uma filha ruim. Quer 
dizer, talvez meu pai no tenha deixado de me amar, mas no 
era mais a mesma coisa. E o pior de tudo  que talvez ele tenha 
pensado que eu no o amava mais. Isso machucou muito o 
corao dele  seus olhos j estavam marejados. Ela se 
esforou para continuar falando.
 Voc perguntou da minha famlia, estou contando... 
durante um tempo, logo depois que meu pai morreu... no... 
acho que at mesmo antes disso, acho at que desde a poca da 
Faculdade, desde a poca em que tranquei a matrcula... eu me 
sentia como se tivesse que pagar por alguma coisa. Pagar pelo 
mal que tinha feito, pagar pela tristeza que tinha causado  
minha famlia. E se tinha que pagar,  sinal de que nunca ia 
acontecer nada de bom comigo. No meu ntimo, eu sentia como 
se s houvesse dois caminhos para mim, ou a morte, ou a 
loucura.
Grace queria entender melhor.
 Mas o que voc fez? O que voc fez para ter sido to 
ruim assim como voc est dizendo?
Isabela parou para pensar. Tinha dificuldade em 
encontrar a resposta certa.
 Bom... eu no sei direito... mas sei que eu dei muita 
tristeza, isso  um fato. Nunca foi minha inteno, Deus sabe 
disso, eu amava meus pais, minha famlia... mas, amando ou 
no, o fato  que eu causei tristeza, eu causei dor.
 Sim, mas como foi que voc fez isso?
 Porque eu queria outras coisas! Acho que o incio de 
tudo foi isso, eu era diferente do que eles imaginavam, 
especialmente meu pai... e nisso comeamos a ter divergncias, 
comeamos a brigar... algumas vezes eu desobedeci... gritava, 
era mal-educada. Acho que foi isso.
  Os pais da gente s vezes erram porque pensam que 
os filhos so exclusividade deles, possesso deles. Os filhos 
deveriam ser do Senhor, para seguir o caminho que o Senhor 
determinasse. s vezes, a origem de muitos problemas est a.
 Eu sei disso. Eu entendo isso. Mas a questo no  
essa... a questo  que eu fiz mal! Se eles agiram errado comigo, 
se eu agi errado com eles, a bem da verdade nem importa, o que 
importa  a resultante. E a resultante foi muito ruim.  E 
Isabela insistia naquele ponto.
Eu procurei ajudar.
  que ela tambm escutou muita coisa nesse sentido.
 Mais ou menos...
 Eu fui testemunha muitas vezes. E mesmo antes de eu 
conhecer Isabela, isso j acontecia.
Ela foi entrando mansinho naquele assunto.
 s vezes eu merecia escutar.
 Mas o que  que te diziam?  perguntou Grace.
 Ah, deixa ver...  ela ficou quieta um pouco, 
pensando. Nesse nterim, ouvimos batidas na porta de vidro.
 Deve ser Anglica!  explicou Grace. E levantou 
para ir abrir a porta. Quando a Anglica entrou, desculpou-se 
pelo ligeiro atraso. Devia fazer apenas quinze minutos que 
estvamos ali. Grace nos apresentou a ela. Era uma moa mais 
ou menos da nossa idade, que nunca tnhamos visto antes.
 A gente estava s conversando, mas agora que voc 
chegou vamos comear direito. Vamos orar...
Depois de consagrar o local, pedir a proteo de Deus, 
orar por mim e por Isabela, ungir Anglica para aquele 
momento, Grace sentou-se e retomou a conversa de onde tinha 
parado.
 Ento? Voc pode me contar o que costumava 
escutar?
 Engraado... no me lembro de tudo, parece que me 
d um branco na cabea... nunca tinha parado pra pensar muito 
bem nisso, mas parece que uma boa parte ficou apagada.
 Quando algum  submetido a uma agresso verbal, 
uma agresso emocional, a coisa  to sria quanto uma 
agresso fsica. Como um estupro, ou como quando a criana  
molestada sexualmente. Esse tipo de agresso fsica  a sexual 
 causa os mesmos efeitos que a agresso emocional.
 Essa  uma palavra forte, Grace!  Isabela at 
sorriu.  Meus pais sempre quiseram o melhor para mim! Isso 
com certeza, no questiono em momento algum.
 Eu sei...  falou Grace com mansido.  Mas s 
vezes, na falta de sabedoria, os pais acabam ferindo os filhos. 
Mesmo querendo o melhor para eles!
 Bom... muitas vezes eu acabei escutando algumas 
coisas do tipo: "Voc est acabando com a vida do seu pai, est 
acabando com a nossa vida... est destruindo a famlia... est 
sendo a causa da desgraa..."  ela ficou quieta de novo.  
Coisas nesse sentido... mas acho que de vez em quando, eu 
acabava escutando muito. Mas  porque tambm estava fazendo 
as coisas errado!
 Querer ser voc mesma no  errado. Pelo que eu sei 
da sua histria, e conheo de voc...
 Mas voc no me conhece, Grace! Voc no sabe 
tudo. Interrompi de novo.
 Os seus pais no sabiam o que  ter um filho que d 
dor de cabea. Se eu tivesse sido filho deles, teriam visto a 
diferena. Voc sempre fez tudo certo, sempre procurou 
agradar, sempre quis fazer o melhor. No chegava drogada em 
casa, no arrumou filho na rua...
 Eu sei  fez Isabela.  Mas...
Foi a vez de Grace mudar o rumo do assunto. Creio que 
ela j estava percebendo o que acontecia.
 Voc escutou muitas vezes que era uma filha ruim, 
que estava causando o mal. Isso  um fato. Como voc mesmo 
disse, no ?
 
 E voc acredita nisso? Voc acredita realmente que  
m? Isabela inspirou fundo. Pensou um pouco, e respondeu 
logo:
 Eu acho que sim. Porque eu estou olhando para o 
resultado, entende, Grace? Se eles chegaram a pensar tudo 
aquilo de mim... se tudo que eles falavam era verdade pra eles... 
ento... a verdade  uma s: que, mesmo no querendo, eu 
provoquei essa reao neles. Entende o que estou querendo 
dizer? Nesse sentido, ento eu acredito que seja uma pessoa 
ruim. Porque eu fiz eles sofrerem, essa  a realidade. E  uma 
realidade que no pode ser mudada!
 Mas eles tambm fizeram voc sofrer.
As lgrimas brotaram instantaneamente, embora ela 
fizesse fora para no chorar. Aquilo era uma pequena parte de 
uma dor muito grande.
 Fizeram... mas eu sei que no foi de propsito... a 
pior coisa... a pior coisa... pior do que eles falarem mal... era no 
falarem! Era me ignorar. Fazer de conta que eu no existia.
 Isso doeu muito, n?  falou Grace.
Isabela apenas assentiu, enxugando as lgrimas, incapaz 
de falar. Grace se ergueu, quieta, todos estavam quietos. Pegou 
os lenos de papel e estendeu a ela. Isabela enxugou os olhos e 
o nariz, de repente vomitou tudo:
 Eu falava com meu pai, mas ele no me respondia... 
passava dias, at semanas sem falar comigo, s vezes eu nem 
sabia direito por qu. No tinha nada que me cortasse tanto 
quanto isso. Algumas vezes minha me acabava ficando do lado 
dele, mesmo que no fosse do feitio dela agir assim. Era como 
se eles no me enxergassem, como se no se importassem 
comigo, com nada, se eu morresse talvez no fizesse diferena 
nenhuma. Sempre que eu escutava eles falando baixo na 
cozinha ou na sala, ficava atrs da porta para escutar. Porque 
cada vez que ouvia os dois conversando, tinha a impresso que 
estavam falando de mim. Falando mal de mim. s vezes, 
estavam mesmo... estavam reclamando de alguma coisa. E meu 
pai chegava a dizer "Deixa ela pra l, ela que se arrebente... ela 
faz tudo isso de propsito, para afrontar a gente...".  Isabela 
chorava mais ainda.  Entende o que eu estou dizendo? Ele 
acreditava nisso! Se acreditava,  porque para ele era verdade. E 
se era verdade, se todos eles diziam isso, inclusive meu irmo, 
depois...  porque  verdade mesmo. Eu devo ser isso mesmo, 
eu devo ser exatamente isso que eles dizem! Marco ficava fora a 
maior parte do ano... mas quando ele chegava, tenho certeza que 
muitas vezes escutou essas coisas. Uma vez ele mesmo me 
disse. Estavam todos em casa, tudo estava bem... ento eu 
cheguei da rua. A meu pai disse ao Marco: "Aguarda s um 
pouco. Nossa paz j vai acabar. Espera pra ver...". E a, o Marco 
disse que no demorou muito e eu j estava brigando com a 
minha me na cozinha. Ento... no interessa o que eu diga, no 
importa o meu ponto de vista. Eles eram a maioria, deveriam 
estar certos em algum momento. Talvez eu fosse realmente 
egosta, insensvel, a fonte de todos os males! Eu no consigo 
me sentir feliz, apesar de que hoje estou melhor... mas na poca 
em que tranquei a matrcula, at mesmo estar perto de pessoas 
felizes fazia com que me sentisse mal. Era como se eu no 
fizesse jus a nada daquilo, como se tivesse cometido um crime e 
agora tivesse que pagar por ele, e alegria fosse uma coisa que eu 
nunca teria na vida. Ou, se tivesse, seria por pouco tempo......s 
que a... no meio disso tudo... meu pai morreu.
Isabela teve que se esforar para continuar falando.
 Ele morreu acreditando em tudo isso... no tem mais 
jeito, no tem nenhum jeito de consertar isso. Essa mgoa vai 
me acompanhar pelo resto da vida! De que ele morreu pensando 
tudo aquilo de mim.
 Voc se sente culpada pela morte de seu pai?
 De certa forma, sim......
A conversa girou um pouco mais de tempo naquele 
mesmo sentido. Realmente Isabela carregava uma culpa 
indescritvel dentro de si. O resumo de todos aqueles meandros 
era esse: culpa, culpa e mais culpa.
Grace se limitou a levantar, ficou parada ao lado de 
Isabela e a abraou pelos ombros. No havia muito mais a ser 
dito, agora somente o Esprito Santo de Deus poderia fazer algo. 
Pessoa nenhuma podia fazer nada, podia mudar a maneira dela 
pensar, de ver a si mesma. Ningum podia dar alvio nenhum a 
ela. Apenas Deus.
 Pai... Isabela foi muito machucada. Ela foi muito 
ferida... e o Senhor conhece cada uma destas feridas. Queremos 
te pedir que o Senhor venha derramar o Teu blsamo sobre 
todas elas. O Senhor conhece a dor e angstia desse corao. 
Venha visitar a Tua filha agora...
Grace foi orando neste sentido durante um tempo. 
Depois continuou pedindo que ela pudesse experimentar o 
Amor de Deus.
 Pai, o teu amor por Isabela  muito grande, o Senhor 
Jesus morreu por Isabela, Ele veio ao mundo por causa dela. O 
Teu Amor  perfeito, e ns agradecemos porque ele  
incondicional. Isabela foi amada at hoje de maneira 
condicional. Mas Te pedimos que ela venha conhecer o Teu 
Amor. Ela tem olhado para o Teu Amor atravs do padro que 
ela conhece. Ela se decepcionou muito com o pai dela... ele no 
teve culpa, era isso que ele conhecia, era assim que ele sabia ser. 
Por isso hoje ela no consegue perceber, nem receber o Teu 
Amor de Pai!
Grace orava bastante nesse sentido, suplicando a Deus, 
sempre abraando Isabela, para que ela pudesse ter um encontro 
real com o Deus Pai.
 Voc conseguiu receber isso, sentir o Amor do Pai? 
 indagou Grace em seguida.
 Eu quero receber... Deus sabe que eu quero.
 Mas voc no sente nada agora?
 Ah..... Isabela tentou se explicar.  Eu no sou 
muito de ficar sentindo essas coisas, no!
Depois de conversarem um pouco mais, Grace quis orar 
novamente, usando uma outra estratgia:
 Deus, peo a Ti que o Senhor faa uso desta figura 
para ajudar a Tua filha  ento Grace foi pedindo a Isabela 
para imaginar uma pequena histria.  Imagine que voc  uma 
ovelha. Que esta ovelha, que  muito bonita, muito especial, 
est andando no campo ao lado do Pastor.
Grace fazia uma pausa. Ento perguntava:
 Consegue imaginar isto?
De olhos fechados, Isabela concordou.
 O que o Pastor est fazendo com a ovelha?
Depois de um breve silncio, sem abrir os olhos, Isabela 
falou:
 Ele est brincando com ela...
Conforme Isabela diria depois, era fcil imaginar um 
homem brincando com um bichinho.
 Ele gosta da ovelha, passa a mo na cabea dela, 
abraa, sorri... Ele gosta muito dela!
 Enquanto Ele brinca com voc, e vocs correm pelo 
campo, acabam chegando perto de um rio... um rio muito 
bonito... voc tambm consegue ver isto, vocs dois na beira 
deste rio?
 Consigo... um rio de guas brilhantes, porque o sol 
bate nas guas. Eu gosto quando o sol bate na gua e fica tudo 
brilhando...
 Ento o Pastor entra na gua com a ovelha, como ela 
est com o plo sujo, Ele lava a ovelha. Quando saem da gua, 
ela est bem limpinha. Depois disso, os dois caminham pelas 
Veredas da Justia.
Grace ficou quieta, esperando. Isabela falou novamente:
 Ele vai andando e a ovelha vai trotando do lado, ela 
corre de um lado pro outro, est alegre. Sempre que olha para 
trs, o Pastor est ali, Ele a chama de volta, ela vem correndo... 
quando ela se distrai com as coisas no caminho, Ele grita para 
ela l da frente, e espera ela vir correndo atrs.
 Depois disso vocs dois andam pelo Vale da Sombra 
da Morte. Mas Ele diz para voc... o que Ele diz para voc?
Isabela deu levemente de ombros.
 Acho que alguma coisa como: "No se assuste. Eu 
estou com voc".
 O que mais ele diz?
Isabela certamente se baseou naquilo que ela mesma 
diria para um animalzinho de estimao:
 "Minha querida, como voc  linda, como voc  
fofinha..."
Naquele momento, embora a histria no fosse real, nem 
Isabela estivesse tendo vises verdadeiras, aquela alegoria 
ajudou-a a sentir o Amor de Jesus. Atravs da figura da ovelha, 
ela pde vislumbrar uma outra forma de Amor.
 Quando o Pastor  crucificado, a ovelha faz o que? A 
resposta no demorou muito.
 Ela fica ali... fica olhando para a Cruz... a ovelha 
gosta muito do Pastor, ela no quer ir embora sem Ele...
 Depois, ela tambm fica esperando do lado de fora da 
sepultura.... .
 Quando o Pastor ressuscita, os dois saem para 
caminhar em campos cheios de flores. Depois vocs se sentam  
mesa do Banquete. Voc pode ver a mesa? Pode ver o que tem 
para comer?
 Tem o que eu mais gosto de comer. Tem uma 
massa... e muitas flores na mesa,  uma mesa muito bonita.
Eu no sabia, nem mais ningum, mas nessa altura 
Isabela j no conseguia se enxergar como uma ovelha. Agora 
ela j era uma pessoa.
 Ento o Pastor toma um clice nas mos. Ele d esse 
clice para voc beber... esse clice que Jesus te d, o que voc 
gostaria de beber das mo Dele?
Isabela chorava novamente. Uma nica palavra brotou 
de dentro dela.
 Alegria.
Depois que terminou de orar, Grace apenas ficou em 
silncio, abraando Isabela.
O nico rudo era do seu choro. Aos poucos, foi se 
acalmando. Grace tornou a sentar-se, sempre olhando para ela.
 O Amor de Deus por voc  muito grande. O Amor 
Dele  perfeito! Voc vai aprender a receber esse Amor, vai 
aprender a conhecer o Deus que  Pai. Voc no tem 
conseguido perceber o quanto Deus Te ama... muitas vezes, 
quando a gente tem uma decepo muito grande com o amor 
paternal humano, transferimos isso para Deus.
 Acho que eu tenho conhecido Deus como 
autoridade... no como pai!
 Eu queria agora que voc orasse, liberando perdo 
para seu pai. E tambm pedindo perdo por tudo aquilo que 
voc fez de errado. Errar  uma caracterstica do ser humano. 
Todo filho vai errar... mas cabe ao pai saber entender isso, saber 
perdoar.
 Isso  uma coisa que eu nunca senti. Eu nunca senti 
que meu pai realmente me perdoou por nada.
 Ento faa isso agora.
Isabela continuou se esforando para mexer em todas 
aquelas coisas dolorosas. Pediu perdo a Deus, sempre com 
lgrimas. E terminou dizendo:
 O Senhor sabe que eu no queria magoar ningum! 
Eu nunca quis fazer isso, eu o amava! Eu nunca quis gritar com 
ele, ser mal-educada, desobedecer, mentir... mas acabei fazendo. 
Acabei decepcionando. Que o Senhor possa me perdoar de 
todas essas coisas...
Quando ela ergueu a cabea, Grace indagou.
 E voc recebeu o perdo de Deus?
 Hum... acho que recebi, n? Porque a Bblia diz que 
se a gente confessar os nossos pecados, Ele  fiel e justo para...
Grace interrompeu.
 Mas no  isso que eu estou perguntando, eu sei que 
voc sabe o que a Bblia diz... mas voc recebeu de fato esse 
perdo? Em outras palavras... voc se sente perdoada?
Isabela era sempre sincera. Suspirou.
 Grace, eu quero crer nisso... mas, se fosse dizer pra 
voc que me sinto perdoada agora... no  bem assim...
 Voc  que no consegue se perdoar, no ?
Ela apenas fez que sim com a cabea.
 Isso j  outra histria. Acho que vai ser um processo.
 Ento vamos orar por isso. Se Deus j te perdoou, 
voc tambm tem que se perdoar.
Grace orou nesse sentido, e Isabela tambm. Aquilo era 
uma coisa muito forte incrustada no corao dela. Ento 
Anglica comentou:
 Eu vi agora, Grace... posso compartilhar a viso? 
Claro...
Anglica se voltou para Isabela e falou:
 Voc foi colocada numa gaiola, ficou presa nessa 
gaiola depois dos 18 anos. Ento vi que tinha sido colocado um 
vu sobre essa gaiola para que voc no conseguisse mais 
enxergar a Luz de Deus.
 Voc se lembra de algo que tenha acontecido nesta 
poca?
 De importante, no... esses problemas que estou 
falando foram mais tarde... eu entrei na Faculdade com essa 
idade.
 Vamos orar ento para que voc possa sair dessa 
gaiola... Depois disso, Anglica comentou de novo:
 Eu a vi sair da gaiola, houve um Encantamento que 
foi destrudo. Mas aconteceu tambm outra coisa muito legal, vi 
um anjo enorme atravs dela... enorme mesmo! E quando voc, 
Grace, orou para que aquela gaiola fosse destruda, vi o anjo 
ficar com as costas cravejadas de setas! Ele estava com os dois 
braos abertos, atrs dela, para proteger. E as setas que 
deveriam pegar nela, pegaram nas costas dele.
Explicar sobre os espritos em priso.
Depois dessa fase, Grace olhou para as frases de 
acusao que tinha anotado em sua agenda.
 Vamos renunciar a todas essas sentenas.  Ento 
ela mesma comeou a orar neste sentido, trazendo para a vida 
de Isabela o contrrio de todas aquelas frases de destruio. E 
Isabela ia repetindo.
 Eu no nasci para ser maldio, eu nasci para ser 
bno... no nasci para destruir, nem ser destruda. Deus no 
me criou para ser arruinada, para ter o meu corao arruinado, 
as minhas emoes arruinadas. Deus no me criou para o mal, 
mas para o bem, eu sou filha de Deus, amada por Ele, especial 
para Ele... no sou causa de males, no sou fonte de males, no 
sou a causa da destruio da famlia, no sou a causa da 
destruio e da morte do meu pai...
Assim elas continuaram, durante um bom tempo.
Depois Grace explicou:
 Vou te dar depois uma ficha que tem uma srie de 
versculos que falam sobre a nossa posio em Cristo. Quer 
dizer... o que voc  para Cristo, e em Cristo.
Anglica comentou novamente.
 Eu vi que o Senhor te deu um colar de prolas. Mas 
no foi agora, foi antes. Eu te vi numa mesa de banquete, com 
Jesus, aos 18 anos. Voc estava linda! Estava com um vestido 
de princesa, com o cabelo arrumado para cima, assim, todo 
cheio de cachinhos. E nesse dia, nesse banquete, Ele te deu esse 
colar. Ele quer que voc saiba disso, que Ele te fez princesa 
antes de voc ter sido "destronada"! Para Ele, voc sempre foi, 
voc nunca deixou de ser!
Isabela no comentou, talvez nem tenha se lembrado 
neste momento. Mas seu pai costumava cham-la de princesa. 
Depois disso, Isabela foi aprofundando ainda mais nos seus 
sentimentos.
 No foi somente a informao do meu pai que ficou 
arquivada na minha mente. Desde os 12 anos, quando fui 
mudada de classe na escola, que comecei a escutar mensagens 
negativas a meu respeito. Depois que me converti, isso 
diminuiu, ficou amortecido. Mas a comearam os piores 
problemas dentro de casa. Marco tomou o meu lugar... ficou 
sendo a referncia do bom filho, e eu a referncia da filha m. E 
hoje... meu relacionamento com Marco  praticamente zero. A 
impresso que tenho  que ele tambm me culpa por todas essas 
coisas. Mas no  culpa dele... se eu acreditei em tudo isso, e 
conhecia um outro lado da moeda, o meu lado da histria... se 
eu acreditei... imagina ele! Ouvindo meus pais falarem, 
observando as situaes por um prisma talvez um pouco 
distorcido... bom, a verdade  que aquele relacionamento 
gostoso que tivemos at a adolescncia no existe mais. Parece 
at um castigo! Eu me lembro que uma vez, numa viagem com 
meus pais, a gente fazia planos loucos para o futuro. Nessa 
poca a gente queria montar um hotel em forma de pirmide, 
imagine s! E nesse dia me lembro muito bem que disse a mim 
mesma: "No importa o que acontea, nem o que a gente vai 
fazer... mas eu gostaria de estar sempre ao lado do Marco!" E 
hoje percebo que isso tambm no aconteceu...
Isabela fez uma pausa. Depois continua:
  Agora que estou casada... de certa forma essas 
mensagens negativas continuam existindo, mas esto se 
somando a outras. Eu escuto do diabo as mesmas coisas... 
escuto coisas ruins vindas da Irmandade... eu sei que  o diabo 
falando, mas isso mexe comigo. Por vezes as pessoas dentro da 
Igreja tambm no tm muita sabedoria para falar. E tem 
tambm a questo das nossas brigas... entre eu e Eduardo... no 
 segredo para voc. E, mesmo sem querer, no sei... Eduardo 
acaba me dizendo coisas ruins tambm. Coisas que so ditas na 
hora da raiva, mas que acabam engrossando tudo aquilo que eu 
sinto dentro de mim, Pode parecer uma coisa boba, mas quando 
algum diz para voc uma coisa que j est l dentro... na 
verdade essa pessoa no est dizendo... ela est repetindo aquilo 
que eu mesma j disse para mim! Entende, Grace? Cada vez que 
algum diz que eu no presto, que eu vou ser causa de 
destruio... causa da destruio de algum... que sou a errada... 
 como se fosse um eco! Um eco do meu prprio corao, 
porque o meu corao j grita isso o tempo todo.
 Voc sabe que no  nada disso, que o diabo  sujo... 
e Eduardo diz isso para voc?
 s vezes, quando a gente briga, ele acaba repetindo 
as mesmas coisas.
 Mas ele diz isso mesmo, ou  voc que acha que ele 
diz?
 No, ele diz... ele diz literalmente. Acaba sendo 
influenciado pelo que a Irmandade fala, depois  criada uma 
situao de desconforto entre a gente, eu me comporto mal... e 
escuto o que no quero.
Novamente Grace fez uma pausa e colocou tudo isso em 
orao. Era um processo desgastante.
 Sabe... alguns anos atrs uma vez tive vontade de 
perguntar para o pessoal da A.B.U. se eles costumavam pensar 
em morte. Porque, para mim, era uma coisa to comum. Pensar 
em morte, sentir a sensao de morte, para mim era uma coisa 
praticamente diria. A ponto de me perguntar se todo ser 
humano  assim tambm...
 E por que voc pensava nisso?
 No sei, Grace, no me pergunte... eu sei que tinha 
alguns motivos, mas s vezes aquele sentimento parecia me 
perseguir de maneira muito insistente.
 Isso ainda  assim?
 Acho que sim...
Grace inspirou fundo. Pediu que ela explicasse melhor 
aquilo.
 Algumas vezes tenho a sensao de que no encontro 
a causa... no consigo encontrar o fio da meada de tudo isso! 
Parece que os efeitos esto desproporcionais em relao s 
causas... algo mais ou menos assim. Essa coisa de morte  
antiga, nem sei... nem sei! Pode ser que seja s decorrncia de 
todo esse processo que levou a um sentimento muito grande de 
desvalia. Hoje j no me sinto tanto assim, mas houve tempos 
em que eu me sentia a pior de todas, a criatura mais terrvel na 
face da terra. s vezes queria morrer... s vezes achava que a 
vida no valia a pena. Podia ser s depresso. Eu sei que isso 
existe,  um quadro psiquitrico. Mas de qualquer forma, 
parecia ir alm...
Grace foi perguntando um pouco sobre a infncia, 
perguntando sobre a origem daqueles sentimentos. Parecia 
haver uma lacuna. Isabela no conseguia encontrar nada que 
justificasse tudo aquilo.
 O problema familiar veio depois.  uma coisa de 
certa forma mais recente. No sei dizer... quando paro pra olhar 
humanamente vejo que minha famlia tinha tudo para ter dado 
certo, para termos um relacionamento slido e saudvel. Meus 
pais se esforaram, eu e Marco tambm. Eu no sei dizer o que 
aconteceu que nos levou a uma situao to ruim.
  como se tivesse acontecido alguma coisa, ou 
coisas, que tivessem feito com que o curso da histria fosse 
esse. Mas voc no sabe dizer o que foi.
  isso. A gente nunca se envolveu com nada 
espiritual pesado, nada de muito srio. Mas eu me lembro que 
algumas vezes, quando criana, via minha cama cercada de 
monstros. Monstros mesmo, em toda a volta da cama desde a 
cabeceira at o p, dos dois lados. Eu os via de noite... no 
sentia medo, mas tambm no gostava muito deles. Um pouco 
mais tarde, mas ainda na infncia, certas noites eu me sentia 
estranhamente inquieta. Eu era criana ainda. Alguma coisa me 
dizia que aquela noite ia ser ruim. Quando me vinha aquele 
sentimento, sabia que tinha alguma coisa ruim na noite. Outras 
vezes, lembro-me que falava para mim mesma: "Esta noite vai 
ser boa...". Porque eu no sentia aquela coisa no ar.
Nem tudo ficaria claro naquele dia. Havia coisas 
escondidas na vida dela, coisas de que ela no tinha cincia. 
Deus comearia a revelar aos poucos. O tempo estava 
chegando!
No final daquela Ministrao, Anglica compartilhou 
outra coisa que Deus lhe tinha mostrado.
 Aquele anjo que estava atrs de voc tinha um jarro 
na mo, um jarro com leo. Ele veio para derramar aquilo sobre 
voc, mas ele s pode derramar um pouco. Por que voc precisa 
ter mais f!
 Eu quero ter. Mas muitas vezes no consigo. Eu vejo 
que sempre  o Eduardo que recebe as vises dos anjos, que tem 
discernimento, e nada acontece comigo.
 Mas daqui para a frente isso vai ser diferente!  
afirmou Grace. Enquanto Grace saa da sala, ficamos 
conversando um pouco. Isabela explicou melhor:
 Falei isso para Grace enquanto voc ainda no tinha 
chegado.
  Foi isso que Deus me mostrou. Que voc tinha 
chegado aqui muito desanimada, sem acreditar que fosse 
acontecer alguma coisa... mas  medida que Ele for te curando, 
isso vai mudar.
Quando Grace voltou, aproveitei para mostrar a Bblia 
satnica.
 Olha, Grace, est aqui aquilo que te falei. Queria 
muito te mostrar. Acho que posso ficar com ela, no? Mais 
tarde, pode ser usada para ser mostrada nas Igrejas.
Grace pegou o livreto de capa preta e comeou a orar, 
sem responder nada.
 Senhor, passa Teu Fogo aqui, livra de toda 
contaminao...  Grace abriu o livro de boca para baixo sobre 
o cestinho de lixo.  Limpa toda, toda a sujeira do diabo, e que 
isso aqui seja s um livro. Todo Encantamento e maldio que 
ele carrega, ns cancelamos em nome de Jesus!
Enquanto Grace fazia isso, Anglica olhava com ar de 
nojo.
 Ui, que que  isso? Nossa, est saindo cada coisa 
nojenta da de dentro!  e intercedia, ainda com os olhos fixos 
no livro.
Grace terminou e me devolveu o livro. Anglica olhou 
para mim, e falou para Grace:
 Olha... eu no sei o que  isso a... mas eu acho que 
ele ainda precisa ser ministrado, porque eu vi... o brao dele se 
transformando! Sabe, aquele brao ali de repente ficou 
completamente diferente, ficou como... nem sei explicar....
Grace estava com pressa e no deu muita ateno. Se 
limitou a dizer:
Ele est sendo mesmo ministrado, ainda no acabou. 
Se vocs me do licena, preciso s ir at ali falar com aquela 
pessoa... antes, vamos encerrar essa Ministrao, orar por eles e 
limpar esta sala!
Algumas pessoas da equipe estavam ali fora. Grace era 
realmente ocupada, e nos largou os trs ali. Isabela ficou 
conversando com Anglica, tinha achado a moa simptica de 
cara e no resistiu  tentao de fazer uma pergunta sobre as 
vises. Quis saber como tinha comeado, como tinha sido 
receber aquele Dom.
Eu fiquei conversando um pouco ali fora, e depois 
fomos embora. Demos carona a Anglica at uma estao do 
metr. E seguimos nosso caminho.
* * * *
Aquela Ministrao tinha sido um marco fundamental na 
vida de Isabela. Ela seria o estopim inicial de outras revelaes 
que o Senhor traria, em momento oportuno. No entanto, o Reino 
das Trevas estava furioso. Como viramos a perceber, ou 
melhor... como ela viria a perceber, sempre que Deus procurava 
fazer alguma coisa por ela no sentido de cur-la, isso levantaria 
uma forte oposio do Inferno.
Situaes seriam criadas em torno de Isabela para que, 
em poucos dias, voltasse a escutar coisas ruins. E realmente era 
questo de dias! Aquela era uma arma poderosa que a 
machucava, e no fim fazia com que terminasse por declarar as 
mesmas palavras de destruio contra si. Ela mesma.
Nunca fui muito observador a ponto de perceber estes 
padres de acontecimentos. Muitas vezes ela chamaria minha 
ateno, mas nesse momento em especial no fui capaz de fazer 
muita empatia com ela. No conseguia compreender a 
profundidade daquela dor. No conseguia compreender como 
sendo uma coisa to importante.
Na verdade, ela no chegava sequer a passar pela 
convalescena. As feridas recm tratadas eram violentamente 
esfaqueadas outra vez!...
Aquela sensao muito leve que Isabela abrigava no 
corao, aquela sensao de acolhimento dada por Jesus, aquele 
comeo de alvio... era interrompido e substitudo novamente 
por sentimentos de morte e rejeio. Em franco desespero, com 
sua prpria boca ela novamente tomava para si aquelas 
maldies.
Depois da Ministrao com Sarah tinha sido a mesma 
coisa. Ela no conseguia ter tempo para se recuperar. Parecia 
haver uma ofensiva inexorvel para impedir que ela se curasse!
O Inferno se movia rapidamente, lanavam seu ataque 
rpido e brutal. Parecia haver um particular interesse em que ela 
nunca se curasse!
Na minha falta de sabedoria e de entendimento acabei 
sendo muitas vezes co-participante desse processo contrrio. Se 
por um lado eu queria muito ver Isabela bem... por outro, s 
vezes me sentia incapaz de ajudar! Eu ainda no tinha entendido 
a essncia do verdadeiro amor, que transcende o material. 
Sempre estava especialmente preocupado se ela ia poder ter as 
coisas que queria... me partia o corao sentir que Isabela queria 
comprar alguma coisa, e eu no tinha como lhe dar. No queria 
que ela sentisse fome, nem frio, nem passasse por nenhuma 
privao.
Mas eu no tinha entendido que precisava cuidar da 
alma dela! Nenhuma dor fsica se comparava  dor da sua 
alma... e eu no sabia lidar com isso.
Palavras so as piores armas.....por vezes no as usava 
bem. Nada bem.
Nossas guerras entre quatro paredes no trouxeram 
nenhum benefcio. Nem a mim, muito menos a ela.
* * * *
Captulo 38
De resto, naquele ms de julho nossa situao financeira 
estava mais crtica ainda do que antes.
Numa atitude extremista, fui conversar com o Pastor 
Lucas. Fui muito sincero e reclamei com ele. Como Dona Clara 
tivesse me incentivado a procurar sua ajuda, no me fiz de 
rogado.
 Pastor, realmente estou precisando de apoio da Igreja. 
Estou sempre aqui, em todos os Cultos, dou meu dzimo... e 
quando me tornei membro da Comunidade Evanglica lembro-
me muito bem das palavras do Pastor que nos recebeu. Ele disse 
que ns tnhamos direitos e deveres! Eu creio estar cumprindo 
com meus deveres! Realmente, espero que o senhor entenda que 
tenho direito de ser ajudado. A minha situao  crtica!
Pastor Lucas entendia que tinha falhado comigo algumas 
vezes. Naquele momento, foi humilde em pedir perdo pela 
omisso. Eu expliquei detalhadamente o que estava 
acontecendo. Ele deve ter percebido o quanto eu estava 
angustiado.
 O senhor tinha prometido me ajudar encaminhando 
meu currculo... mas no fez! Tambm falou que ia me dar o 
sapato e as roupas... no quero ser grosseiro, mas  preciso que 
algum me ajude!
 Voc tem razo no que est falando. Olha...  ps a 
mo no bolso e tirou alguns dlares.  Eu s estou com isso 
aqui comigo. Mas pode considerar como sendo uma primeira 
oferta. Vou pedir para Dona Clara... Dona Clara tem 
acompanhado vocs, no?
 Sim, ela tem, sim.
 Vou fazer o seguinte... vou pedir a ela para encabear 
uma lista e recolher algumas ofertas, uma coisa pessoal. Ela vai 
falar com as pessoas de forma casual sobre um casal, sem dizer 
que so vocs, e quem quiser pode ofertar. A primeira oferta  a 
minha:
Fiquei at sem jeito.
 Eu te agradeo muito. Entenda que, se eu no puder 
contar com a minha prpria Igreja... com quem vou poder 
contar?
Eu queria ardentemente que a irmandade estivesse 
errada. Eles falaram muito que eu no receberia ajuda do Pastor 
Lucas, nem da Igreja, nem daqueles que estavam prximos de 
mim.
De fato ele pediu a Dona Clara para recolher a oferta. 
Com sabedoria, Dona Clara foi conversando com algumas 
pessoas da Igreja, e aquele dinheiro nos salvou naquele ms. 
Continuamos estourando o cheque especial e o carto de crdito 
depois disso. Por um verdadeiro milagre, no final do ms o 
banco mandou um comunicado para Isabela. Eles estavam 
oferecendo um emprstimo no valor de at R$ 1.000,00, com 
facilidades de pagamento!
Ela sempre tinha sido boa correntista. Mas no tenho 
idia de como aquilo aconteceu, fato  que pudemos retirar 
aquele dinheiro. Foi realmente uma pena que Isabela no tivesse 
tido condies de cobrir aquelas frias, naquele convnio!...
Como continuasse procurando emprego, apesar de j ter 
certeza de que no conseguiria  por causa da Residncia  
Isabela esbarrou numa boa proposta. Estavam procurando uma 
pessoa para cobrir frias no ms de julho, num lugar de fcil 
acesso, com um salrio adequado.
Como eram s frias, e como o currculo dela fosse bom 
 eles sempre levavam muito em conta a Faculdade que ela 
tinha feito  optaram por contrat-la. Isabela ficou bastante 
feliz porque aquele dinheiro garantia o ms de agosto para ns.
  Me explicaram que como  s um ms, vo 
dispensar a burocracia da residncia. Eles tm plena convico 
de que eu posso fazer o trabalho, especialmente porque j fiz 
esse tipo de servio durante dois anos.
Quando fomos levar os documentos para que ela 
pudesse pegar aquela vaga, tivemos mais um problema: o CRM 
no estava pago! Claro, a gente mal tinha dinheiro para comer e 
pagar as contas, claro que o CRM no estava pago! 
Normalmente nem se consultava isso, mas aquela Empresa 
consultou.
 Tudo bem...  s voc pagar e a vaga continua sendo 
sua!
 Ah, OK... muito obrigada!
Isabela nem teve coragem de falar mais nada. Se poupou 
de explicar que no tinha dinheiro para aquilo.
Assim fomos levando aquele ms de julho. Estava frio, e 
o Fran's ficava bem pertinho de casa, dava para ir a p. No 
entanto, naquele primeiro ano de casamento, nosso sonho de 
sair  noite, andando, para tomar capuccino com po de batata, 
depois voltar para casa, andando... sentindo o friozinho... no 
foi satisfeito!
Essa era uma poca em que vivamos de economia em 
economia. Agora, Isabela comia sempre o "fim" das coisas. Essa 
histria do "fim" tinha ficado famosa, porque Dona Mrcia 
costumava comentar que Isabela nunca raspava nada: sempre 
ficava um restinho do requeijo, um restinho da gelia, um 
restinho do leite, um restinho da comida...
Isabela ria e comentava, assentindo:
 No sei por que, mas no gosto do "fim"...
Mas em casa, agora, sempre que tinha um requeijo, ou 
uma gelia, ou um queijo... a gente comia tudinho, at acabar! O 
que no faz a necessidade! Bendito "fim"! Mas nunca faltou 
nada, o essencial ns sempre tnhamos, o Senhor era Fiel nesse 
aspecto.
Certa ocasio, ainda durante as viagens com Sarah e 
Jefferson, Isabela queria um queijo fresco. Fazia bastante tempo 
que ela no comia esse tipo de queijo, e s no comprou porque 
estava caro. S tinha pedaos grandes no supermercado.
Ento, numa das viagens, algum deu de presente para 
Sarah um queijo fresco. E ela, sem saber, deu o queijo para ns.
Nessas pequenas coisas Deus provava Sua Fidelidade. 
Fomos experimentando isso no dia-a-dia. Isabela ficou feliz da 
vida com o queijo!
Uma vez, estvamos esperando a cesta bsica, e Isabela 
estava contando com o pacote de bolachas. Mo sei por que, 
naquele ms no veio. Frustrada, Isabela reclamou com Dona 
Mrcia. Da Dona Mrcia acabou comprando vrios quitutes 
para ns! A gente evitava ficar falando essas coisas com ela, 
Isabela imaginava que sua me fosse ficar preocupada demais, e 
no queria isso. A gente sabia que tudo aquilo estava no 
controle de Deus.
Claro... havia momentos em que eu me descontrolava 
um pouco, como quando fui falar com o Pastor Lucas! Mas a 
gente estava vendo a proviso de Deus! Como estava! No foi 
uma nem duas vezes que o dinheiro chegou at ns na ltima 
hora. Na hora em que tudo ia explodir, eu ia deixar de pagar as 
contas, o aluguel... alguma coisa acontecia!
Geralmente era assim. Experimentamos muito disso 
naqueles meses.
Independente disso, nossa vida era bem restrita. Como j 
disse, no faltava o bsico, mas no sobrava para absolutamente 
mais nada. E o bsico... era assim: a gente no escolhia mais 
marca de xampu nem de condicionador, tinha que ser o mais 
barato. E um frasco s para os dois! Isabela no comprava mais 
biscoitos da sua marca preferida. Agora ia no mais barato. Eles 
tinham um timo gosto! Ela tambm no comprava mais gelia 
importada, tinha que ser a gelia daquelas baratinhas mesmo.
Uma coisa me surpreendia em Isabela nestas horas. Ela 
nunca reclamava! No ficava me azucrinando, exigindo as 
coisas, reclamando daquela escassez. Isabela nunca tinha 
passado por uma situao semelhante em toda sua vida, nunca 
tinha lhe faltado nada. Mas eu sabia que no  fcil, s vezes, 
abdicar de pequenos prazeres. Como entrar no supermercado e 
deixar de levar um monte de coisas que a gente gostaria. Como 
poder fazer uma pequena viagem...
Cortar o cabelo era outra coisa suprflua. Eu cortava 
quando no tinha mais jeito, naqueles barbeiros de bairro, uma 
coisa terrvel! Isabela no cortava. Prendia o cabelo e dizia:
 Entre fazer um corte medonho, e esperar... melhor 
esperar que alguma coisa acontea e eu possa ir cortar onde 
estou acostumada!
Por causa disso alguns momentos tinham para ns um 
significado especial.
Era muito gostoso tomar ch no final da tarde, por 
exemplo! A gente no ia se privar at mesmo disso, ento 
comprvamos alguma coisa gostosa na padaria e fazamos um 
lanche em casa. No fosse o eterno barulho do vizinho, teria 
sido mais gostoso morar no apartamento.
Mas no final da tarde, comeo da noite, normalmente a 
coisa silenciava.
Ento, as lembranas mais gostosas dessa poca so 
destes cafs que a gente
 fazia. Era gostoso pr a mesa, eu coava o caf, e a gente 
sentava para conversar  e comer alguma coisa. Era muito bom!
De vez em quando Dona Mrcia dava um dinheirinho 
pra gente, quantias simblicas: R$ 50,00, R$ 100,00. Mas, s 
vezes, a gente estava sem nada e de repente caa na nossa mo 
R$ 10,00! Incrvel como R$ 10,00 podiam ser a festa: dava pra 
gente ir ao Shopping, tomar um caf, dividir um sorvete, 
comprar uma meia para Isabela. Quando estou falando meia, 
estou falando meia mesmo: ela gostava daquelas meias 
coloridas, com bichinhos, de cano curto. Comprar um presente 
era sempre uma boa coisa! Claro que a gente deixava o carro na 
rua, fora do estacionamento do Shopping. Seria impensvel 
gastar R$ 2,00 ou R$ 3,00 com estacionamento!
No ms de julho tambm chegou o nosso conjunto de 
sofs. O aniversrio de Isabela caa no final de junho, e Dona 
Mrcia quis nos abenoar com alguma coisa bem til. Nada era 
melhor do que os sofs. Fomos todos juntos ao Lar Center, eu e 
Isabela escolhemos o conjunto do nosso gosto: um sof de dois 
lugares e outro de trs lugares, em tom creme, com estampa de 
flores. Muito bonito! Dona Mrcia dividiu em quatro vezes e 
nos deu um timo presente!
Quando chegou a entrega, a gente nem acreditava que ia 
poder assistir televiso sentados no sof, em vez de deitados no 
cho. Nossa sala ficou bem mais acolhedora. Havia alguns 
meses ns tnhamos tirado o papelo da janela e colocado uma 
cortina feita com trs cangas que Isabela tinha. Eu arrumei um 
tubo de PVC e ela costurou as cangas pela ponta. Ficou bem 
legal! Deu um ar colorido no ambiente. Quando batia sol, a sala 
adquiria uma tonalidade meio colorida tambm.
Com muito esforo conseguimos comprar duas 
prateleiras. Prateleira  modo de dizer, compramos duas tbuas 
em casa de material de construo e instalamos na parede com 
suporte embaixo. Ns compramos uma, e Dona Mrcia nos deu 
outra de presente. Isabela passou verniz, e finalmente tivemos 
aonde apoiar algumas coisas. Uma ficou na cozinha, um lugar 
fundamental porque ali no tinha armrio, e a outra ficou no 
escritrio.
Desse jeito a gente ia vivendo. Com bom humor, porque 
a maior parte das vezes somente o bom humor se apresentava 
como soluo para aquelas pequenas agruras. O nosso bom 
humor fazia com que aquela cortina de cangas, por exemplo, 
fosse a coisa mais linda do mundo.
O bom humor tambm fazia com que a gente no se 
importasse em cozinhar no fogozinho de acampamento. Pelo 
menos a gente tinha aquela chama! Era comum eu entrar na 
cozinha e o bujozinho estar ali, bem no meio da cozinha, no 
cho, cozinhando lentamente o nosso macarro.
Era muito bom tambm quando vinha algum brinde na 
cesta bsica. Algum da Igreja trabalhava na Nestl e, me 
parece, de vez em quando os funcionrios ganhavam alguns 
estoques de alimentos que estavam com o prazo de validade 
estourando. Isso era doado para a Igreja, e colocado na cesta 
bsica.
Ento s vezes vinha uma torta congelada. Mas a gente 
no tinha forno para fazer a torta, ento era preciso cozinh-la 
no microondas. Quase derretia a torta, ela ficava mole, mas para 
ns era um verdadeiro manjar!
Alis, no fosse o fato de podermos comer na casa de 
Dona Mrcia, teramos at passado fome. Mas no passamos, 
graas a Deus! Naquele tempo Deus nos dava de pouco em 
pouco o man para cada dia, a poro certa para no faltar e no 
sobrar. Nisso, mesmo que a gente no quisesse, teria que admitir 
que Deus estava sendo um Fiel Provedor. O mais difcil era 
acalmar a ansiedade da alma. Eu, em especial, ficava muito 
ansioso. Eu era o homem naquela casa!
Normalmente Isabela procurava me animar, me 
incentivar a ficar calmo. A gente procurava no olhar para as 
pessoas... olhando para elas, seria mais fcil acreditar que a 
Irmandade tinha razo. Mas a gente procurava olhar para Deus o 
tempo todo, e o nosso corao estava sempre grato a Ele, 
sempre tnhamos disposio de adorar, louvar, de ouvir a 
Palavra. Essa era a nossa fora! Essa era a nossa esperana.
Isabela costumava dizer:
 Uma hora isso vai chegar ao fim. Tem que chegar ao 
fim! A gente tem que agentar at l. Deus est vendo tudo 
isso... Quanto a isso, no tnhamos a menor dvida.
Mas... bem que Deus podia dar um jeito de nos arrumar 
uma mquina de lavar! A nica coisa que estava fazendo falta 
mesmo era isso! Eu j estava cheio de lavar roupa no tanque... 
no poderia deixar Isabela fazer aquele servio pesado. Quanto 
a ela, o que mais sentia falta era de uma faxineira! Mas esse era 
um luxo impensvel. Na minha casa nunca tivemos empregada, 
mas Isabela no estava acostumada. Haja boa vontade!
* * * *
No final de julho, toda hora Isabela comentava comigo 
sobre os arremates finais no livro.
 Escolhi um nome... vamos ver o que voc acha! Eu 
tinha pedido para voc pensar tambm, mas pelo visto...
 Pois . Que nome voc pensou?
 Filho do Fogo.
 Filho do Fogo! S isso?
 S. Acho que isso diz tudo. O que voc acha?
No demorei a responder.
 Gostei. Ta!
Isabela tinha trabalhado como uma condenada. 
Finalmente tinha chegado a hora de imprimir tudo para ela reler 
pela ltima vez.
 Eu j tinha relido mais de uma vez na tela do 
computador. Mas agora quero ver no papel, tenho que ter 
certeza de que est tudo em ordem, todos os acontecimentos 
narrados direitinho, na seqncia certa, enfim... tenho que ler 
mais uma vez!
Ela estava particularmente feliz com o trmino do 
trabalho.
 No acredito que estou terminando! No acredito que 
consegui escrever este livro! Especialmente agora, nestes 
ltimos meses de tanta instabilidade, foi o tempo em que mais 
trabalhei... graas a Deus, graas a Deus! Estou acabando!
A dava at umas danadinhas de alegria. Em outros 
momentos, ficava abatida.
 Puxa vida... que histria... e como  que vai ser 
quando a gente publicar? Sei que Deus disse, mais... voc sabe, 
n?
 Sei.
Eu no quis reler o livro. No queria mais pensar 
naquilo. J bastavam as Ministraes e as conversas com 
Isabela. Queria confiar que o livro tinha ficado bem escrito. Por 
sinal, essa era uma das preocupaes dela:
 Ser que ficou bom? Ser que as pessoas vo gostar? 
Ser que esse livro vai ser bem aceito do ponto de vista 
literrio?
  preciso a gente mandar para a Grace. Se ela 
concordar com tudo que est escrito, ento publicamos.
Isabela se sentia bastante inquieta. Aquele era um 
trabalho que tinha durado quatro anos. Somente ela sabia do 
esforo, do empenho, da dedicao empenhada no livro. Ela, e o 
Senhor. Isabela sabia quantas horas tinham sido gastas no 
trabalho. As horas de conversa, as horas de escrita, as horas de 
leitura, as horas de releitura.
Ns dois sabamos quanta dor, quantas lgrimas, quantas 
noites insones. Quanta orao e jejum para que Filho do Fogo 
viesse  luz. Inclusive antes de escrever o final da histria, 
Isabela fez trs dias de jejum. Nas ltimas reunies com Dona 
Clara, falava incessantemente sobre isso:
 Eu preciso conseguir escrever um final impactante! 
Agora, todo esse lixo satnico tem que ser quebrado, tem que 
ser encarado por todos os leitores como lixo. No sei se tenho 
condies de fazer isso, tenho medo de no conseguir... preciso 
realmente de uma capacitao de Deus! Ns j fizemos muito 
jejum, e j oramos muito pelo Filho do Fogo. Mas o final  
importantssimo!
Aquela era uma grande vitria. Independente do que ia 
acontecer, fosse conosco, ou mesmo se a repercusso no se 
mostrasse satisfatria... estava cumprido! Aquela direo e 
ordem de Deus estavam cumpridas! Que alvio e que alegria! S 
ns dois sabamos realmente o preo altssimo que tinha sido 
pago para que o livro existisse. Agora ele estava ali: um bolo de 
folhas de papel sulfite.
 Puxa vida!!!  exclamava Isabela.  Eu passo o dia 
inteiro lendo e no acaba! No consigo terminar de ler... no 
imaginei que tinha ficado to grande! Quantas pginas ser que 
vai dar?
Ns tnhamos recebido uma indicao de Sarah sobre 
uma pessoa que sabia fazer diagramao e que poderia nos 
ajudar inclusive com a capa. Nenhum de ns dois tinha a menor 
idia do que fazer para publicar um livro! Mesmo porque, 
tambm no tnhamos dinheiro para isso!
 Se Deus quer a publicao, vai trazer os recursos  
falei eu.
Telefonei para o rapaz, Fbio, e conversei com ele. 
Fbio j estava sabendo do que se tratava pela Sarah.
 Vocs precisam de algum que faa a capa, n? Eu 
fiz a capa do CD de um grupo de Louvor que a Sarah e 
Jefferson conhecem. Quando o Senhor manda, costumo fazer 
coisas assim! Gosto muito dessa parte artstica, embora no seja 
minha profisso... mas vamos conversar pessoalmente, vou 
ajudar vocs.
Encaminhamos para Grace o material to logo Isabela 
conseguiu terminar de l-lo. Deixamos claro que ela tinha pouco 
tempo para dar uma opinio. Sabamos que a publicao estava 
atrasada. No queramos mais perder tempo!
Enquanto Grace lia as folhas de sulfite, levamos o 
disquete para Fbio. Ou melhor... os disquetes!
Naquela tarde ele havia marcado conosco um encontro 
em seu escritrio. Ele era arquiteto. Nos atendeu muito bem, foi 
muito solcito e simptico. Explicamos mais ou menos do que se 
tratava, se bem que Sarah tivesse adiantado.
 Vocs precisam da capa, e de algum que faa a 
diagramao, no ?
A diagramao consistia em transformar as folhas sulfite 
em pginas de livro. Depois disso, ele mesmo se ofereceu para 
fazer os fotolitos. Os fotolitos eram o material final usado pela 
grfica para imprimir o livro. Tudo aquilo tinha um custo. Mas 
Fbio logo foi falando:
 De vez em quando me aparece gente pedindo para 
fazer capa de livro, pedindo para fazer alguma coisa assim. Nem 
sempre sinto paz, e se no sinto, no fao. Mas quanto a vocs, 
tenho certeza de que isto aqui est no Corao de Deus! Sei que 
vou enfrentar muita guerra, mas estou acostumado... pode 
deixar que vamos levar isso adiante, sim! Com certeza a Igreja 
de Cristo precisa deste livro.
Quando fomos discutir a capa, j tnhamos uma idia em 
mente. Antes que pudssemos dizer qualquer coisa, Fbio 
comentou:
 Deus est me mostrando essa capa... pode ser um 
pentagrama no cho, com alguma coisa saindo de dentro dele, 
uma fumaa...
 Pxa, foi mais ou menos isso que a gente pensou!  
falou Isabela.
 Ela queria fazer o pentagrama na capa, um 
pentagrama de pedra  continuei eu.  Depois eu imaginei 
que este pentagrama poderia estar rachado, aberto... mostrando 
que seus segredos esto sendo desvendados. Mas no tnhamos 
imaginado um no cho.
 Bom, j que o Senhor est confirmando, no se 
preocupem que vou fazer o melhor!
Foi um tempo precioso e agradvel aquele que passamos 
ali. Quando fomos embora, sentamos um grande alvio! Estava 
tudo em andamento... Quando chegamos de volta ao carro, 
estava multado.
 Mais essa! Por que multaram, aqui  proibido? Com 
tanto dinheiro sobrando, ainda vem multa!
 Pacincia. Vamos embora.
* * * *
Chegou o ms de agosto. Sexta-feira, dia 13, o bip 
tocou. Dia sugestivo. Eu estava saindo do banho, foi Isabela 
quem olhou o recado. Ela veio bater na porta do banheiro, nem 
esperou para entrar.
 Eduardo, olha s esse recado. "Entrar em contato 
com Fernando, da Academia Coliseum, telefone tal, sobre 
proposta de trabalho." O que voc acha disso?
Eu estava terminando de me arrumar e olhei para ela. 
Seu semblante estava iluminado, mas ao mesmo tempo ela 
queria ouvir minha opinio.
 Esse Fernando  um dos donos da academia, aquele 
mesmo com quem falei naquela poca. Lembra? Ele tinha me 
apresentado a outros Professores, j falava que eu podia me 
considerar Professor...
 Bem que eu achei que era ele! Que raio de proposta 
ser essa? O que ser? Fiquei pensativo. J fazia um bom 
tempo! Se tivesse acontecido antes...
 Vou ligar pra ele e saber o que ele quer. Se for o que 
estou pensando... Ela completou meu pensamento.
 Ser que ele quer que voc v trabalhar l agora? 
Pelo visto, ainda tem seu currculo.
  o que parece! S no sei como ele arrumou o 
nmero deste bip. Como estivesse pronto, desci e fui direto para 
o orelho. Sentia at o estmago meio contrado. J imaginava o 
que ele ia dizer. Mas eu tinha entregado o Kung Fu para Deus! 
Eu tinha feito isso... debaixo de uma direo clara. Sacudi a 
cabea.
"Melhor ver logo do que se trata em vez de ficar 
pensando..."
Liguei e falei com ele.
 Ol, Eduardo! Quanto tempo!
 Oi, Fernando! Como  que voc arrumou o meu 
nmero?
 No seu currculo tinha o telefone da sua casa. Liguei 
l e falei com sua me, ela disse que voc tinha casado e ainda 
estava sem telefone. Me deu esse nmero do bip!
Ah!
 Que bom que voc est me dando retorno rpido. 
Tenho uma boa notcia pra te dar.
 Pois no.
 Voc sabe que ampliamos a academia, n? Naquela 
poca em que a gente se conheceu, a reforma estava 
terminando. Estou contratando pessoal, e tinha o seu currculo 
aqui comigo. Enfim... vamos ao que interessa! Estou precisando 
de um Coordenador de Esportes Marciais!
 Coordenador?
 . Deixa te explicar melhor! Naquela poca voc 
pleiteou um cargo de Professor... pena que no deu certo. Mas 
agora, quando eu estava olhando seu currculo, pensei em te 
propor uma coisa ainda melhor. Liguei para o seu ltimo 
Mestre, o Mestre Zhy. Ele falou muito bem de voc, deu timas 
referncias... te encheu a bola, cara! Confirmou que voc 
ganhou mesmo aqueles ttulos, confirmou todo o seu currculo. 
Voc sabe que isso  praxe, n? Eu tenho um nome a zelar, voc 
sabe... Sim, claro...
 Ento... minha proposta  a seguinte: quero voc aqui 
para tomar conta do Departamento de Esportes Marciais. Ou 
seja, ser o Chefe dos Professores! Confio em voc, voc tem 
cacife, tem o perfil ideal para isso. Estou pensando em 
diversificar um pouco, lembrei que voc desenvolveu tambm 
um curso terico, estou tambm pensando em criar cursos 
especficos para crianas, cursos especficos para mulheres... 
gostaria tambm de organizar campeonatos entre academias, 
enfim... tem muito trabalho te esperando! E voc ter todo o 
meu aval para fazer o que quiser! Os Professores vo ficar sob a 
sua superviso. Trocando em midos, voc seria o Professor dos 
Professores. O seu currculo  muito bom! Sua experincia  
fantstica! De resto, podemos conversar melhor pessoalmente... 
mas j posso adiantar que o salrio  de R$ 3.000,00, s pra 
voc comear. Quando a gente efetivar, vamos reformular isto. 
Os meus Coordenadores ganham muito bem! Alm disso, voc 
vai ter todos os benefcios de uma grande Empresa: temos uma 
assistncia Mdica tima e todo o resto. De quebra, voc j 
pode comear a vir pra academia. Ela est aberta para voc em 
todas as modalidades, inclusive as modalidades aquticas. Para 
sua esposa tambm! Reparei que faz um tempo que vocs no 
aparecem por aqui... espero que esse seja um incentivo para 
vocs.                                                                                                       
Meu corao estava at apertado. Eu nem sabia o que 
dizer.
 Bom, Fernando...
  Vem aqui na segunda-feira, hoje eu estou de sada. 
Conversamos tudo direitinho na segunda. Fiquei sabendo que 
voc no est trabalhando... acho que realmente eu nasci com o 
p-direito virado pra Lua, porque agora posso pegar voc aqui 
pra mim! Segunda-feira est bom para voc?
T. T bom, sim...
 OK, Eduardo! Estou te aguardando!
Subi para o apartamento em estado de choque. Nem 
sabia o que pensar... ou melhor... eu sabia, sim! No era 
possvel que algo assim estivesse acontecendo. Quando abri a 
porta, Isabela veio ao meu encontro com o rosto cheio de 
expectativa.
 Ento? Era aquilo? Ele te ofereceu o cargo de 
Professor?
Suspirei. Dei at uma risada, para disfarar minha 
tenso.
 Mais do que isso... voc no vai acreditar...
A medida que contava a ela, Isabela me olhava com ar 
srio. Chegava a torcer as mos, nervosa.
 Ento...  um cargo de chefia! No quer dizer que 
voc tenha que dar aula!
 No  bem assim... se a gente vai desenvolver cursos 
especficos, eu vou ter que treinar os Professores. Treinar...  
treinar! Tem campeonatos para organizar... ai, meu Deus!
Isabela at ps as mos na cabea.
 "Ai meu Deus" digo eu! No  possvel... no  
possvel, voc vai ter que recusar? Aquilo que a gente sempre 
quis, tudo com que a gente sempre sonhou! Ser mesmo que 
no podemos aceitar?
No sei... no sei.
Isabela estava mais nervosa do que eu. Nossa 
inquietao foi to grande que no conseguimos pensar em mais 
nada o dia inteiro. Resolvemos dar uma volta no Shopping, 
fazer qualquer coisa que tirasse nossa cabea do assunto. Mas a 
gente no conseguia falar de outra coisa.
Isabela chorava. No conseguia se conformar.
 Deus no pode estar fazendo uma coisa dessas! 
Pxa... Ele j est exagerando! No vou agentar ter que passar 
por isso... no vou agentar! Ele permite que o nosso sonho 
chegue at as nossas mos, e pede pra gente recusar?  
Simplesmente dizer "No, obrigado"? O que mais que Deus est 
querendo, deixar a gente louco?!  e chorava mais.
Consegui me sentir mais conformado que ela. Aquele 
era s mais um detalhe do preo a ser pago. A partir do 
momento em que aceitamos o chamado... aceitamos o chamado! 
Eu tinha muita convico de que no poderia retomar o Kung 
Fu. Era s mais uma armadilha do Inferno. Vinha na hora H!
 Eles querem uma legalidade. Querem uma brecha 
qualquer! Eu sei que no posso aceitar...
 Deus est exigindo demais da gente!  agora Isabela 
estava irada.  Estou me sentindo sem cho! Temos que 
continuar bancando os mendigos, passando a cartola para os 
outros, quando os outros na maior parte das vezes no do a 
mnima pra gente! E a aparece uma oportunidade dessas. Estou 
cheia de ter que pedir dinheiro para quem quer que seja, estou 
cheia de ter de contar com a Igreja, ter que contar com a boa 
vontade dos irmos! A gente tem toda a capacidade de ganhar a 
vida pela nossa prpria conta. No queria ter que depender da 
Igreja! Voc v como as pessoas olham pra gente, como olham 
com desprezo, como se a gente fosse lixo... o que eles pensam 
de ns, que somos dois ps-rapados que esto sempre 
precisando da ajuda de algum! No me conformo! No me 
conformo! A gente j tinha esquecido disso tudo, desse negcio 
de Kung Fu. Precisa Deus deixar essa coisa vir bater na nossa 
porta de novo??!
L pelas tantas, resolvemos ligar para Dona Clara. Mais 
por desencargo de conscincia do que qualquer outra coisa. Eu 
sabia que direo deveria tomar.
Enquanto eu estava no telefone com ela, observava 
Isabela andando de um lado para o outro no Shopping, se 
debruando na amurada, inquieta e triste. Dona 
Clara repetiu o que eu j sabia:
 Isso  uma armadilha, sim... agora que vocs esto s 
portas de lanar o livro... ele  sujo mesmo! Mas fiquei firme, 
Deus vai honrar tudo isso.
 Olhe, Dona Clara, que Ele honre mesmo. No est 
sendo fcil tudo isso! Se fosse um tempo atrs, eu no pensaria 
duas vezes...
 Pois  isso mesmo. "Bem"... hoje vocs so provados 
de acordo com a maturidade que alcanaram. A nossa carne tem 
de morrer mesmo, a nossa vontade.  o preo...  como se Deus 
estivesse dando a chance de vocs escolherem mais uma vez. Se 
vo aceitar o chamado, por amor a Ele... ou se vo seguir a vida 
que vocs mesmos programaram...  ela falava com voz de 
quem se compadece, de quem faz empatia. Mas de quem sabe 
exatamente o que deve falar.  Se tivesse alguma dvida do 
que estou dizendo, iria orar antes. Mas no tenho nenhuma 
dvida.
 Eu sei. Eu tambm no tenho dvida. Mas causa uma 
tristeza muito grande. A senhora sabe da nossa situao... no 
sei o que vai ser do dia de amanh!
 Eu sei. Mas fiquem firmes! Tudo isso vai ter a sua 
recompensa.
 Tudo bem, Dona Clara  suspirei profundamente.  
S queria ter certeza da sua opinio. Esteja orando por ns, 
esteja orando pela Isabela... ela est num desespero s! Ora fica 
brava, ora chora... dessa vez foi pega em cheio.
 Ela est a?
 T, sim. A senhora quer falar com ela?
 Veja se ela quer falar comigo.
Apenas olhei para Isabela, fiz sinal de longe. Ela 
recusou.
 Acho que agora ela no est em condies, Dona 
Clara.
 Vou estar orando. E vamos em frente, n? Vamos 
continuar caminhando! A vitria vai ser tambm proporcional a 
essa luta, vocs vo ver!
 Obrigado.
 A gente t aqui para isso, n?  e riu, naquele jeito 
caracterstico dela.  Fica com Deus!
Isabela veio para perto de mim.
 Dona Clara ficou brava que no quis falar com ela?
 No, ela entendeu.
 Eu no tinha condies. No queria ouvir ningum 
me dizendo nada, me consolando, dizendo que tudo vai 
melhorar, que Deus  bom, que a gente tem que agentar... por 
enquanto eu estou brava, no quero escutar nada disso! At 
agora, nunca uma deciso foi to dura para mim!  e chorava 
de novo.  Me sinto crucificada!
 E... de certa forma ela disse mais ou menos isso. Que 
a nossa vontade tem que morrer!
 Eu sei, entendo isso. A cruz  a morte do desejo, e a 
morte de toda a sua vontade. Mas isso di muito! Quando penso 
em tudo que a gente perdeu... eu estava conformada, nunca 
fiquei reclamando! Mas no queria ter que desistir disso de 
novo. Eu sempre te admirei muito por causa do Kung Fu, ia 
adorar ver voc com aquele uniforme da academia... sabe? 
Depois, a gente no tem dinheiro para pagar a ginstica,  uma 
coisa importante para ns, mas ningum vai pagar academia pra 
gente!  isso que no me conformo, ter que continuar 
mendigando quando temos toda a condio de viver pela gente 
mesmo.
 Mas voc sabe que a gente no pode aceitar, no ? 
Ela ficou quieta um pouco. Ento admitiu:
 S no sei por que Deus permite isso...
Realmente a gente s iria entender muito mais tarde. 
Houve poca na nossa vida em que no pensaramos nem um 
pouco se Deus estava gostando ou no das nossas decises. Mas 
agora, j era diferente. Ns jamais sairamos da trilha certa de 
nossa livre e espontnea vontade. Se Deus no queria... por mais 
que nos doesse... sabamos que o melhor era no querer 
tambm!
Aquilo era somente uma prova. Deus estava dizendo: 
"Conheo o desejo do corao de vocs... hoje vocs tm a 
oportunidade de escolher. Vocs podem Me obedecer, por amor 
a Mim... ou podem obedecer a si mesmos, por amor a vocs".
Tudo aquilo era treinamento. Tudo aquilo era lapidao 
de carter. Momentos muito dolorosos, mas tinha sido assim 
tambm com os homens de Deus da Bblia. No ia ser diferente 
conosco. Aquela provao  dura, sim  veio. Fomos 
provados... e aprovados! Nem sempre obedecer  fcil. Mas a 
gente tinha aprendido que a obedincia era o ponto chave. Sem 
ela, no chegaramos a lugar nenhum!
Isabela ainda chorou muito naquela noite. Mas a partir 
do dia seguinte, comeou a se recuperar. J no chorava, 
embora continuasse triste. Eu no estava menos triste, mas tanto 
eu quanto ela estvamos convictos de que aquele era o caminho 
certo. Oramos pedindo fora, pedindo a restaurao, pedindo o 
livramento. No estvamos mais agentando viver daquele jeito 
incerto e inseguro. Vivamos por f. Mas o deserto no podia 
durar muito mais tempo. Pelo menos, no daquele jeito.
Na segunda-feira fomos at a academia. No poderia 
simplesmente recusar por telefone, queria poder conversar cara 
a cara com Fernando. Isabela ficou me esperando, vagando 
pelas vitrinas sem enxerg-las. Eu fui sozinho.
Quando entrei na sala de Fernando, ele me recebeu 
sorridente e animado.
 Oi, Eduardo! Senta a, vamos conversar. Hoje posso 
te explicar com muito mais calma o que te disse... vamos fazer 
um trabalho bem diferente, tenho certeza que voc vai gostar 
bastante. Quase todo mundo que comea aqui com a gente, vai 
ficando eternamente! Eu procuro incentivar os meus 
funcionrios, os Professores,  muito importante para mim  
para ns  que eles estejam satisfeitos. Se estiverem satisfeitos, 
vo fazer um bom trabalho, e ns tambm vamos ficar 
satisfeitos!
Ele j ia sentando tambm, quando se lembrou:
 Ah! Quanto  que voc cala, e qual seu nmero de 
roupa? J vou pedir para te trazerem os conjuntos de uniforme e 
o tnis Reebokl A academia fornece tudo para voc.
Tive que interromp-lo, polidamente. Ele estava 
completamente certo de que eu ia aceitar proposta.
 Fernando... espera s um pouco. Eu no posso aceitar 
este emprego.
Ele at emudeceu. Sentou-se.
 No pode? Voc arrumou algum outro emprego 
melhor?
 No. No  isso.
 O que foi? Voc no est satisfeito com o salrio? 
Olha, isso a gente pode conversar, podemos renegociar o valor 
desde j...
Balancei diversas vezes a cabea.
 No  isso, o salrio inicial est bom. Mas...  que eu 
sou Cristo. E, algum tempo atrs Deus me pediu que 
entregasse a Ele o Kung Fu.
Fernando me olhava sem entender.
 Entregar o Kung Fu?
 , no sei como te fazer entender, mas Deus me 
mostrou que no era bom que eu continuasse praticando Arte 
Marcial, isso estimula a violncia, vai contra os princpios do 
Cristianismo. Mesmo porque, a Filosofia Budista  contrria ao 
que eu creio agora. Naquela poca eu ainda no tinha entendido 
isso, mas depois que entendi, deixei de praticar Kung Fu. No 
poderia voltar atrs nessa minha deciso...
Ele mudou a expresso do rosto.
 Deixa ver se estou entendendo... ento Deus no quer 
que voc tenha um bom emprego,  isso?
 No  isso. Deus quer o melhor para mim. E hoje eu 
sei que Kung Fu no  o melhor para mim. Gostaria de te 
agradecer pela proposta, de voc ter se lembrado de mim, ter me 
dado seu voto de confiana. Humanamente falando, eu gostaria 
muitssimo de aceitar! Mas hoje, o Kung Fu realmente no faz 
mais parte da minha vida. No queria te dizer isso pelo telefone, 
por isso vim pessoalmente...
Ele demorou a responder alguma coisa. Sacudiu a 
cabea levemente, e seu olhar demonstrava pesar. Percebi que 
ele no compreendia minha justificativa, estava imaginando que 
eu tinha me tornado mais um daqueles crentes lunticos.
 Bom... de fato  uma pena, eu lamento muito... mas 
no me resta nada a fazer a no ser respeitar sua deciso. Eu 
espero que voc esteja certo!  foi ligeiramente irnico.  
Espero que Deus te arrume um outro emprego melhor do que 
este...
 Deus vai cuidar de mim. Muito obrigado pela sua 
proposta.
Ele se levantou, e eu fiz o mesmo. Apertamos nossas 
mos. At hoje, ele me olha esquisito. Levaria ainda mais de um 
ano para que Isabela e eu voltssemos a ter condio de pagar a 
ginstica. Fernando me reconhece, e cumprimenta com
educao. Mas sempre me olha esquisito, de longe, 
nunca mais conversou comigo. Nem quer saber o que fao da 
vida. Quando sa, Isabela me esperava na porta. Trocamos um 
sorriso entristecido.
 Como foi?
 Hum... fiz a coisa certa. Sei disso. Mas ele pensa que 
sou louco... espero que Deus traga o livramento logo!
Fomos dar uma volta ali mesmo, mas tudo parecia meio 
cinzento. Pouco depois disso, o bip tocou. Era Grace. O orelho 
estava ali mesmo na nossa frente, fui telefonar e saber o que ela 
queria.
Ela havia terminado de ler o livro.
 Est muito bom... voc sabe que eu tenho o meu dia 
todo organizado, e os horrios bem cronometrados. Mas no 
conseguia parar de ler, tinha dias em que acabava perdendo meu 
horrio. Isabela est de parabns! Ela  uma grande escritora! 
Por outro lado... essa  uma histria muito forte, no tinha uma 
idia da coisa como um todo... vai ter uma repercusso enorme 
na Igreja. Mas fico um pouco preocupada com vocs... estive 
at mesmo pensando se no seria melhor a gente tentar ver 
alguma proteo policial... sabe, eu conheo um policial que  
crente...
 Grace... daquilo que est por vir, nenhum homem vai 
poder nos proteger! Quer dizer, Deus mandou escrever. Agora, 
se Ele no nos proteger... no vai haver quem possa fazer isso.
 Ah, voc tem razo!  que realmente fiquei 
preocupada... Conversamos um pouco mais e depois Grace quis 
falar com Isabela.
 Voc gostou, ento?  eu escutava Isabela dizendo. 
 Ufaa! Grace, voc no imagina que peso voc me tira das 
costas... nem sei o que ia fazer se voc achasse que o livro 
estava uma droga!
 No, no... a leitura est muito boa! Voc  uma 
tremenda escritora! Mas estava dizendo para Daniel sobre a 
minha preocupao...
 Minha preocupao maior, Grace, para ser sincera...  
pela minha famlia! Se eu fosse sozinha no mundo, estaria mais 
tranqila. Agora... seja o que Deus quiser. Mas espero que Ele 
esteja protegendo minha famlia. Por favor, Grace... ore por 
eles! Voc sabe o quanto eles tm sido atacados, e sabe que eles 
tm sido ameaados claramente. Por outro lado, esto com 
muito pouco acompanhamento da Igreja... no sei mais o que 
fazer, nem a quem recorrer... alm do qu... faz sete dias que 
Eduardo viu um demnio com Marco. Foi meio estranho, ele 
estava estudando na sala, e quando nos despedimos, Eduardo 
estava na porta e viu um demnio forte, bem grande, atrs dele. 
Estava encapuzado, de forma que no dava para ver o rosto, mas 
Eduardo reparou muito nas mos. Eram mos cadavricas, 
certamente um demnio de morte, da casta de Nosferatus, pelo 
que Eduardo percebeu... ele tinha uma corrente nas mos, e essa 
corrente passava pelo pescoo do Marco. Tentamos conversar 
com a Pastora Ana, voc conhece ela, ela me ministrou l na 
Comunidade, junto com Dona Clara. E esteve tentando dar um 
acompanhamento para o Marco tambm. Sinalizamos para ela 
isso a. Logo, logo ele vai embora para o exterior outra vez, no 
pode ir desse jeito! Mas acontece que estamos com uma 
hspede aqui, uma pessoa que Marco quer que se converta. 
Acredita que ela foi com ele no dia da reunio com a Pastora 
Ana e Dona Clara, no dia da reunio que era dele, que era para 
ele ser tratado! Ento, em vez de a Pastora Ana ter tomado 
cuidado com ele, orado por ele, gastaram todo o tempo da 
reunio falando com aquela menina que no quer saber de nadai 
Ela j foi muito bem evangelizada, continua rejeitando, no est 
nem a, me desculpe falar assim, mas aquele tempo era do 
Marco. Ela no tinha nem que ter entrado na sala, eu e Eduardo 
ainda comentamos isso. Se voc tivesse marcado uma 
Ministrao com ele, era com ele! Jamais voc ia deixar aquela 
menina entrar no meio, e ainda por cima roubar a reunio. Elas 
perderam muito tempo, no oraram pelo Marco. Ficou tudo por 
isso mesmo. Foi um verdadeiro roubo do diabo! Fomos falar 
com elas de novo, ns estamos orando, mas elas so 
responsveis por ele. S vo ter mais um encontro... se  que vai 
ter mais um... alm disso, Eduardo sonhou alguns dias antes 
disso que a casa da minha me estava cheia de Sadraques! 
Realmente, Grace, esteja orando por eles... minha famlia  
alvo!
 Estarei orando por eles.
As duas continuaram conversando, ento Isabela contou 
sobre Fbio, sobre o andamento prtico da publicao. Falou 
tambm sobre o emprego da academia. Grace tambm foi 
categrica em afirmar que se tratava de uma armadilha.
 Ontem, no Culto, Dona Clara nos disse que foi muito 
retaliada. Depois que nos deu aquele conselho de realmente no 
aceitar o emprego, comeou a ter muita tosse e sua me acabou 
indo parar no Pronto-socorro. Ela soube discernir muito bem a 
seta. Hoje j est melhor... esteja orando tambm por Dona 
Clara, as coisas esquentam pro lado dela s vezes  pediu 
Isabela.  Graas a Deus que Dona Clara no se deixa abater, 
ela sempre tem uma viso muito balizada de Deus, e entende 
que isto tambm  treinamento para ela.
Depois que Isabela desligou o telefone, ns nos 
abraamos conscientes de estarmos caminhando na direo 
certa. Como ela continuasse bastante triste, fiz o que pude para 
anim-la.
 Dinheiro para um cafezinho a gente tem. Vamos l?
 Vamos, sim.
De mos dadas, fomos tomar nosso caf ali mesmo. 
Entramos. Era uma loja que vendia CD e que tinha no andar 
superior um Cyber Caf.   Senta, "M". Fui comprar o caf. 
Quando sentei diante dela, Isabela enxugava as lgrimas.
 Voc ainda est triste por causa da academia?
 Estou, mas no  isso... fiquei tambm preocupada 
com o que a Grace disse, que o livro  forte, e que ela pensou 
at em proteo policial... sei l! No estou muito bem...
 Vai dar tudo certo, menina... Deus vai nos proteger. 
A gente no chegou at aqui para agora acabar desse jeito. Voc 
vai ver. Procura se acalmar 
Fomos conversando, fomos falando de outras coisas, 
procuramos relaxar 
* * * *
Captulo 39
Trs dias depois disso, o dia 19 de agosto comeou com 
uma manh fria apesar do sol. Quando Isabela levantou, mais 
tarde, convidei-a para ir comigo at a padaria comprar alguma 
coisa para gente tomar caf.
 Como est frio... d at preguia da gente se vestir...
 Mas veste uma roupa qualquer, s pra gente ir  
padaria.
Isabela fez isso mesmo. Estava ainda triste, mas j no 
falava da academia. Era algo que j tinha ficado no passado. 
Ento nem se arrumou direito, e explicou:
 No vou nem descer do carro, s vou com voc at l 
para ver um pouco a cara da rua.
Fomos. Comprei o necessrio e voltei para o carro.
Isabela tinha ficado esperando, e quando entrei, ela 
olhou no relgio lembrando que aquele era o dia em que Dona 
Mrcia estava se encontrando com Dona Clara para orar. Ns 
tnhamos incentivado muito esses encontros.
 Puxa vida... ser que minha me saiu na rua com esse 
frio?
Dona Mrcia tinha um problema srio de circulao, 
alm da anemia auto-imune. Suas mos, o nariz, a ponta das 
orelhas, os ps e toda parte do corpo mal agasalhada ficavam 
roxos diante da exposio ao frio. Era uma coisa que doa 
muito, alm de bastante perigosa, porque as extremidades 
podiam inclusive chegar ao extremo da gangrena. Tambm 
essas partes expostas ao frio predispunham  hemlise. Ela 
precisava se resguardar ao mximo.
 Ela no vai conseguir ir para casa dirigindo desse 
jeito, vai chegar l passando mal, com a mo e os ps 
congelados... ser que ela ainda est l, Eduardo?
 Pode ser... voc quer ir at l buscar ela?
 Se ainda estiver l, eu acho melhor  fez Isabela 
com o semblante preocupado.
 Ento, s se a gente telefonar para a Igreja... se Dona 
Mrcia estiver l, pedimos para algum avisar que a gente est 
indo buscar. Se tentarmos ir direto, capaz da gente perder a 
viagem porque est em cima da hora.
 Ali tem um orelho  apontou Isabela.
Desci e fui telefonar. Quem atendeu na secretaria da 
Igreja foi a Nadia. Expliquei do que se tratava.
 Elas devem estar na salinha l do fundo... ser que 
voc poderia fazer o favor de olhar se minha sogra ainda est 
a? Se estiver, pede pra ela esperar que ns vamos passar para 
busc-la.
 Olha, agora no vai dar... eu estou sozinha aqui na 
secretaria. A Sheila foi almoar.
 Mas a Igreja est vazia, no est? Voc leva menos 
de dois minutos para ir at l dar o recado e voltar...  realmente 
uma coisa importante, Nadia, ela tem um problema de sade 
muito srio, e...
 Mas no d mesmo, a Igreja no est vazia, no. As 
mulheres esto chegando aqui para o Culto.
 Ah! que bom, se tem gente a ento voc poderia 
pedir pra algum dar o recado para minha sogra? Eu realmente 
s queria saber se ela est a. Se estiver, vamos buscar...
 Voc me desculpe, mas eu tenho mais o que fazer!  
continuou ela no mesmo tom rude.  No d mesmo para ir l 
ver.
 Voc podia pedir para o Alex?
Alex era filho de Dona Clara, e trabalhava ali na 
secretaria.
 O Alex est no banheiro.
Evitei discutir mais. Deveriam dar cursos de boas 
maneiras s secretrias de igrejas, pois esto representando ali o 
Ministrio. Se fosse numa empresa, esta conduta seria motivo 
de demisso.
 T bom, obrigado pela sua colaborao, t?
 De nada.
Voltei para o carro irritado.
 Isabela,  melhor a gente ir direto porque a Nadia est 
ocupada demais para andar vinte metros at a sala onde est 
Dona Clara.
Ela no acreditou no que estava ouvindo.
 Como assim?
  isso mesmo que voc est ouvindo, ela  crente! 
Por que voc quer esperar alguma coisa de uma "irm"?  
Falei em um desabafo, irritado!
Isabela no se conteve. Era pedir demais, concordo.
 Mas o que que ela pensa que ? Minha me  uma 
pessoa de idade, com problemas de sade, com problemas srios 
de sade! No estou pedindo para ela ir daqui at a China! Que 
enormidade que estou pedindo! Para que serve a Igreja ter 
secretria, ento?  levantou e saiu do carro. Foi direto pro 
orelho.
Eu s fiquei olhando de longe, Isabela estava muito 
irritada. Era a gota d' gua da sua semana.
 ...Escuta, Nadia, posso saber por que voc no pode 
ver se minha me ainda est a? Ela no passa bem no frio, e... 
eu sei que voc j falou com o Eduardo... eu sei!  o tom de 
voz dela j estava se alterando.  Voc me desculpe, mas eu 
acho que voc no est sendo nem um pouco educada!...
Isabela ficou olhando para o telefone. Cheguei perto.
 Voc acredita que ela me bateu o telefone na cara? 
Pois eu vou ligar de novo!
Na segunda vez, Isabela acabou sendo realmente rspida:
 Que voc est pensando que , hein? Voc s sabe 
ser Crist no domingo, das seis s oito da noite? O resto da 
semana voc no  Crist,  assim que trata as pessoas? Para 
que serve essa secretaria idiota, para que que voc serve?...  
isso mesmo que voc est ouvindo...
Desta vez foi Isabela quem bateu o telefone na cara dela.
 Vamos at l.
Quando chegamos  Igreja, obviamente Dona Mrcia 
no estava l. Dona Clara estava de bico conosco. Claro, ela 
escutou a verso do Alex. Que Isabela tinha sido ultra grossa, 
tinha tratado mal a Nadia, queria exigir isto e aquilo. Nem bem 
desligamos o telefone, ento a Nadia achou imediatamente que 
pudesse perder um minuto para ir at a sala. Depois, fez toda a 
cena na frente do Pastor Jaime. Chorou, reclamou.
Isabela estava muito indignada. Nem se deu ao trabalho 
de explicar nada naquela hora, pela cara de Dona Clara no ia 
adiantar muito. A frase da Nadia refletia o pensamento da 
grande maioria dos Cristos:
 Eu no tenho nada a ver com o seu problema!  
disse ela para Isabela. Aquilo estragou completamente o seu dia. 
Especialmente porque Dona Clara tinha comentado que Dona 
Mrcia chegou chorando na Igreja por causa da dor.
Fomos embora ns dois, mas no conseguamos nos 
conformar. Como era possvel que algum que se diz Crist 
pudesse, de graa, fazer uma coisa daquelas. A gente conhecia a 
Igreja muito bem, estava cheio de mulheres ali... no custava 
nada, no custava nada...
Fazia tempo que Isabela no se sentia to afrontada, to 
injustiada, to atacada.
  impressionante o que o diabo no consegue fazer 
com os Cristos...  impressionante!
Tentamos nos acalmar por toda a lei. Mas no sei o que 
aconteceu. L pelas cinco horas da tarde, comeamos a brigar. 
Isabela estava com os nervos  flor da pele, era muita, muita 
presso. Eu no estava menos incomodado.
Aquela somatria toda deflagrou a confuso. Que 
tormento, que desespero! A vontade que ns dois tnhamos era 
de nos atirarmos pela janela do apartamento.
Naquela noite, Marco tinha um concerto, e ns iramos 
assistir. Resolvi tomar banho e me arrumar, j era tarde, eu no 
agentava mais discutir. E Isabela ficou chorando, sentada na 
cama. Estava outra vez naquele estado crtico de desespero e 
agonia.
Quando sa do banho, ela ainda estava ali. J tinha 
perdido a pacincia e falei em tom de voz rspido:
 Voc vai, ou vai ficar?
 Vou ficar.
 Voc que sabe  respondi do banheiro, sem me 
importar.
Quando entrei no nosso quarto, ela ainda estava sentada 
na cama. Dei a volta, queria pegar os lenos de papel que 
estavam no cho, do meu lado da cama. O lado oposto  porta. 
Quando cheguei l e me abaixei pra pegar os lenos, de repente 
senti uma forte opresso. Ergui o corpo e voltei o rosto na 
direo de onde eu pressentia aquela coisa ruim.
No estava esperando por aquilo, ali perto da porta, 
enorme, forte como um touro, com as costas um pouco 
encurvadas, o demnio olhava para mim. Eu o via como via 
Isabela, completamente ntido, completamente real!
Um calafrio me passou pela espinha, num segundo. 
Senti medo, o que mais? Eu olhava para ele e ele para mim pelo 
que me pareceu muito tempo. Tinha aquele olhar horrvel de 
dio e a cara que lembrava alguns traos de lobo, com plos e 
focinho curto. Era um Principado, porque vi os braceletes no 
seu brao quando ele os ergueu, em posio de quem prepara o 
bote.
Sem desviar o olhar, falei para Isabela:
 Vamos orar agora...  eu no queria ter que dizer o 
que estava vendo.
Ela deve ter percebido que alguma coisa estava errada, 
que eu estava vendo alguma coisa, ento concordou de pronto. 
Eu olhava para ele, e continuava sentindo medo. Ele me olhava 
com olhar desafiador, sempre ali, com os braos abertos, os 
dedos em garra, olhando para ns. No nos tocou, mas pelo 
visto no tinha inteno de sair dali.
 Fecha teus olhos...  falei a Isabela. Comecei a orar, 
sem saber direito como faz-lo.  Oh! Senhor Deus e Pai, nos 
ajuda...  senti minha voz embargada.  Em nome de Jesus, te 
peo que o Senhor faa sair daqui todo enviado do Inferno...
Eu orava de olhos abertos, fixando o demnio, pois tinha 
impresso de que a qualquer momento iria pular sobre ns. 
Isabela comeou a orar comigo, em concordncia, no sentido de 
fazer resistncia quela invaso.
Mais uma vez, ns tnhamos aberto a porta com nossas 
prprias mos. S que desta vez Deus me permitia ver quem 
estava ali.
Havia uma Bblia sobre a cama, percebi que Isabela 
estendeu a mo para peg-la. Eu no queria que ela se mexesse, 
nem que abrisse os olhos, tinha receio que pudesse ver aquele 
vulto horrvel que estava  nossa frente, e se assustar.
 Fecha teus olhos... s continua orando...
 S quero pegar a Bblia...  murmurou Isabela.
Eu lutava para continuar com os meus olhos abertos, 
mas o Principado me encarava com ar ligeiramente zombador, 
como se no se importasse com aquela orao recm iniciada. 
Ento, por algum motivo, indignei-me com aquela atitude de 
desprezo do demnio.
 Senhor, cad Teus anjos?! Cad os anjos que nos 
acompanham? Cad o Querubim que o Senhor disse que estava 
conosco? Envia Teu Querubim aqui, Deus! Envia a Guarda, nos 
ajuda, Senhor Deus!!
Isabela deveria estar orando tambm, mas de repente eu 
me esqueci dela. Naquele instante em que fiz essa orao 
desesperada, era como se eu j nem estivesse mais ali... na 
minha frente, como que vinda de fora do apartamento, ao longe, 
pude divisar uma luz azul e dourada.
J no existia a parede do quarto, nem a janela, nem 
nada......
Ali ao longe, eu apenas podia contemplar naquela luz 
que vinha chegando perto de ns. Simplesmente perdi noo de 
tempo e espao, minha ateno foi desviada totalmente para a 
presena daquela luz.
"Que ser aquilo...?"
Por viso perifrica, percebi que o vulto daquele 
demnio simplesmente se desvaneceu, num timo de segundo. 
A presena da luz foi suficiente para que ele imediatamente 
sasse dali. Mas eu continuava olhando... porque com ela, com a 
luz... estava vindo uma indescritvel sensao de Poder!...
Eu olhava, e olhava, e olhava, e a luz foi se aproximando 
at estar bem perto de ns. Ento, aquele anjo de luz apareceu 
diante dos meus olhos! A luz simplesmente formou o contorno 
dele, rapidamente, e ele apareceu!
Eu no sabia dizer o que me impressionava mais... se a 
viso, ou se a sensao que emanava dele. Meu corpo parecia 
no agentar, comecei a tremer e a chorar, lembro que no 
conseguia articular palavras com nexo, e apenas balbuciava, 
meio que com o rosto enterrado no colcho, meio que olhando 
para ele:
  muito poder...  muito poder!
S conseguia chorar. E ficar prostrado sobre a cama. A 
presena dele fazia parecer que meu corpo poderia desvanecer 
ali mesmo, naquele exato instante! Ergui um pouco a cabea no 
meio daquele emaranhado profuso de sensaes inditas, e 
continuei olhando, e vi que ele tinha asas enormes. Ele era 
enorme, enorme, maior do que o anjo ruivo, uma altura 
colossal!
Parecia que asas estavam cruzadas na frente do seu 
corpo assim que ele chegou, mas ento ele as colocou para 
trs... pelo menos foi o que pude perceber. S que muito maior, 
muito maior do que o seu corpo, era aquela sensao de Poder 
que ele irradiava! Muito forte, muito forte! No conseguia olhar 
muito para ele, mas no era por causa do ofuscamento. A sua 
luz no ofuscava tanto, era aquele Poder! Ao mesmo tempo, eu 
tambm me sentia invadido por uma sensao de paz e de amor. 
Compreendia que aquela era a essncia daquele ser....
Realmente perdi a noo de tudo por algum tempo. J 
no sabia se estava no quarto, onde estava... tudo girava em 
torno da presena daquele anjo.
Ento ele abriu a boca e falou comigo:
 Abre tua boca e repete essas palavras para ela... eu 
tenho um recado a transmitir.
A primeira sensao que me invadiu foi do mais 
completo espanto. E lembro-me que fiquei frustrado porque ele 
no queria falar comigo. Mas parecia que tinha vindo por causa 
de Isabela.
Ento ele comeou a falar, e eu fui repetindo na medida 
do possvel, na medida do que eu conseguia, porque sentia meu 
corpo desabando diante dele.
 Deus ouviu tua orao, e Ele conhece a tua dor. Ele 
recolheu as tuas lgrimas no clice!
De tempos em tempos eu tinha que parar, minha voz saa 
entrecortada e dificultosa. Continuei repetindo aquele recado, 
devagar:
 Voc pediu uma prova de que teu Deus  mais 
Poderoso do que aquele que anda pelo mundo. Hoje voc vai 
ter! Depois desta noite voc no ser mais a mesma. Vou 
derramar uma uno que vai tocar no seu corpo, na sua alma e 
no seu esprito. Eu trago vida para o seu esprito, revigoro a tua 
alma e dou fora aos seus msculos. Voc  amada, filha minha, 
e Eu te escolhi para esse tempo. No tenha medo. Nada vai 
acontecer. Voc e os seus sero guardados por Mim. Eu vou te 
dar coragem e paz.
Ento ele repetiu aquelas palavras. E eu tambm repeti 
mais uma vez:
 Voc pediu uma prova do Poder de Deus...
Ento o anjo olhou para mim e pediu que eu estendesse a 
mo. A minha mo esquerda. Ergui lentamente o brao, 
trmulo, chorando, gemendo. A ele esticou a prpria mo e 
tocou na minha aliana. Ento virou a prpria mo com a palma 
para cima, entendi que eu deveria fazer o mesmo. Voltei a 
palma da minha mo para cima imitando o seu gesto.
Nesse momento vi outro anjo, um pouco menor do que 
ele, mas que trazia um jarro dourado. Este outro olhou para mim 
e sorriu. Ergueu o jarro e despejou o contedo dele na minha 
mo.
Eu chorava e gemia mais ainda, parecia que ia ter uma 
crise nervosa, porque senti aquilo cair! Literalmente! Brilhava 
como se fossem lingotes de ouro em estado lquido, era 
brilhante como ouro lquido...
Ouvi a voz do primeiro anjo novamente. Uma voz 
Poderosa:
 Ergue tua cabea...
 Ergue a tua cabea  repeti.
Acho que Isabela deve ter entendido e obedecido, 
porque ele mesmo tocou na minha mo e a empurrou na direo 
dela. Ela continuava ali ao meu lado, de olhos fechados, mas eu 
quase nem a enxerguei.
A aquele anjo falou, no momento em que eu derrubava 
aquela substncia sobre a cabea dela... e eu transmiti suas 
palavras:
 Aqui est a prova que Me pediste! Esta  a tua prova. 
Dessa noite em diante voc no olhar mais para baixo, mas 
para cima... porque a Fora vem do Alto! Essa  a capacitao 
que voc tem pedido e a prova que tem clamado. Isso  para que 
voc saiba que Deus ouve. No tempo certo, teus olhos vo 
contemplar o Mundo Espiritual.
Ento falou novamente de um Dom que o Senhor lhe 
daria.
 Isso vai acontecer quando voc estiver preparada  
finalizou ele.
Eu chorava muito e sentia minha mo queimando. 
Queimava e formigava, estava meio insensvel. Falei 
compulsivamente:
 Senhor, perdoa nossa incredulidade, perdoa, perdoa! 
Como duvidar deste Poder?!
No sei a que horas o anjo desapareceu. De repente, ele 
no estava mais l, ento olhei para Isabela e vi o rosto dela 
brilhando por causa do leo. Eu tinha at medo de voltar a tocar 
naquela substncia. A olhei para minha prpria mo, ela tremia 
muito, ento tentei segur-la para que parasse de tremer. No 
consegui me comportar de maneira normal, estava 
completamente descontrolado:
 No ficou nada na minha mo... o... olha... no ficou 
nada aqui! Ficou tudo...  chorei mais ainda.  Ficou tudo em 
voc!
Isabela me olhava sem compreender muito bem. Eu 
enterrei o rosto no colcho e chorava compulsivamente, 
enquanto isso ela tentava me puxar pelos ombros, preocupada 
com meu estado.
 Eduardo, que aconteceu? Por que voc est assim?
 Eu vi! Eu vi! Eu vi!  levantei da cama e fui at o 
banheiro, coloquei minha mo debaixo d'gua. Ela continuava 
queimando.
Isabela olhava ainda sem entender. Seus olhos tambm 
estavam cheios de lgrimas, mas ela no estava naquele estado 
de histeria em que eu me encontrava. Esperou que eu 
conseguisse me acalmar, o que foi acontecendo aos poucos.
 Foi ele que trouxe esse leo para te ungir! S ento 
Isabela percebeu.
  Esse leo no  nosso?! Eu pensei que era nosso...  
seu rosto estava espantado, quase incrdulo.  Eu no entendi 
porque voc estava colocando tanto leo em mim... desde o 
incio da nossa orao percebi que voc estava vendo alguma 
coisa! Fiquei orando em lnguas, concordando com voc... mas 
a percebi que voc devia estar vendo alguma outra coisa! 
Alguma coisa boa! Voc falava em lnguas o tempo todo, e de 
vez em quando vinha uma frase em portugus... eu entendi que 
Deus estava me trazendo uma Palavra!
 No! Falei em portugus o tempo todo! No falei em 
lnguas hora nenhuma!
 Falou, sim. A maior parte do tempo! O anjo deve ter 
falado com voc em lnguas, e voc respondia em lnguas. 
Consegui compreender que voc estava repetindo algumas 
coisas para que eu pudesse entender... mas... nunca imaginei que 
esse leo...
Ela passou a mo na cabea, sentiu nos dedos a textura, 
cheirou, ainda com semblante estarrecido. Alis, estvamos os 
dois completamente estarrecidos! No foi bem naquela hora que 
conseguimos nos comunicar. Estvamos por demais em estado 
de choque. Eu, especialmente, no conseguia nem conversar 
direito, s pensando naquela apario. No que aquilo 
significava... a gente no tinha sequer a dimenso do que aquilo 
significava!
Fazia mais ou menos um ano e meio que eu tinha sido 
ungido no meu quarto pelo anjo ruivo. Agora acontecia com 
Isabela!
Ela foi tomar banho, alegre e pensativa ao mesmo 
tempo. Eu tive que ir pegar o frasco do nosso leo para cheirar. 
Tinha que comparar o cheiro... inspirei fundo... era bem 
diferente!
Fomos ao concerto do Marco. Chegamos atrasados, mas 
fomos. Minha mente estava longe, voando, pensando na 
visitao. Isabela se sentia igualmente embasbacada. Mas, de 
uma forma diferente, porque ela no tinha sentido aquilo que 
senti. Ela estava mais leve, mais feliz, e puxava conversa o 
tempo todo.
 Por que sua mo estava tremendo?  perguntou ela 
depois de indagar vrias vezes sobre o anjo.
 No sei... ela estava queimando...
 Quando o leo caiu em mim, estava normal, como 
que em temperatura ambiente...
Apesar das suas perguntas, eu no estava a fim de muito 
papo. Primeiro, fiquei muito enciumado. J fazia um tempo que 
eu no via nenhum anjo, e quando ele vem... vem para ela! 
Tambm estava ainda um pouco irritado por causa da briga, por 
causa do dia desgastante que a gente tinha tido.
Isabela, ao contrrio, parecia ter-me perdoado 
completamente e estava muito satisfeita. Mesmo assim, no 
cheguei a contar tudo em detalhes para ela naquela noite.
No dia seguinte, minha alma ainda falava alto. Sentia-
me inconformado, relegado para segundo plano. Quase 
brigamos de novo. Acabei fazendo Isabela chorar antes de 
contar-lhe exatamente o que tinha ocorrido.
 Puxa, Eduardo...  falou ela depois, entristecida com 
minha atitude.   sempre voc quem v os anjos... mas eu 
tambm sou filha! Deus tambm se importa comigo. E depois, a 
sua experincia foi mais forte do que a minha, porque, pra 
variar, foi voc quem viu... e Deus te mostrou, para voc falar 
pra mim. Aquele que est na condio de Profeta no pode reter 
o recado de Deus.
A medida que ela falava, fui desanuviando o semblante. 
Ca em mim. Que papel ridculo e egosta eu estava fazendo! Eu 
ainda no tinha dito do meu cime. Mas ela percebeu. E 
perguntou:
 Por acaso voc est enciumado?
Olhei para ela sorrindo, envergonhado. Nem respondi. 
Isabela devolveu o sorriso, e veio junto um olharzinho meio 
zombeteiro. Mas carinhoso ao mesmo tempo.
 Nen! Voc ficou com cime de mim por causa do 
anjo? Quer dizer, eu no posso receber nenhum presente de 
Deus, s voc! Voc acha que  o grande queridinho?
Tive que brincar um pouco, ento fiz beio de menino 
mimado, para mexer com ela. Tinha entendido o quanto estava 
errado na minha postura. Aquilo fez com que finalmente 
consegussemos fazer as pazes de vez. Ela estava tentando 
desde a vspera, eu  que estava sendo irredutvel. Ento contei 
tudo direitinho. Tudo o que me lembrei.
 Voc no tinha falado tudo isso na hora... algumas 
frases vinham em lnguas, e outras em portugus. A minoria... 
Ficamos calados lado a lado, sentados no Palio, 
pensando. Perdidos naquela experincia.
 E por que ser que ele tocou na sua aliana?
 Eu entendi que era um respeito pela minha posio de 
marido.  engraado, mas algumas coisas vm forte no esprito, 
voc simplesmente sabe que  aquilo. Ele poderia simplesmente 
ter jogado o leo diretamente em voc, mas entendi que Deus 
queria me usar por causa da minha posio de marido. Creio 
que Deus estava tambm me ensinando algo mais sobre isso. 
Tenho responsabilidade em relao a voc! Acho que  algo 
mais ou menos assim.
 Puxa... se a gente pudesse quantificar a dimenso 
disto, no?...  uma coisa to incrvel que, se no tivesse 
acontecido com a gente, eu no ia acreditar. Ia achar que a 
pessoa tinha viajado na maionese, era maluca... ou estava 
mentindo! S acredito porque foi com a gente... porque vi com 
meus prprios olhos  disse Isabela.
 A voc disse uma coisa certa. Como o Reino 
Espiritual  real... cada coisa to... no tenho nem palavras pra 
dizer. Ah! Ele disse que Deus tinha ouvido a sua orao. Que 
orao que voc fez?
 A  que t...  Isabela suspirou, com olhar distante. 
 Sabe que eu nem achei que tinha orado? Foi naquele dia em 
que estivemos recusando o emprego na academia. Depois a 
gente falou com a Grace pelo telefone, ela comentou sobre a sua 
preocupao, sobre aquela histria de cerco policial... lembra?
Assenti. Ela continuou.
 Eu estava triste... e quando a gente foi tomar aquele 
cafezinho l no Cyber Caf, enquanto voc estava l 
comprando, me veio uma sensao to ruim... ento eu falei, 
num desabafo, nem considerei aquilo uma grande orao. Ou 
melhor, nem considerei uma orao! S falei algo assim: "Ai, 
Deus, fala comigo dessa vez! Diz para seu anjo falar comigo 
desta vez! Me mostra, me d uma prova de que Voc  maior!"
 Foi s isso?
 Foi. Na verdade, Deus sabia muito bem do que eu 
estava falando. De repente me deu um medo, uma sensao de 
insegurana... mas acho que  porque eu tive que respirar dia e 
noite aquela doutrina satnica, aquelas experincias... depois, 
nosso dia-a-dia no ajuda muito. A histria que a gente vive  a 
coisa mais estranha do mundo, ameaas, coisas horrveis... a 
Irmandade fala, e as coisas acontecem... nem sei! Embora eu 
saiba que Deus  maior, estava quase chegando ao cmulo de 
pensar que, como pai, o diabo faz mais pelos seus filhos, do que 
Deus faz por ns... e a desabafei! Precisava que Deus me desse 
uma prova de que Ele era maior.... Deus entendeu, sabia que 
no era puro capricho da minha parte! At agora no consigo 
acreditar que isso aconteceu... como Deus est escutando tudo 
mesmo!
 Que ser aquela coisa que ele falou das lgrimas no 
clice?
 No sei.
Depois, quando compartilhamos com Dona Clara e 
Grace, as duas nicas pessoas para quem contamos esta 
experincia, uma delas mencionou o texto Bblico do Salmo 
56.8 "(...) recolheste minhas lgrimas no Teu odre; no esto 
elas inscritas no Teu livro?"
Que experincia indescritvel... como Deus era real, 
como seu Poder era real!
* * * *
Grace tinha marcado mais uma Ministrao para mim 
em agosto. No necessariamente porque Anglica havia visto 
alguma coisa, mas tambm porque Isabela, agora que tinha toda 
a histria completa na sua cabea, raciocinava a todo vapor.
Na verdade, no foi apenas uma Ministrao, acabaram 
sendo duas. Ricardo j no fazia parte da equipe da Grace por 
isso a Ministrao aconteceu com intercessores que no 
conhecamos. Aquilo foi bom em parte, porque aquelas pessoas 
nunca tinham me visto mais gordo na vida, e muito menos 
sabiam qualquer coisa a meu respeito.
A maneira como Deus se manifestou foi incontestvel!
No se tratava mais de revelar segredos, afinal, aos 
poucos eu tinha feito isso. Em dado momento, especialmente 
nos ltimos meses, percebi que tinha chegado ao ponto sem 
retorno. Quer falasse, quer no falasse... a partir do momento 
em que recusei a oferta de Marlon, creio que j no faria 
qualquer diferena.
Apesar de eles me dizerem que eu seria bem-vindo de 
volta, como afirmou Grion, a verdade  que parecia mais 
lgica a alternativa de que eles adorariam colocar as mos em 
mim e me matar com muito gosto. Ento... perdido por um, 
perdido por mil! No havia mais por que guardar segredo sobre 
os segredos. Ento, no me policiei mais. Fui falando, e contei 
muita coisa para Isabela nos ltimos seis meses por causa da 
escrita em ritmo acelerado. Tudo estava agora escrito no livro 
que iramos publicar em breve.
Isso me dava uma sensao de alvio. Quer morresse, 
quer vivesse... ali estava! Eu tinha feito a minha parte.
Por isso, em se tratando da Ministrao, agora sobravam 
detalhes a serem tratados  no exatamente detalhes, eram 
coisas importantes. Mas s fomos perceber o quanto eram 
importantes depois de ter uma viso completa da minha 
passagem pela Irmandade.
Naquele dia tinha ficado claro, Isabela mesmo havia 
salientado aquele ponto, era necessrio renunciar ao meu 
Destino Espiritual.
 Voc estava na Irmandade para cumprir um 
propsito, no  assim? Acho que  muito importante ministrar 
este aspecto. Os "finalmente" de tudo que voc passou eram um 
s: desempenhar um papel que o diabo tinha preparado para 
voc. Tambm  preciso ministrar aquela histria da 
paternidade... se o seu pai  o Marlon, isso muda tudo...
Grace concordava com ela. Mas ainda no estava 
disposta a aceitar Marlon como meu pai. Pelo que fomos 
deixando isso para depois, e tanta coisa Deus mostrou, que no 
final s fomos tratar disto no final do ano!
Quando chegamos para aquela Ministrao no 
sabamos ainda quem seria o intercessor. Grace garantiu que ia 
selecionar uma pessoa que tivesse dom de viso, algo 
importante nas minhas Ministraes. Quando vi quem era, 
fiquei um pouco com o p atrs. Eu tinha ficado ligeiramente 
implicado com aquele rapaz porque ele costumava conversar 
muito durante as aulas do curso da Grace.
Um dia, a Grace pediu que ele orasse repreendendo um 
ataque que ela vinha passando por causa do seu Ministrio, 
ento ele obedeceu, ficou em p e levou todos os alunos do 
curso a orarem em concordncia. De repente, gritou bem alto:
 Eu estou vendo ele!  referindo-se ao demnio 
contra o qual estvamos guerreando.
A Grace at encolheu. Achamos super esquisito. E 
agora, era exatamente ele que estava ali. No entanto, nossa viso 
seria mudada a partir daquele momento.
Assim que entramos na sala e terminamos as 
apresentaes rpidas, sentamos todos para comear a orar. 
Logo de cara, o rapaz, de nome Celso, falou sobre dois espritos 
humanos que estavam ali na porta, querendo entrar. Ns nos 
entreolhamos, ns trs. Eu sabia, Isabela sabia, Grace sabia do 
contexto espiritual que enfrentvamos. Celso no.
Grace ainda perguntou sobre a aparncia dos espritos 
humanos, testando o entendimento.
  um homem mais velho, de cinqenta e poucos 
anos, de cabelo grisalho, bem vestido; e est com uma moa 
mais nova...
 Essa moa  loira ou morena?  tive de perguntar.
 Loira.
Novamente no falamos nada, mas era muito bvio do 
que se tratava.
 No sei se tem alguma coisa a ver com a Ministrao, 
mas foi o que Deus me mostrou...  ainda disse o Celso.
Oramos a respeito, especificamente impedindo a entrada 
deles na nossa sala. Grace no falou nada, ns tambm no 
falamos nada. Mas de cara, aquilo me impressionou! No existia 
nenhuma probabilidade de algum acertar na mosca deste jeito! 
A no ser que Deus estivesse realmente revelando...
 Eles foram embora?  foi a nica coisa que Grace 
perguntou depois da orao.
 Eles no foram embora, mas ficaram ali fora... no 
podem entrar aqui.
A segunda coisa que me chamou muita ateno naquela 
Ministrao foi que, no demorou muito, e Celso viu uma urna 
em viso.
 Deus est me mostrando uma urna, eu no sei se 
entendi a viso direito, mas essa urna tem a ver com ele  e 
apontou para mim.
Ns estvamos ali para ministrar a questo do Destino 
Espiritual. Antes mesmo que tivssemos tocado nesse assunto, 
Deus estava mostrando o rumo a tomar em orao.
 Sim, isso tem a ver com o seu chamado poltico.
Eu sabia que Celso no podia ter tirado aquela viso do 
nada, aquela revelao de si mesmo, por pura coincidncia.
Outro ponto importante da Ministrao foi quando ele 
trouxe a viso de um guarda-roupa cheio de vestes. Estas vises 
vinham em momentos estratgicos, normalmente depois de 
pedidos de perdo, de renncias especficas. Imediatamente 
Deus mostrava o prximo ponto a ser tratado.
 Neste guarda-roupa tem 70 vestes, e elas estavam 
preparadas para voc...  foi explicando Celso.  Voc 
chegou a usar algumas destas vestes, mas foram poucas. S que 
o guarda-roupa inteiro j estava preparado... para o futuro!
A princpio no entendemos direito por que Deus estava 
mostrando vestes. Mas depois ficou mais claro, por que Celso 
mesmo explicou melhor a viso.
  So vestes de Poder. Era como se fossem patamares 
de Poder a serem alcanados, patentes que voc iria galgar!
 Sim, eu entendo... a minha trajetria era longa.
  como se todo o destino dele tivesse sido 
meticulosamente traado. As vestes so justamente isso: um 
destino previamente traado! Simbolizam o Poder que ele teria, 
mas tambm que o diabo j tinha planejado tudo. Ns sabemos 
que foi isso mesmo, ele no era uma pessoa comum dentro da 
irmandade  falou Isabela.
 Isso faz muito sentido  concordou Grace.
Oramos sobre tudo aquilo. Ento Deus mostrou mais 
coisa.
 Duas destas vestes no eram para ele... uma era para 
um homem, e outra para um demnio, os dois muito ligados ao 
Eduardo. Como se isso fosse uma coroa de vitria que eles 
receberiam por terem feito o trabalho que fizeram... algo neste 
sentido. Uma espcie de recompensa!
 O Marlon e o Abraxas!  exclamou Isabela.  
Aqueles que foram responsveis pelo treinamento e capacitao 
do Eduardo como que receberiam uma coroa especial por isso 
 fez Isabela seriamente outra vez.  Isso tudo  muito 
certeiro!
Concordei com ela. Naquele momento, julgamos que o 
demnio fosse Abraxas de fato. Em breve ns veramos que no 
se tratava dele. O condecorado seria Leviathan. Mas naquele 
momento tratamos como se fosse.
 Eu vi tambm algumas coroas  continuou Celso.  
Essas coroas tambm eram para voc! Realmente... eu no sei 
com que voc se envolveu, mas o que eu estou vendo denota um 
Poder muito grande, um Poder claro. Deus me mostra tambm 
que voc tinha controle sobre alguma coisa... voc controlava 
alguma coisa. J tinha um poder de controle, uma das coroas 
voc j usava, mas havia um Poder muito maior reservado para 
o futuro!
Aquilo tinha sua razo de ser. Todas aquelas 
informaes, somadas, mostravam que o meu Destino Espiritual 
escrito pelo diabo era grande, era Poderoso, era especial. Aquilo 
que ele tinha reservado para mim era "glorioso". Foi uma 
Ministrao muito especfica neste aspecto.
Nossas oraes levaram  destruio daquele guarda-
roupa, das vestes, das coroas. Eu renunciei a tudo aquilo. 
Depois, mais para a frente, enquanto Grace me ungia, creio que 
foi novamente Isabela quem falou: agora ela era muito mais 
participativa do que antes. E suas colaboraes tinham sempre 
um valor especial.
 Tinha um Portal que era mais importante para o seu 
Destino Espiritual do que os outros, no ?
 Tinha, claro. Do alto da cabea!
Quando Grace orou sobre ele, e ungiu o local, e eu 
renunciei ao Destino Espiritual que a sua abertura me 
proporcionaria, aquele destino para o qual tinha nascido, 
segundo a Irmandade, e etc. etc... algo diferente aconteceu. 
Desta vez Deus trouxe uma viso ao Celso bastante 
significativa.
No entender da Irmandade eu havia sido gerado 
justamente para cumprir um propsito. O fato de saber que 
Marlon era meu pai tornava a questo do Destino Espiritual 
muito mais complexa.
 Enquanto voc estava orando sobre a cabea dele, 
Grace, eu vi um poo aberto... um poo negro, muito profundo, 
como se fosse realmente at o Inferno. E no momento em que 
voc ungiu, eu vi como se houvesse leo escorrendo pelas 
paredes deste poo.
Aquilo me fez lembrar de uma outra descida ao Inferno, 
quando eu tinha sido marcado por Belfegr. Aquele demnio 
seria um dos primeiros que me estariam dando capacitao 
especial, futuramente, para cumprir aquilo que tinha sido 
determinado por Lucifr  (Esta grafia est propositadamente 
incorreta para enfatizar a pronncia adotada nos bastidores da 
Irmandade).
 Depois que o leo escorreu, aquele poo fechou! 
Ficou lacrado.
 Graas a Deus  disse Grace.
Tambm aquele detalhe Celso desconhecia. A figura do 
poo era muito profunda, mostrava que aquilo agora estava 
cancelado. O poo tinha sido lacrado! E aconteceu exatamente 
na hora em que o Portal foi ungido e eu renunciei ao plano de 
Lucifr para mim.
Enquanto a gente se regozijava, comentando o que tinha 
acontecido, e o que Deus tinha feito, Celso acrescentou:
 No foi s isso... Deus te deu uma chave tambm. 
Essa chave fechou o poo... mas ela ficou com voc, ela serve 
para abrir tambm uma outra porta.
 Que porta?  perguntamos Isabela e eu em unssono.
 A eu j no sei. S sei que Deus te deu a chave. Essa 
chave no  para qualquer um... alm da chave, Deus te deu 
uma caixa de presente e uma nova coroa!  os olhos do Celso 
ficaram at meio lacrimejantes, ele se emocionou ao falar:  
Eu realmente no sei o que voc fez, nem com que voc se 
envolveu, mas ficou muito claro para mim hoje que o diabo te 
deu muita coisa... mas Deus vai te dar muito mais!
Na minha concepo, imaginei que a tal chave serviria 
para abrir uma porta de emprego. Ou, ento... a porta do 
Ministrio, quem sabe?! Tinha de ser isso!
Ns dois samos muito impactados daquela Ministrao 
porque Deus tinha trazido uma revelao muito contundente. 
Todas as vezes que Celso abriu a boca foi para acrescentar 
dados essenciais, certeiros e que fugiam totalmente da 
possibilidade de uma coincidncia. O mover de Deus foi muito 
diferente naquela ocasio, bem diferente de como acontecia com 
Ricardo. Embora Ricardo trouxesse coisas importantes, nunca 
tinha sido daquela maneira to forte. Foi uma coisa muito 
especial! A manifestao do Poder de Deus era indiscutvel.
A segunda Ministrao importante naquele perodo foi 
mais ou menos um ms depois, na casa da Grace. Foi uma 
Ministrao longa, mas que tambm trouxe uma manifestao 
singular em termos de revelaes e do mover de Deus. A 
intercessora, Sandra, tambm no nos era familiar. Enquanto 
conversvamos com Grace a respeito dos pontos a serem 
ministrados, de repente Sandra interrompeu:
 , Grace... no quero cortar o que vocs esto 
falando, mas estou vendo a mesma coisa j faz tempo...  ela 
estava um pouco inquieta, com uma certa sensao de urgncia 
no tom de voz.  Estou vendo ele preso dentro de uma gaiola, 
sobre um precipcio e, embaixo, neste precipcio, tem muito 
fogo. A corrente que est segurando a gaiola est por um fio... 
acho melhor a gente orar e pedir para Deus tirar ele deste lugar 
porque a corda est quase arrebentando. Fora da gaiola tem um 
drago e uma serpente olhando com fria!
Grace concordou de pronto. Isabela j tinha sido vista 
dentro de uma gaiola, agora pelo visto era minha vez. No 
estranhamos, j estvamos acostumados que s vezes a 
Ministrao era direcionada por vises de revelao. Nem 
sempre era possvel compreender a profundidade e o significado 
completo das vises, mas a prudncia e a experincia 
mostravam que o melhor era no esperar. Se Deus estava 
insistindo naquela viso, o melhor era orar logo a respeito. A 
figura do drago era muito bvia: tratava-se de um smbolo de 
Satans; j a serpente era smbolo de Leviathan.
"Muito sugestivo."
Grace se colocou em posio de orar por aquilo e pediu 
que eu fechasse os olhos. Ento, depois de orar para que Deus 
me tirasse daquele lugar, ela pediu:
 Eduardo, agora voc vai sair, OK?
Naturalmente, durante a orao eu fui formando uma 
imagem mental da situao, baseado no que a Sandra dissera. E, 
tambm na minha imaginao, eu tinha que sair dali. Relativizei 
um pouco e usei das informaes que j tinha formatado dentro 
da minha cabea:
"Bom, essa  s uma maneira teraputica de lidar com a 
informao... no quer dizer que eu vou sair literalmente... 
quando eu orar declarando que estou saindo desta gaiola, isso 
vai ser uma espcie de ato proftico!"
Eu j no questionava estas coisas. J tinha me 
imaginado dentro daquela gaiola, sobre um abismo muito 
grande, e a minha gaiola estava no extremo de um penhasco... 
bem perto dela havia uma ponte estreita que levava ao outro 
extremo do penhasco. Uma ponte frgil... e a porta da gaiola de 
repente estava aberta.
"Tudo bem,  s me imaginar saindo da e atravessando 
aquela ponte."
A aconteceu algo interessante, na minha mente a 
imagem travou! Isto , eu no conseguia me imaginar saindo 
daquela priso... por mais que tentasse. Durante alguns 
segundos fiquei refletindo comigo mesmo.
"Como  que eu no tenho controle sobre essa situao, 
por que eu no consigo imaginar que estou saindo da gaiola e 
atravessando a ponte?"
Na minha imaginao as pernas estavam moles, no me 
carregavam, eu no conseguia levantar e sair. Minha mente no 
conseguia pensar aquilo que eu desejava pensar! Ento percebi 
que isso era literal, era fsico... eu sentia essas sensaes 
fisicamente...
Ento, antes que pudesse imaginar qualquer outra coisa, 
senti algo que se aproximou de mim, e me pegou... algum me 
pegou e me carregou, e isso foi literal, eu senti acontecer 
assim... com fora e ao mesmo tempo com suavidade, algum 
me carregou nos braos, como se eu fosse uma coisa especial, 
preciosa... e Ele me levou para fora da gaiola... a eu j no 
sentia mais medo, porque aquela ponte era muito frgil, muito 
estreita, muito instvel... mas quando ns passamos por ali.... 
no balanou...
Abri os olhos entre emocionado e encafifado. Como 
Sandra agora estivesse calma a respeito da viso, no falei nada 
de imediato. Isabela foi a nica que notou a expresso do meu 
rosto. E perguntou:
 Que aconteceu, Eduardo?
Contei meio por alto, no tinha idia de como explicar 
aquilo. Novamente Deus me surpreendia com Sua maneira 
mpar de agir.
O segundo ponto importante neste dia foi que 
novamente a intromisso dos espritos humanos se fez presente. 
S que dessa vez de outra maneira. Ele se apresentou com uma 
espcie de armadura. Pelo menos foi assim que Deus mostrou 
para Sandra. Grace ficou indignada:
 Eu sei que aqui na minha casa tem uma blindagem 
muito espessa, como que esses fulanos vo entrando assim 
desse jeito?
Ao que parece, aquele esprito humano tinha entrado 
graas quela proteo. Que Deus mostrava como sendo uma 
"armadura". No que o fosse de fato, porque muitas vezes a 
linguagem da Ministrao  simblica, no entanto tinha de ser 
uma espcie de proteo. No podemos saber exatamente o que 
isso significa, ou o que foi que eles usaram para conseguir 
atravessar o cerco dos anjos e dos muros de fogo.
Mas o que Deus estava querendo revelar naquele 
momento  que havia algum tipo de Encantamento, alguma 
coisa nova, talvez, e que isso estava permitindo aos espritos 
humanos furarem o bloqueio de fogo que havia ali ao redor da 
casa.
Embora no possamos explicar, e muito menos saber do 
que se trata, fato  que estava acontecendo.
Diante daquela revelao, oramos especificamente 
contra a presena daquele espio. At que Deus mostrasse, 
tambm em viso, que ele tinha tido que sair dali.
Depois a Ministrao continuou, ainda levando em 
considerao a questo do Destino Espiritual. Dessa vez, Sandra 
continuou dando seqncia em vises totalmente certeira e 
especficas, exatamente como tinha acontecido com Celso.
Logo ela falou em um trono e em vestes de prncipe. 
Aquilo foi muito, muito interessante, porque era exatamente a 
mesma linguagem que tinha sido dada ao Celso na Ministrao 
anterior. No entanto, eu j tinha renunciado quilo, portanto 
Sandra no estava falando da mesma coisa. Ela estava dando 
continuidade ao mesmo assunto, mas abordando outro aspecto.
Celso tinha falado em vestes. Sandra acrescentava algo 
mais: ela falou em vestes de prncipe, o que j quer dizer uma 
outra coisa. As vestes que Celso tinha visto denotavam Poder, 
alm de mostrar que um caminho vinha sendo traado. "Vestes 
de prncipe" j tinha uma conotao maior, pois nem todo 
aquele que tem Poder  efetivamente um prncipe. E depois ela 
acrescentou:
 Deus disse que, assim como nos Estados Unidos vai 
haver um homem, um homem especial, que vai preparar o 
caminho para o anticristo naquele pas... assim tambm era voc 
aqui no Brasil!
Aquilo veio mais ou menos como uma pancada na 
cabea, no bom sentido!
 Puxa vida... Deus te revelou mesmo isso!  
exclamei.  Eu estava mesmo compromissado com o preparo 
do Brasil para isso mesmo.
Sandra tinha tido a revelao, naquele momento, sem 
nenhuma informao prvia... de que em determinadas regies 
do Globo haveria um homem, ou um pequeno grupo, 
compromissado com o preparo para a vinda do anticristo. Era 
realmente uma pancada na moleira!
Ela tinha ido alm na afirmao dela, pois tinha falado 
que eu seria um homem, um homem especfico. Naquele 
momento, eu apenas me recordava de ser um dos noventa. O 
resto viria com o tempo. Eu tinha me esquecido...
Por ora, era tratar aquilo que tnhamos em mos...
Ficou claro que, na Ministrao anterior eu tinha 
renunciado ao meu destino de uma forma "geral". Agora, pelo 
que parecia, Deus queria que eu renunciasse  funo que eu 
teria naquele destino. A verdade  que meu cargo no era 
apenas poltico, ia muito alm, embora eu no tivesse 
lembrana... era muito mais... como viria a ser descoberto em 
mais alguns meses, pouco menos de um ano.
Por isso Deus estava insistindo naquele ponto. Ele no 
queria mais que eu to-somente renunciasse ao destino como 
um todo, destruindo-o e aceitando em seu lugar aquilo que Jesus 
tinha para mim. Agora era preciso ser especfico. Ou seja: teria 
que renunciar ao fato de ter sido um dos preparadores do 
anticristo, renunciar ao fato de que tinha sido gerado para isso, 
que a minha mente e o meu corao e as minhas potencialidades 
foram preparadas para isso. Sem dvida, algo muito mais 
profundo...
Sandra ainda trouxe  tona um detalhe especfico 
ritualstico, algo que nem eu me recordava mais de que se 
tratava. Foi Isabela quem lembrou, porque estava com a histria 
fresca na cabea, por ter terminado de escrever o livro. 
Novamente o dardo aceitava no centro do alvo. Na verdade, 
aquelas vises no acrescentavam nada novo a ns... mas a 
indiscutvel clareza de cada uma delas foi a maneira de Deus 
mostrar exatamente como dirigir as nossas oraes!
De resto, ficou bvio no restante da Ministrao que 
todas as vises tinham a ver com ataques especficos sobre a 
minha vida.
Isabela e eu samos estupefatos de l naquela noite! Com 
a maneira sobrenatural com que Deus tinha tratado aquele 
assunto. Fomos comer alguma coisa em casa, e no 
conseguamos parar de comentar os detalhes da Ministrao. 
Era completamente impressionante! O agir de Deus era 
impressionante...
Com isso, alvio! Tudo aquilo estava cancelado, tudo 
aquilo era mais lixo que tinha sido arrancado da minha vida! 
Sem dvida, j no era sem tempo... o cerco iria apertar muito 
mais, gradativamente,  medida que se aproximasse a data 
marcada para nossa morte. Tanto a minha, quanto a de Isabela.
Era preciso que todas as brechas estivessem fechadas!
 * * * *
Captulo 40
Depois da Festa da Primavera daquele ano sentimos a 
coisa mais densa.
Os problemas se avolumavam, tanto financeiros quanto 
de relacionamento entre ns. Havia uma angstia muito grande 
que tomava conta cada vez que brigvamos. Quanto ao dinheiro 
para nosso sustento dirio, o nome de Isabela j tinha sido 
protestado e no havia mais nenhum limite de carto de crdito 
nem de cheque especial.
Comeamos a cogitar em vender o Palio para conseguir 
sobreviver mais alguns meses. Aquilo seria literalmente jogar o 
carro no lixo, transform-lo em nada, mas seria uma maneira de 
ganhar tempo.
No havia mais de onde tirar sustento, e no havia 
ningum a quem pedir ajuda. As poucas pessoas em quem 
confivamos, Grace e Dona Clara, no tinham condies de 
fazer nada alm de orar. De resto, os poucos com quem 
compartilhamos alguma coisa vinham com respostas padro, 
chaves evanglicos, nada que pudesse nos ajudar. Como falou 
a noiva de um antigo amigo de Isabela:
 Luta todo mundo passa, irm!  com ar de sabe-
tudo, e nenhuma compaixo.
Continuar falando o qu depois daquilo? Ela no sabia 
que h nveis de luta. Ou ser que todos cristos so como 
Paulo, como Davi, ou como Moiss? Certa noite, estvamos 
comentando que precisaramos de mais ou menos R$ 1.500,00 
para conseguir segurar o oramento durante mais algum tempo. 
"Algum tempo" era s maneira de dizer, aquele dinheiro era a 
quantia mnima para evitar que tudo voasse pelos ares!
Se esse dinheiro no aparecesse, a nica soluo era 
realmente vender o carro. No iramos ganhar muito, porque ele 
ainda estava alienado, faltavam nove prestaes.
Naquela noite, oramos muito pedindo a Deus pela 
proviso. Alm disso fizemos uma coisa que nunca tnhamos 
feito antes, mas cremos ter sido direo de Deus. Entregamos a 
Ele tudo o que tnhamos... os nossos poucos bens, nosso carro, 
nossas coisas... e, ento, o mais difcil: entregamos nossa sade, 
nossa vida... foi com lgrimas e muita dor que depositamos no 
altar de Deus a vida um do outro. Isabela entregou minha vida 
diante Dele, sabendo que ela no lhe pertencia, e eu fiz o 
mesmo.
Foi um momento duro o desta entrega. Sabamos  
tnhamos plena certeza e convico  que nossa vida j no era 
nossa, e que qualquer coisa que fosse acontecer estava nas mos 
do Senhor. No havia nada que pudssemos fazer para nos 
livrar, para nos salvarmos a ns mesmos. No adiantava 
continuarmos nos agitando, era preciso relaxar porque nosso 
destino estava traado. No pelo diabo, mas por Deus!
"Aquietai-vos, e sabei que Eu sou Deus..."
Apresentamos a Deus o desejo do nosso corao: que era 
sobreviver, sem dvida! Conseguir atravessar aquela tempestade 
e chegar com vida do outro lado. Se ia sobrar alguma coisa... 
ns no sabamos. Mas bastava que terminssemos com vida. 
Deus havia permitido que chegssemos num momento de 
completa renncia.
Os remos no estavam mais em nosso poder. Se 
estvamos dentro de um barco, sendo levados pela correnteza, 
havia muito tempo que os remos estavam nas mos do Deus 
Todo-Poderoso, o Grande El-Shaddai! No adiantava nos 
debatermos... Ele iria nos levar aonde quisesse. Ou ento, 
aquele barco acabaria por virar, e ns iramos desaparecer. 
Nisso seria tambm cumprida a Vontade de Deus. No havia 
nada que pudssemos fazer para impedir isso.
Portanto, aquela entrega. Fizemos de todo o nosso 
corao.  difcil entregar tudo que se tem a Deus, quando se 
sabe que realmente Ele pode tomar tudo... e ns teramos que 
dizer, como J: "O Senhor deu, o Senhor tirou, louvado seja o 
Nome do Senhor!" Por algum motivo que talvez ainda nos fosse 
desconhecido, porque os pensamentos de Deus so mais Altos 
do que os nossos, a verdade  que a partir daquele momento ns 
nos preparamos para qualquer coisa....
Depois daquela orao ficamos mais aliviados. Nossa 
esperana era a certeza de saber que Deus estava no controle. 
No importava o que fosse acontecer... s ia acontecer porque 
Deus permitiria! Essa era uma convico forte. Nossas vidas 
no estavam na mo do diabo, estavam na mo de Deus.
No final do ms de agosto eu tinha comeado a escrever 
uma apostila, por sugesto do Pastor Lucas, para preceder o 
lanamento do livro. A princpio, seria apenas um material de 
divulgao. Nunca me passou pela cabea que aquela apostila 
seria material de trabalho no futuro. Eu montei o esqueleto, com 
os principais assuntos, e Isabela tratou de dar o polimento, 
reescrever alguns trechos, acrescentar outras informaes...
Aquela apostila foi uma criao feita por ns dois! 
Levou algumas semanas. Mas logo ela estaria pronta! Talvez 
Grace nos ajudasse a divulgar o material e aquilo se tornasse 
alguma fonte de sustento para ns... antes da publicao do 
livro.
* * * *
Por falar em Grace... ela estava preocupada em continuar 
sustentando sozinha a nossa vida. Espiritualmente falando. Ela 
sabia que Dona Clara era outro importante pilar, estava firme e 
fiel desde o incio. Mas Grace j tinha lido o livro... ento 
entendia agora, melhor do que antes, a gravidade da publicao! 
Entendia o risco que ns estvamos correndo. E no queria 
assumir toda aquela responsabilidade sozinha!
Por esse motivo resolveu abrir para sua equipe um pouco 
do nosso contexto, para que eles pudessem estar intercedendo 
por ns com conhecimento de causa. Seria um sustento para 
ns, e tambm um sustento para ela. Uma vez que ns no 
tnhamos outros intercessores...
No achamos ruim, uma vez que o livro logo iria sair e 
aquelas informaes viriam a pblico. Isto , o livro viria a 
pblico... no necessariamente o contedo das Ministraes! 
Alguns aspectos deveriam ter sido mais bem preservados, 
todavia, naquela altura apenas confiamos em Grace.
Fato  que, como no tivssemos conseguido nenhum 
intercessor em nenhum outro lugar, Grace os estava 
providenciando para ns. Sua prpria equipe.
A primeira vez em que nos reunimos com eles foi 
durante a sua prpria reunio. Ns costumvamos chegar mais 
tarde, l pelas dez da noite, dez e meia, quando eles estavam 
finalizando seus assuntos. Ento podamos compartilhar alguns 
motivos de orao, e orar com eles.
Naquela noite estava bem frio, o inverno estava 
chegando ao fim, mas ventava um vento gelado. Isabela, 
friorenta, reclamava do frio o tempo todo. Grace demorou um 
pouco a abrir a porta. A gente nunca escutava a campainha da 
calada.
Ento algum abriu a cortina da sala e espiou, fez um 
aceno. Logo vieram abrir a porta. Eles estavam todos sentados 
no sof e nas cadeiras, lotando a salinha da Grace. Da porta, 
demos um "Oi" geral e nos acomodamos no fundo, perto da 
porta, quietos, para no atrapalhar o final da reunio.
Logo Grace chamou a gente para sentar mais perto, no 
sof. Estava reunida ali boa parte da equipe dela. Pela primeira 
vez ns amos orar em concordncia com um grupo assim, que 
era mais slido aparentemente. E estava envolvido com Batalha 
Espiritual. Grace j havia adiantado alguma coisa sobre ns, e 
acrescentou:
 O que eles esto passando, mais ningum aqui 
passou. Eles precisam muito, muito de cobertura de orao!
As pessoas lanavam para ns olhares diferentes. Havia 
quem olhasse com simpatia, havia quem olhasse com 
curiosidade, havia quem olhasse de maneira neutra. E ento 
algum falou:
 Eu estou vendo as costas dela esquartejadas, e a 
cabea est partida. De dentro da cabea entram e saem 
demnios!
Para nossa surpresa, no era eu que estava naquelas 
condies, mas Isabela. No que fosse de fato uma surpresa, o 
ataque era sobre ela tambm. Mas como veramos naquela noite, 
naqueles tempos o ataque estava concentrado nela.
 Vamos orar a respeito.
Foi levantado um clamor ali. Quando terminou, outra 
pessoa falou tambm:
 Tem tambm uma lana que est atravessando as 
costas dela.
Mas a viso mais surpreendente foi a de um homem com 
armadura negra que estava atrs de Isabela, com as mos na sua 
nuca. Antes de colocarmos este ponto em orao, uma mulher 
que estava entrando na equipe aquele dia, e participava da 
reunio pela primeira vez, pelo que entendemos, fez um 
comentrio um pouco fora:
 Voc j renunciou ao pacto que fez com as Trevas? 
 indagou ela olhando para Isabela. Isabela se voltou na 
direo da pessoa, sem entender.
 Eu no fiz pacto nenhum. No sou eu a ex-Satanista. 
 ele! Eu s sou casada com ele.
Naquele momento Grace no se deu ao trabalho de ficar 
explicando nada. A mulher ficou quieta sem palpitar mais nada.
Quando todos ns oramos a respeito daquele homem de 
armadura que estava no canto da sala, parado, comeamos a nos 
surpreender um pouco. Aquela mesma revelao j tinha vindo 
durante a minha Ministrao. Novamente eles estavam enviando 
um espio com uma proteo especial capaz de perfurar o 
bloqueio de Deus. Um esprito humano "paramentado"!
As vises no vinham de uma s pessoa, isso  o que era 
mais interessante. Mas se complementavam. Novamente 
salientaram muito bem que no se tratava de um demnio, mas 
de um homem. Um homem com armadura!
Um clamor de resistncia muito grande foi levantado no 
sentido de expulsar dali aquele intruso. No entanto, quando 
terminou, algum indagou:
 E ento? Ele foi embora?
A pessoa que estava tendo as vises do intruso balanou 
a cabea negativamente.
 No foi embora. Continua ali mesmo, ali no canto, 
parado... eu ainda estou vendo!
Durante alguns segundos, o silncio percorreu a sala. 
Certamente aquela no era a resposta esperada. Mas no 
aconteceu assim.
 Ento vamos orar de novo!  sugeriu algum.
Assim foi feito. Com mais mpeto do que da primeira 
vez. Vozes se elevaram, altas, alguns braos at se ergueram ao 
ar. Eu e Isabela participamos da orao mas no interferimos em 
nada do que estavam deblaterando entre si. No queramos 
atrapalhar.
 E agora?  perguntou Grace.
 Olha... no sei o que est acontecendo, mas ele 
continua aqui, no foi embora, no...
Dessa vez houve um silncio ainda maior. E depois a 
indignao percorreu todo mundo. Algum cogitou:
 Ele est vestido com uma armadura, no ? O que  
que combate o ferro da armadura? Vamos pedir para Deus 
enviar um anjo com um maarico! Grace, ora neste sentido! Se 
ele est usando uma armadura, vamos rasgar esta armadura!
Em outras palavras, Deus na sua Oniscincia sabia disso, 
"pedir o maarico" queria dizer pedir o antdoto especfico. De 
alguma maneira aquele esprito humano estava usando de um 
Encantamento peculiar, e embora ns no pudssemos dizer o 
que era, Deus sabia.
Pedir que Deus enviasse um anjo com maarico queria 
dizer que Deus enviasse um anjo capaz de destruir 
especificamente aquela proteo. A proteo que fazia com que 
aquele homem conseguisse permanecer ali no nosso meio, a 
despeito das oraes convencionais!
Ningum usou essa linguagem rebuscada, mas a 
experincia deles ao longo dos anos fez com que percebessem 
que, algumas vezes, Deus trazia armas especficas, estratgias 
especficas. Por isso, pedir a Deus um maarico no soou como 
algo estratosfrico para ningum ali.
Pode parecer uma coisa estranha, muito estranha... mas a 
verdade  que funcionou!. Aquele lana-chamas espiritual 
afugentou o espio. A coisa era forte mesmo. No tinha 
terminado ainda.
 E ento? No vai dizer que ele ainda est aqui?
 Dessa vez ele foi embora, mas levou o nome dos 
familiares de todos os que esto aqui. Saiu ameaando a famlia 
de todo mundo, e est indo colocar os nomes num caldeiro.
Novamente: "colocar num caldeiro" era uma figura de 
linguagem, uma linguagem metafrica que, em outras palavras, 
queria dizer "submeter a um Encantamento".
Pelo que algum sugeriu novamente:
 Vamos pedir para Deus enviar um anjo, e interceptar 
esse esprito! Oramos todos neste sentido, com todo mpeto. 
Quem no conhecesse muito em este contexto certamente h de 
imaginar que estvamos todos ficando avariados mentalmente.
Quando terminamos, todos os olhares se desviaram na 
direo da mulher que estava tendo as vises. Todo mundo lhe 
lanou piscadelas indagativas esperando que ela se 
pronunciasse. A resposta no foi encorajadora.
 No adiantou. Deus enviou um anjo, mas mesmo 
assim o esprito escapou. E nossos nomes j esto dentro do 
caldeiro.
Todo mundo se entreolhou, procurando algo para dizer. 
Realmente havia um ar de incredulidade na maioria dos rostos! 
Era muita ousadia do diabo.
Deus mostrava que, a fim de evitar que os familiares 
fossem atingidos, seria necessrio orar ainda mais uma vez. O 
processo de retaliao no tinha sido abortado.
Desta vez, Grace foi a que ficou mais indignada. E usou 
de um ato proftico para orar mais uma vez.
 Senhor, usa minha vida neste momento. Permita que 
espiritualmente eu possa ir at este caldeiro, at o lugar onde 
ele est! Em nome de Jesus, estou diante dele! Eu calo minha 
mo com a proteo de uma luva, de uma luva que o Senhor me 
d agora! Eu coloco minha mo dentro dele e tomo nossos 
nomes de dentro deste caldeiro! Na tua misericrdia, peo que 
o Senhor oua nossas oraes agora e destrua todos os planos do 
inimigo.
De p no meio da sala, ao dizer estas palavras, Grace 
como que enfiou a mo dentro daquele caldeiro e tirou aquilo 
que era nosso, que no pertencia a eles.
 E agora, em nome de Jesus, eu tomo todo o contedo 
deste caldeiro e derramo no cho, torno completamente sem 
efeito toda tentativa de retaliao sobre ns e sobre nossas 
famlias! Passa Teu Fogo aqui e queima toda impureza. Limpa 
tambm minha mo de toda contaminao do inimigo.
 Amm!  fizemos todos ns em concordncia.
J fazia um bom tempo que estvamos s voltas com 
aquele esprito humano vestido de armadura. Olhamos para a 
pessoa das vises.
 Agora funcionou! Deus queimou tudo aquilo que 
estava dentro do caldeiro e realmente permitiu que Grace 
tirasse os nomes de l!
Um burburinho de animao percorreu a sala.
 Arre!
Diante de um ataque to macio sobre Isabela, parece ter 
ficado claro para algum, depois disso, que Isabela tinha que 
pedir perdo por um pecado. A pessoa sinalizou essa direo, e 
tentou ajudar,  sua maneira:
 Voc se arrepende de ter se casado com ele? Isabela 
foi veemente na resposta.
 No, de forma nenhuma. Isso no. Mas eu sei... eu 
acho que sei do que Deus est falando, que pecado  esse, eu 
sei...
 Ento, por favor, se ajoelhe a no meio...
Eu no tinha idia do que Isabela ia orar, mas ela parecia 
ter certeza do que precisava ser feito. De cabea baixa, entre 
lgrimas, foi falando na frente de todos os presentes:
 Oh! Senhor... eu sei que o Senhor  mais forte do que 
o diabo, sempre soube disso com a minha mente, porque est 
escrito na tua Palavra. E eu no questiono, Tu o sabes... apesar 
disso... o Senhor tambm sabe que rumo meus pensamentos 
tomaram... o Senhor sabe quanto tive que absorver da doutrina 
satnica, quanto que eu tive que mergulhar nela, e quantos 
problemas ns temos enfrentado... no tem sido fcil, meu Pai! 
Dia e noite fiquei em funo da doutrina da Irmandade, das 
prticas da Irmandade... e o meu cotidiano refletia boa parte 
daquilo que eu estava escrevendo. O Senhor sabe que algumas 
vezes pensei, no meu ntimo, que, como pai... o diabo tem sido 
melhor para os filhos dele do que o Senhor  para ns, os Teus 
filhos! Cheguei ao cmulo de pensar nisso! Que existem dois 
pais... e o diabo, no final das contas, aqui nessa Terra,  um pai 
melhor do que Deus. s vezes tenho ficado revoltada com tudo 
que tivemos de passar. Embora continue crendo que o Senhor  
o Deus Todo-Poderoso, questionei o Teu Amor por ns. Na 
minha mente eu sei que o Senhor  Pai, que o Senhor  Amor e 
tudo o mais que a Palavra diz...  nas minhas emoes que 
algumas vezes fica difcil aceitar! E muitas vezes de certa forma 
"invejei" a maneira como Satans trata seus filhos. Eu te peo 
perdo por isso, porque esse  um pensamento errado, um 
pensamento distorcido... que o Senhor possa me perdoar disso 
tudo! O diabo  falso e mentiroso, ele no busca os interesses de 
ningum a no ser dele mesmo... o bem que ele faz  apenas 
aparente! O Teu Bem  perfeito... e  eterno! Me ajuda a 
continuar caminhando, me ajuda ao olhar para Ti e Te conhecer 
cada vez mais. O Senhor sabe que eu quero isso. Eu rejeito cada 
um destes pensamentos distorcidos!
Isabela chorou ao fazer aquela orao. Mas teve 
humildade em admitir a quantas andava o seu corao. A cabea 
partida, e os demnios que entravam e saam, certamente 
estavam trabalhando de forma muito profunda na mente dela. 
Claro que ela no ia poder resistir muito tempo com 
pensamentos como aqueles.
Mas a verdade  que em momento algum houve muita 
orao a respeito do livro, a respeito da proteo da mente dela. 
Afinal, tudo que ela estava escrevendo, de certa forma tambm 
estava experimentando no dia-a-dia...
Grace ainda comentou, penalizada:
 Quando li o livro, fiquei horrorizada por sua causa... 
falei comigo mesma: "Coitadinha... como que essa menina 
conseguiu escrever uma coisa dessas?" Eu imagino como no 
ficou o seu corao, a sua mente, as suas emoes... Graas a 
Deus que hoje estamos colocando um basta nesse ataque terrvel 
que est sobre sua vida!
As costas esquartejadas e a lana atravessando o trax 
prenunciavam um ataque de morte. Nenhuma novidade. Mas 
samos de l naquela noite um pouco impressionados. Isabela 
at chorou de novo.
Uma coisa era quando as vises aconteciam durante a 
Ministrao, era um outro contexto. No estvamos esperando 
por uma revelao to contundente de um ataque to claro sobre 
Isabela. De certa forma, era um ataque "gratuito". Mas no no 
entender dos Satanistas. Sem ela, aquele livro jamais chegaria 
ao conhecimento da Igreja. O dio que tinham de Isabela era 
"justificvel" por este lado... mas tambm pelo fato dela 
continuar ao meu lado.
* * * *
Certa tarde, recebi um bip de uma pessoa da equipe da 
Grace. Telefonei em seguida e ela me explicou que estava com 
algumas dvidas, precisava conversar comigo. Eu a atendi. 
Esther veio em casa e passou comigo uma tarde. Ela era uma 
senhora simptica e me fez muitas perguntas a respeito de como 
ela poderia resistir aos ataques que vinha enfrentando. Trouxe 
algumas frutas, alguns legumes, algumas coisas de comer para 
nos presentear.
J de noite, tendo Esther compartilhado sobre os 
problemas que ela, o marido, e a filha estavam vivendo, 
terminamos nossa conversa. Oramos juntos, e eu falei 
rapidamente sobre nossa situao financeira, pedindo que 
tambm estivesse orando por ns. Tive um pouco de vergonha e 
receio de ser to especfico. Por isso no disse  que estava sem 
nenhum centavo no bolso, nada, nada, nada... no queria 
aparecer melodramtico, nem que a estava coagindo a me 
ajudar!
Depois que ela foi embora, eu estava um pouco triste. 
No meu corao, j me via realmente tendo que vender o Palio, 
nosso nico bem, para pagar o aluguel. Embora estivssemos 
orando, inclusive Grace e Dona Clara faziam o mesmo, no 
parecia haver sada para ns.
J informados sobre o preo da publicao do livro, 
precisvamos de R$ 5.000,00 para dar de entrada na grfica. Se 
Deus pretendia efetivamente public-lo, Ele teria que nos trazer 
esse dinheiro nas mos. No entanto, entendamos que era 
preciso fazer a nossa parte! No podia ficar em casa, de braos 
cruzados, esperando que o dinheiro viesse voando de algum 
lugar! Ento procurei sinalizar essa necessidade a trs pessoas 
que, eu sabia, podiam ajudar.
Escrevi uma carta para Jefferson, e outra para o Pastor 
Adriano. Na carta, pedi emprestado R$ 5.000,00. Dei como 
garantia o carro, isto , caso o livro no vendesse, caso 
acontecesse alguma tragdia, meu carro valia mais do que R$ 
5.000,00! Realmente no estvamos querendo dinheiro dado, 
no estvamos pedindo oferta, alis, aquilo nem nos passava 
pela cabea. No queramos dinheiro para pagar nossas contas, 
para comprar comida... queramos to-somente aqueles R$ 
5.000,00 emprestados para poder dar a entrada na grfica.
Apesar de todos os problemas que Fbio estava 
enfrentando, mais cedo ou mais tarde o material estaria pronto. 
No amos gastar com a capa, com a diagramao, com os 
fotolitos... mas a impresso do livro era bem cara! Mais de R$ 
15.000,00, um dinheiro com o qual nem sonhvamos! Esse 
preo ficou meio salgado porque o livro Filho do Fogo, 
inacreditavelmente, ficou duplo, com dois volumes.
Isabela ficou bem espantada:
 Pxa! No imaginei que tinha escrito tanto! Isso 
porque muita coisa eu cortei, especialmente na poca da "29". 
Eram tantas e tantas histrias, que no final das contas acabei me 
empolgando. Depois, quando fui reler o livro, tive que cortar 
alguma coisa.
Nosso livro era totalmente "antitudo". Era grosso 
demais... o povo Evanglico no gosta de ler... ramos autores 
totalmente desconhecidos... Foram algumas coisas que nos 
disseram. Tudo parecia conspirar contra ns.
Ns tnhamos procurado por uma Editora, e nada melhor 
do que tentar uma que j tivesse publicado livros de Batalha 
Espiritual. No entanto, o editor quis mexer no texto, queria 
contratar uma pessoa para transformar o livro num volume s. 
Cortar algumas coisas... mudar outras...
Isabela foi absoluta e terminantemente contra.
 Em hiptese alguma! Em hiptese alguma!  ela 
quase subia pelas paredes. O livro Filho do Fogo era realmente 
um "filho" para ela!
Eu concordei. Embora no tivesse lido o livro, Grace 
tinha lido. E, agora, tambm uma pessoa da equipe dela, um 
homem que trabalhava com reviso literria. Os dois tinham 
sido unnimes em elogiar o material. Fbio tinha lido boa parte 
ao trabalhar em cima da diagramao. Foi tambm categrico 
na sua posio: tinha que ficar como estava.
 Quero crer que, embora seja muito grande e caro, 
todo aquele que comear a l-lo vai ter interesse em ir at o fim. 
 o que eu espero. Mesmo porque,  interesse de Deus! Foi o 
anjo ruivo que veio dizer que o tempo era curto, que essa 
revelao era importante. Foi preciso contar a histria de uma 
maneira a fazer sentido, e no d pra fazer sentido se no for 
contada devagar. Eu sinto muito. No vou fazer nada para 
mudar o livro. Est escrito.  aquilo l!
Mesmo porque, Isabela e eu tnhamos orado muito para 
escrever aquilo. Deus no havia se posicionado contra... creio 
que se Ele assim quisesse, teria feito, porque nas nossas oraes 
com Dona Clara, muitas vezes demos liberdade ao Esprito 
Santo para mudar o que quisesse, inspirar como quisesse. 
Fomos muito sinceros nas nossas oraes, especialmente 
Isabela, sobre quem estava praticamente toda a 
responsabilidade. Ela realmente queria acertar, realmente queria 
trazer para o papel as palavras inspiradas por Deus. Em primeiro 
lugar, o livro tinha que agradar a Deus, tinha que cumprir o 
propsito de Deus. Se estivssemos certos de estar agradando a 
Deus acima de todas as coisas, o resto viria por si.
Depois de tanta orao... iramos ns entregar o livro 
para outra pessoa reescrev-lo? Por melhor profissional que 
fosse tal pessoa, estaria faltando a uno. Esta uno tinha sido 
dada para Isabela...
Estvamos tendo tambm dificuldade, por causa disso, 
para encontrar uma Editora que publicasse o livro. Ns no 
conhecamos a tramitao dentro do mercado literrio, mas era 
um preo absolutamente irrisrio aquele que iramos ganhar 
para cada volume vendido. Lembro-me que quando comentei 
com Isabela, ela ficou to triste que chorava, no conseguia 
falar de outra coisa:
 Quer dizer que a gente come o po que o diabo 
amassou e agora vamos ganhar essa mixaria para vender o 
nosso livro? Isso  injusto!
 Mas  assim que funciona, qualquer Editora funciona 
assim...
 Depois de todo o trabalho que eu tive, depois de tudo 
que a gente passou... s posso pensar que  injusto ganhar to 
pouco! Prefiro fazer um livro por minha conta e vender por 
minha conta. Quantos livros a gente vai ter que vender para 
conseguir manter o padro de vida que tnhamos antes, quando a 
gente trabalhava.. Como  que ns vamos viver deste jeito?  e 
chorava.  Esse no  um livro comum, eu sei que preo foi 
pago para pr isso no papel...
Eu sabia que no era ganncia. Era pura frustrao! Nem 
eu nem ela nunca tnhamos sido gananciosos. Eu estava mais 
conformado porque, confesso... no fui eu que passei noites em 
claro, lendo e relendo at a exausto tudo aquilo  Quando 
Isabela orou, e pedimos para Deus dar uma direo, ela falou 
exatamente isto diante de Deus, reclamou com o Pai sobre 
aquilo que julgava ser injusto.
Publicar o livro era uma esperana para ns, de ter de 
onde tirar nosso sustento e saldar nossas dvidas. Por outro lado, 
comercializar Filho do Fogo por conta prpria, sem selo 
editorial, impediria que ele fosse vendido em livrarias. E isso 
ns tambm no podamos fazer, seria impedir que a 
informao se propagasse rapidamente. Ia contra a direo de 
Deus! Portanto, estvamos numa sinuca de bico....
Continuamos orando pedindo a direo certa. 
Perguntando a Deus como fazer. Isabela compartilhou sua 
frustrao e desgosto com Dona Clara por causa da parte 
financeira.
 Eu trabalhei muito para isso, estou s querendo uma 
remunerao justa pelo meu trabalho. E quando falo em 
trabalho, Deus sabe do que eu estou falando!  at se exaltou. 
 Qual  o preo justo a ser pago pelo Filho do Fogo! No 
estou falando dos homens, porque os homens esto debaixo de 
um sistema injusto. Mas Deus  totalmente justo! Quanto vale 
esse trabalho? Quanto vale estarmos com o pescoo na 
guilhotina por causa deste livro? Quanto vale colocarmos nossa 
famlia em risco... isso no tem preo! Podem olhar pra mim e 
falar que estou errada, podem olhar para mim e me julgar! Mas 
eu sempre vou dizer: no tem preo!
E estava realmente indignada. Por isso continuamos 
orando para ver que soluo Deus daria.
No recebi resposta sobre o emprstimo dos R$ 
5.000,00, o que particularmente me frustrou muito. Pastor 
Adriano nunca me respondeu uma linha. Sarah respondeu ao 
meu e-mail com uma frase: estaremos orando a respeito, Deus 
abenoe etc. e tal!
Isabela j esperava exatamente aquela atitude, portanto 
no se incomodou muito. Ainda faltava algum tempo at que 
Fbio terminasse de aprontar os fotolitos. S ento o livro 
estaria completamente pronto para ser rodado na grfica. Isabela 
imaginava que Deus, sendo Deus, traria o dinheiro.
 Essa parte ns no temos como resolver. Estamos 
orando, estamos contatando pessoas... mas no podemos 
fabricar dinheiro! Quanto a isso Deus  que vai ter que dar um 
jeito.
Tentamos ainda conseguir aquele valor emprestado com 
uma Pastora de nossa Igreja, a Pastora Ruth. Ns j a 
conhecamos das suas palestras e a admirvamos. Ela era 
abastada financeiramente, mesmo que seu marido no pudesse 
nos ajudar pessoalmente com aquela quantia, ele conhecia 
outros empresrios. R$ 5.000,00 no  nada para quem tem 
dinheiro!
Sabamos que a Pastora Ruth estaria dando uma palestra 
sobre adolescente naquele sbado, na Comunidade.
Combinamos ento de assistir  palestra e conversar com 
ela no final. Logo depois do almoo, um pouco antes da gente 
sair da casa de Dona Mrcia, onde tnhamos almoado, o 
telefone tocou. Fui atender.
Escutei, e desliguei. Isabela me olhou apenas esperando 
que eu me pronunciasse. Ela tambm j sabia que se tratava de 
mais um recado da Irmandade. Nos encaramos e dei levemente 
de ombros:
 Disseram que ela no vai nos ajudar.  Fui curto e 
grosso.
Isabela nem fez comentrios. Durante o caminho, 
oramos. No havia muito mais a ser feito. Tinha sido um banho 
de gua fria, mas mesmo assim iramos tentar.
A palestra foi boa, nos divertimos bastante. Ns dois 
ramos o nico casal mais jovem ali. Todos os demais estavam 
participando realmente com um propsito bem definido, lidar 
com seus filhos adolescentes. Talvez no tenham entendido 
muito bem nossa presena.
No final, nos aproximamos dela e no fizemos de conta 
que estvamos ali apenas por causa da palestra. Seria hipocrisia 
da nossa parte. Pelo que, mortos de vergonha  era uma 
situao bastante desconfortvel  falamos do que se tratava.
 Se voc souber de algum que possa nos ajudar... no 
queremos dinheiro dado... seria emprestado, e nosso carro fica 
como garantia...  tentamos explicar, meio sem jeito. S 
estvamos fazendo aquilo porque no podamos ficar de braos 
cruzados. O Senhor queria aquela publicao.
Ela se limitou a responder o essencial, o que era de 
praxe. Mas nunca voltou a nos procurar para dar resposta, como 
prometera. Ficou tudo por isso mesmo.
Entrou o ms de outubro.
Poucos dias depois disso, nossa situao financeira 
estourou. Pelo pouco que compartilhamos com Dona Mrcia, 
ela estava mais angustiada do que ns. Vrias vezes ela ajudou 
com pequenas quantias, mas no tinha a menor possibilidade de 
nos ajudar com o que precisvamos. Marco estava passando 
dificuldades financeiras srias no exterior. Todas as economias 
de Dona Mrcia tinham sido usadas para que ele no passasse 
fome naquele lugar to longe da famlia! At isso parecia algo 
premeditado... Se ele no estivesse precisando tanto, certamente 
teria sobrado um pouco mais para ns.
Ento.......de repente um verdadeiro milagre aconteceu! 
Foi de fato um milagre, fomos salvos pelo gongo! Ou melhor: 
fomos salvos por Deus, no ltimo instante.
Esther me bipou com recado que nos trouxe muita 
esperana, embora ainda no soubssemos exatamente do que se 
tratava. Ela dizia que estava com a pessoa que tinha uma oferta 
para nos dar. Pedia que entrssemos em contato.
Aquilo foi uma imensa alegria para ns. Estvamos 
pensando em vender o Palio para pagar nossas contas e tambm 
dar entrada no livro. Isso era mais importante do que qualquer 
coisa. Mas agora parecia que alguma coisa ia acontecer. Desci e 
fui ligar para ela.
 Oi, irmo. Vocs poderiam vir aqui hoje?  que tem 
uma pessoa que gostaria de ofertar para vocs. A Grace 
comentou comigo sobre a situao delicada que vocs esto 
vivendo, voc mesmo no falou muito... Ento ontem eu estive
conversando com ela, e falei sobre essa oferta... E ela me 
aconselhou a ir adiante... Esther morava fora de So Paulo. Era 
bem longe. Ento, com sinceridade procurei saber melhor sobre 
o que ela estava falando:
 Esther, sabe que que ... Essa oferta  uma oferta de 
qu? Porque j teve quem nos ofertasse cebola, batata, alho... Se 
tivesse me interessado, poderia tambm ter ido buscar uma 
oferta de esparadrapo, algodo e gaze...
Ela entendeu muito bem.
 No, no... essa pessoa quer dar uma oferta em 
dinheiro. Ento, se vocs puderem vir...
Embora Esther no tivesse dito a quantia, valia a pena 
fazer aquela pequena viagem, nem que fosse por causa de R$ 
100,00 ou R$ 200,00.
Conversei com Isabela e tratamos de nos arrumar. Esther 
tinha marcado um horrio mais ou menos dentro do que ela 
podia. E assim ns fomos. No foi muito difcil achar a casa 
dela. Nem bem estacionamos o carro e ela j aparecia no porto. 
No seu jeitinho calmo de ser, foi fazendo a gente entrar, foi 
falando dela, do marido, da filha, contando vrias coisas... ns 
esperamos pelo que viria.
Ansiosamente.
Ento Esther nos levou at uma sala nos fundos da casa 
e comeou a explicar:
 Durante um bom tempo funcionou aqui uma reunio 
de orao que ns dirigamos. Depois de um tempo, essa 
reunio de orao tinha virado uma pequena Igreja, chegamos a 
comprar mais cadeiras para organizar o local... mas a, por 
algum motivo, no foi pra frente.
Calmamente Esther nos mostrou a sala, contou como 
funcionava a reunio de orao, mostrou as cadeiras. A gente 
no estava entendendo direito at que ela falou:
 Ns recolhemos o dzimo... e depositamos numa 
conta. Nunca mexemos nessa conta, eu no sei nem quanto  
que tem... mas ns sabamos que um dia Deus ia mostrar o que 
fazer com este dinheiro.
Comeamos a compreender. Mas achamos que talvez 
estivssemos compreendendo errado. E perguntei:
 Mas ento...  voc que quer nos ofertar?
Ela assentiu. Sem fazer alarido e sem ficar envaidecida, 
continuou no mesmo jeito simples:
 Deus me colocou no corao uma quantia. Ento fui 
conversar com a Grace, queria ter certeza de que isso era a coisa 
certa a fazer. E ela foi categrica: "Se Deus mandou voc fazer, 
faa! No tenha medo, faa! Eles esto precisando muito"  ela 
sorriu para ns.  A Grace gosta muito de vocs!
Tivemos que sorrir de volta.
 Ns tambm gostamos muito dela!
Calmamente Esther continuou contando. Quanto a ns, 
era difcil controlar a expectativa. Queramos logo chegar aos 
finalmente. S amos acreditar que era verdade quando Deus 
realmente nos trouxesse aquela oferta nas mos. No sabamos 
o quanto ela pretendia, mas depois de explicar tudo isso, 
convidou:
 A conta est l no banco. Eu realmente no sei 
quanto tem. Se tiver menos do que aquilo que o Senhor me 
colocou no corao... j conversei com meu marido, e vamos 
inteirar. Foi esse o trato que fizemos com Deus, mas vamos dar 
a quantia certa, a quantia que Ele falou! Vamos at o banco?
Completamente sem jeito, quase mudos, concordamos. 
Ela mesma dirigiu e foi conversando conosco sobre vrios 
assuntos at chegarmos. Entramos no banco e deixamos que ela 
fosse resolver o que era preciso. Talvez ela estivesse querendo 
tirar um saldo, sei l. Ficamos sentados num banco enquanto 
Esther foi at a mesa do gerente.
Demorou um bom tempo, eu e Isabela ficamos 
conversando, sem atrapalhar Esther. At que ento ela fez um 
sinal para ns. Eu me aproximei; Isabela procurou manter a 
discrio e continuou sentada no banco. Era uma situao nova 
para ns. Embora ela estivesse tratando aquilo com 
naturalidade, ciente de estar fazendo a vontade de Deus, para 
ns era constrangedor... uma situao realmente muito estranha!
 J est tudo certo! J consultei a conta e j sei quanto 
tem!  o rosto dela estava radiante.  No vou precisar 
inteirar nada porque a quantia estava certa, tinha exatamente a 
soma que Deus me falou.  confirmao de sobra! Eu s preciso 
do nmero da sua conta...
 Voc prefere transferir?
 No, vou fazer um DOC.
 No precisa gastar dinheiro com isso, voc pode me 
dar em mos...  eu me sentiria mais incomodado ainda se ela 
tivesse que gastar mais um real com a tramitao.
 Assim  mais seguro...  e ento sorriu de novo.  
Vou mandar R$ 7.000,00 para vocs!
Quando ela falou aquela quantia, fiquei olhando de olhos 
arregalados. Procurei as palavras certas, mas no encontrei.
 Esther... eu... olha, no sei o que te dizer... nunca 
imaginei uma coisa dessas,  realmente... realmente Deus  
Deus!
 Irmo, de fato agradea a Deus. E agradea tambm a 
Grace, que me animou a fazer a coisa certa. O Senhor tinha 
falado em R$ 7.000,00... e sabe quanto tinha na conta?
Era um valor que j no me recordo, mas algo como 
7.030...7.040, algo assim. O DOC consumiu a maior parte deste 
excedente. Quando falei para Isabela, enquanto Esther ficava ali 
esperando os finalmente da tramitao, ela tambm no 
acreditou. Ficamos os dois boquiabertos, emocionados, 
completamente sem fala.
 Deus  fiel... realmente no tem nada melhor do que 
servir a Deus! A gente passa por luta, mas v tambm essas 
coisas tremendas acontecerem!
Nosso sentimento era da mais completa estupefao, 
para dizer o mnimo. Enquanto estvamos ali no banco, 
demorou um tempo para a ficha cair, demorou um tempo para a 
gente conseguir acreditar que era verdade!
Na volta para casa, conversando com Esther, contamos 
um pouco da busca daquele dinheiro. R$ 5.000,00 eram para o 
livro. Depois de retirar o dzimo, nos sobrariam R$ 1.300,00. 
Como eu e Isabela estvamos precisando de mais ou menos R$ 
1.500,00 para salvar nossa situao financeira pelos prximos 
dias  sem ter que vender o carro!  a quantia que Deus 
estava enviando era, mais uma vez, exatamente a essencial!!!
O resto do dia foi de regozijo. Tomamos um ch com 
Esther na casa dela, conversamos com o marido que chegou 
mais tarde. Samos de l no final da tarde, com uma alegria 
indescritvel!
Oramos agradecendo a Deus pelo livramento, pela 
Fidelidade e por mais aquele sinal de que estvamos no 
caminho certo. Os R$ 5.000,00 eram o sinal perfeito, eram um 
sinal verde das Alturas para continuarmos indo adiante!
Restava agora saber o que fazer a respeito da Editora. 
Era o ltimo passo! J tnhamos o dinheiro, logo Fbio 
terminaria o trabalho... faltava a questo da Editora. Dona Clara 
nos tinha tranqilizado.
 Vamos continuar orando... Deus vai dar toda a 
soluo. No apenas parte dela, mas toda!
* * * *
 Captulo 41
Estvamos no meio do ms de outubro. No 
ignorvamos que a tendncia da guerra era somente aumentar. 
A Irmandade tinha dito: "Esse filho no vai nascer"!
E no entanto, ele estava nascendo. Mas o 31 de outubro 
tambm se aproximava, mais uma vez. A direo de Deus foi 
muito clara, logo no dia seguinte ao recebimento da oferta, 
comeamos um jejum at a data do Sabbath.
A diferena desta vez  que Deus trouxe a direo de 
ungir nossa casa todos os dias. Ns costumvamos faz-lo, mas 
no todos os dias. Neste perodo, no entanto, quando 
quebrvamos o jejum no final do dia, orvamos em 
concordncia e ungamos a casa. Era preciso que estivssemos o 
mais bem preparados possvel para o fim do ms.
Na verdade, o Sabbath dura trs dias. O primeiro dia  
no dia 30 de outubro. Este  um dia de preparo para todo o 
ritualismo da Festa. O segundo dia, a celebrao a Lucifr, 
acontece no dia 31. O dia seguinte, dia 1o de novembro,  
conhecido mundialmente como "Dia de Todos os Santos". Na 
verdade, depois da celebrao a Lucifr, a cultura catlica 
difunde uma celebrao a todos os "santos". Dentro da 
Irmandade est acontecendo exatamente isso, uma festa de 
todos os demnios. Os demnios foram todos reunidos para a 
Festa, no dia 31, e no dia seguinte esto soltos, com mais 
energia e vigor...
Passados os trs dias, segundo a Irmandade, a resultante 
fica pairando nos ares: logo depois... Dia dos Mortos! Aqueles 
que cultuam os demnios sem saber, aqueles que cultuam falsos 
deuses, esto mortos.
Foi um perodo bastante intenso de orao. Nos ltimos 
sete dias antes do 31 de outubro, a direo foi que ungssemos 
tambm a casa de Dona Mrcia. A gente j tinha explicado para 
ela a necessidade da uno. E, como lder espiritual daquela 
casa, ela deveria fazer isso.
Dona Mrcia fazia, mas no com a freqncia e 
assiduidade que deveria.
Ento, por sugesto de Dona Clara, pedimos a ela que 
nos passasse a autoridade momentaneamente. Ela concordou. 
Oramos, e Dona Mrcia falou com sua boca que durante aqueles 
dias nos passava autoridade espiritual para que pudssemos 
ungir a sua casa.
Ela tinha uma idia do meu envolvimento, mas no 
completa. E era claro que aquela casa era um alvo. Por isso se 
faziam necessrias orao especfica e uno especfica naquele 
perodo.
Procuramos seguir  risca aquelas direes. No foi fcil 
e, naturalmente, os demnios procuravam criar impedimentos, 
contendas, confuses. Mas fomos fiis em todos os 14 dias do 
jejum. Ungi tambm a casa de minha me e de minha av uma 
vez, aquilo parecia ser suficiente. Eles no eram o alvo. Nunca 
foram!
Depois do Sabbath, no primeiro salto de 9 dias, ficamos 
bem. A fumaa de toda e qualquer confuso foi apagada antes 
que o incndio comeasse. No segundo salto de 9 dias, no dia 
18 de novembro, tambm fomos vitoriosos.
Naquela semana estivemos participando de um 
"Congresso de Conquista de Cidades" numa grande Igreja de 
So Paulo. Grace estava l, e tambm o Pastor Lucas, ambos 
como palestrantes. Nossa apostila tinha ficado pronta e 
conseguimos fazer algumas para vender. Naquela poca, nossa 
apostila era de papel sulfite xerocado com espiral. Eu tinha 
conseguido um lugar no centro da cidade que fazia por um 
preo muito bom!
Vendemos todas, e aquele foi um dinheiro bem-vindo!
Como toda a equipe de Grace estivesse presente neste 
congresso, foi fcil para eles perceberem o ataque de um 
esprito humano sobre ns dois. Aquilo j no nos surpreendia. 
Foi Sandra quem teve a viso, e a princpio no sabia sequer 
distinguir se era realmente uma viso ou se ela estava vendo 
uma pessoa de verdade. O homem se aproximou de ns dois, 
por trs, olhando furiosamente, devagar. E quando passou atrs 
de ns, fez alguns gestos na nossa direo. Ento Sandra, de 
longe, simplesmente no o viu mais. Soube que se tratava de 
uma viso.
L fomos ns novamente orar sobre aquilo.
No dia 27 de novembro, terceiro salto de 9 dias, Isabela 
e eu tivemos uma briga horrvel. Desta vez acabamos tendo 
derrota, a fumaa se transformou em fogo. Eu sa, tinha ido  
Igreja. Isabela ficara em casa. E recebeu um bip. No pior 
momento, no momento em que estava mais fragilizada... era 
sempre assim! Eles iam sempre bater no mesmo ponto.
E o bip dizia o seguinte: "Voc  mulher virtuosa, com 
quem sempre podemos contar. Voc vai colher os frutos no seu 
marido. Ele no ser mais o mesmo".
Mais uma vez aquelas palavras tinham gosto de fel.
Por mais que a gente jejuasse e orasse, aquela era 
mesmo uma luta sem trguas, uma luta onde no podamos nem 
sequer piscar, onde um simples tropeo podia ser o prenuncio 
de um tombo muito maior.
A angstia seria muito mais intensa  medida que se 
aproximasse o final do ano.
Porm, uma coisa boa tinha acontecido no comeo 
daquele ms: Pastor Lucas tinha dado ordem a Dona Clara para 
que recolhesse, todas as quartas-feiras pela manh, no Culto de 
mulheres, uma oferta para ns. Essas ofertas nos seriam 
repassadas, embora as mulheres no soubessem exatamente qual 
era o casal que estava sendo abenoado.
Aqueles R$ 1.500,00 tinham servido para tapar um 
rombo imediato, mas no tnhamos de onde tirar o sustento. 
Ento, como o livro estava em vias de sair, Pastor Lucas nos 
ajudou daquela maneira. s vezes vinha uma quantia simblica; 
s vezes, vinha uma quantia bem melhor!
No final de novembro, Dona Clara tambm nos deu uma 
boa notcia. Eu, especialmente, vibrei!
 Estou ganhando uma mquina de lavar nova!  veio 
falando Dona Clara.  E vou mandar consertar a velha. Da, 
mando para vocs!
 Puxa vida, a senhora nem imagina o que est me 
dizendo! Finalmente vou poder sair daquele tanque!  falei 
com entusiasmo.
 No  uma mquina nova, nem  grande. Mas eu 
acho que vai poder ajudar vocs at estarem mais estabilizados.
 Muito obrigada, hein, Dona Clara! A senhora nem 
imagina que bno que vai ser isso!  concordou Isabela, 
sorridente.
Dona Clara no estava menos sorridente.
 Ah, eu imagino, sim! Que bom que posso abenoar 
vocs!
* * * *
Tambm naquele ms de novembro tivemos uma nova e 
inusitada aquisio. Um dos motivos por que Isabela ainda 
sentia falta da casa de Dona Mrcia, e tinha dificuldade em ver 
nosso lar como um lar de verdade, era a falta que ela sentia dos 
animais. Claro que esse no era o principal motivo, a questo 
maior era a somatria de todas as coisas que estvamos vivendo 
desde o dia em que nos casamos. Desde as dificuldades de 
relacionamento exacerbadas pelo contexto espiritual, at a falta 
das mnimas coisas para tornar nosso apartamento confortvel.
Isabela sentia falta de cortinas, de quadros, de abajures... 
claro, coisas totalmente suprfluas diante do resto! Mas aqueles 
detalhes, bem... aqueles detalhes tinham o poder de transformar 
um ambiente rido num ambiente gostoso... um ambiente tosco 
num ambiente aconchegante.
bvio que no havia dinheiro para cortinas, quadros ou 
abajures. Mas os animais tambm ajudam a dar vida  casa, e 
quanto a isso... Isabela comeou a ficar literalmente encantada 
com o gatinho que apareceu no quintal da vizinha de Dona 
Mrcia. Ela estava vazia havia muito tempo, lugar perfeito para 
uma gata da vizinhana dar cria!
A primeira vez em que Isabela escutou aquele suave 
miadinho caa uma daquelas chuvinhas de Primavera, quase 
Vero. Ns estvamos ali em casa de Dona Mrcia e, curiosa, 
Isabela foi espiar pela janela.
 Olha, Eduardo! Tem um gatinho ali! Saiu debaixo 
daquela tbua. Assim que ele viu a me chegando, saiu de l e 
veio miando!
De fato assim tinha sido, mas ao escutar o som da nossa 
voz, o gatinho azulou. O mesmo no aconteceu com a me dele 
que, diante da menor festa de Isabela, vinha correndo para o 
nosso lado do muro. Isabela no resistiu e saiu debaixo da 
garoa, foi agradar a mame-gata.
 Olha s que bonitinha! Est ronronando... ser que 
ela est com fome?
Sem esperar a resposta, Isabela foi buscar um pouco de 
rao da Harpa e da Viola. A gata vira-lata nunca tinha comido 
nada to bom! Isabela espalhou os gros em cima do muro e ela 
comeu at se fartar. Quanto ao filhotinho, nem sinal!
Depois desse dia, bastava fazer um "pssss, psss, psss" 
que a mame-gata vinha correndo! Volta e meia, ela era pega 
dormindo no jardim. Isabela achava a coisa mais linda do 
mundo, e estava de olho no gatinho. A gente s conseguia v-lo 
de relance, ou de cima da laje na casa de Dona Mrcia, de onde 
podamos ver o quintal da casa da vizinha, ou pelo muro do 
jardim.
 Voc quer o gatinho pra voc, n?  Isabela estava 
to fascinada com a possibilidade de ter um bichinho em casa 
que, mesmo no achando muita graa em gatos, no podia 
recusar uma coisa to simples. Ela j tinha passado tanta 
privao... pelo menos, aquele gato no ia custar nada!  Eu 
vou pegar ele pra voc!
Isabela s faltou dar uns pulinhos. Na verdade, ela at 
deu mesmo.
 Voc acha, Nen? Voc acha que podemos ter o 
bichinho no apartamento? Ser que ele vai se adaptar?
 Adaptar ele vai... resta conseguir pegar o danadinho!
Realmente no foi tarefa fcil. Cada vez que ns o 
enxergvamos, e eu pulava o muro, ele corria e se escondia. 
No dava para imaginar onde podia ser, revirei tudo e no 
encontrei sinal do gato. Mas era certeza que ele tinha corrido 
para o fundo do quintal!
Tivemos que esperar mais alguns dias at tornar a v-lo. 
Um dia, na hora do almoo, olhamos pelo muro e ele estava l, 
no fundo do quintal, brincando com o rabo da me, 
aproveitando o sol. Falei bem baixinho:
 Ele tem o peito e as patas brancas! Isabela cochichou 
de volta:
 Vou subir l na laje. Espera eu chegar l, no faz 
barulho... a voc pula o muro e eu vou conseguir ver onde  
que ele se esconde!
Dito e feito. O lugar era dos mais improvveis: um 
pequeno ralo no cantinho da parede. Bichinho esperto! Ningum 
imaginaria que ele passasse por um buraquinho to pequeno! 
Durante um bom tempo tentamos tir-lo de l. Ficamos quietos 
ao lado do ralo esperando que ele sasse. Mame-gata veio 
ronronar ao nosso lado. Escutando o barulho dela, ele ps a 
cabea para fora. Mas nem bem percebeu nossa presena e deu 
meia-volta imediatamente. No ia ser fcil. Jogamos rao para 
tentar atra-lo. Escutamos o "croc, croc, croc", mas ele no veio.
Isabela estava frustrada.
 Puxa vida, nunca vamos conseguir pegar este gato!
Agora era questo de honra. Na prxima vez, pensamos 
de maneira mais inteligente que ele. Isabela levou para a laje 
uma enorme almofada do sof de Dona Mrcia. Quando eu 
pulasse o muro, antes que ele corresse para o seu abrigo, ela 
tentaria tapar o buraco do ralo com a almofada, atirando-a de 
cima da laje.
Dessa vez deu certo! Isabela acertou em cheio e eu corri 
atrs dele. Como fosse pego de surpresa com a entrada da sua 
toca fechada, perdeu o rebolado. Foi assim que eu consegui 
peg-lo. Coitadinho! No comeo deu d!
 To pequenininho e me fez "F", essa imitao de 
tigrinho!
Eu entrei com ele na mo e encontrei Isabela que descia 
da laje, toda animada:
 Oba, oba! Deixa eu ver ele!
O gatinho estava com ar de desconsolo.
 Tadinho... est assustado! Vamos ver se ele quer 
comer...
A princpio, ele no quis nada. Deixamos dentro de uma 
caixinha de sapato, preso no banheiro, at a hora de voltarmos 
para nossa casa. Quando chegamos l, naquele ambiente 
totalmente estranho, comeamos a acarici-lo, trat-lo bem. 
Isabela o atiou com um fiozinho. Ele no resistiu e, 
timidamente, comeou a brincar. Logo estava adaptado!
No estragava nada, no sujava nada, fazia suas 
necessidades na areia de gatos. Ningum precisou ensinar. 
Quando ficava solto em casa,  tarde, dormia quietinho no sof. 
Ganhou minha confiana.
Ns o chamamos de Mambo, e logo percebi que era 
muito legal ter um gato. Ele brincava muito, dava mil 
cambalhotas, tinha uma energia impressionante! A gente morria 
de dar risada com ele, era muito divertido. s vezes, a gente 
estava assistindo televiso, e de repente algum mexia o dedo 
do p. Imediatamente Mambo "atacava" aquele dedo que tinha 
ousado se mexer. A gente tomava o maior susto porque no 
estava esperando.
Ele escalava o sof, grudando com aquelas unhas 
afiadas, e depois se atirava para o cho, rolava, pulava para o 
sof de novo, subia at o nosso ombro, at a nossa cabea, se 
deixasse... para ter sossego, s se a gente o pusesse preso na 
cozinha!
Mas realmente Mambo deu uma nova vida  nossa casa.
Ns dois nunca conseguimos aceitar de bom grado 
pessoas que no gostam de animais. Especialmente se essas 
pessoas so Crists! A Criao de Deus  maravilhosa, e quem 
se diz Cristo deveria, pelo menos em tese, respeitar os animais 
e a natureza. Um verdadeiro Filho de Deus sabe que tudo isso " 
bom", no judia dos bichos, no estraga as plantas, no polui o 
meio ambiente!
Ento veio o Merengue...
Por um acaso, Dona Mrcia tinha visto aquele gatinho 
ser atropelado, provavelmente era da mesma ninhada. A pessoa 
que atropelou no estava nem a, ento Dona Mrcia, pensando 
no que Isabela teria feito, foi atrs do bichinho que fugiu e se 
escondeu na casa da vizinha da frente. Depois de um pouco de 
trabalho, a filha da vizinha conseguiu peg-lo.
No dia seguinte ns o levamos ao veterinrio. Tinha 
fraturado a bacia. No tinha muito o que fazer alm de 
medicao para a dor, reforo alimentar e repouso. Ento 
levamos o segundo gato para casa!
Sinceramente... no comeo eu detestava o Merengue. Eu 
queria apenas um gato, no dois!  Merengue parecia uma 
tripinha: era pele e osso, uma coisinha que cabia na palma da 
mo. Feio, sujo, fedido. E doente!
Mas Isabela, com todo amor e pacincia do mundo, 
medicava o bichano no horrio certo e lhe dava tambm muita 
comida. Para variar, logo no comeo o Mambo fez "F", mas 
logo no minuto seguinte j estava interessado em brincar.
Mas o Merengue no podia brincar, tinha que ficar em 
repouso.
Assim ele ficou durante um ms. De tripinha, virou uma 
bola! De tanto comer e dormir. Toda noite Isabela o pegava, 
numa cestinha, porque estava muito sujo e no podia tomar 
banho ainda, e sentava na frente da televiso com aquele 
"incenso" no colo. Ficava agradando, conversava com ele... 
dizia que ele tambm precisava de carinho para melhorar mais 
rpido.
Ao final de um ms, Merengue estava bom e j no 
queria ficar preso dentro do banheirinho da lavanderia. Ficou 
com uma das perninhas ligeiramente torta, mas aquilo no 
afetava em nada a sua locomoo, que era perfeita.
Era divertido observar os dois brincando pela casa! Uma 
correria, um sobe-sobe pelas coisas, a gente ria com as 
estripulias dos nossos dois "filhos". Comecei a ficar satisfeito e 
realmente foi um privilgio ter dois filhotes de gato em casa. 
Logo comeamos a dar as vacinas, com sacrifcio, sim, mas 
aquilo era muito importante.
Mambo e Merengue trouxeram vida e alegria para ns!
* * * *
Depois de muito esforo, Fbio finalmente deu o 
trabalho por encerrado. Quase quatro meses se haviam passado. 
Isabela e eu comeamos a conferir os fotolitos. Era preciso olhar 
pgina por pgina. Nossa expectativa era muito grande, nem 
parecia verdade que o livro Filho do Fogo estava ali, diante dos 
nossos olhos, nas nossas mos, praticamente pronto!
No tinha sido muito fcil fazer aqueles fotolitos. Fbio 
teve vrios tipos de problema, dentre eles pedaos do texto que 
sumiam misteriosamente, e seu computador que explodiu. 
Explodiu mesmo, Fbio perdeu a mquina. Detalhe: uma pessoa 
que trabalhava ali no escritrio, que tambm era crente e estava 
participando daquele projeto junto com ele, em viso viu um 
demnio marretando o computador.
Ns no tnhamos visto ainda a capa, Fbio dava os 
ltimos retoques mas confiamos nele. Ficou combinado que ela 
seria mandada diretamente para a grfica.
J estvamos dispostos a abdicar do selo editorial, pelo 
menos numa primeira edio. Com a divulgao do livro, talvez 
tivssemos uma boa proposta mais para a frente. Qual no foi 
minha surpresa quando um Pastor de nossa Igreja, o Pastor 
Ubiratan, que era dono de uma pequena Editora, me ofereceu o 
selo.
Ns o conhecamos muito pouco, porque era Pastor de 
outra unidade da Comunidade. Todo nosso contato tinha se 
limitado a algumas aulas que tivemos com ele no seminrio. Por 
sinal, era quase a data da nossa Formatura! Isabela e eu 
fazamos parte do pequeno contingente que iria se formar. Mas, 
enfim, no  isso que importa! Nosso contato com Pastor 
Ubiratan no era muito maior do que "Boa-noite", "At logo", 
etc...
Mas, pelo visto, ele tinha ficado sabendo da nossa 
necessidade... parece que j tinha ouvido falar sobre algum ali 
na Igreja que tinha sido Satanista. Mas no tinha associado essa 
informao  minha pessoa. Quando soube, simplesmente 
ofereceu o selo. Tudo continuava como antes, isto , ns 
bancaramos o livro do nosso bolso, ele no ia interferir em 
nada. Mas a diferena  que, caso houvesse oportunidade de 
comercializar Filho do Fogo em livrarias, esta porta no estaria 
fechada.
O gasto ia ser integral nosso, mas o lucro tambm. No 
tnhamos a menor idia se o livro venderia bem, ou no. Mas 
sentimos paz em fazer daquela maneira. Pelo menos... numa 
primeira instncia! Pelo visto, ele tambm, porque me falou:
 Eu nem sei o que est escrito nesse livro... mas creio 
que Deus est me dando essa direo. Ento, vamos fazer! Vou 
mandar o logotipo do selo para a grfica, e est tudo certo.
Diante disso, estava pronto! Ns dois estvamos muito 
alegres com aquela vitria! Todos os detalhes estavam 
acertados, tudo tinha chegado s nossas mos!
Agora era hora de firmar o contrato na grfica. S 
consegui faz-lo porque o Pastor Ubiratan foi meu avalista. Ele 
j era um cliente antigo daquela grfica, e... bom... eu estava 
desempregado havia um ano e no tinha um gato para puxar 
pelo rabo! Mambo e Merengue que me perdoem, mas o deles 
no servia para nada.
Quando fui inquirido, falei a verdade: que Deus estava 
na histria daquele livro, que eu no tinha emprego, nem 
dinheiro para pagar, muito menos minha esposa... mas 
certamente Deus iria nos honrar e nos dar as condies de arcar 
com as parcelas no devido momento. Fiz um adiantamento e o 
restante, mais de R$ 12.000,00, pude parcelar em trs vezes: 30, 
60 e 90 dias depois da entrega. Sem dvida nenhuma que era 
uma dvida daquelas! No era bom nem parar pra pensar o 
quanto significavam aqueles nmeros...
Isabela nem me acompanhou na tramitao, aquela foi 
uma das poucas coisas que fiz sozinho naqueles meses. A gente 
sempre fazia tudo junto. Mas ela estava tensa com a negociao 
e preferiu ficar de longe para no atrapalhar.
Naquela poca ns no estvamos pensando mais em 
sentir medo. Deus estava resolvendo cada detalhe! Isso queria 
dizer que Ele estava no controle de tudo.
 * * * *
Agora era s esperar. Bastava terminarmos de rever os 
fotolitos. Marcamos de antemo o lanamento oficial para dia 
16 de janeiro, queramos fazer um Culto de agradecimento e 
Louvor a Deus. Por incrvel que parea, Grace poderia estar 
presente, mesmo sendo no meio das frias dela. Tudo isso tinha 
um significado especial para ns!
Naquele perodo comeamos a enfrentar um pouco de 
resistncia por parte de algumas pessoas da Igreja. Parte da 
minha histria j tinha vazado, e sabiam que ns amos lanar 
um livro. Havia quem estivesse bastante apavorado com aquilo. 
Foi a primeira vez que escutamos algo no sentido:
 A Comunidade est sendo retaliada por causa de 
vocs!
No seria a primeira vez nem a ltima que pessoas se 
colocariam desta forma. Ns seramos os "culpados" por todos 
os problemas que as pessoas passassem a ter.
De resto, como se isso no bastasse, nossos problemas 
pessoais continuavam mais intensos. Tnhamos equilibrado um 
pouco a parte financeira, mas agora coisas estranhas aconteciam 
em casa. O que estava incomodando mais, pela insistncia com 
que acontecia, era o fato do abajur acender sozinho. Isabela 
tinha aquele abajurzinho havia bastante tempo, ele acendia pelo 
toque, no tinha interruptor. Bastava encostar nele, e acendia. 
Era um abajur j antigo, que ela tinha trazido da casa de Dona 
Mrcia, e nunca tinha feito nada daquele tipo. Agora, do nada, 
ele comeava a acender.
Nunca acontecia quando a gente estava perto. Pensamos 
que poderia ser alguma alterao de fora, ento fizemos a 
experincia, e nada. Pensamos que poderia ser alguma 
interferncia de outro objeto eltrico, como o chuveiro... 
tambm fizemos a experincia, mas nada do abajur acender. 
Uma ltima tentativa seria o contato de alguma coisa, alguma 
roupa, quem sabe (como se roupas pudessem sair voando por a, 
mas era melhor ter certeza). Nada. Ento... talvez uma corrente 
de vento: mas a corrente de vento tambm no acendia o abajur.
Cada vez que ns o encontrvamos aceso era como se o 
inimigo dissesse para ns: "Vocs pensam que so intocveis? 
Pois no so... entro aqui a hora que eu quero. Estou s 
esperando a hora certa!"
Aquilo j estava incomodando, no queramos colocar 
tudo na balana do sobrenatural... mas mesmo assim, durante as 
duas Ministraes que tive em dezembro, pedimos para Grace 
orar conosco em concordncia sobre aquilo.
Numa das Ministraes a Sandra estava conosco. 
Quando terminamos de orar, ela tinha tido uma viso. Nosso 
principal questionamento era que, se fosse um fenmeno 
espiritual, que o Senhor pudesse confirmar e, mais do que isso, 
acabar com aquilo. Se fosse um demnio que estava entrando 
em casa, apesar da uno, ou se fosse um esprito humano... 
alguma coisa ns tnhamos que fazer para acabar com a invaso.
 Eu vi que  um fogo do Inferno que acende o abajur. 
O que  isso, eu no sei... mas que  espiritual, isso !
Oramos ali, em concordncia. Demorou algum tempo 
para acontecer de novo, mas continuou acontecendo. Havia uma 
insistncia grande daquele fenmeno em continuar, e nossas 
oraes no pareciam surtir efeito, nossa casa parecia continuar 
vulnervel quela intromisso do inimigo...
Se fosse s o abajur, seria mais fcil fazer vista grossa. 
Mas outras coisas estranhas aconteciam.
A janela da lavanderia insistia em aparecer aberta. 
Mesmo estando fechada com o trinco, ela abria. Aquela corrente 
de vento invadia a cozinha e fazia as portas baterem com 
estrondo. Quando amos ver, era a janela... era impressionante 
como aquilo dava uma sensao de desproteo! O que 
deveramos fazer para impedir aquilo?!
O mais assustador foi quando a bola dos gatos apareceu 
destroada. Era uma pequena bola, pouco maior do que uma de 
pingue-pongue, de borracha macia, bem dura. Eu no 
conseguia amass-la com as mos. Talvez um filhote de 
cachorro de porte mdio conseguisse fazer aquilo. Mas jamais 
um filhote de gato.
Um dia entramos na cozinha de tarde e encontramos a 
bola literalmente picada, os pedacinhos espalhados pelo cho. 
Eu olhei para Isabela e ela para mim.
 Oh, puxa.....que danadinhos!  fez Isabela primeiro, 
sem convico.
 Pois ...
Num primeiro momento nenhum de ns queria admitir 
que era impossvel o Mambo ou o Merengue terem feito 
aquilo... mas no queramos assustar um ao outro. Tudo aquilo 
era muito, muito estranho...! Para ser sincero, todos aqueles 
fenmenos tinham um recado embutido em si mesmos: "Suas 
oraes no esto adiantando de nada, estamos entrando aqui 
dentro da casa de vocs. Aguardem!"
Eles haviam prometido que o final do ms de dezembro 
seria a data da morte de Isabela. Por mais que no crssemos 
que nossa histria terminaria assim, com Eduardo e Isabela 
simplesmente morrendo, aquilo tudo tinha um poder muito 
desagradvel de mexer com as emoes. Com os nervos!
Logo depois que a bola foi destruda, certa tarde de calor 
estvamos dando o primeiro banho nos gatos. Finalmente o 
Merengue iria deixar de ser aquele incenso! Agora ele j estava 
perfeitamente bem e podia passar pela lavagem em regra. Ento 
Isabela deu banho nele primeiro. Enxugou-o com uma toalha e o 
deixou dentro da cestinha que servia de cama, na cozinha. 
Enquanto ele terminava de se "arrumar", com aquele lambe-
lambe pra todo lado, Isabela levou o Mambo para o banheiro. 
Mas esqueceu a toalha na cozinha, ento deixou o gato trancado 
l e voltou para pegar.
O tempo que deixou o Merengue sozinho no foi maior 
do que alguns segundos... apenas o tempo de levar o Mambo pro 
banheiro e voltar. Isabela pegou a toalha que tinha ficado ali, j 
ia indo de volta, e foi ento que reparou que o Merengue estava 
machucado.
 Eduardo! Que aconteceu com o Merengue? Olha s! 
 fez ela com voz preocupada.
Fui olhar.
 U.....mas que foi isso?...
Merengue estava com ferimentos na pata e na orelha. 
Mas no de uma maneira coerente, como se ele tivesse 
escorregado, cado e se arranhado. Os machucados, que 
sangravam um pouco pois o plo foi arrancado e a pele ficou 
escoriada, no tinham qualquer lgica. A pata dianteira estava 
machucada por fora e a traseira por dentro. A orelha afetada no 
tinha qualquer relao com o resto... isso em questo de 
segundos!
 Tenho certeza que ele no estava assim! Acabei de 
dar banho nele! O que pode ter acontecido, meu Deus do Cu?!
Aquilo nos causou um grande mal-estar. Certamente que 
a vontade dos demnios era trucidar o gato, exatamente como 
tinham feito com a bola.
Estvamos extremamente exaustos. Esgotados. Aquele 
tinha sido um ano por demais desgastante, se  que 
"desgastante" pode traduzir exatamente aquilo que estava na 
nossa alma. Novamente as pessoas j estavam em ritmo de 
frias. E ns iramos enfrentar as lutas mais rduas agora. Sem 
qualquer espcie de descanso!
Os ataques no se concentravam apenas em casa, tudo 
que servisse para abalar nossas emoes parecia estar valendo. 
Em casa de Dona Mrcia, naquele mesmo perodo, Harpa quase 
foi atropelada. Viola ficou doente. Ainda bem que no foi nada 
srio. Isabela ficava apavorada com esse tipo de coisa, havia um 
ano tinha perdido o Wolfi e a Bitinha.
No adiantava o nos lamentar, era melhor ir em frente.
Durante as duas Ministraes de dezembro, tratamos da 
questo da minha paternidade. Mas, fora isso, Deus trazia 
muitas revelaes dos ataques incessantes sobre ns. 
Novamente, Isabela parecia estar sendo um alvo especial. Certa 
vez havia uma bruxa ao lado dela e um feto morto. No era a 
primeira vez que diziam a Isabela que seu sistema reprodutor 
era alvo do inimigo, mas o Senhor o estava protegendo.
No h palavras boas o suficiente para descrever nosso 
estado naquele final de ano. Era uma mistura de vrias 
sensaes: expectativa, temor, esperana.... difcil dizer! Mas 
era o cansao que mais pesava.
Tudo isso somado fazia com que a gente ficasse mais 
predispostos s discusses. Era exatamente isso o que os 
demnios queriam... nesses momentos, nossa vida se 
transformava num verdadeiro Inferno. Eu s queria que tudo 
acabasse! S queria que a vida acabasse... se eu pudesse ter paz 
de alguma maneira! S queria paz, s queria paz!
Durante aqueles momentos me sentia em frangalhos, 
faria qualquer coisa para fugir dali, acabar com tudo...
Quando briguei com Isabela, logo depois da segunda 
Ministrao de dezembro, eu a culpei muito. Era assim que eu 
via, algum tinha que ser responsvel por aquela situao 
terrvel e absurda que estvamos vivendo!
Naquele momento, queria at que ela morresse! Que 
sasse de perto de mim! Eu tive que concordar com aqueles 
bips... ela era responsvel por toda aquela destruio! Foi 
exatamente isso que eu lhe disse. Naturalmente que ela tinha 
seus defeitos, eu podia at no falar com sabedoria, mas ela era 
orgulhosa muitas vezes e resistia a minhas tentativas de 
reconciliao.
Isabela nem saberia dizer o que sentia. Poderia explodir 
de angstia, seu desespero foi to grande que ela mesma se 
arranhou, se machucou, perdeu o controle completamente. Se 
continuasse daquele jeito, poderia realmente enlouquecer...
Cada um a seu modo, durante as brigas era fcil sentir o 
cheiro da morte, o cheiro do fim... o cheiro da desgraa! No d 
para quantificar quem sofreu mais... foram maneiras diferentes 
de sofrer...
Ela tomou remdio para dormir e dormiu muito: onze 
horas seguidas, sem acordar. O que, para Isabela, era um record 
absoluto!
Logo de manh, sentimos necessidade de buscar Dona 
Clara imediatamente. A situao parecia to periclitante e to 
densa que, sem a ajuda de algum, a tragdia seria iminente. Foi 
Isabela quem deu o xeque-mate.
 Vamos conversar com Dona Clara agora, porque 
seno vai acontecer uma desgraa...  foi tudo que ela 
conseguiu dizer.
Foi a coisa certa. Dona Clara j sabia daquele nosso 
problema, bem como Grace. Naquela manh ela pde nos ajudar 
a entrar em reconciliao. Oramos juntos, no fosse a presena 
de Dona Clara... nem sei! Isabela, sempre muito sincera, no 
escondia nada. No fazia de conta.
Depois disso, j feitas as pazes, ainda assim era preciso 
ficar esperando que toda a dor passasse. Ela no iria passar 
naquele dia, nem talvez no outro. O corao ferido de Isabela, 
levaria tempo para se recuperar. Meu corao tambm, 
magoado, precisava de tempo para voltar a bater em compasso 
normal.
Fomos tomar um caf, nos abraamos, oramos juntos 
novamente, procuramos de fato ficar em paz. Aquela dor ficou 
amortecida.
* * * *
Naquela tarde eu tinha que ir at o centro da cidade 
buscar mais 130 apostilas que tinha mandado fazer. As pessoas 
tinham comprado uma no congresso, me procuravam pelo e-
mail pedindo mais. O pessoal da equipe de Grace tambm 
queria. Nem sei por que Isabela no foi comigo, mas ficou em 
casa. De forma que fui sozinho. Isso no era comum, de 
maneira nenhuma, Isabela gostava muito de andar pelo centro 
da cidade!
Eu, ao contrrio, no gostava muito do centro. Era um 
lugar tumultuado, bagunado e perigoso, no meu entender. No 
via a mesma graa que Isabela naquelas ruas com monumentos 
antigos, lotadas de camels, onde a gente quase no podia 
andar. O pedao perto do Teatro Municipal e as ruas de galerias 
que vendiam de tudo era o que havia de melhor para ela. 
Segundo Isabela, tudo era barato!
Ah! eu preferia pagar mais caro e ter o conforto do 
Shopping, adorava explorar aquelas bandas. Comprava timos 
produtos para o cabelo, coisas que s vendiam para 
cabeleireiros.
Cheguei ento ao lugar onde deveria pegar as apostilas 
que tinham sido encomendadas com antecedncia, e estariam 
prontas naquela tarde. Enquanto esperava fui, conversando com 
o rapaz que atendia, que tambm era crente. Ele foi perguntando 
a respeito da apostila, porque  claro que tinha um ttulo 
sugestivo: "Satanismo". Aquela palavra, como eu iria perceber, 
tinha o poder de despertar a imediata curiosidade dos Cristos. 
Expliquei um pouco a respeito do contedo enquanto ele 
embalava o material todo dentro de uma caixa de papelo. 
Depois ele foi contando um pouco sobre si mesmo, que ia casar, 
como estavam os preparativos, e que Deus estava abenoando 
muito o seu negcio. O rapaz era falante, mas logo tudo estava 
pronto.
 Eu te ajudo a colocar no carro, est bem pesada!
 Ih, eu estou sem carro, vim de metr. No tem 
problema, no! Coloquei a mo no bolso para pagar, foi a que 
percebemos um pequeno mal-entendido no preo.
 Mas no ia ficar em R$ 220,00?  indaguei quando 
ele colocou a caixa cheia na minha frente.
 Segundo meus clculos, d R$ 290,00. Quanto foi 
que cobraram a pgina pra voc?
 Da primeira vez, no foi esse valor... eu estou vindo 
aqui porque foi a Comunidade que indicou vocs. Eles 
costumam fazer muita coisa aqui!
 Realmente a gente faz um preo especial para eles. 
Dessa vez, algum deve ter cometido algum engano e cobrou 
outro preo de voc. Mas no seja por isso! Vamos caprichar no 
preo, que  para voc voltar! Vou fazer a pgina ao preo que 
oferecemos para a Comunidade.
 A! Muito obrigado!
 Voc pediu sem espiral, n? S grampeado?
 No, no... pedi com espiral! Eles no puseram dessa 
vez?  para dizer a verdade, eu nem tinha reparado, ele fechou 
a caixa e eu confiei que estava tudo certo.
 Caramba, voc est sem sorte, hein? Quanta coisa 
errada! Se voc quiser, pode vir buscar amanh, te garanto que 
vai estar tudo certinho. Me desculpe...
 No tem problema. Eu moro longe, no  muito fcil 
vir para c! Fica assim mesmo dessa vez, t tudo certo.
 Deixa ento eu ver de novo a diferena de preo...  
ele pegou a calculadora.  Em vez de R$ 220,00, fica em... 
deixa ver... d R$ 45,50 a menos... R$ 50,00, pelo transtorno! 
Te fao tudo por R$ 170,00!
Fiquei satisfeito. Ia me sobrar um dinheirinho.
 Muito obrigado, hein?
Ele ainda estava terminando de dar os ltimos retoques 
na caixa, amarrando bem a tampa.
 J que voc vai de metr, n?
De repente parou e ficou olhando para mim. Seu 
semblante era de espanto.
 Nossa.... voc tem um anjo enorme te 
acompanhando! T a do teu lado!... Eu no acreditei de 
imediato. E inquiri:
 Ah, ? E como  esse anjo?
 Ele  muito... alto!... Forte... e  ruivo...  ele olhava 
para cima. Bem para cima.
Nem precisava dizer mais nada. Fiquei logo interessado.
 ? E voc est vendo mais alguma coisa?
 Ele usa uns braceletes, puxa! Nunca vi nada assim! 
 e continuava olhando.  E esse anjo no tem asa. Nunca 
imaginei isso! Quer dizer, nunca vi um anjo... mas imaginei que 
eles tinham asa.
" porque voc nunca sentiu o Poder que sai deles... por 
isso est assim to calmo", pensei comigo mesmo. E me 
controlei para no debulhar ali mesmo. A descrio estava 
certinha!
 Olha... ele pediu para eu te dar um recado  estava 
bastante impactado. Seus olhos estavam meio molhados.
Em segundos pensei comigo, um pouco indignado:
"Pxa, por que ele no aparece para mim e me d o 
recado pessoalmente?"
Alguma coisa no meu ntimo falou muito forte. E 
compreendi que tinha pisado na bola. Tinha pecado muito com 
minhas palavras. Aquela impresso veio clara no esprito. Mas 
mesmo assim no quis aceit-la de muito bom grado. Como que 
eu levava a bronca, e Isabela fazia o papel da coitadinha?...
 No sei o que voc faz, qual  o seu Ministrio, mas 
Deus tem algo grande para voc  continuou ele.  E o recado 
 o seguinte: "Deus sabe o que passa no seu corao. Nada fica 
oculto a Deus!"  ele repetia as palavras devagar, porque 
olhava com ateno para cima e falava com cuidado.  "Voc 
sabe do teu erro, da tua falha... mas hoje  dia de restaurao. 
Esse dinheiro, essa sobra, no foi por acaso. Isso j estava 
determinado. Porque quem escreve a histria  Deus!... No 
caminho de volta voc vai ver uma loja. Voc vai saber que  ali 
que tem que entrar... pega esse dinheiro, e compra alguma coisa 
para sua esposa. Para alegrar o corao dela!"
Ento ele parou. Estava meio emocionado. Aproximou-
se de mim, e me deu um abrao.
 Eu no entendi direito... mas Deus sabe!
Foi pegando a caixa nos braos para me ajudar. Eu 
tambm me sentia entre emocionado e entorpecido com o 
recado. Nos despedimos sem maiores delongas:
 Que Deus te abenoe  disse ele.
Eu agradeci e sa carregando aquela caixa pesada. No 
sabia se carregava a caixa, ou se parava ali na calada e 
chorava. Mesmo assim continuei caminhando, apoiei a caixa 
num dos ombros e nem enxergava nada  minha volta, s 
pensando no que tinha acontecido.
Em dado momento, tropecei, e a caixa quase foi para o 
cho. Consegui apar-la, mas ca junto. Salvei as apostilas, mas 
eu mesmo fui parar no cho. Na hora em que me levantei, bem 
diante de mim estava aquela placa: frutas secas.
Olhei desconfiado.
"Caramba... ser que essa  a loja? Ser que esse  o 
presente? Vou comprar frutas secas para Isabela?"
Isabela gostava daquele tipo de coisas naturais. E no 
meu corao veio aquela certeza. Aquele era o lugar certo! O 
tropeo no tinha sido uma coincidncia... Mesmo porque, eu 
estava a duas quadras do metr. Naquele pedao no tinha 
nenhuma outra loja vivel, tinha um sebo, duas lojas de 
macumba, mais de uma tica... e o anjo tinha dito que a loja 
ficava a caminho do metr, claro que ele no queria que eu 
ficasse passeando por todo o centro com aquele peso no lombo!
Ento entrei. Escolhi algumas coisas diferentes, dentre 
elas uma que achei o mximo: biscoito de ma! Pras secas, 
damascos, cookies de aveia, balas de algas, etc. e tal, 
terminaram de encher meu pacote. Eu no curtia esse negcio 
naturalista, mas Isabela ia achar muito legal!
E fui voltando para casa com a caixa e o pacotinho. A j 
estava cheio de remorsos...
"Coitadinha..."
Ainda olhei das outras lojas at chegar no metr. Mas 
realmente no tinha nada de interessante. Um monte de camels 
vendendo meias e camisas de times de futebol. Certamente isso 
no fazia o gosto de Isabela, portanto era aquela loja mesmo!
Fui trotando para casa, ansioso em me restaurar.
* * * *
Isabela no esperava e gostou bastante. No contei que 
Deus tinha me dado uma bronca, apenas falei que o anjo ruivo 
tinha dito para eu comprar um presente para ela. Tinha mandado 
um recado atravs do dono do xrox. Mais contente do que 
receber o presente, ficou Isabela contente com o fato de Deus 
diretamente ter lhe dado aquele mimo.
Naquele mesmo dia, no comeo da noite, fomos at a 
casa de Sarah. Ela tinha nos telefonado dizendo que estava de 
partida para o exterior. Seria uma visita de despedida, e estava 
marcada para aquele dia.
Conversamos bastante. Ela foi muito gentil, nos deu 
vrias coisas das quais estava se desfazendo, dentre estas 
panelas e coisas de cozinha, livros de receitas, alguns objetos de 
uso pessoal.
Mais uma vez lamentamos o fato de que nossa amizade 
tivesse ficado trancada. Jefferson nem estava em casa, de forma 
que no pudemos falar com ele. Oramos, nos abraamos, foi um 
tempo muito gostoso.
Mais tarde ela nos levou para comer uma pizza fora. Foi 
simptico da parte dela! E depois, ela deu R$ 100,00 para 
Isabela. Foi bem especfica em dizer que o dinheiro era para 
Isabela:
 Que voc possa usar esse dinheiro para fazer alguma 
coisa boa para voc. No  para pagar conta! Eu sei que talvez 
vocs pudessem usar esse dinheiro de forma mais "til", mas 
use-o para satisfazer um desejo do seu corao.
Enquanto ela olhava para o dinheiro, falei sorrindo:
 Viu? Gatinha  especial!
Ela olhou pra mim sem falar nada. Os acontecimentos 
no semestre inteiro, e especialmente os mais recentes, tinham 
servido para trancar um pouco aquele processo de receber o 
Amor do Pai.
 Muito obrigada, Sarah!  a segunda vez hoje que o 
Senhor se preocupa em me dar um presente... faz um bom 
tempo que eu no ganhava presente assim, desse jeito! Deus 
realmente me convenceu de que quis me fazer uma surpresa... 
acho que Ele sabia que eu estava um pouco triste... e acho que j 
sei o que vou fazer!
Mais tarde, perguntei para ela com carinho. Eu no 
queria ver Isabela triste. No sei o que acontecia a ela durante 
aquelas brigas... meu desejo era faz-la feliz!
 O que voc quer fazer?
 Vou cortar o cabelo num cabeleireiro bom!  No 
agento mais meu cabelo! Do jeito que as coisas aconteceram 
nesse ano, cuidar da aparncia acabou sendo uma coisa meio 
secundria...
Estes pequenos gestos de Deus mostravam a Isabela que 
Ele estava agindo como um Pai que ama a filha. Era uma 
florzinha naquele deserto, uma delicadeza, um afago... uma 
maneira de dizer "Eu te amo! Agente mais um pouco..."
 * * * *
Isabela Conta
Captulo 42

Naquele ms de dezembro, ns tnhamos mandado 400 
cartas, para 400 lderes de 400 Igrejas. Se o livro ia sair, o 
Ministrio ia comear, isso era bvio, o anjo ruivo tinha feito 
um sinal como de um relgio no dia daquele batismo. Tinha dito 
que no faltava muito tempo. De fato.
Mas as pessoas no poderiam saber que existamos se 
no falssemos sobre ns. A possibilidade de encontrarmos um 
emprego novamente se fazia cada vez mais remota. Chegaram a 
nos oferecer coisas absurdas, para que Isabela vendesse 
cosmticos e eu trabalhasse numa gndola de caf. Ningum 
parecia pensar que o desejo de Deus era que realmente 
ficssemos sem emprego durante aquele tempo. Deus no iria 
tirar o meu emprego de Mdica, nem o cargo de Analista 
Financeiro de Eduardo, a troco de nada.
Embora ele continuasse aceitando participar de 
processos de seleo, nada aconteceu. Naquele ano de 
desemprego ele ficou na final de pelo menos uns doze ou quinze 
processos. Mas Deus no queria... e se Deus no queria...  
porque realmente o Ministrio estava para comear!
Foi por este motivo que optamos por enviar aquelas 
cartas. Escrevemos falando sobre o lanamento do livro, falando 
do testemunho de Eduardo brevemente e oferecendo a 
possibilidade de visitar aquelas Igrejas. Junto com esta carta 
enviamos uma carta de apresentao do Pastor Lucas. Apesar 
disso, os Pastores estavam um pouco preocupados com o 
lanamento de Filho do Fogo, inclusive contataram Grace para 
conversar e tomar informaes.
Quanto a ns, no havia dinheiro para enviar as cartas, 
ento minha me nos deu o valor. Por duas vezes nossa oferta 
de quarta-feira foi desviada para outros fins. Fomos  Igreja 
como de costume, no horrio de almoo, porque Dona Clara 
deveria estar com nosso dinheiro. Alis, estvamos contando 
com ele para enviar as cartas. Mas ela explicou que tinha sido 
dada uma outra direo naquele dia e a oferta seria destinada a 
outro fim. Ficamos com cara de tacho. Tnhamos passado na 
Igreja certos de que nosso dinheirinho estaria l, mas samos de 
mos vazias. No deixava de ser uma humilhante situao!
Enviar as cartas foi um passo de f da nossa parte, se 
Deus no nos queria trabalhando secularmente, haveria de 
realmente abrir logo as portas do Ministrio. No dava para 
passar o resto da vida "mendigando"! Oramos sobre as cartas e 
as ungimos. Mas... a verdade  que no recebemos nenhuma 
resposta.
Tudo que era humanamente possvel de fazer, ns 
fizemos. Nunca nos encostamos, nunca nos conformamos, 
nunca ficamos acomodados esperando que tudo casse do cu. 
Mesmo pelo Ministrio... continuvamos em orao para gerar 
aquilo no Reino do Esprito! Mesmo que Deus houvesse feito 
uma promessa, havia a nossa parte. Tudo que pudemos fazer... 
ns fizemos.
Nisso a nossa conscincia estava limpa.
Por outro lado, Deus continuou fazendo pequenos 
milagres de proviso. No segundo final de semana de dezembro, 
Eduardo e eu estvamos indo at a casa de minha me e 
comentei com ele, apenas por comentar:
 A gasolina j est na reserva, n?
 No temos com que colocar mais.
 Se a gente tivesse R$ 10,00, dava para esperar at 
chegar a oferta de quarta-feira. Com R$ 10,00, a gente segura 
essa gasolina at l!
Foi apenas um comentrio. No dia anterior a gente tinha 
viajado at uma cidade de interior, a pouco menos de duas horas 
de So Paulo. Grace tinha um dos seus ltimos seminrios do 
ano naquela cidade, e fomos apenas para vender apostilas. Mas 
tinha sido um fiasco! Vendemos apenas seis unidades. 
Praticamente nem pagou a viagem e o desgaste. Voltamos para 
casa muito chateados. A gente no tinha querido sobrecarregar 
ningum, pois poderiam ter vendido para ns. Grace imaginava 
que faramos uma grande venda, por isso fomos pessoalmente. 
Mas, infelizmente... tinha sido um tiro n'gua!
Naquela tarde, em casa de minha me, recebemos um 
telefonema de uma pessoa da clula dela. Claro que estavam 
todos sabendo do lanamento do livro e tambm da apostila. 
Minha me atendeu ao telefone, e depois de conversar, virou-se 
para ns:
 Ela est perguntando se vocs tm uma apostila para 
vender.
 Tenho algumas no carro!  respondeu Eduardo.
Minha me deu a notcia.
 Eles tm aqui. Pode vir buscar, ento! Tchau!
Enquanto minha me ia at a cozinha para dar uma 
checada no almoo, Eduardo comentou comigo:
 E voc ainda falou agora mesmo sobre os R$ 10,00! 
Que coisa!
 Pois no ? Eles esto vindo bem aqui, na nossa mo! 
Que bom! Pelo menos o Palio no vai ficar parado no meio da 
rua por falta de gasolina!
Aqueles pequenos detalhes sempre vinham com a 
assinatura de Deus. Foram muitos deles ao longo daqueles 
meses! Eu j me sentia bem mais tranqila em relao ao nosso 
sustento. Se estivssemos no centro da vontade Deus, Ele 
mesmo se incumbiria de tomar conta de ns!
Mas eu estava preocupada com outro detalhe naquela 
poca. Dinheiro j no me incomodava tanto, Deus tinha 
mostrado muitas vezes a sua Fidelidade. S que desde a ltima 
Ministrao de Eduardo, aquela em que colocamos diante de 
Deus a questo da sua paternidade, ele vinha com uma tosse que 
no havia meios de cessar.
No era uma tosse produtiva, cheia de catarro, mas era 
to intensa que ele no conseguia dormir, e eu tambm no. 
Parecia que ia pr os dois pulmes para fora! Tossia at perder 
o flego. At ento ele no tinha tido febre, ento imaginamos 
que fosse alguma coisa alrgica. Talvez por causa dos gatos. 
Mas a verdade  que Eduardo nunca tinha tido alergia a gato, ele 
sempre conviveu bem com a Viola e a Harpa.
Naquela noite ns estvamos dando a ltima olhada nos 
fotolitos. Em breve estaria tudo pronto para ir  grfica. Como 
fosse j quase boca do Vero, a noite estava quente, de brisa 
morna, e os gatos estavam guardados na cozinha para que a 
gente pudesse abrir completamente a janela do apartamento. 
No era seguro ter a janela aberta com eles zanzando por ali, 
no seria difcil um cair l embaixo. Mesmo porque, ningum 
podia espalhar papis pelo cho perto deles!
De repente, Eduardo ergueu a cabea para mim e bufou:
 Puxa... est calor aqui, no?
 Mais ou menos... est gostoso! No est esse 
abafamento todo.
 Pois eu estou bufando!
Eduardo tinha o rosto vermelho. Os fotolitos que ele 
estava olhando jaziam esquecidos ao seu lado. Olhei melhor 
para ele.
 Ser que voc no est com febre, no? Voc est 
sentindo que est com febre?
 Acho que no estou.
 Pelo sim, pelo no, vou pegar o termmetro. Fui at o 
banheiro e trouxe o termmetro.
 Coloque embaixo do brao, bem apertado. J vamos 
saber j!
Eu realmente no achava que ele estivesse com febre. 
No tinha tido os costumeiros calafrios, nem estava com 
sintomas de gripe. At ento, aquela tosse tinha uma cara mais 
alrgica do que infecciosa.
 Fica quietinho a enquanto mede...  falei para ele, 
retomando a reviso dos meus fotolitos.
Continuamos conversando enquanto ele ficava com o 
termmetro embaixo do brao.
 J deu! Deixa ver!
Eduardo estendeu-o para mim. Eu olhei e... e no 
acreditei! Era claro que alguma coisa estava errada. Nem quis 
falar para ele a medio, apenas perguntei:
 Voc abaixou a coluna de mercrio antes de colocar? 
 Sim. Porqu?
 H... acho que no mediu direito... vamos colocar 
de novo!
 Mediu direito, sim. Quanto  que deu?
Tive que falar.
 Deve estar errada... era pra voc j estar praticamente 
em coma... deu 42 C!
 impossvel! Quer dizer...  impossvel!
A coluna de mercrio tinha subido at em cima, at o 
limite. Claro que aquilo no era normal. Tinha que haver 
alguma explicao. Baixei o termmetro novamente e estendi a 
ele.
 Pe de novo...
Eduardo obedeceu. Desta vez no tive cabea para olhar 
os fotolitos. Aquele monte de folhas ficou espalhado ao redor e 
ns nos entreolhvamos, meio cabreiros. O que estaria 
acontecendo? Primeiro aquela tosse que no passava... agora 
aquela febre absurda!
No agentei esperar muito tempo.
 Pode me dar.
Olhei de novo. J passava dos 40 C, s no subiu mais 
porque no deu tempo para isso.
 No  possvel...
 O que significa isso?
 No interessa o que significa. Significa que voc 
deveria estar morrendo! S para dizer o mnimo.  Eu me 
sentia quase em pnico.  Alguma coisa realmente tem que 
estar errada... quer dizer, voc est muito bem para uma 
temperatura dessas! Vou medir em mim... esse termmetro est 
com defeito, s pode ser isso.
Minha temperatura era de 36,6 C. Completamente 
normal. Eu no sabia que dizer, muito menos o que pensar. 
Fiquei indignada com aquela situao.
 Isso tem que ser espiritual! Deus no est permitindo 
que voc sofra as conseqncias fsicas deste Encantamento, 
mas alguma coisa muito sria est acontecendo! No podemos 
negligenciar isso...  no levei muito tempo pensando.
 Eu vou te ungir!  bvio que isso  um ataque. Tem 
certeza que voc no est mesmo sentindo nada de diferente?
 S me sinto meio abafado...
Ergui-me e fui at o escritrio, o frasquinho de leo 
estava na prateleira de madeira. Meu corao estava muito 
inquieto, at batia mais forte. "O que est acontecendo, meu 
Deus? O que significa isso?" Eduardo estava agora sentado no 
sof da sala, no cho os fotolitos continuavam espalhados. Me 
aproximei dele com convico, uma convico at estranha, 
uma convico que eu no costumava ter. No era possvel que 
aquilo continuasse, fosse l o que fosse!
 Vamos orar, t? E eu vou te ungir...
Eduardo assentiu fechando os olhos. Eu tambm fechei 
os meus, e minha voz saa entrecortada, aos trancos, de tal modo 
estavam abaladas as minhas emoes com a constatao 
daquela temperatura.
 Oh, Senhor Deus, eu peo a Tua interveno agora! 
Ns no sabemos o que est acontecendo, mas isso no  
normal, e s pode ser mais um ataque do Inferno sobre a vida do 
Teu filho. Em nome de Jesus, Te peo que o Senhor o visite 
agora com a Tua cura...  minha respirao estava ofegante ao 
falar aquelas palavras.
 Todas as setas que foram lanadas contra Teu filho, 
contra o corpo dele, arranca agora em nome de Jesus!
Eu j tinha colocado leo na palma da mo, ento 
coloquei a mo nas costas dele.
 Seja l que Encantamento for, seja l que Feitio for, 
ns nos levantamos contra tudo isso. Arranca esse mal pela raiz, 
visita cada clula do corpo do Teu filho, agora Senhor, faa 
isso! Coloca o sangue de Jesus circulando pelas veias dele, 
visitando cada rgo, cada sistema, cada clula, cada tomo 
deste corpo... que o sangue de Cristo circulando neste corpo 
venha eliminar toda contaminao, toda doena, todo mal. 
Torna sem efeito este ataque! D sade perfeita ao Eduardo, por 
favor, meu Deus!...
Enquanto eu orava, fiz simbolicamente gestos de quem 
arranca as setas do diabo das costas de Eduardo. Depois, apenas 
fiquei passando vrias vezes a mo sobre suas costas e sua nuca. 
Ele concordava com a minha orao, baixo... oramos ainda um 
pouco mais, em lnguas, baixinho, at cessar.
Olhei para ele. Ele parecia diferente agora, a expresso 
do seu rosto parecia diferente.
 Deus escutou a sua orao...  fez ele quase com 
lgrimas nos olhos. Sentei ao seu lado. At ento estivera de p, 
mas a me sentei.
 Por que voc diz isso?
 Vou medir de novo!
Eu mesma alcancei o termmetro que tinha ficado no 
cho. Novamente Eduardo o colocou sob o brao. Esperamos 
um pouco, o suficiente para medir perfeitamente bem a 
temperatura. Quando olhamos... inacreditvel.
 36,7 C!!! Meu Deus do Cu! Essa foi a resposta 
mais rpida que eu j vi! Realmente Deus s estava esperando a 
nossa orao para agir.
Ficamos boquiabertos. No havia outra palavra para 
traduzir o espanto naquele momento. Por mais que a gente 
tivesse convico de que Deus ia atuar, no imaginamos que 
seria daquela maneira incontestvel!
 Graas a Deus!  falei eu, suspirando de alvio.  
Pra voc ver como o negcio era espiritual.
 Quando voc orou... no sei... foi como se um anjo 
colocasse a mo sobre a sua mo! Sabe? Eu senti sua mo nas 
minhas costas... e ento eu senti como se tivesse um anjo perto, 
e ele colocou a mo sobre a sua mo. Por isso que quando 
terminamos de orar eu j sabia que Deus tinha atendido.
Fiquei comovida. Foi minha vez de quase derrubar 
lgrimas.
 Srio? Voc viu o anjo? Eduardo sacudiu a cabea.
 No. S senti a presena dele. Como se estivesse 
atrs de ns... e me tocasse... por cima da sua mo.
Naquela noite foi difcil retomar o trabalho. Toda hora a 
gente voltava a se olhar, significativamente, completamente 
embasbacados.
No dia seguinte, aconteceu de novo. A mesma sensao 
de abafamento, uma febre alta. Mas no to alta quanto na 
vspera. Quando olhei o termmetro, no acreditei. E resolvi 
insistir com Deus:
 No  possvel! Isso  espiritual! Vamos orar outra 
vez!
E para ter f de repetir a operao?... E se dessa vez 
Deus no atuasse? Ento, antes de orarmos, algo me veio  
mente. Falei a Eduardo:
 Vamos confessar os nossos pecados um contra o 
outro... vamos recolher as palavras de morte que lanamos, nas 
nossas brigas... elas esto pairando por a, dando legalidade ao 
inimigo...
Foi o que fizemos. Pedimos perdo a Deus, cancelamos 
as palavras de destruio e morte, nos abenoamos mutuamente. 
Ento nos ungimos. Confesso que foi com o corao na mo 
que tomamos novamente o termmetro. E de novo... a febre 
tinha baixado! De maneira instantnea!
 36,5 C !!! Pxa... no sei nem o que dizer...
Tinha sido uma experincia incontestvel! Depois disso 
ele no teve mais febre.
* * * *
Os ataques se sucediam um ao outro das mais diversas 
maneiras. Naquela mesma semana, ungindo a casa de minha 
me, de repente Eduardo sentiu a opresso. A expresso do 
rosto dele mudou e, quando perguntei, ele ficou calado por um 
pouco, com o cenho franzido, mas imediatamente voltou-se e 
caminhou decidido para a sala. Ns estvamos na cozinha.
Como um co farejando, ele foi direto  estante da sala, 
e tomou um objeto. Era um adorno muito antigo que minha me 
havia adquirido numa viagem: uma garrafa em perfeita forma de 
pirata, e cuja cabea era uma tampa removvel. Era at que bem 
bonitinho, original.
Mas Eduardo tirou a cabea do pirata e abriu a garrafa.
 Eu sabia!  isso aqui! Olha...
Entre curiosa e assustada, espiei. Havia alguma coisa l 
dentro.
  Meu Deus... que  isso, Eduardo?  cochichei, antes 
que minha me desconfiasse.
De volta  cozinha, ele fez aquela coisa rolar para fora. 
Vai saber como tinha ido parar ali. Parecia uma concha, dentro 
da concha havia alguma coisa. Um odor perfumado invadiu o ar 
ao nosso redor.
 Isso no estava a com toda certeza... mesmo porque, 
qual a probabilidade de voc sentir opresso e ir direto nesta 
garrafa?  eu estava mesmo assustada.
 Quando senti a opresso, no meu ntimo perguntei 
para Deus de onde ela estava vindo, qual a porta... sei l! Fui 
como que atrado para ela, quando peguei a garrafa senti minha 
mo at formigando... isso aqui  um cavalo de Tria, voc 
sabe. Uma porta a mais que eles esto criando para poder entrar 
aqui dentro... um objeto de Encantamento!
 Mas como...? Bom, eu sei como!
 Um demnio... ou esprito humano. Mas Deus j 
mostrou, o fato da gente estar ungindo a casa est fazendo a 
diferena. Mas por que aqui dentro?... Por que eles escolheram 
este lugar, tem que ter algum significado.
Ficamos em silncio um pouco.
 Isso a  uma concha...  falei.                                           
 E estava dentro de um pirata. Os dois tm a ver com 
o mar!  isso!   isso o qu?
 Como  que os bips vm assinados? Todos eles?  
Isso eu sabia muito bem.
 Leviathan...                                                          
 O drago do mar. Entendeu agora?
Ficamos mudos. Era coincidncia demais. Ou melhor... 
no havia coincidncias quando se tratava da Irmandade. Era 
como se eles pudessem at mesmo adiantar que ns iramos 
descobrir aquele objeto. E, descobrindo-o, recebemos um 
recado a mais: que o monstro marinho no tinha desistido de 
ns! O tempo se aproximava... o tempo que eles tinham 
escolhido para exercer a sua vingana!
No foi a nica vez que sentimos opresso em casa de 
minha me no momento da uno. Durante o jejum, antes do 31 
de outubro j tinha acontecido duas vezes: Eduardo sentiu uma 
opresso muito forte, muito forte, no quartinho de despejo l no 
fundo da casa. Ali dentro havia de tudo um pouco: toda espcie 
de documentos antigos, objetos antigos, coisas em desuso.
Naquela mesma semana, ungindo as janelas pelo lado de 
fora, ao passarmos pela janela do quarto da minha me, Eduardo 
tambm sentiu forte opresso. Quando entramos no quarto, 
Deus sinalizou o guarda-roupa da esquerda, sinalizou algo 
relacionado com idolatria. Naquele guarda-roupa ainda estavam 
guardadas as roupas do meu pai. Exatamente como ele tinha 
deixado.
Oramos at sentir a opresso desaparecer. Mas a questo 
 que ns tnhamos uma atuao limitada, em se tratando dos 
nossos familiares existe tambm a questo do livre-arbtrio 
deles. Deus estava trazendo uma proteo, uma cobertura 
espiritual sobre a casa, sobre minha me e meu irmo, mas isto 
era temporrio. Se eles, com suas prprias mos, tornassem a 
abrir as portas... invalidariam a uno! Ningum pode fechar as 
brechas do outro... infelizmente! Cada um fecha suas prprias 
brechas. Por amor a ns, a mim e a Eduardo, havia uma 
proteo especial, sim, sobre os familiares. Mas, torno a dizer... 
nossa atuao era limitada.
No muitos dias depois disso, levamos mais um golpe. 
Ele envolveu minha me, mas doa mais do que se tivesse sido 
em mim. Satans sabia muito bem como me atingir: bastava 
atingir meus familiares! Se me atingisse, indiretamente estava 
atingindo Eduardo. Ns sabamos o que eles estavam fazendo, 
isto , minando as nossas foras. Dando pancadas e mais 
pancadas de todos os lados, nos cansando fisicamente, 
emocionalmente e espiritualmente. Tudo aquilo preparava para 
o golpe final!
Ns sabamos disso, pelo que lutvamos com toda fora 
que tnhamos, de todos os modos, com tudo o que era possvel.
Minha me recebia um salrio que vinha como penso 
do meu pai, era apenas uma parte dos seus rendimentos, mas ela 
sacava esse pagamento todo ms no caixa eletrnico. 
Costumava ir ao banco e fazer a tramitao ali mesmo. Ms 
aps ms, ano aps ano, fazia do mesmo jeito.
Naquela manh, ela foi exatamente como das outras 
vezes, chegou no caixa dentro da agncia, o mesmo caixa que 
estava acostumada a usar, tirou um saldo para checar o depsito, 
fez a operao de saque, digitou a senha, e... nada de conseguir 
que o caixa eletrnico a obedecesse! Repetiu trs ou quatro 
vezes a operao, o caixa sempre cancelava com a seguinte 
resposta: no foi possvel completar a operao.
Ento minha me se dirigiu ao caixa dos idosos, que 
estava vazio, no esperou nem dois segundos para falar com o 
atendente. Como j fosse cliente antiga, conhecida na agncia, a 
atendente a acompanhou de imediato at o mesmo caixa 
eletrnico. Repetiu a operao. Dessa vez ela foi completada, 
mas a resposta, totalmente inusitada, dizia o seguinte: saldo 
insuficiente.
Minha me comeou a entrar em pnico. Tinha apenas 
cento e poucos reais na conta, quando o pagamento era de mais 
de R$ 1.000,00, e ela tinha acabado de checar o saldo! Quando 
tiraram um extrato, para o cmulo da surpresa, constava um 
saque de R$900,00!
Minha me nos ligou em seguida, ela estava muito 
nervosa. Explicou pelo telefone:
 Eu no saquei R$ 900,00 em momento algum! Eu ia 
tirar o valor inteiro, como sempre fao, ia tirar R$ 1.000,00! Foi 
o tempo de virar as costas, no deu nem um minuto! No posso 
imaginar o que possa ter acontecido, mas a verdade  que todo o 
meu pagamento desapareceu!
Ela estava mais chocada do que assustada. Embora 
aquele valor no fosse comprometer seu oramento, apesar de 
pesar um pouco, era inconcebvel! Minha me tinha uma idia 
do envolvimento de Eduardo com o Satanismo. E ela mesma 
concluiu:
 Isso  coisa de Satans!
No duvidamos em momento algum. Mais uma vez 
vinha com a assinatura deles: no retiraram o pagamento cheio, 
os mil e poucos reais... preferiram dar sumio em R$900,00!
Como isso aconteceu? Difcil de explicar pela razo 
humana... afinal foi coisa de segundos! Num minuto o dinheiro 
estava l, como constou no saldo... no minuto seguinte, sem que 
ningum pudesse perceber como aconteceu, havia um saque de 
R$ 900,00! E no havia fila no caixa eletrnico... no havia 
algum atrs dela que porventura tivesse conseguido ver a senha 
e, enquanto ela ia at o balco dos idosos, aproveitou-se da 
distrao para sacar o dinheiro. No tinha ningum perto dela, o 
banco estava vazio, no tinha praticamente ningum!
Oramos, comunicamos Dona Clara, comunicamos 
Grace, pedimos orao... mas no adiantou. Nunca mais aquele 
dinheiro apareceu. Coitada da minha me...! Eu preferia que 
todas as coisas ruins acontecessem comigo, e minha famlia 
pudesse ser poupada.
Inclusive na vspera havia sado uma restituio do 
imposto de renda para mim e para Eduardo, no mesmo lote. 
Tentaram roubar parte da minha restituio, R$ 370,00. J nem 
me recordo qual foi o problema, mas tivemos que ir ao banco 
resolver. No fim deu tudo certo. Encaramos aquilo como mais 
estilhaos decorrentes de outro salto de 9 dias. Aquela 
seqncia de saltos tinha comeado depois de Sabbath: dia 9 de 
novembro, dia 18 de novembro, dia 27 de novembro, dia 6 de 
dezembro, dia 15 de dezembro. Foi no dia 15 que tivemos 
problema com o imposto de renda. Como no conseguiram me 
roubar, no dia seguinte roubaram minha me!  Ela no era o 
alvo principal, mas foi o alvo secundrio. Em ltima anlise, 
foram cinco investidas, em saltos de nove dias. 
Cabalisticamente perfeito! Os nmeros cinco e nove so marca 
registrada do Satanismo.
Por outro lado, aquela seqncia deveria terminar em 
breve porque no dia 22 de dezembro comeava outro perodo, 
inaugurado pela Festa do Vero. Eu, particularmente, estava 
sempre ligada nas datas! Detalhe: nove dias depois da festa do 
vero, era dia 31 de dezembro. Para todos os efeitos, a data da 
minha morte... mais uma vez, numerolgicamente perfeito.
Por isso e por tudo o mais que vinha acontecendo,  que 
Deus s vezes tinha que nos dar uma trgua! Ou melhor, trgua 
no  bem a palavra, nunca existiu trgua! Digamos que o 
Senhor nos dava uma injeo de nimo... Ele conhecia nossa 
limitao. Por vezes, no meio de todas aquelas coisas estranhas, 
era preciso que Ele sinalizasse a Sua presena, a Sua proteo, o 
Seu livramento. Seno ficava difcil sobreviver no meio daquele 
vendaval! Os meses de novembro e dezembro tinham sido 
bastante atribulados.
Ento, o Senhor sabia quando mandar uma experincia 
sobrenatural para nos animar.
Numa daquelas quartas-feiras em que o dinheiro da 
nossa oferta foi destinado a outro fim, e ficamos a ver navios, o 
oramento apertou mais uma vez. Claro que ele j vinha 
apertado, arroxado ao mximo... mas o pouco com que 
contvamos no veio.
Estvamos aprendendo a confiar que Deus era nosso 
provedor, ento... Ele haveria de continuar sendo! Eu gostava 
muito de uma msica que falava assim:
"Se a figueira no florescer, e a videira fruto no der, se 
nos campos no h o que colher, nem sementes para plantar... 
desesperado eu no vou ficar! Mas firme vou permanecer, e a 
Palavra vou confessar, e a situao vai se reverter! O Senhor 
Deus  meu escudo! Jeov! E Nele eu vou me alegrar! Com Ele 
eu consigo tudo!
Jeov! At nas alturas me faz andar! EH! Aleluia, 
aleluia! EH! Aleluia! Jeov Jireh  Deus de proviso!
Cada vez que cantvamos esta cano na Igreja eu me 
sentia invadida por um sentimento de jbilo, uma certeza grande 
de que aquelas palavras eram a mais pura verdade. Raras foram 
as vezes em que ns no nos dispusemos a louvar. Alis, acho 
que no aconteceu nenhuma vez. O mximo que acontecia, pelo 
menos comigo, era eu permanecer sentada. Por causa do 
cansao. No meu ntimo, no meu corao, estava adorando a 
Deus, mesmo sentada. E Ele sabia disso!
Ento, numa noite, de volta ao nosso apartamento, 
estvamos conversando a respeito das contas que tnhamos que 
pagar. Falei, sem pensar muito:
 Isso tudo a que voc est falando... essas contas que 
a gente tem de cobrir e pagar... uns R$ 200,00 dava, n?
Eduardo fez a conta mentalmente e concordou comigo.
 Isso d. No sobra para mais nada, mas na semana 
que vem entra alguma coisa de oferta. Esses R$ 200,00 so 
urgentes, de qualquer forma, e com isso d pra saldar os 
compromissos mais importantes.
No meu ntimo, sinceramente no me preocupei muito. 
Deus j tinha mostrado tantas e tantas vezes a Sua Fidelidade 
naquela rea! Eduardo tinha mais dificuldade em descansar 
porque ele era o homem da casa. Mas naquela noite fui me 
deitar tranqila, sem nem pensar mais naquele assunto.
"Deus vai dar um jeito... a gente no fabrica dinheiro, e 
no foi nossa culpa que a oferta no veio..."
No chegamos nem a orar especificamente daquela vez. 
J era tarde quando chegamos em casa e Eduardo foi deitar. 
Como era meu costume, fiquei perambulando at bem mais 
tarde. Eu tinha uma grande dificuldade em dormir cedo. 
Gostava da noite. Gostava do silncio e da introspeco da 
noite! Era a hora em que eu me sentia mais sensvel, mais 
emotiva, mais produtiva em todos os sentidos. Gostava to- 
somente de ouvir uma msica... ler... s vezes s ficar deitada 
no sof pensando... orando...
No dia seguinte, acordei tarde. Depois de Eduardo, como 
sempre. Do quarto gritei para ele assim que tirei as rolhas dos 
ouvidos:
 Nen! Nen!
Se ele estivesse em casa, iria me atender e vir at o 
quarto. No havia momento mais agradvel do dia do que 
aquele, pelo menos para mim. Eu adorava gritar "Nen" e v-lo 
entrando pela porta do quarto, sorrindo, me abraando, cantando 
para mim aquelas musiquinhas bobas que tanta alegria me 
causavam.
 Gatinha pequenininha! Gatinha pequenininha! 
Gatinha acordou!
Eu gostava mesmo de me enrolar como uma Gatinha 
nessas horas. Como era gostoso quando Nen vinha at o quarto 
me falar bom-dia! O dia tinha outra cor, outro sabor... como era 
bom!
 Oi, Nen...
Ele sentou na beira da cama, me abraou. Seu semblante 
estava feliz.
 Voc nem vai acreditar no que aconteceu, menina!
Passei a mo pelos olhos com curiosidade. Devia ser 
alguma coisa boa!
 Que foi? Que aconteceu?
 Deus atendeu! Deus mandou R$ 200,00!
At me acomodei melhor, dobrando o travesseiro pelo 
meio para erguer a cabea.
 Mandou?!. Como aconteceu isso?  como era bom 
receber uma boa notcia logo de manh. "Logo de manh" era 
modo de dizer, era a "minha manh", mas j devia ser quase 
meio-dia.
 Vai levantando que eu j te conto. Comprei umas 
coisas para o caf!
 T bom!  no esperei segunda ordem e fui saltando 
para o banheiro. Eduardo voltou para a cozinha e logo senti 
cheiro de caf sendo coado. Bem acomodados na nossa mesa 
redonda, com Mambo e Merengue rodando  nossa volta, ele 
me contou.
 Quando levantei de manh, estava convicto: j tinha 
conversado ontem com Deus. Ele sabe que ns precisvamos 
daquele dinheiro, ento pensei comigo mesmo: "Algum h de 
ter depositado esse valor na minha conta". Foi o que imaginei, 
afinal, como Deus poderia nos mandar o dinheiro? Foi na conta 
que caram os dois emprstimos de R$ 1.000,00 da Grace... 
ento no pude pensar em mais nada. Fui at l.
No me agentei.
 Tinha dinheiro na conta?
 No!  Eduardo at fez uma careta.  Fiquei bem 
frustrado! E ainda lembrei daquele cheque da sua me que 
temos que cobrir hoje... fui voltando para casa e falando com 
Deus que aquilo no era possvel, que a gente precisava do 
dinheiro e Ele sabia disso! Ento imaginei com meus botes: 
"Vou achar esse dinheiro na rua, s pode ser!"
Dei risada.
 Voc pensou isso mesmo, Eduardo?!
 Pensei, "M". Pensei mesmo. Ento fui andando bem 
devagarinho, olhando, olhando na calada, na sarjeta, perto dos 
bueiros, perto do canteiro das rvores... mas nada de achar o 
dinheiro! J estava quase chegando aqui de volta, super 
preocupado! Como  que a gente ia fazer? Deus no podia 
deixar a gente na mo. Da, pensei de novo: "Ento Deus vai 
tocar no corao de algum aqui na rua, talvez um crente, um 
filho Dele, que est andando aqui no meio desta multido, e que 
eu no sei quem ... Deus vai tocar no corao dessa pessoa e 
sinalizar que eu estou precisando desta oferta de R$ 200,00. E a 
pessoa vai me ofertar!"
 Eduardo, voc chutou o balde! No  possvel que 
voc imaginou uma coisa dessas!  como eu sabia que a 
histria tinha final feliz, fui me deliciando com cada detalhe.  
Vai dizer que aconteceu assim, que algum que voc nem 
conhece te deu R$ 200,00 na rua!
Eduardo fez suspense de propsito. E sorria.
 Caaalma...! Estou contando tudo devagar, como voc 
gosta. No  assim que voc faz? Me pede sempre pra contar 
tudo com detalhes?
 T bom, t bom! Ento vai! Conta logo como voc 
arrumou dinheiro.
 Fui andando a dois por hora na rua, olhando bem para 
a cara das pessoas, s faltava a acenar para elas sinalizando que 
era eu mesmo! E nada. A cheguei aqui no prdio de novo.
Fiquei intrigada de verdade.
 E o que aconteceu?
 Entrei e o porteiro abriu o porto para eu passar. 
Estava super chateado. Fui indo devagar para pegar o elevador, 
quando ele me chamou. Cheguei perto da guarita e ele estava 
com um envelope na mo. Um envelope para a gente!
 T brincando!  adivinhei o resto da histria.  Vai 
dizer que o dinheiro estava dentro...
 E voc sabe que estava?  Eduardo estava 
comovido.  No envelope estava escrito  mo nosso nome... e 
dentro tinha R$ 200,00 em dinheiro!
Era difcil de acreditar que estvamos vivendo coisas 
assim. Realmente a gente s acreditava porque estava 
acontecendo conosco!
 Meu Deus do cu..... no havia nada melhor a 
dizer.
Eduardo me mostrou o envelope e o dinheiro. No 
parecia real.
 Quem ser que deixou isso l embaixo? Voc no 
perguntou?
 Perguntei. Mas o cara no sabia. Disse que foi o 
porteiro da noite que recebeu.
 Mais tarde voc vai l perguntar, ento! A gente tem 
que saber!
 Com certeza, no precisava nem voc dizer.
 noite Eduardo foi direto conversar com o tal do 
porteiro noturno. Ele no pde elucidar muito mais aquele 
mistrio. Quando Eduardo subiu e entrou em casa de novo, 
contou o que o homem tinha dito:
 O cara t mais confuso do que eu. Era de madrugada 
e ele estava cochilando... disse que nem deveria estar me 
falando uma coisa dessas, mas... fato  que estava meio 
dormindo mesmo. Ento disse que algum bateu no vidro da 
guarita. Ele acordou, estava meio sonado, e s escutou a pessoa 
dizer para ele entregar aquele envelope para ns.
 Mas de onde veio a pessoa?  indaguei, ansiosa.
 Foi o que perguntei, mas ele disse que no sabia, que 
no se lembra de ter aberto o porto pra ningum. Imaginou que 
fosse uma pessoa do prdio... e para ele est tudo explicado! 
Mas se fosse algum do prdio ia descer de madrugada para 
colocar o envelope na portaria? No era mais fcil fazer isso 
num horrio aceitvel e, mais ainda, pr embaixo da nossa 
porta?!
Desta vez ficamos mudos de verdade. Pensvamos no 
quanto aquilo era maravilhoso!
  Ento ser que foi um anjo?...
 S pode ter sido...  retrucou Eduardo.
Incrvel!................ Ali estava a nossa proviso, vinda de 
Jeov Jireh, pelas mos de um anjo! Aquelas experincias eram 
de valor inestimvel, incalculvel... preciosas demais para a 
gente tentar agora expressar em palavras humanas o quanto 
aquilo significava!
 * * * *
Eu queria muito montar uma rvore de Natal. Era o 
nosso primeiro Natal como casados! Certamente no haveria 
presentes, mas no podia faltar uma rvore. Falei para Deus 
sobre o meu desejo, eu tinha feito tantos planos para o nosso 
primeiro Natal. Queria que fosse em casa, e minha famlia 
pudesse vir passar conosco, que eu tivesse condies de fazer 
uma ceia e receber todo mundo. Mas no ia ser assim... ento, 
pelo menos uma rvore!
Sobrou um dinheirinho, no sei nem como, e pudemos 
comprar um pinheiro no Ceasa. Eu queria um pinheiro grande, 
ento escolhemos com todo capricho o que nos pareceu mais 
bonito e que estava ao alcance do nosso bolso.
Convenci Eduardo a ir comigo at a 25 de Maro para 
comprar os enfeitinhos. No havia lugar mais barato e mais 
diversificado para comprar coisas de Natal! Foi uma tarde muito 
agradvel para mim, pude rebuscar em tudo, remexer em tudo, e 
escolher vrios penduricalhos para colocar na rvore.
Acho que Eduardo no estava muito satisfeito com a 
confuso que era a 25 de Maro! Realmente a gente tinha que ir 
at l disposto a andar muito e cavar espao na "ombrada" 
muitas vezes. A despeito disso, eu me diverti! Puxava Eduardo 
pela mo, mostrava as coisas, pedia que ele me ajudasse a 
escolher os mais bonitos! Comprei bolas a preo de banana, e 
vrios outros enfeitinhos. Infelizmente no pude comprar a 
toalha de mesa de Natal. Eu queria uma toalha bem bonita, 
verde e vermelha, com motivos natalinos. Mas no deu.
Mesmo assim voltei para casa radiante, alegre, animada 
para enfeitar a rvore! S a que percebi que no tinha 
comprado as fitas. Ficava feio deixar o fio das bolas 
aparecendo. Ento acabei voltando  25 de Maro sozinha 
apenas para comprar dois ou trs rolos de fitas.
O problema era com o Mambo e o Merengue: eles 
amaram a rvore! Pequenininhos como eram nessa poca, os 
dois adoraram subir nos galhos do pobre pinheiro, arrancavam 
as bolinhas, grudavam no tronco e escalavam a rvore at o 
topo! Quando a gente soltava eles de dentro da cozinha, a 
primeira coisa que faziam era ir brincar na rvore. No 
adiantava esperar que eles obedecessem, gatinhos filhotes tm 
muita energia, e dois ainda por cima... volta e meia eu 
encontrava uma bolinha embaixo da cama ou atrs do sof. Eles 
adoravam brincar com aquilo!
Apesar do meu esforo a rvore no ficou muito bonita, 
eu no sabia fazer aqueles enfeites cheios de rococs, nem dar 
aqueles laos bonitos... e depois o pinheiro comeou a ficar 
torto de tanto os gatos se pendurarem nele. At uma foto ns 
temos com os dois encarapitados no pinheiro...
Mas o importante  que a rvore de Natal estava 
montada! Nosso apartamento ficou com um ar mais simptico.
Apesar de tentar fazer com que aquele clima de final de 
ano inundasse nossa casa, no havia clima de Natal. Nem 
poderia haver! Eu estava bastante preocupada com o que 
haveria de acontecer na passagem do ano. Vivia comentando, 
sempre que possvel, com Dona Clara e com Grace. Elas no 
pareciam muito preocupadas. Dona Clara dizia que aquilo j 
estava cancelado, que aqueles decretos j se tinham tornado sem 
efeito no Reino Espiritual. Grace preferia acreditar que os 
Satanistas estavam mentindo, jogando verde para colher 
maduro.
Mas aquilo no caa no meu corao. Por tudo que j 
tinha visto, por tudo que estava vivendo, dada a seriedade 
daquele momento... no apenas porque se aproximava o 
aniversrio de 33 anos de Eduardo, mas tambm por causa do 
lanamento do livro. E tambm por causa de todas as ameaas 
que estavam sobre mim e que ns tnhamos conhecimento 
atravs de revelao.
O meu ntimo no se convencia com aquela direo. 
Quem me dera elas estivessem certas! Mas meu corao ficava 
mais e mais em estado de alerta  medida que passavam os dias 
de dezembro. Eu s podia pensar numa coisa: eles iriam tentar! 
Eu tinha praticamente certeza de que tentar eles iam!
Ainda perguntei a Dona Clara, inquieta:
 Eu sei que ns j oramos para cancelar... e por tudo 
neste mundo gostaria de crer que no vai acontecer nada... que 
eles no vo nos fazer nada... mas... e se fizerem? E se eles 
tentarem? No acho que tudo vai ficar por isso mesmo, que eles 
se deram ao trabalho de ameaar apenas para fazer uma guerra 
de nervos! Eu tenho pra mim que esto falando srio... eu sei 
que Deus  por ns, que Deus  Poderoso... e esse seria um final 
absurdo para essa histria: eu morrer alguns dias antes da 
publicao do livro. Se isso acontecer, no tem sentido publicar 
nada. E dois meses depois da publicao, se Eduardo morrer, 
tambm fica sem sentido o Filho do Fogo!
 Ento! Deus vai trazer o livramento! Deus j trouxe! 
Suspirei mais uma vez. Mas insisti:
 Queria realmente acreditar que Deus j trouxe... mas 
no sei... alguma coisa vai acontecer. Ns precisamos estar em 
orao!
No havia com quem mais contar. Ns estvamos muito 
isolados na Igreja, agora que a maioria sabia do lanamento do 
livro. No havia uma cobertura do Corpo sobre ns, embora 
muito o desejssemos. Era preciso uma cobertura efetiva da 
Igreja e no apenas de indivduos isolados, mas no estava 
acontecendo assim. No nosso corao havia um desejo muito 
grande de fazer parte do Corpo, de verdade! Mas, pelo que 
parecia, ns ramos a parte leprosa do Corpo.
Isto no era verbalizado claramente, mas a gente sentia.
Estvamos nos levantando para o lanamento daquele 
livro, no entanto a Igreja no iria se levantar conosco. Pequenas 
atitudes falavam muito alto. Na verdade, ningum estava 
preocupado conosco. A preocupao maior estava em saber se a 
Igreja seria retaliada. Por nossa causa.
Eles tinham procurado nos ajudar na medida do possvel, 
tanto  que estvamos vivendo da oferta de quarta-feira, do 
Culto de mulheres. Mas faltava alguma coisa... Dona Clara 
estava recebendo parte daquela presso. Segundo ela, ningum 
ficou ao seu lado, muita gente achava que era perigoso 
continuar nos acompanhando. Apenas seu marido foi a seu 
favor.
As pessoas com quem podamos contar, no final das 
contas, eram mesmo Grace e Dona Clara. Elas foram as 
guerreiras que desceram ao vale de verdade! Parecia pouco. 
Mas Deus no estava preocupado com a quantidade de 
guerreiros ao nosso lado, ele estava mais preocupado com a 
qualidade. E, agora, tambm o Pastor Ubiratan tinha se 
mostrado uma pessoa diferente... afinal, ele tinha dado o selo.
Ento... no adiantava espernear! No adiantava correr 
atrs de ningum, a no ser do Senhor dos Exrcitos! Agora era 
vai ou racha. Em poucos dias saberamos de fato o que ia 
acontecer. Ou no.
Embora no tivesse me dado conta ainda, aquela 
Ministrao que tive com Grace em agosto foi um marco na 
minha vida. Eu ainda no tinha percebido isso, mas a libertao 
daquela gaiola e o incio da Cura Interior de alguma maneira 
estavam me fazendo ver Deus de outra forma. Ainda que eu no 
tivesse percebido de imediato. Aquele processo estava sendo 
importantssimo, realmente foi o comeo de uma coisa nova, de 
uma etapa nova! Sem isso talvez eu no conseguisse passar pelo 
que ia passar em poucos dias.
Agora Deus parecia estar atendendo s minhas oraes 
de outro jeito: eu vi isso quando orei pela febre de Eduardo. 
Tambm em relao ao que falei a respeito dos R$ 10,00 para 
gasolina. Naquele mesmo dia, Deus trouxe os R$ 10,00! Ele 
tambm foi muito amoroso comigo ao me trazer aqueles 
presentes, o que Eduardo pde comprar com R$ 50,00 e os R$ 
100,00 de Sarah, tudo no mesmo dia. Coisas assim aos poucos 
estavam me fazendo diferente.
Apesar de ter visto o sobrenatural de Deus se manifestar 
vrias vezes antes, no tinha tido o mesmo efeito sobre mim. 
Era algo que Deus dava para mim de maneira indireta, numa 
primeira instncia Ele estava tratando com Eduardo. Isso foi to 
macio que me levou queles sentimentos ruins do comeo do 
ano: de que Deus no se importava tanto assim comigo, de que 
Eduardo era o filho preferido, e que no conseguiria continuar 
caminhando sem ter uma experincia sobrenatural pessoal com 
Deus. At ento isso no tinha acontecido, isto , nada tinha 
sido pessoal. Mas aquelas experincias mais recentes, ao 
contrrio! Eram bastante pessoais!
O mais importante de tudo tinha sido a uno com leo 
feita pelo anjo. Veio atravs das mos de Eduardo, mas um anjo 
tinha trazido a uno. Deus havia satisfeito de uma maneira 
indescritvel minha sede, minha necessidade de sobrenatural. 
Ele tinha ouvido minha orao, tinha entendido a frustrao do 
meu corao. Eu tinha pedido um sinal... e Ele tinha me dado! 
Tudo isso aconteceu depois da Ministrao...
Por causa disso agora eu conseguia compreender e 
aceitar melhor o Amor de Deus por mim, o Amor pela Isabela. 
Tinha sido nico, tinha sido uma manifestao do Pai para a 
filha. No qualquer filha, mas a filha Isabela.
Aquilo seria fundamental para mim, fundamental para o 
que teria que enfrentar no final do ano. Eu no teria conseguido 
passar por aquela terrvel prova sem este conhecimento novo de 
Deus.
Ainda que sequer houvesse percebido que o adquirira. 
Demoraria um bom tempo at que eu estivesse plenamente 
curada, porque ainda no estava. Aquele processo de cura era 
sempre muito truncado!
Mas alguma coisa j tinha mudado...
* * * *
Captulo 43
Poucos dias antes do Natal a tosse de Eduardo estava to 
feia que resolvi tomar outra postura. Foi a primeira vez que criei 
coragem para orar em concordncia com ele pela cura. No era 
fcil para mim tomar tal atitude. Depois da experincia ruim que 
tive nessa rea, na poca do meu amigo Renato, nunca mais orei 
neste sentido. Se Deus quisesse me convencer de que Ele 
realmente curava, teria que fazer algo muito especial. Caso 
contrrio, eu havia abdicado de pedir coisas assim. Quer dizer... 
pedir uma cura  pedir uma curai Ou a pessoa fica boa ou no 
fica, no tem outra alternativa, no d para ficar relativizando!
Mas aquela tosse estava me incomodando mais do que a 
Eduardo... uma coisa horrvel, muito incomodativa, muito 
intensa... no dava mais! O que poderia estar acontecendo? 
Seria algo espiritual? Estaria Eduardo ficando doente de 
verdade? Aquela alternativa me punha em estado de puro 
desespero! Eu no conseguiria suportar. Se fosse para algum 
ficar doente, que fosse eu.
Pela manh chamei Eduardo e disse que queria orar por 
ele.
 Vamos pedir a Deus por essa sua tosse?
 Vamos... est incomodando bastante...
Eu olhava para ele compadecida. No suportava v-lo 
mal, aquilo tinha poder incrvel de me deixar pra baixo tambm. 
Embora Eduardo insistisse que estava bem, que ia melhorar, que 
no era nada demais... eu j no podia nem ver e nem ouvir ele 
tossir!
No paramos para ficar conversando muito, o melhor era 
ir direto ao assunto. Ento peguei o leo, orei e ungi Eduardo. 
No foi uma orao muito rebuscada, mas foi sincera, e reuni 
toda a f que possua para faz-la. Era por um bom motivo... 
Deus tinha que nos ouvir! Ele j havia aprovado que estava nos 
ouvindo em todas as circunstncias. Tinha que estar ouvindo 
agora tambm.
Pedi a Deus que inundasse com sangue do Cordeiro e 
Fogo aqueles pulmes. Que visitasse cada clula. Que 
arrancasse toda raiz do mal daquele aparelho respiratrio.
O dia passou.  noite, depois da nossa janta, Eduardo foi 
para o banho. Eu lavei a loua e deitei no sof. Estava com 
aquele assunto na cabea.
  Deus... precisamos conversar. Voc sabe que eu no 
oraria por isso normalmente, Voc conhece minha histria, meu 
passado. Estou me Posicionando... estou me posicionando para 
ser usada! Mas como vou saber se o Senhor quer me usar agora! 
E como  que vai ser se ele no for curado? Como  que eu vou 
ficar? Como vou ter coragem de fazer isso de novo?...
Fui orando neste sentido, desnudando meu corao para 
Deus. Eduardo abriu a porta do banheiro e comecei a sentir o 
perfume de talco e desodorante que vinha de l. Ele comeou a 
falar comigo sobre algum assunto corriqueiro. Eu respondia em 
frases curtas, no meio da minha orao.
 T bom, Nen...  e baixinho:  Se o Senhor no 
resolver a tosse, estou sendo sincera... vou ficar sem entender!
No era uma cobrana, eu no estava querendo coagir 
Deus a me atender. S estava sendo transparente. Mesmo 
porque Ele j sabia mesmo de todas as coisas. Antes que a 
palavra tivesse me chegado  boca, Ele j a conhecia por inteiro.
 Ento, Isabela... que voc acha da gente fazer assim? 
 Eduardo ia entrando na sala, dando continuidade ao assunto.
De repente, estacou na porta. E parou imediatamente de 
falar. Eu continuava deitada no sof embaixo da janela, em 
posio oposta  porta do corredor. Olhei para ele. Estava com 
uma cara esquisita.
 Que foi ?  perguntei.  Nada. No sei...
Continuava com aquela cara esquisita. Por fim, como eu 
perguntasse mais uma vez, ele acabou falando:
 Tem anjos aqui cercando a gente. Mas por qu?
 Porque Deus j disse que nos deu uma guarda...  eu 
ainda estava com os pensamentos na minha orao. Nem parei 
para cogitar por que ele estaria dizendo aquilo.
Eduardo sacudiu a cabea devagar.
 No... tem anjos diferentes dos normais aqui... tem 
anjos diferentes! Por qu? Por que eles esto aqui?
Senti um calor subindo at o meu peito. Me senti 
comovida.
 Eu estava orando... pela sua tosse. Quer dizer, eu 
ainda no tinha pedido a cura... estava s falando com Deus.
 Ento  isso.....ser que so anjos de cura? Ser que 
Deus enviou estes anjos esperando que voc orasse?
 Vamos orar. Vamos orar de novo!
Foi o que fizemos. Orei com toda a minha f, e pedi a 
cura literalmente. Eduardo j tinha tomado uns sete remdios...
Naquela noite ele dormiu bem, melhorou 
espantosamente. Mas dois dias depois, tornou a piorar. Na 
vspera do Natal acabamos comprando mais um xarope. Mas 
no adiantou muito. De qualquer forma, eu no iria dar sossego 
para Deus. Aquilo estava na minha mente e no meu corao 
como um desejo muito forte. Eu precisava ver Eduardo bom!! 
No parecia uma coisa normal... tinha alguma coisa ruim no 
meio daquilo.
Quanto a ele, no sei o que estava pensando. A gente 
no conversava muito sobre isso, era um assunto bem delicado. 
Ou Deus curava... ou no curava! No tinha meio-termo.
No dia 29 de dezembro, teve Culto das mulheres de 
manh. Eu estava muito cansada e com sono, Eduardo tinha 
tossido tanto  noite que ningum pregou olho. No saberia 
dizer quanto estava preocupada, quanto estava inquieta, que 
sensao terrvel eu carregava comigo.
Naquela manh, Eduardo acabou no indo ao Culto. J 
fazia um bom tempo que freqentvamos tambm o Culto das 
mulheres todas as quartas de manh. Quanto mais Palavra, 
quanto mais Louvor, melhor!
Sa de casa inconformada. Fui o caminho inteiro orando 
pela tosse, literalmente brigando com Deus. Brigando no bom 
sentido! J tinha pedido que Deus trouxesse a cura at o final do 
ano. Tinha apenas mais dois dias para o final do ano!
 Por que o Senhor enviou aqueles anjos naquele dia? 
Por qu? Deus, o que o Senhor quer que eu fique pensando? Teu 
filho no pode mais continuar assim... escuta minha orao de 
uma vez por todas, me atende, Senhor!
Na Igreja, aquele ltimo Culto do ano teve um clima 
diferente. Pastor Joel fez uma coisa que no costumava fazer, 
ungiu todo mundo naquele dia. Quando orou por mim, ao me 
ungir, fez uma orao certeira. Pediu que eu fosse curada de 
tudo que ficou distorcido atravs das minhas imagens de 
infncia. E pediu que eu pudesse ver Deus como Deus Pai! 
Pediu a cura da alma, e que eu recebesse o Fogo do Esprito 
Santo.
Depois que acabou, ainda conversei brevemente com 
Dona Clara.
 Estou na expectativa por causa do dia 31... esteja 
orando pela gente, t? Quando cheguei em casa, Eduardo estava 
melhor. Tinha conseguido dormir
toda a manh e estava sem tosse. Eu no falei nada sobre 
minha orao. Ia ficar aguardando em Deus.
No dia seguinte, antevspera da virada do ano, o dia 
comeou bem. A primeira coisa que fizemos foi orar, nos ungir, 
ungir a casa e os bichinhos. Mas de uma coisa nos esquecemos: 
se a data da minha morte era 31 de dezembro, algo teria que 
acontecer na noite do dia 30. No dia 31 j deveria estar morta. 
Mas ns estvamos com aquela data na cabea, e espervamos 
um ataque  se houvesse de fato  apenas para o dia seguinte. 
Esse descuido custou caro.
Samos pouco antes da hora do almoo para ir at o Vale 
da Bno. No boletim da Igreja, havia vrios meses que 
algum anunciavam uma casa no Vale para alugar. Ali havia um 
Condomnio fechado agregado a uma Misso.
Nunca tnhamos dado ateno quilo, mas agora, com a 
iminncia do lanamento de Filho do Fogo, tornava-se cada vez 
mais improvvel que Deus abrisse uma porta de emprego para 
ns. Se no amos trabalhar secularmente, cada vez isso ficava 
mais certo, poderamos morar em qualquer lugar. Inclusive no 
Vale da Bno!
Ta uma coisa que a gente nunca tinha cogitado. De 
repente, bateu a vontade de, pelo menos, conhecer. O 
proprietrio do nosso apartamento j tinha avisado que o aluguel 
ia subir. O condomnio tambm tinha subido. Estava muito 
caro!
Ns estvamos gastando R$ 1.200,00 apenas para morar.
No que fosse um valor muito alto. Quando a gente 
trabalhava, aquilo estava perfeitamente dentro do cabvel. No 
era nada estratosfrico, nada alm da conta. Mas tinha tambm 
o pagamento do carro. Fora o seguro. E todas as outras 
despesas: comida, gasolina, pager, luz... gastos pessoais... isso 
sem contar que nossa casa era uma casa pelada! Era preciso 
mont-la.
Diga-se de passagem que a dvida feita com a grfica era 
bem alta tambm. Portanto, mesmo que o apartamento fosse a 
casa dos nossos sonhos, ia ficar um pouco salgado. E eu estava 
literalmente cheia do barulho do vizinho. Foram muitas as vezes 
em que samos de casa apenas por sair, s para no ter que ficar 
escutando aquele tum-tum-tum. Em duas palavras: a gente 
estava a fim de mudar!
Foi muito gostoso pegar a estrada naquele dia. Estava 
um sol bonito, o caminho era bonito, estvamos bem-
humorados, enfim... estava tudo legal! Fomos conversando, 
dando risada.
Quando chegamos, a casa que tinha sido anunciada j 
estava alugada. Havia mais duas. O senhor que nos atendeu 
falou muito bem do Vale, ele j morava l havia vrios anos. Da 
primeira casa, no gostamos. Mas quando fomos ver a outra:
 Eles esto de mudana  explicou o homem.  Vo 
sair no comeo do ms de janeiro. Semana que vem! J est 
tudo certo. Tanto  que a casa j est para alugar.
Como a gente no tinha agendado visita, ficava chato 
bater na porta e incomodar as pessoas. Olhamos por fora, e 
parecia uma casa maravilhosa. Grande, enorme! Com um 
jardinzo na frente, um quintal enorme que ia at os fundos do 
terreno, com pinheiros e rvores frutferas. De frente para o 
jardim havia um terrao gostoso, os janeles e a porta de vidro 
da frente da casa abriam para o terrao. Tinha tambm uma 
outra porta principal, de madeira, que dava para a garagem. Para 
ns, era uma casa linda!
Ficamos olhando com olhos compridos e nem 
acreditamos no preo do aluguel, mais barato do que o 
apartamento. O condomnio era a ridcula quantia de R$ 20,00. 
Fazia uma boa diferena! E amos viver num lugar muito 
melhor!
Enquanto Eduardo conversava com o senhor, tomando 
informaes prticas sobre o aluguel, documentao, essas 
coisas, eu fiquei do outro lado da rua observando um monte de 
rvores que tinha ali. O terreno em declive era quase como um 
pedao de mata. L embaixo, no meio das rvores, eu podia 
vislumbrar uma casa branca. Mais tarde ficamos sabendo que 
aquela era uma "casinha de orao". Fiquei apenas olhando tudo 
 minha volta, absorvendo a sensao de tranqilidade que me 
causava estar naquele local.
Quando fomos embora, fomos entusiasmados.
 Tudo bem... as ruas no so asfaltadas... mas  tudo 
to bonito!  comecei.
 E mesmo! Mas tem essas colinas ao redor, essa vista 
to linda, as rvores...
at o cheiro  diferente, reparou? Suspirei fundo.
 Quanto a isso no resta dvida.  lindo mesmo! 
Vamos cronometrar quanto tempo leva daqui at a casa da 
minha me?!  ento quis saber a verdadeira impresso dele. 
 Voc viria mesmo morar aqui?  uma super mudana!
  Ah, eu viria, sim! Ns no temos compromissos em 
So Paulo. D perfeitamente para ajeitar a vida.
 . No daria mesmo para ir todo dia, ia ficar puxado, 
gastaria muita gasolina. Mesmo porque tem o pedgio! A gente 
vai gastar menos com aluguel, mas vamos gastar mais com 
gasolina e pedgio.
 Mesmo assim,  vantagem! Voc viu s que casa? 
No vejo a hora de ver por dentro.
 Semana que vem a gente volta. Conforme for... temos 
que estar orando para ter certeza absoluta de que  isso que 
Deus est preparando para a gente! Alis, a gente devia at orar 
j.
Oramos. Colocamos diante de Deus aquele nosso desejo. 
Se Deus confirmasse, ficaramos contentes. Mas se no fosse 
vontade Dele, que fechasse aquela porta de uma vez. Era um 
grande passo, uma grande mudana. No poderamos sequer 
pensar em fazer algo assim sem ter plena certeza da aprovao e 
direo do Senhor.
Mas, por hora, ficamos s comentando as vantagens e 
desvantagens da mudana. A principal vantagem, pelo que me 
parecia, era o espao e o silncio. O homem que nos atendeu 
tinha garantido que ali era um mar de silncio! O barulho 
corriqueiro era o dos passarinhos cantando e, quando muito, 
algum orando alto. Falou muito bem do lugar e das condies 
de vida ali no Vale. Restava o principal: saber a opinio de 
Deus.
Fomos direto para casa de minha me, para almoar. 
Levava 40 minutos da porta do Vale at a porta da casa dela. 
No era nenhum fim de mundo! Do apartamento, dava quase 
vinte minutos.
Quando chegamos, fomos logo contando as novidades. 
Minha me ficou um pouco preocupada:
 Mas vocs vo sair do apartamento? Vocs esto to 
bem instalados! E vo sair de So Paulo? Nunca mais vou ver a 
cara de vocs!
Fomos reiterando todos aqueles questionamentos. Ela 
estava enganada. E quando visse a casa, nos daria razo.
 No  certeza ainda!  explicou Eduardo.  Na 
semana que vem vamos ver a casa por dentro. E tambm temos 
que saber de Deus se  isso mesmo! Por enquanto, estamos s 
cogitando, estamos s dizendo que parece ser uma coisa boa!
 Alm do qu, me livro daquele vizinho infernal, que 
no faz nada da vida a no ser barulho de doidos!
Almoamos, um mais falante do que o outro. E ento... 
uma sombra comeou a descer sobre ns. Estvamos 
completamente esquecidos de qualquer outro assunto, 
estvamos pensando na casa e na mudana.
O problema comeou por causa da Internet. Agora tinha 
Internet na casa da minha me, Marco havia insistido. Havia os 
horrios mais baratos e os horrios mais caros para entrar na 
Rede. Aquele no era um dos horrios mais baratos, de forma 
que teramos que esperar at depois das seis. Pelo menos, minha 
me tinha deixado claro que preferia que a gente usasse o 
horrio mais barato. Eu no queria desobedecer. Mas Eduardo 
estava implicante.
 Vou alugar a Internet no Shopping!
 Mas, Eduardo... nosso dinheiro no est sobrando, 
n? Custa esperar at as seis?
 Seu irmo no est nem a pro horrio, ele usa a hora 
que quer!
 S que isso no  problema nosso. Vamos obedecer! 
A gente pode usar de graa aqui, no  por causa de pouco mais 
de duas horas que voc precisa gastar dinheiro com isso...
Eduardo foi arrogante e orgulhoso.
 Eu no estou precisando desse favor!
 Agora voc diz isso!  eu tambm fui intransigente. 
No estava a fim de gastar dinheiro de forma desnecessria.
Procurei convenc-lo de que a gente podia fazer uma 
horinha no Shopping e usar a Internet mais tarde. Como j 
dissemos vrias vezes, nossas brigas comeavam assim, por um 
motivo completamente tolo. Naquele dia, especialmente naquele 
dia, no haveria de ser diferente...
Samos e de fato fomos at o Shopping. Mas comeamos 
a brigar cada vez mais. No estacionamento do Shopping, nem 
chegamos a descer. No tinha mais clima para nada. Fomos para 
casa, brigando pelo caminho. A briga foi como uma exploso! 
Indescritvel... daquela vez pegou fogo muito rpido, no deu 
nem para saber como aconteceu... no foi como o rastro de 
plvora que vai queimando aos poucos at alcanar o barril 
para, ento, explodir... no foi assim... foi como se a exploso j 
acontecesse de cara!
A partir dali... estava comeando o dia mais terrvel das 
nossas vidas at ento. Na minha ira, arranhei Eduardo. Eu 
estava descontrolada e ele tambm. Quando entramos no 
estacionamento do apartamento ele saiu do carro iradssimo, 
fora de si.
 Voc no merece viver!
Mais tarde, conforme eu iria perceber, ele no teria 
recordao alguma destes momentos. Uma ou duas vezes tinha 
acontecido algo assim. Ele dizia ou fazia alguma coisa da qual 
no se recordava depois. Mas eu ainda no tinha conseguido 
compreender o que aquilo significava. O emocional ficava to 
abalado, que eu acabava no pensando nisso depois. Ele no 
ficava endemoninhado, nem poderia ficar depois de todas as 
Ministraes. Mas parecia haver um controle a distncia (Leia 
Filho do Fogo).
Claro que naquele momento essa era a ltima coisa que 
eu iria pensar.
Eduardo saiu do carro e subiu at o apartamento. Eu 
estava to indignada, to inconformada, que fiquei no carro. 
Dez minutos depois ele voltou. Simplesmente ligou o carro e 
saiu dirigindo que nem um louco. Fomos praticamente mudos 
at nosso destino. Eu no sabia qual era ele at estarmos perto: o 
Shopping!  Eduardo ia ver a Internet de qualquer jeito, pelo 
visto!
Desceu do carro sem falar comigo. Eu estava chocada 
com aquela atitude dele, passada, e agora, ao invs da ira, sentia 
aquela tristeza pesada inundando meu corao. Fiquei no carro 
esperando. Chorei, orei... e j se tinha passado mais de uma hora 
desde que ele tinha entrado.
Quando Eduardo voltou, continuou em silncio na volta 
para casa. Eu tambm continuei em silncio. Pelo visto, aquele 
era s o comeo... o prenncio... e ele no parecia se dar conta, 
no parecia estar nem a! Aquilo me doa na alma de maneira 
indescritvel...
Os grandes momentos de dor da minha vida eu passei 
sozinha. Aquele no haveria de ser diferente. Assim eu sentia.
Quando chegamos outra vez em casa a noite j estava 
caindo apesar do Horrio de Vero. Eram umas sete e meia. Ele 
desceu do carro sem olhar para mim e sem me dar nenhuma 
satisfao. Era tristeza demais no meu corao. Assim que 
desceu, continuei no carro. No tinha a menor inteno de subir 
para o apartamento. Precisava ficar sozinha, precisava orar... 
no queria ficar perto dele!! Para mim estava muito claro que 
no fazia diferena se eu vivesse ou morresse...
Tirei o sapato do p, inclinei um pouco mais o banco de 
passageiros onde estava sentada, e simplesmente me deixei ficar 
ali. O estacionamento era escuro, de forma que ningum poderia 
me ver com facilidade. Nossa vaga ficava num canto, do meu 
lado direito estava a parede, na minha frente tambm havia 
outra parede... e do lado esquerdo do carro havia mais uma 
vaga.
Estava silencioso ali. Naquele momento realmente senti 
vontade de morrer... eu conhecia a dor daquela solido, tinha 
passado por ela vrias vezes ao longo da vida. Mas nunca de 
forma to intensa quanto nos ltimos meses, e especialmente 
naquela hora.
Me senti trada, rejeitada, a ltima das criaturas. Tudo 
em que tinha investido parecia estar ruindo.
"Que mais resta para mim?... Me leva embora desta 
vida, Deus! No consigo fazer bem para ningum, nem para 
mim mesma..."
Orei muito. Desabafei com Deus, orei em lnguas, 
louvei, chorei... pedi por fora, por capacitao... nem sei! Foi 
um tempo em que procurei me acalmar e me fortalecer. O que 
mais me doa, alm das palavras de Eduardo, era o fato de que 
ele tinha me deixado ali embaixo sozinha. Nem veio atrs de 
mim para saber como eu estava, para procurar se acertar, para 
nos colocarmos em ordem para o dia seguinte. Tudo bem... eu 
tambm no fui atrs dele. Tinha muita dificuldade em fazer 
isso...
Mais tarde, eu veria que havia um motivo muito grande 
pelo qual ele no havia descido. Porm, at aquele momento, eu 
apenas conseguia contemplar a minha realidade:
"Ele no se preocupa comigo o suficiente".
Fiquei no carro at cansar. Eu tinha medo de subir e 
continuar a briga. Ento fui ficando por ali. S bem mais tarde  
que encontrei coragem para sair do carro e ir at o elevador. 
Eram dez e vinte. Antes de chegar perto do elevador reparei que 
ele estava ali mesmo, no subsolo. Mas ento algum o chamou, 
vi que subiu at o trreo. Apertei o boto e esperei. At 
estranhei que o elevador no tivesse subido primeiro, porque 
certamente a pessoa estava querendo subir. Mas o elevador 
voltou para o subsolo.
Quando a porta do elevador abriu, Eduardo estava l 
dentro. No entendi. Ele estava com outra roupa, um moletom e 
camiseta regata. Pelo visto tinha sado de casa e estava 
chegando naquele momento. Estava com um ar meio estranho, 
meio ofegante... quando entrei deu umas risadinhas mas no 
falou nada.
O fato de perceber que ele tinha sado acendeu 
novamente a minha raiva. Vai ver tinha ido fazer algum cooper 
para espairecer a cabea.
"Se ele tivesse me avisado que ia sair eu no precisaria 
ter ficado quase trs horas dentro do carro! Se ele no queria ver 
a minha cara, eu tambm no queria ver a dele!"
Quando entramos no apartamento, fui para a cozinha e 
tomei Novalgina, minha cabea estava estourando! Fiquei to 
chateada com a indiferena dele que fechei a porta e voltei para 
o estacionamento.
* * * *
Esperei mais uns quarenta minutos.
A luz acendeu porque algum entrou no estacionamento 
com o carro. Olhei pelo espelho retrovisor e vi algumas pessoas 
que estavam do outro lado descarregando alguns pacotes. De 
repente, Eduardo estava ali ao lado do carro. Ele chegou sem 
que eu percebesse, at levei um susto! Quando olhei para trs, 
ainda de dentro do carro, ele se encostava  parede como se 
passasse mal.
 Eles vo me matar!! Eles vo me matar!! Vo me 
levar pro Inferno!  Eduardo chorava copiosamente, no mais 
completo desespero.
Abri a porta do carro e ele literalmente desabou no cho 
ali ao lado. Desci imediatamente. Foi mais um susto 
indescritvel!
 Eu no tenho fora no meu corpo!  exclamava 
Eduardo em pnico. Eu no sabia o que fazer.
 Eduardo!  eu j estava agachada perto dele.  Que 
aconteceu, Eduardo? Fala! Que que foi?!
Quase entrei em pnico s de ver o estado dele. Ele 
continuava chorando, enrodilhado no cho. Eu o segurei pelo 
brao para tentar levant-lo, tentar ver o rosto dele naquela luz 
mortia do estacionamento. Ele parecia estar muito quente.
 Nen, levanta! Levanta! Vai, pra com isso, ningum 
vai te matar!
Eduardo fez fora para levantar, eu tambm o puxei 
pelos braos com toda fora que tinha. Mas ele no conseguia 
sair do cho. Continuava gritando e chorando do mesmo jeito. 
Fiquei realmente assustada. No fazia idia do que poderia estar 
acontecendo, mas de repente tive uma certeza incontestvel:
"Tenho que levar ele daqui! Tenho que encontrar algum 
que ore conosco!".
Aquilo era certo para mim. No parei nem pra pensar. 
Em momento algum me passou pela mente subir com ele para 
casa, ficar l tentando resolver aquela coisa, fosse l o que fosse 
que estivesse acontecendo. Era muito claro que eu precisava da 
ajuda de algum.
A luz do estacionamento apagou.
Imediatamente segurei Eduardo por baixo das axilas, 
cruzei as mos fortemente sobre seu peito e o arrastei para 
dentro do carro usando a fora do meu prprio corpo. Nem sei 
como fiz aquilo to rpido! Acho que a adrenalina e a sensao 
iminente de perigo faz a gente ficar muito mais forte.
Uma vez tendo arrastado Eduardo para o banco do 
passageiro, eu mesma pulei por cima do cmbio para o banco do 
motorista. Nem dei a volta por fora do carro.
 Meu Deus, meu Deus! Eu vou morreeeeer!  
Eduardo gritava, se debatia completamente em pnico, fora de 
si.
 Se acalma! No vai acontecer isso! No vai acontecer 
nada disso...
No sabia dizer se ele estava me ouvindo, me 
entendendo. Alguma coisa terrvel tinha acontecido!
Dei partida no Palio e sa voando dali. S havia um lugar 
plausvel para ir, nem era muito longe: a casa de Dona Clara! 
Fui orando sem saber o que orava. Com os dois olhos em 
Eduardo e, volta e meia, meio olho no trnsito. Ele no parecia 
ter conscincia de onde estava, ou conscincia da minha 
presena. Continuava naquele transe, naquela histeria, e estava 
muito vermelho, o rosto dele parecia pegar fogo. Ele se 
contorcia e se debatia, s que a comeou a falar coisas 
diferentes.
No era mais Eduardo falando! Entendi de pronto que 
ele estava repetindo as frases do demnio. No houve mudana 
facial, nem mudana de voz. Ele no estava possesso, mas por 
algum motivo aquele demnio podia control-lo a distncia. 
Fiquei horrorizada ao escutar. Nem sei como conseguia dirigir.
 Ah, ah, ah!  muito dinheiro!  muito dinheiro! Ele 
vai aceitar! Ah, ah, ah, ah!
Sabia que no adiantava querer perguntar nada a 
Eduardo. Eu apenas olhava tentando compreender o que estava 
acontecendo e, mais ainda, orava tentando saber o que fazer. 
Naquela agitao toda o brao de Eduardo batia no basto do 
limpador de pra-brisa, e aquilo ligava na minha frente uma vez 
atrs da outra.
No adiantava dizer para ele se acalmar. Adiantava falar 
com Deus. Mas nem isso eu conseguia fazer direito.
 Meu Deus, que est acontecendo? Nos protege, nos 
protege... no deixa acontecer nada de mal com ele!  eram 
frases entrecortadas.
Depois continuava orando em lnguas, porque minha 
mente no conseguia raciocinar. Para orar em lnguas eu no 
precisava raciocinar.
 Eu respondi o e-mail!  gritava Eduardo.   muito 
dinheiro!  muito dinheiro!
Meus pensamentos davam voltas sobre voltas, eu 
procurava captar o sentido daquilo tudo, mas em vo. Uma 
sensao incrivelmente ruim me invadia.
 Eu conheo ele! Ah, ah, ah! Ele vai aceitar, vai 
aceitar!
Aquilo era para me intimidar. De repente senti sangue 
subindo  cabea.
 Voc no conhece ele coisa nenhuma, ele  filho do 
Deus Vivo! E Jesus se manifestou pra isso, para destruir as tuas 
obras. Quem vai arder no lago de fogo e enxofre  voc!  foi 
uma das poucas coisas que me liguei e respondi quele 
demnio. No parecia ser importante perder tempo com isso. O 
mais importante era me manter em orao e conseguir chegar na 
casa de Dona Clara.
 Eu afastei os intercessores! Acabei com eles! No 
tem nenhum intercessor para ajudar, ah, ah, ah,ah! Voc  nossa 
amiga! Nossa aliada!
Meu corao deu um n de desespero e angstia. 
Aquelas palavras eram facas afiadas, especialmente depois da 
confuso. Continuei dirigindo sem responder, orando com todas 
as minhas foras, desligando toda hora o limpador de pra-
brisas e olhando para Eduardo aterrorizada.
"Ele no est bem... ele no est bem, meu Deus... no 
deixa acontecer nada com ele, no deixa isso acontecer... no 
deixa... nos ajuda!..."
E alto, ia falando o que me vinha na cabea:
 Cobre ele com o Teu sangue, Jesus! Estende a 
proteo ao redor dele!
A, de repente, percebi que era Eduardo novamente. 
Ento ele chorava, chorava a plenos pulmes, compulsivamente, 
em desespero. Era bem diferente do tom debochado do 
demnio!
 Eles esto querendo me matar! Vo me levar para o 
Inferno!
No entendia aquilo. A inteno inicial era matar-me, 
Eduardo deveria morrer depois. Umas duas vezes aquele 
demnio falou algo neste sentido:
 Ns no queremos mais ela! Vamos levar ele!
Parei o carro diante da casa de Dona Clara. Mas 
realmente o terreno tinha sido muito bem preparado. Desci do 
carro sem sapato. No havia tempo para coloc-lo. Toquei a 
campainha e a me dela atendeu. Procurei parecer o mais 
normal possvel, mas a primeira coisa que ela notou foi que eu 
estava descala, em plena calada.
 A Dona Clara est?
 Humm... no est...  ela falou enquanto olhava para 
mim com ar de estranheza.
Vez por outra desviava o olhar para Eduardo que, 
deitado no banco de passageiros, continuava falando bobagem 
sobre bobagem.
  que eu precisava muito falar com ela... eu 
realmente... ela demora?
 Ela foi at o Pronto-socorro porque a Sophia passou 
mal. Acho que vai voltar tarde!
 Ento t bom...  olhei ao redor completamente 
desalentada. O que deveria fazer?  Quando ela voltar, pede 
pra estar orando por ns. Se ela ligar, pede pra ela orar!
 Vocs esto com algum problema?
 ... mais ou menos... pede pra ela estar orando.
Sophia era irm de Dona Clara. Despedi-me 
rapidamente e voltei para o volante. Dei meia-volta com o carro 
para tornar a subir a rua. S havia um outro lugar possvel para 
ir. A casa da Grace. Nem sabia se ela estava l ou no, mas eu 
tinha que encontrar algum que pudesse nos ajudar, que pudesse 
orar em concordncia conosco. No meu ntimo tinha 
conscincia de que apenas minha orao no seria forte o 
suficiente para resistir quele levante horroroso.
Duas quadras mais acima resolvi parar o carro no 
acostamento, e orar um pouco antes de prosseguir. Orar com 
Eduardo, claro, de uma maneira mais intensa, mais enftica. 
Tinha que oferecer resistncia de alguma maneira, tinha que pr 
minha cabea no lugar. Estava realmente assustada. A aparncia 
dele era horrvel!
O banco de passageiros ainda estava inclinado, como eu 
tinha deixado. Ento me inclinei sobre ele, fui orando bem perto 
do seu rosto, do seu ouvido. No sei dizer direito como orei. Fui 
vomitando a ansiedade do meu corao:
 Cobre ele com o Teu sangue, no deixa acontecer 
nada de ruim com ele, cerca esse carro com os anjos, cerca com 
Tua proteo de Fogo. Nos ajuda! Cobre este corpo com Tua 
proteo...  passava a mo pela cabea de Eduardo, pelo 
trax, pelos braos e pernas.  Cobre este corpo, meu Deus! 
Protege este corpo! Senhor, eu no tenho leo aqui, mas manda 
o Teu leo, manda os Teus anjos, manda aqueles anjos fortes, 
me ajuda!  e para Eduardo.  Nen! Voc est me ouvindo?
 H?
 Eu amo voc, meu amor... eu te amo... voc vai ficar 
bem!
Ento Eduardo comeou a olhar pela janela, para fora do 
carro. E balbuciava:
 Eu t vendo o meu amigo...  chorava de fazer d. 
 O meu amigo est ali! Estendeu o brao para fora da janela. 
Eu olhava para fora mas sabia que no veria nada.
 Segura na minha mo!...  pediu Eduardo.  ....Ele 
segurou!... Mikhael  teu nome...
Aquilo me fez sentir mais tranqila. Minha orao 
deveria estar surtindo efeito. Certamente Eduardo no estava 
dando a mo para o demnio. Era ele quem falava agora e ele, 
por ele mesmo, jamais faria isso. Sabia muito bem que o 
demnio queria mat-lo. Deveria ser um anjo!
 Repete comigo, Eduardo... "Jesus, me salva!"
 Jesus... me... salva...  repetia Eduardo com voz 
mole, fraca.
 Me cobre com o Teu sangue e me protege.
 Me cobre... com...Teu... sangue...
Da casa da frente saiu um rapaz. Mesmo sem querer, ele 
viu a cena e percebeu que Eduardo estava esquisito. Continuava 
falando alto vez por outra, e se agitava um pouco. O moo 
aproximou-se ligeiramente da janela e me perguntou:
 T tudo bem? Voc est precisando de ajuda?
Meu rosto devia estar de dar medo. Eu me sentia 
apavorada. Mas no perdi o controle, respondi meio sem pensar.
 No, obrigada. Est tudo bem!
Ele assentiu com a cabea e continuou seu caminho. 
Achei que no seria prudente continuar ali parada. Tinha que 
seguir adiante. Mas fiquei meio encafifada... quando cheguei 
perto de Eduardo tinha sentido um leve cheiro de bebida.
"Ser possvel que ele bebeu? Mas bebeu o qu? Bebeu 
aonde?!"
Nenhuma daquelas perguntas teria resposta agora. No 
entanto, apesar daquele cheiro, Eduardo no estava 
apresentando as caractersticas de algum que estivesse bbado. 
Era uma crise totalmente anormal, uma coisa totalmente fora de 
propores e padro. Eu no conseguia entender tambm por 
que o seu corpo parecia estar fervendo. Muito menos se tinha 
algum fundo de verdade aquela coisa de dinheiro que toda hora 
ele repetia.
Muito preocupada acelerei o carro e me determinei a ir 
at a casa de Grace. Alguma hora, em algum lugar, eu iria 
encontrar algum. Nem me passava pela cabea levar Eduardo 
para o Hospital. Talvez tivesse sido uma boa opo, quando 
passei perto dele ainda cogitei se deveria entrar no pronto-
socorro. Mas no senti paz. Por mais que o corpo dele estivesse 
sofrendo algum mal, e isso era claro, o mal maior era espiritual. 
Eu queria por toda lei algum para orar em concordncia.
Conforme fui dirigindo, Eduardo perguntava toda hora, 
confuso:
 Onde voc est indo? Onde voc est indo? Vamos 
voltar pra casa!
 Estou indo at a casa da Grace.
 No! No vamos at l!  ele retorquia com 
veemncia.
Eduardo no estava em condies de decidir nada. No 
compreendi o por que daquela relutncia. Ser possvel que era 
o demnio ainda falando, e Eduardo repetindo? Ser que era 
uma armadilha para me desviar do caminho?
Sem ligar muito para ele, continuei dirigindo no mesmo 
rumo. At errei o caminho, to preocupada estava em olhar para 
ele!
 Pra l! Nossa casa est pra l! Pra l! e jogava o 
brao na minha frente, apontando com um movimento amplo.
 Primeiro a gente vai na casa da Grace! Ns vamos 
orar com ela.
 Vamos para casa, vamos para casa!
Eduardo insistia tanto que fiz o contorno para ir mesmo 
para casa. Mas parei o carro de novo na calada.
 Meu Deus, me ajuda! Me d uma luz! O que devo 
fazer?...  me sentia completamente dividida. No podia perder 
o controle da situao. Continuava orando em lnguas, baixinho. 
 O que devo fazer?
  muito dinheiro! Ele vai aceitar! Vai responder o e-
mail! Ah, ah, ah, ah! Eu acabei com os intercessores! Eu acabei 
com a Grace!
Eu no entendia mais nada. Quem estava me dizendo 
para ir pra casa? Eduardo ou aquele demnio? Que dvida 
terrvel... no sei como no abri a boca ali mesmo! Por fim, me 
decidi, embora no sentisse nem captasse nenhum sinal 
sobrenatural.
Sa novamente com o carro em direo  casa de Grace. 
Ignorei o que Eduardo dizia. No podia levar aquilo em 
considerao.
 Volta, volta, volta!
Atravessei a avenida Doutor Arnaldo e peguei a Paulista. 
De repente, Eduardo estava muito quieto. Foi a primeira vez em 
que quase tive certeza que ele ia morrer ali na minha frente! A 
cabea balanava de um lado pro outro, os olhos semi-cerrados, 
o rosto pegando fogo, a boca entreaberta.
 Eduardo! Eduardo?  senti uma onda de horror me 
percorrer.  Eduardo! Voc est me ouvindo?
Ento ele parecia acordar daquele torpor, vir de muito 
longe. Procurava olhar na minha direo, mas eu no tinha 
certeza de que ele me enxergava. Seus olhos estavam distantes e 
sem brilho.
 Eu estou vendo o tnel.... estou vendo o caminho!
Alguma coisa me dizia que aquilo no era nada bom. 
Procurei no pensar. Apenas continuar orando, sem saber o que 
orava, e vencer aquele trnsito que no estava dos melhores por 
causa do fim de ano. Ficava parada nos faris a toda hora.
Volta e meia eu tinha aquela ntida impresso de que 
Eduardo ia morrer. Sacudia-o pelos ombros, chamava, chamava, 
orava, dirigia. Agora aquela agitao tinha passado. Ele parecia 
cada vez mais quieto, mais distante. Mas ainda falava vez por 
outra:
 Mikhael est dizendo pra voltar... est dizendo para 
voltar!!
Mas a voltava a repetir as palavras do demnio, e eu 
no sabia quem era quem!
 Eu acabei com os intercessores! Voc no vai 
encontrar ningum!
No sabia se aquele demnio estava usando o nome do 
anjo para me fazer voltar, ou se realmente Eduardo estava 
repetindo certo, tanto as palavras do anjo quanto as do demnio. 
Que luta terrvel passei naqueles momentos! Deus no me trazia 
nenhum vislumbre sobre qual daquelas vozes era a verdadeira. 
Se a de 
Eduardo, se a do anjo... se a do demnio. Onde estava a 
verdade naquilo tudo?!
Como no conseguisse saber, continuava indo em frente, 
fazendo aquilo que achava melhor. Durante a orao parecia 
claro que um anjo tinha aparecido para Eduardo, tinha segurado 
em sua mo e dito seu nome. Mas ser que agora o demnio no 
estava enganando ele, para me enganar? Naquele tempo que eu 
estava perdendo, eles ganhavam terreno... Eduardo poderia 
realmente morrer a qualquer instante!
Mas o que me fez voltar atrs foi quando Eduardo falou 
exatamente aquilo que eu pressentia. No sei se por ele mesmo, 
ou se repetindo o que o anjo dizia.
 Se voc for... ele no vai resistir. Ele no vai chegar 
vivo l.
Em extrema angstia de alma, optei por dar meia-volta. 
Mas eu no tinha certeza de que era isso que deveria fazer. J 
estava praticamente no meio da Paulista.
 T bom... vou voltar!
Assim que virei  direita para conseguir fazer o contorno 
e cruzar a Avenida para o outro lado, Eduardo falou num fio de 
voz:
 Voc fez a coisa certa...
Tive que acreditar que aquela voz era do anjo. Fiquei 
parada no farol ao lado do Banco de Boston, todo enfeitado com 
temas natalinos. O carro do lado buzinava, cheio de gente 
dentro. Novamente um arrepio de horror me passou pelo corpo. 
Nem queria imaginar se algum guarda me parasse! Aquele farol 
no abria...
 Meu Deus... ser que devo mesmo voltar? Me d um 
sinal! Me d um sinal! Sinal claro no veio nenhum. Cruzei a 
Avenida e comecei a voltar. Novamente
Eduardo ficou quieto e longnquo. No respondeu aos 
meus chamados. Estava completamente parado, com os olhos 
esbugalhados. O terror me traspassou como um raio: ele estava 
morto!
 Eduardo!!  chacoalhei seu ombro.
 H?...
 Agenta firme! Agenta Firme! Repete comigo: 
afasta meus inimigos! Pede pra Jesus, Eduardo, pede pra Jesus!
 Afasta... meus inimigos!
Mais de uma vez eu pedi para Eduardo repetir algumas 
coisas neste sentido. Mas aquela sensao de morte iminente 
no atenuava! O tempo todo eu orava naquela volta: que Deus 
mantivesse nossos inimigos afastados.
 Estou vendo os Sadraques.... um monte! Um monte!!  
No quero morrer... agora no! Tem muita coisa para eu fazer 
aqui!
Continuei orando baixinho pedindo que Deus os 
mantivesse afastados. Com todo o meu esforo tentei no me 
influenciar. A volta foi to terrvel quanto a ida.
 Segura na minha mo!  voltou a pedir Eduardo, 
com o brao estendido para fora da janela. Nessa brincadeira 
toda j havia gastado mais de uma hora. Novamente pensei em 
lev-lo para o Hospital. Se acontecesse alguma coisa de pior, se 
tivesse uma parada cardaca ou qualquer outra coisa, o Hospital 
tinha como mant-lo vivo....
Mas sacudi a cabea! No podia... no podia ir para o 
Hospital! Seria o fim dele, tinha certeza. Uma vez l, no teria 
poder para interferir em mais nada.
 Deus est dando uma casa linda...  falava Eduardo 
entre lgrimas. Nessa altura ele j estava cado para a frente, 
meio no meu colo. Eu o abraava por trs o tempo todo, orando 
em lnguas sem cessar, dirigindo somente com a mo esquerda e 
sem sapatos.
 Eu vou morrer.... estou vendo o tnel! Eu no quero 
morrer! No agora! No agora... ainda tem muita coisa para eu 
fazer aqui!
 Voc no vai morrer!
Eduardo repetiu isso vrias vezes durante o trajeto. Parei 
o carro mais uma vez. Tentei acomod-lo melhor para poder 
dirigir mais rpido. Eu falava, num frenesi:
 Deus  um Deus de Fidelidade! Ele  Fiel, Ele  Fiel, 
no vai acontecer nada! No pode acontecer nada! No vai 
acontecer nada!
Quando passamos novamente perto da nossa casa, 
Eduardo voltou a pedir insistentemente:
 Vamos para casa! Vamos para casa!
Aquilo eu tinha certeza: em hiptese alguma! Voltaria 
para casa de Dona Clara. A sensao de precisar de mais 
algum era indiscutvel. Nem liguei para ele, acelerei o carro 
mais ainda, com determinao. Nem que tivesse que ficar 
parada na frente da casa dela, mas no ficaria sozinha com 
Eduardo naquele estado. Precisava de ajuda!
 Tem um e-mail, tem um e-mail!   muito dinheiro!...
Estacionei novamente o carro na frente da casa de Dona 
Clara. Dessa vez peguei meus sapatos e enfiei de qualquer jeito 
no p. Saltei para a rua e toquei a campainha. Novamente a me 
dela veio. Eu estava bem mais desesperada do que da primeira 
vez.
 Dona Clara no chegou? No tem um telefone onde 
eu possa falar com ela?
 No tem.
 Ento... no tem ningum para quem eu possa ligar? 
Preciso pedir orao para algum!
 S se for a cunhada dela... quer usar o telefone?
 Cad o telefone?
Eu no queria entrar. No podia deixar Eduardo ali 
sozinho, minha sensao  que se virasse as costas, ele morreria.
  sem fio. Espera um pouco.
Esperei ali mesmo na calada, andando de um lado pro 
outro. Logo a me de Dona Clara apareceu de novo, mas nem 
consegui escutar o que ela estava falado, de repente olhei para 
Eduardo e foi medonho: ele estava com a cabea encostada no 
banco, virou os olhos para mim, lentamente. Os olhos dele se 
tornaram estranhos, mais estranhos ainda. Parecia vtreo... 
parecia... parecia o olhar de algum  beira da morte ! Imaginei 
que aquele era o momento...
Corri at a janela do carro, sacudi seus ombros. Ele 
estava mole, e seu corpo pegava fogo.
 Eduardo! Eduardo! Oh! Senhor Deus... pelo Amor de 
Deus, intervm! Nos ajuda!
 H...?
Olhei de volta para a me de Dona Clara que, parada no 
porto, espiava com olhos arregalados. Um menino saiu de 
dentro da casa, no sei quem era aquele menino, mas ele me 
passou o telefone da cunhada de Dona Clara. Teve a gentileza 
de discar para mim, no sei se teria conseguido. Os dois ficaram 
ali, e mais duas pessoas curiosas que saram da casa vizinha. Eu 
estava em pnico, nem liguei para eles, todos ficaram por ali.
 Al!
 Al.
  a Malu?
 Sim.
 Malu, pelo amor de Deus, ora comigo agora porque 
seno vai acontecer uma tragdia!
 Quem est falando?
  Isabela! Por favor, ora comigo!
Novamente tive aquela medonha sensao de morte. 
Esqueci que estava ao telefone e comecei a cham-lo 
insistentemente, quase gritando:
 Eduardo! Eduardo, fala comigo! Resiste, resiste, 
resiste! Pelo amor de Deus! Ela orou um pouco do outro lado. E 
logo pediu que Eduardo repetisse sua orao. Mas Eduardo no 
conseguia repetir, e eu j no conseguia prestar ateno a nada. 
Novamente aquele olhar horrvel, no parecia que ele ia resistir 
por muito mais tempo. Desliguei. Ela no estava colaborando 
muito. Ela no era a pessoa certa!
Eu estava dando um show na frente daquelas quatro 
pessoas, mas nem me importei. Elas pareciam nem existir! 
Pensei em ligar para outra pessoa. Toquei para Grace, mas o 
telefone s dava ocupado.
 Eu matei ela!  balbuciou Eduardo novamente. 
Entendi que ainda era aquele demnio tentando me intimidar, se 
referindo a Grace.  Voc no vai achar ningum!
Por alguns segundos aquilo me incomodou. Ele repetia 
tanto aquilo que me passou pela mente, num  flash, se alguma 
catstrofe realmente no teria acontecido. Mas me recusei a 
acreditar naquelas palavras!
"No  possvel!  mentira!"
Em desespero de causa liguei para minha prpria casa, 
no era o ideal, mas ia pedir para Marco orar comigo. Mas o 
telefone tambm dava ocupado, certamente ele estava na 
Internet. Ento liguei para Grace de novo. Nada. Secretria 
eletrnica. Deixei um recado desesperado.
 Grace, dia 30, quase meia-noite! Se voc vir este 
recado, ora pela gente! J no sabia o que fazer. A quem 
recorrer. Por algum motivo, em cinco minutos liguei de novo 
para Grace. Minha alma parece que renasceu quando finalmente 
ela atendeu ao telefone! Quase gritei na rua.
 Grace!  voc?! Ora com ele, Grace!
 O que est acontecendo?  ela estava at que calma, 
para quem estava escutando minha voz naquele tom,  meia-
noite...
 Ora com ele, ora com ele... no sei o que est 
acontecendo! Ele est fora de si! Vou pr ele no telefone!
Acho que nem esperei resposta. Simplesmente pus o 
telefone no ouvido de Eduardo, apertei-o bem para que ele 
pudesse ouvir, e disse-lhe para falar com Grace.
  a Grace, Eduardo. Fala com ela.
A voz dele no saa, praticamente no existia. Ele at 
tentou falar, tentou se aprumar no banco, mas sem sucesso. Eu 
mantinha meu ouvido bem perto do telefone para tentar escutar 
o que ela dizia. Ela foi direto aos finalmente, percebeu que algo 
muito estranho estava acontecendo e simplesmente fez Eduardo 
repetir sua orao. Eu orava sofregamente do lado. Agora 
estvamos em duas! Aquilo que eu sentia, a necessidade da 
orao em concordncia, era certo! Deu fora a Eduardo porque 
conseguimos exercer uma resistncia mais eficaz! Fez 
diferena!
Por incrvel que parea, ele conseguiu. Confessou Jesus 
como Senhor e depois pediu o cancelamento de todas as obras 
do Inferno, todo Encantamento, toda maldio, etc. etc. e etc. ...
No foi uma orao longa. Algumas frases. Mas de 
impacto, especficas. Enfraqueceu a influncia daquele demnio 
que, j havia horas, estava praticamente dominando a situao.
Quando terminou, peguei o telefone de volta.
 Grace, estou indo para a!
Antes que ela pudesse responder qualquer coisa, vi o 
carro de seu Benito encostando.
  Dona Clara! Dona Clara est chegando!  gritei 
pelo telefone.
 Ento recebe assistncia dela. Se for o caso, depois 
voc vem pra c.
 T bom, t bom! Vou desligar.
****
Captulo  44
De repente as coisas pareciam estar acontecendo. Corri 
para perto de Dona Clara. De dentro do carro ela j tinha 
percebido a confuso na porta de sua casa. Desceu com 
semblante assustado, veio ao meu encontro.
 Dona Clara! Vem orar comigo!
Ela viu meu rosto e meu estado. Aproximou-se 
rapidamente da janela do carro. Dispensava explicaes. Ao 
olhar para Eduardo, falou em tom de voz pesaroso.
 Ah, meu Deus.... mas o que est acontecendo?!
 Eu no sei que est acontecendo,! S sei que ele est 
assim.
 Quero ir no banheiro!  exclamou Eduardo. E 
insistia demais nisso.
 Vamos levar ele ao banheiro, ento.
Abri a porta do carro e passei os braos em torno de 
Eduardo para ajud-lo a levantar. S nessa hora percebi que ele 
tambm estava sem sapatos. No conseguia ficar em p, ento 
eu e Dona Clara literalmente o arrastamos para dentro de casa. 
Nem sei como, pois ele tropeava em tudo, no conseguia 
manter o equilbrio do corpo. Finalmente, pela graa de Deus, 
eu estava com ele dentro do banheiro, em frente ao vaso.
Dona Clara saiu e eu fiz de tudo para ajud-lo. Mas o 
mximo que consegui foi sustentar o seu corpo enquanto ele 
fazia xixi. Eduardo era pesado, e eu j estava sentindo os efeitos 
da exausto. Que horror! Mas o que eu podia fazer?
Quando ele acabou, gritei pela porta entreaberta. Acho 
que foi a filha de Dona Clara que apareceu, e carregamos 
Eduardo para o carro novamente. No vi seu Benito, nem me 
lembro se vi a Sophia, mas a filha estava ali, com a av, aquele 
menino... todos olhavam com ar estranho, entre compadecidos e 
assustados.
No me lembro se agradeci ou se me desculpei. Estava 
fora da minha razo. S pensava em uma coisa: ir at a casa de 
Grace! Dona Clara j estava dentro do carro. Parecia muito 
bvio tambm para ela que no podamos ficar ali. Com esforo 
acomodei Eduardo novamente no banco de passageiros e fechei 
a porta.
 O cinto de segurana!  lembrou Dona Clara. Eu 
no o tinha usado at aquele momento, nem em mim, nem em 
Eduardo.  Adriana! Pega uma toalha!
Abri a porta, coloquei o cinto, dei a volta, sentei no 
banco do motorista...
 Cad a chave?  A chave?
 Meu Deus! Onde foi parar esta chave?
Procurei no cho do carro, Dona Clara olhava no banco 
de trs. Adriana estava chegando com a toalha, mas correu para 
dentro de casa de novo, para ver se a chave tinha ficado no 
banheiro. Desci novamente do carro, em desespero com todo 
aquele atraso.
 Achou a chave?  indaguei para a moa que voltava.
 No est no banheiro!
 Meu Deus do cu!!! Cad essa chave?!
Dona Clara desceu do carro e todo mundo se ps  
procura daquela chave.
Comecei a me sentir esgotada. De repente, por um 
milagre, me lembrei de olhar
na fresta ao lado do banco de Eduardo. Abri a porta dele 
mais uma vez e... graas a Deus! Eu devia ter deixado a chave 
cair ali quando ajudei a retir-lo do carro.
Pensando hoje, no tem lgica! Quando desci do carro, 
deixei a chave no contato.
Eu no estava com ela nas mos enquanto fiquei ao 
telefone.
 Achei!
Era isso que importava.
Entramos novamente no carro e dei a partida. Tentei 
explicar a Dona Clara mais ou menos o que tinha acontecido, 
mas eu no sabia o que tinha acontecido. Ento contei da briga, 
contei que de repente ele tinha aparecido daquele jeito. Minha 
voz saa ofegante e entrecortada. Mas a presena dela ali no 
carro me acalmou. Depois de orar com Grace, Eduardo no 
parecia mais estar naquela iminncia de morte. Ele apenas 
chorava, seus olhos j estavam inchados, e continuava muito 
quente. Chorava, chorava. Estava mole, derrubado, torporoso. 
Mal conseguia abrir os olhos. Dona Clara no gastou mais 
tempo tentando entender a histria. Interessava dali para a 
frente.
Foi orando em lnguas, baixo, depois em portugus... eu 
dirigia orando junto. Pelo menos ele no estava mais naquele 
estado de agitao.
Quase no conversamos durante o trajeto. O silncio era 
quebrado apenas pelas nossas oraes, em tom baixo. O fato de 
Dona Clara dividir comigo a responsabilidade de levar Eduardo 
at a casa da Grace trouxe um indescritvel alvio! Eu j estava 
fraquejando depois daquelas horas de tenso absoluta e 
angstia.
A nica vez que Eduardo repetiu a frase daquele 
demnio durante o caminho, foi naquele momento:
 Eu vou levar ele...
Dona Clara tomou o frasquinho de leo que trazia 
consigo e colocou a mo espalmada na testa de Eduardo. E 
falou bem baixo:
 Voc no vai levar nada, em nome de Jesus...
 O Capito dos Exrcitos! O Capito dos Exrcitos 
est ali...  fez Eduardo depois de uma pequena pausa. E 
chorava mais.
Voei com o carro. Queria chegar o quanto antes. A 
maioria dos faris que Pude furar, assim fiz. Toda hora eu 
tomava o pulso de Eduardo para medir a freqncia cardaca.
Quando estacionei em frente  casa de Grace era uma 
hora da manh. Saltei para a rua, sentia meu corpo inteiro 
banhado em suor. Toquei a campainha varias vezes, at rachar 
Finalmente, a luz acendeu na sala. Grace apareceu na porta de 
penhoir. Ela no estava esperando que a gente realmente viesse. 
Muito menos com Dona Clara! Ela veio me abrir o porto da 
rua, no havia ningum ali quela  hora.
Falou com voz de espanto:
 No imaginei que vocs estavam vindo! Que 
aconteceu?
Dona Clara j tinha descido, eu abri a porta do lado de 
Eduardo. Ns duas Dona Clara e eu, fizemos o possvel para 
que Eduardo apeasse. Nossa fora no foi suficiente, e ele caiu, 
apesar dos nossos esforos em segur-lo. Quase bateu com a 
cabea no cho. Ento ns trs conseguimos ergu-lo. Fomos 
caminhando para dentro. Ainda na rea externa da casa, 
Eduardo tropeou de novo e caiu estirado ao lado do carro da 
Grace. Parecia completamente perdido.
 Eduardo! Levanta! Levanta!  exclamou Grace com 
firmeza. Finalmente entramos sala adentro, e o colocamos na 
poltrona mais prxima.
Eu nem me sentei. A tranqilidade de saber que Eduardo 
estava com elas me fez ter coragem para sair de perto dele.
 Antes de qualquer outra coisa, vou at  farmcia! s 
vezes quando chego perto dele sinto cheiro de bebida... no sei 
se ele bebeu, mas vou comprar uma glicose. Pode ser que ajude. 
Pelo sim, pelo no... onde tem uma farmcia?
Grace me acompanhou at a rua e explicou. Lembrei que 
no tinha dinheiro comigo. Alis, Eduardo estava sem 
documentos, eu estava sem documentos. Ento Dona Clara me 
emprestou.
S tinha uma farmcia aberta naquela hora, ficava na 
avenida l em cima. Peguei o carro e fui correndo. Por um lado 
eu me sentia melhor porque Eduardo estava bem guardado, em 
companhia de pessoas de confiana. Por outro lado...
"De repente Deus permitiu que eu sasse de perto apenas 
para que eu no veja Eduardo morrer... s para no ficar com 
essa lembrana na minha cabea."
Aquela sensao me perseguia, ento fiz tudo aos 
trancos e barrancos. Eu no era to leiga assim, j tinha visto 
pessoas morrendo. J tinha visto os olhos das pessoas que esto 
morrendo. E j tinha visto muitas pessoas alcoolizadas tambm. 
De uma coisa tinha certeza: ainda que Eduardo tivesse bebido, o 
problema principal no era aquele.
Literalmente voando, fui at  farmcia tremendo, 
orando, sentindo meu corpo derreter de tenso, desespero e 
calor. Parei o carro na frente da farmcia e nem desliguei.
No vendiam glicose injetvel ali! Perguntei onde tinha. 
Disseram-me que na Drogasil, algumas quadras mais para 
frente. Fui at l. Comprei a glicose injetvel e a seringa. Cada 
vez mais apreensiva, aproveitei o horrio avanado e invadi a 
contramo. No queria perder tempo tendo que cruzar a avenida 
e esperar os faris. Fui fazendo contramo por dentro, e quando 
percebi que estava na rua da Grace, desci na contramo, de r! 
Eram bem umas oito quadras, talvez... no meu desespero, nem 
fui com o carro embicado de frente, sei l por que... s sei que 
desci a rua de r.
Estacionei o carro de novo, de qualquer jeito, na frente 
da casa da Grace. Toquei a campainha. Quando ela apareceu 
com a chave na mo, olhei diretamente para seu rosto j 
esperando ouvir a notcia pior.
 Como ele est?  indaguei ansiosamente.
 Est bem... mas ele bebeu, viu, irm? Ele bebeu... ele 
falou aqui! Falou que bebeu pinga na padaria!
Quase ca das nuvens.
 Mas ele no bebe pinga! Ele nunca bebeu isso!
A despeito disso tive que aceitar uma parte daquela 
histria como verdadeira, porque eu tinha percebido que 
Eduardo havia sado de casa. Deus permitiu que eu cruzasse 
com ele no elevador naquele exato instante, se assim no fosse, 
nunca teria constatado a sua sada. E aquela sada estava mal 
explicada... no fundo do meu corao, senti medo... e se ele 
tivesse cruzado com algum! No seria muito difcil...
Entrei em casa ao lado de Grace, e procurei no pensar 
naquilo de imediato. Olhei para Eduardo que estava meio 
sentado, meio deitado na poltrona, com a cabea apoiada no 
espaldar. Fui lavar as mos rapidamente para preparar a injeo 
de glicose.
As veias de Eduardo eram muito boas e eu estava 
acostumada com elas. Mas minhas mos tremiam e errei a 
primeira picada. Na segunda, acertei. Enquanto eu injetava, 
Dona Clara e Grace oraram abenoando aquele lquido. Nem 
bem terminei e tirei a agulha, Eduardo inclinou o corpo para a 
frente e vomitou violentamente aos meus ps, sujando o tapete 
de Grace e a poltrona. Um cheiro horrvel invadiu o ar! Sem 
dvida, aquilo era coisa de bebida!
 Pe tudo para fora mesmo!  fez Grace.
Ela ainda tentou colocar um baldinho que tinha ficado 
esquecido ali, certamente resqucio de uma Ministrao, mas 
no deu tempo. Ele vomitou vrias vezes no cho. Grace correu 
para dentro a fim de buscar algo para limpar a sujeira. A 
faxineira tinha vindo naquele dia para preparar a casa para a 
virada do ano! Eu no sabia onde enfiar a cara. Estava j to 
esgotada que no conseguia parar em p.
Grace apareceu com um balde e um pano. Comeamos a 
limpar aquela sujeira toda. Eu nem me preocupava com o pano, 
limpava com a mo mesmo a sujeira que tinha ficado enfiada 
nas franjinhas do tapete. Suando em bicas, minha boca parecia 
estar grudada de sede, pegando, dificultando a deglutio.
Tinha um quilo de salame naquele vmito! Eu sabia 
muito bem que no tinha salame em casa...
"Ento comeu e bebeu mesmo na rua."
Mas eu continuava achando muito estranho que ele 
tivesse feito aquilo sozinho. No era hbito de Eduardo. Foi 
mais um dado que me inclinou a pensar que talvez ele tivesse 
encontrado algum. Tanto podia ser apenas algum... um 
conhecido qualquer... como podia ser algum!  Uma pessoa da 
Irmandade.
Quando finalmente terminamos a limpeza, Eduardo j 
estava cochilando. Tentamos limp-lo como deu. Ento Grace 
trouxe um lenol e colocou sobre o sof.
 Preciso fazer xixi!  comeou Eduardo novamente.
 No  possvel! Ele acabou de ir...
Dona Clara e eu conseguimos lev-lo ao banheiro 
novamente.
 No estou enxergando nada...  reclamava Eduardo.
Realmente, durante toda a noite, eu no tinha certeza de 
que ele estava me enxergando. Procurei no pensar, no 
responder, no me influenciar. No fundo, eu pensava se aquilo 
era fato. Porque ele no parecia estar orientado, no parecia 
estar enxergando ningum. Antes mesmo de Eduardo falar isso, 
eu j estava notando alguma coisa estranha! Inclusive ali na 
sala, ele no fixava direito nenhuma de ns.
Mas no banheiro percebi que ele levantou a tampa da 
privada, pegou papel higinico... eu deixei, apenas para observar 
melhor. Eduardo ainda bateu com o cotovelo no peitoril da 
janela e quebrou um enfeitinho da irm da Grace.
Depois daquela saga do banheiro, conseguimos 
acomod-lo no sof coberto pelo lenol. E ele capotou! Eu sabia 
que efeito benfico tiveram as oraes. Inclusive enquanto eu 
estava na farmcia, Grace e Dona Clara conversaram e oraram 
com ele. A glicose terminou com chave de ouro! Se ele dormiu, 
 porque estava melhor... aquela horrorosa agitao das horas 
anteriores tinha terminado.
Ainda limpei um pouco mais o cho e a poltrona, como 
deu. Ento sentamos as trs e ficamos olhando para Eduardo, 
que dormia. Grace ainda apagou parte das luzes, deixando 
apenas o abajur. Ficamos na penumbra, conversando, volta e 
meia eu ia at ele tomar seu pulso. Estava rtmico, cheio.
 Ele estava muito preocupado com voc  falou 
Dona Clara.  Enquanto voc foi  farmcia, toda hora 
perguntava: "Cad minha esposa, cad minha esposa?". E falava 
tambm que vocs tinham ido ver uma casa linda. "Vimos uma 
casa linda, linda...". No sei se ele sonhou, ou...
 No, a gente foi mesmo ver uma casa... ele conversou 
com vocs, assim?
 No falou muita coisa, mas conversou... ns oramos... 
e logo voc chegou. Passou-se talvez trs quartos de hora. 
Ficamos naquela viglia at duas e meia da madrugada. Ento, 
sugeri:
 Voc quer ir para casa, Dona Clara?
Ela estava preocupada com o horrio por causa do seu 
Benito, apesar de que tinha avisado da urgncia. Ento me 
ofereci para lev-la. De sada, pedi para Grace:
 Espera eu voltar, t, Grace? No deixa ele sozinho! 
Quando eu voltar, voc deita...
 No deixo, no... pode ir sossegada...
Eram vinte para as trs quando sa novamente. Cheguei 
de volta s trs e vinte. Nada como pegar a cidade deserta! 
Rapidinho fui e voltei. Entrei e Eduardo continuava dormindo, 
fui novamente tomando seu pulso e percebi que ele ainda estava 
bem quente.
 Grace, voc tem um termmetro?
 Tenho. Vou buscar.
Antes que pudesse conferir a temperatura, Grace trouxe-
me um colcho, um travesseiro e um lenol para colocar no 
cho. Eu e ela arrumamos aquela cama bem ao lado do sof.
 Muito obrigada, Grace... muito obrigada mesmo!
 Vou deitar, mas qualquer coisa voc me chama.  s 
bater na minha porta!
 Pode deixar.
Assim que ela saiu da sala coloquei o termmetro em 
Eduardo, esperando encontr-lo febril. Mas, para minha 
surpresa, a coluna de mercrio no subia, permanecia estacada 
em 35 C. Fiquei nervosa novamente, experimentei o 
termmetro em mim. Minha temperatura estava normal!
Pus novamente em Eduardo, mas realmente a coluna de 
mercrio insistiu em ficar nos 35,3 C. Sacudi a cabea. No 
adiantava pensar em mais nada, nem me angustiar. Era melhor 
esperar que ele descansasse e que isso, por si s, fosse 
teraputico. O que importava  que ele estava ali, em segurana, 
dormindo, e aparentemente bem melhor do que antes.
Deixei o termmetro de lado. Em poucos dias tinha visto 
a temperatura dele variar do mnimo ao mximo! De 35 C a 
42 C! Eu ainda me sentia agitada demais para deitar. Ento 
fiquei sentada no meu colcho, de olho nele. Apenas contemplei 
seu rosto e imaginei que coisa terrvel tinha acontecido.
Olhei ao redor e senti paz pela primeira vez em muitas 
horas. O abajur iluminava suavemente a sala cheia de coisas da 
Grace. A mesinha de centro estava ali ao meu lado, o piano 
atrs de mim. Senti-me aconchegada e protegida. Olhei para o 
relgio: eram quinze para as quatro.
Chequei tambm as pupilas de Eduardo para ver se tinha 
reflexo, e se estavam iguais. Vai que ele entrasse em coma 
alcolico... vai saber! Mas os sinais vitais pareciam bem, pelo 
menos aqueles que eu podia constatar. Apesar daquela 
temperatura... o pulso e as pupilas estavam em ordem... ele 
reagia a chamados verbais e reagia a dor. Isso eu pude constatar 
vrias vezes. Quando eu o chamava, Eduardo procurava se 
orientar, e tambm sentiu dor com a picada da injeo.
Quando meus olhos comeavam a pesar de sono, 
estiquei um pouco as costas no meu colcho. Mas no 
conseguiria dormir. Estava por demais impressionada! Toda 
hora abria os olhos de novo, olhava para Eduardo, tomava seu 
pulso. Eu o tinha coberto com um lenol e ficava difcil 
perceber a sua respirao. Ento deitei a cabea sobre a sua 
barriga e fechei os olhos para descansar. Assim no precisava 
ficar toda hora pegando o pulso e abrindo os olhos. Senti-me 
melhor ali sentada, com a cabea balanando lentamente ao 
ritmo da respirao de Eduardo.
O resto da madrugada correu lentamente. Quando o dia 
comeou a amanhecer eu me sentia muito cansada. Quando deu 
sete horas da manh, Eduardo acordou. Eu estava ansiosa para 
saber como ele estava. Olhei para ele e ele para mim. Ento 
comeou a perceber que estava num lugar estranho.
 Onde  que eu estou?
 Voc est na casa da Grace...  eu no queria falar 
muito. Preferia ver como  que ele estava primeiro.
 Mas o que que eu estou fazendo aqui?
 A gente veio aqui para orar  tentei desconversar. 
Ele comeou a ficar ansioso e preocupado.
 Mas orar por qu? O que t acontecendo?
  que a gente precisou vir pra c. Tivemos uma luta 
ontem... e... ento a gente veio! Dormimos aqui. Mas no 
precisa ficar preocupado...  eu queria que Eduardo esquecesse 
daquele detalhe.  Melhor agora  voc descansar...
Mas ento algo diferente aconteceu. Eduardo olhava por 
cima do meu ombro.
 Eu estou vendo o meu amigo...
No meu ntimo eu sabia a quem ele se referia, mas quis 
ter certeza, ento perguntei:
 O anjo?
 ...  Eduardo j estava chorando, com os olhos 
meio fechados, e tinha a voz fraca, entrecortada.
 O anjo ruivo?
 ...
Como j tinha acontecido antes, ele passou a repetir 
algumas frases daquele ser espiritual.
 "Nessa noite vocs atravessaram o vale da sombra da 
morte..."
 ...da sombra da morte?  murmurei.
Aquelas palavras tiveram um estranho impacto sobre 
mim, criaram vida no meu corao. Por um lado, era terrvel... 
por outro, era incrvel! Esta sensao indistinta veio 
acompanhada de um forte alvio por saber que Eduardo estava 
sendo visitado.
 "No tenham medo! Eu estou com vocs. Eu estive o 
tempo todo com vocs nessa noite!"
Metade das frases Eduardo falava em lnguas, metade 
em portugus. Eu sabia que aquilo no estava no controle dele. 
Percebi o quanto estava fraco, debilitado.
Ento vi o frasco de leo da Grace em cima da mesinha. 
Eu j tinha feito isso uma vez durante a madrugada. Comecei a 
ungir Eduardo, a cabea, o corao, os pulmes, o sistema 
digestivo, tudo... e pedia a restaurao do seu organismo.
Depois tomei as mos dele entre as minhas, e as ungi 
tambm:
 Que o Senhor possa usar estas mos para o Seu 
servio, que nunca se estendam para a iniqidade.
Ungi tambm os ps. Queria aproveitar a presena do 
anjo. Eduardo continuava falando em lnguas. E eu murmurava 
bem baixinho:
 Que estes ps sejam calados com os sapatos da 
preparao do Evangelho da paz... e que eles andem sempre 
pelo caminho de Deus, em verdade, pelas veredas da Sua 
Justia!  passei a ajustar, ento, em orao, cada pea da 
armadura de Deus sobre o corpo de Eduardo. Ele no estava em 
condies de faz-lo, tive f que poderia fazer por ele.
As lgrimas escorriam pelas suas faces. Ento uma das 
frases veio em portugus.
 Ele esteve o tempo todo com a gente... e ele lutou 
muito!... O nome dele  Mikhael... ele  o Capito do 
Exrcito!... Mas... como  que voc luta se voc no tem 
espada?  perguntou Eduardo de maneira infantil, naquele 
estado de fraqueza, torpor e emotividade. Em poucos segundos 
veio a resposta.  "Jesus tambm no tinha espada, Ele lutava 
pela Palavra..."
Ficou nas entrelinhas que ele tambm tinha lutado 
daquela maneira, pelo menos assim entendemos.
 Mas...  Eduardo olhava em derredor.  Mas cad 
o Exrcito? Cad os anjos?...  depois de uma pequena pausa, 
Eduardo continuou:  "Tem muitos aqui fora. E eu enviei 
outros para cercar a Clara..."
Eduardo no entendeu aquela parte. E perguntou, dessa 
vez para mim:
 Dona Clara? Mas por que Dona Clara? O que isso 
tem a ver?
 Dona Clara tambm esteve aqui...  respondi.
Aquela visitao nica continuava, porque Eduardo 
novamente olhou por cima do meu ombro. E falou:
 "Fica em paz porque as suas famlias e os animais 
tambm esto protegidos. Tem um lacre cercando todos eles!"
Ao escutar isso, comecei a ficar tocada. Certamente no 
era Eduardo que estava intranqilo com aquilo, ele nem sabia o 
que estava acontecendo. Tinha sido eu que, durante a noite, 
fiquei pensando em como estaria minha famlia... se Eduardo 
tinha fechado a porta do apartamento... ou se tinha deixado as 
janelas abertas, com risco dos gatinhos carem l de cima, ou se 
a porta tinha ficado aberta e eles saram pelo corredor...
Um pouco disso tudo passou pela minha mente naquela 
noite. Entendi que o anjo queria me tranqilizar!
 "Voc foi muito corajosa nesta noite... voc tem 
muito valor!"  continuou Eduardo traduzindo as palavras para 
mim.
Aquele elogio me derrubou. Comecei a chorar 
imediatamente, sentindo meu corpo em frangalhos, cansado...
 Mas eu tive muito medo!  estava debruada sobre a 
barriga de Eduardo, e chorava molhando sua camiseta.  Eu 
queria muito poder ver os anjos tambm...
A doura daquele momento fazia com que a gente 
falasse coisas bobas, pedisse coisas bobas...
 "Nesse ano voc vai ver..."  veio a promessa dele 
para mim.  "O diabo queria mat-lo nessa noite, mas o Senhor 
dos Exrcitos no queria. Voc fez a coisa certa!"
A repetio daquelas palavras me tirou dos ombros mais 
um enorme peso. Recordei que, quando fiz a volta para retornar 
 casa de Dona Clara, Eduardo tinha dito aquelas mesmas 
palavras para mim. "Voc fez a coisa certa."
 "Eu escutei as suas oraes sobre a tosse... e elas 
foram respondidas!"  o recado do anjo continuava vindo de 
encontro perfeitamente s minhas necessidades.  Ele gosta 
muito de voc!  acrescentou Eduardo.
Como eu continuasse chorando, Eduardo repetiu. Acho 
que o anjo queria que aquilo ficasse bem marcado no meu 
corao.
 Ele gosta muito de voc!
 Eu tambm gosto muito dele...  retribu 
imediatamente aquelas palavras de carinho. Tudo aquilo no 
tinha preo!
Eduardo repetiu minhas palavras ao anjo, embora eu 
tivesse certeza de que certamente ele estava escutando por ele 
mesmo. Ento Eduardo riu. E falou:
 Ele t rindo! Por que ele est rindo se no tem nada 
engraado aqui?
Por um instante fiquei desconfiada. Lembrei-me das 
risadas daquele demnio e quis ter certeza de que era o anjo que 
estava ali. Ento perguntei imediatamente:
 Mas ele t rindo como?
Eduardo no tinha recordao da noite passada, por isso 
no entendeu a atitude do anjo. Mas respondeu:
 No... ele est se alegrando!
 Ele est contente, ento?  isso?
 Ele est contente com a vitria!
Fiquei mais tranqila.
 Ele est pondo a mo na sua cabea.  Eduardo riu 
de novo, entre lgrimas.  Que mo enorme! "Estou renovando 
suas foras... no tenha medo... porque eu estou com vocs!"
Naquele momento tive coragem de fazer uma pergunta 
que muito queria ver respondida.
 Quem foi aquele anjo que me ungiu?
 Mas o que aconteceu? O que aconteceu?  Eduardo 
ainda estava ligeiramente agitado querendo entender o que tinha 
acontecido, e por que estava na casa da Grace. Acho que nem 
ouviu minha pergunta para transmiti-la ao anjo...
Mas a, subitamente, se aquietou. Quando vi Eduardo 
voltando a se acomodar no sof, relaxando, ainda perguntei:
 Ele disse para voc dormir?
 Mikhael vai me trazer  lembrana tudo que 
aconteceu... mas agora  para eu descansar! Ele disse para eu 
descansar... "Descanse agora... depois a lembrana vai vir..."  
ele se acomodou melhor.  Quando a Grace acordar voc me 
chama?
 Chamo...
A viso tinha terminado. Eu no vi nem ouvi nada, mas 
Eduardo contou toda a viso de maneira completa mais tarde. 
Disse que deu risada quando o anjo tocou minha cabea porque 
minha cabea ficou at pequena, a mo dele parecia uma 
enorme tigela sobre mim. E brilhava... a luz que emanava dele 
brilhava...
Eduardo virou de lado e fechou os olhos para continuar 
dormindo. A abriu os olhos de novo.
 Algum ungiu os meus ps?
 Quando, agora?
 No sei... algum ungiu?
 Eu ungi... acho que a Grace tambm ungiu. Por qu?
 O anjo ruivo disse que ns seramos levados por um 
novo caminho a partir de agora, um caminho diferente...
Antes que realmente pegasse no sono eu lhe dei gua. 
Quanto a mim, levantei para ir novamente ao banheiro. Tinha 
passado a noite inteira bebendo gua e indo ao banheiro. 
Eduardo dormiu mais uma meia hora, quarenta minutos.
Fui at o fundo para ver se Grace j tinha levantado. 
Como ela estivesse em p, de camisola, ficamos conversando 
um pouco. Contei sobre o anjo.
 E ele disse que o nome dele era Mikhael? O Capito 
dos Exrcitos?  Grace se espantou muito.  Mas ento  o 
Arcanjo Miguel! Miguel  que  o Capito dos Exrcitos!
Fiquei to boquiaberta quanto ela.
Ento Grace veio para a sala, queria ver Eduardo. Eu o 
chamei e ns conversamos um pouco. Ele parecia melhor 
embora ainda estivesse zonzo. Ficou sentado no sof, meio 
coberto com o lenol, e conversou com Grace ali mesmo.
Ento ela quis preparar um caf bem forte.
 Melhor no, Grace... vai fazer mal pro estmago 
dele! Ns s almoamos ontem, depois no comemos mais 
nada...
Eduardo levantou para ir ao banheiro. Estava enjoado e 
com vertigens. Ento Grace lhe deu um Gatorade. Enquanto a 
gente conversava e Grace fazia perguntas a Eduardo, comecei a 
perceber as lacunas de memria dele. A primeira foi em relao 
ao perodo que ficou na Internet, no Shopping, no final da tarde 
do dia anterior.
 Eu at te mandei um e-mail, Grace... falei da casa que 
ns fomos ver. Fiquei uns dez minutos na Internet ontem!
 Como assim, dez minutos? Fiquei esperando no carro 
uma hora e quinze! O que voc fez no resto do tempo?
 No sei... s me lembro de ter ficado na Internet!
 No tinha um e-mail pra voc? Voc falou nisso o 
tempo todo!
 No tinha nada de especial...
Fiquei quieta em relao quilo. Fiz outras perguntas e 
percebi que Eduardo no tinha qualquer lembrana do que 
acontecera entre as seis da tarde e onze da noite, hora em que 
apareceu ao lado do carro. Eu j sabia que ele no se lembrava 
de nada do que tinha acontecido durante a madrugada. 
Portanto... desde o Shopping que ele no se lembrava de mais 
nada. A ltima coisa de que tinha conscincia  de ter ficado dez 
minutos na Internet... e s!
Depois de um lanche rpido, nos despedimos de Grace. 
Ela ficou parada no porto, com um semblante meio 
compadecido, olhando para ns. Eduardo estava envergonhado 
por estar descalo, de moletom, de camiseta regata suja de 
vmito. Ela fez um aceno e ns respondemos. Fomos para casa.
Chegando l, Eduardo foi se deitar novamente. Estava 
muito cansado e com o corpo fraco. Eu tentei me deitar tambm, 
mas foi impossvel dormir. As lembranas daquela noite 
ficariam impregnadas na minha memria. No consegui pregar 
o olho, apesar do meu prprio cansao. Talvez tenha cochilado 
cerca de uma hora, o tempo todo me virava para ver se Eduardo 
estava respirando.
Ento levantei e tratei de arrumar um pouco a casa.
Graas a Deus, Mambo e Merengue estavam bem. Mas 
tinham ficado soltos pela casa, terminaram de destruir a rvore 
de Natal! Dos males o menor... o mais importante  que estava 
todo mundo bem.
Depois que Eduardo acordou, a primeira coisa que 
fizemos foi orar pedindo perdo a Deus. E tambm que o 
Senhor trouxesse  lembrana o que havia de fato acontecido 
com Eduardo.
Depois fomos tomar banho,  noite iramos com Marco, 
minha me e Karine ao Culto de passagem de ano na 
Comunidade. Depois, minha me tinha providenciado ceia para 
fazermos na casa dela.
Tirando o cansao do corpo, de resto estava tudo em 
paz!
Mas os traumas emocionais daquela noite iriam persistir 
por muito tempo no meu corao...
Minha impresso  que eu nunca mais conseguiria pr a 
cabea no travesseiro e dormir serenamente. Fiquei muito 
impressionada... especialmente com a expresso do rosto de 
Eduardo, com aquela aparncia to profunda de morte... uma 
coisa pavorosa, horrvel...
Alguns sintomas fsicos apareceram logo nos prximos 
dias... resultado daquele estresse emocional indescritvel.
Eduardo Conta
Captulo 45
Logo depois que chegamos da casa de Grace eu dormi, 
no pensei em mais nada. No havia em que pensar! Eu no 
tinha recordao de coisa alguma... tudo era um grande vazio 
dentro de mim. No entanto, depois que acordei e oramos juntos, 
pedindo perdo e tambm a restituio das lembranas, segundo 
me havia prometido o anjo ruivo, como o milagre comeou a 
acontecer.
No comeo as recordaes do dia e noite anterior vieram 
turvas, como num sonho, mas ento foram ficando claras e 
perfeitas. Para cont-las melhor, terei que recuar um pouco no 
tempo.
...........................................................................
* * * *
Depois que brigamos, e eu dirigi at em casa pela 
primeira vez, me sentia muito irado. No me recordo de ter 
falado a Isabela que ela no merecia viver. J devia ser a 
influncia demonaca a distncia, porque no tive qualquer 
recordao disso. No me lembro tambm de ter voltado para o 
Shopping, aquele trajeto continuou, da mesma forma, como 
encoberto por uma enorme nuvem...
Destas coisas o Senhor no me trouxe lembrana 
alguma. Tive que confiar no que Isabela contou.
A primeira lembrana que tenho depois da discusso  
de ter aberto a Internet no Shopping. Mas realmente, fiquei ali 
apenas dez minutos! Depois disso, como continuasse muito 
irritado e nervoso, simplesmente deixei-me ficar sentado num 
banco. Fiquei observando as pessoas passarem, era final de ano 
e o Shopping estava cheio. Inclusive tinha pessoas sentadas ali 
ao meu lado no banco.
Mas ento escutei uma voz muito conhecida. Olhei para 
o lado. No vi ningum. To-somente continuavam ali aquelas 
pessoas desconhecidas... mas no a dona daquela voz... onde 
estaria ela?...
Ento compreendi que se tratava de um desdobramento 
(Leia Filho do Fogo). Ela estava ali ao meu lado, embora no 
pudesse ver com meus olhos fsicos.
 Olha a vida que voc est levando... voc pode 
comear o ano com outra vida, de outra forma...  a voz de 
Thalya soou muito clara e audvel bem ali do meu lado.
Olhei novamente e no vi nada. Achei que estava 
ouvindo coisas... mesmo assim fiquei refletindo naquelas 
palavras. E falei para mim mesmo:
"Cansei. Quero mais que acabe, que termine! No tenho 
mais nada a perder... pior do que isso no fica!"
Segundo Isabela, eu levei uma hora e quinze para voltar 
ao carro. No tenho essa dimenso de tempo na lembrana. O 
tempo deu um salto e a prxima recordao era de j estar em 
casa, no apartamento. Sozinho. Isabela tinha ficado no carro, no 
estacionamento, mas no sei se tinha conscincia disso. Ela 
tinha ficado orando, mas eu estava repleto daquela sensao 
ruim, daquela angstia, daquela sensao de no haver mais 
nada a perder.
Eles tinham ganhado muito terreno! Pelo menos eu 
assim sentia naquele momento.
Queria me anestesiar um pouco. Minha alma pesava 
tanto que fui procurar aqueles comprimidos que Isabela tomava 
para dormir, aqueles que ela comprava com receita azul quando 
estava num perodo de muita insnia. Mas s tinha um. Minha 
inteno era tomar quantos tivesse, mas s tinha aquele 
malfadado comprimido nico na carteia!
Fiquei na cozinha pensando o que poderia usar junto 
com aquele comprimido que me garantisse o efeito anestsico 
que queria. Ns tnhamos ali uma garrafa de vinho j aberta. E 
tinha tambm uma garrafa de aguardente tpica de 
Pernambuco... tnhamos trazido da Lua-de-mel para dar de 
presente a um tio de Isabela que curtia muito aquele tipo de 
coisa. Gostava de umas caipirinhas diferentes.
No tive dvida. Tomei o comprimido com aquele vinho 
e uma boa quantidade da aguardente.
Depois disso, entrei no banho, vesti o moletom e a 
camiseta, fui deitar. No queria pensar em mais nada, no queria 
sentir mais nada! Tudo que eu queria era apagar.
Fiquei deitado na cama... quieto... lembro-me que aquela 
sensao de torpor foi me invadindo, tomando conta de mim, 
meus pensamentos pareciam mais devagar, minhas emoes, 
minha mente... eu apenas olhava para o teto do quarto e 
acompanhava o rudo dos carros na avenida. Mas, de repente, 
at aquele rudo parece que deixou de existir.
Ento algo chamou minha ateno. Virei lentamente a 
cabea para o lado esquerdo, para o lado da janela. Ali estava 
Abraxas. Sim, exatamente ele, exatamente como eu o tinha 
conhecimento. Os limites do quarto pareciam no mais existir. 
Entretanto, percebi que ele estava do lado de fora. No adentrou 
o apartamento. E dali, a alguns metros de onde eu me 
encontrava, ele falou com voz muito branda:
 Voc est precisando de um pouco de paz  aquela 
voz era a mesma que eu conhecia e j no ouvia h tantos anos. 
 Vem comigo! Eu vou te levar para um lugar de paz, voc vai 
ter paz...
Naquele momento, ele falou tudo o que eu queria ouvir. 
No sei quanto daquela medicao e das bebidas contribuiu para 
a minha resposta. Mas naquele momento Abraxas falou a coisa 
certa.
 T bom. Me leva.
Me sobreveio novamente aquela sensao de que no 
havia absolutamente mais nada a perder. Abraxas respondeu:
 Sai. Voc precisa sair daqui.
Ento levantei. Calcei o sapato, desci o elevador e sa 
para a rua. Sa e simplesmente fui andando, me sentia  meio 
balo. Durante o trajeto escutei a voz de Abraxas mais uma vez.
 Voc tem trs caminhos a tomar. Ou voc volta para 
o Grupo... ou vai direto para um lugar de paz, nessa noite... ou 
ento cancela o livro, e essa possibilidade vai te trazer tambm 
muito dinheiro!
Fiquei pensando naquilo, mas no com muita intrepidez. 
No meu ntimo eu queria paz, s paz! Ele deveria me dar 
alguma direo, me dizer o que fazer para encontrar o lugar de 
paz. S que naquela hora ele no falou mais nada.
Como sentisse sede, parei na dona Dela para tomar um 
refrigerante.
Pedi um refrigerante no balco e fui me sentar numa das 
mesinhas externas. A noite estava quente. Nem bem me 
acomodei e reparei num carro que estacionou ali do lado. Era 
um carro branco, importado, com vidros verdes. Reparei no 
carro porque no era comum ver um daqueles toda hora. Nem 
me passou pela cabea quem poderia descer de dentro. Mais 
uma vez... para minha surpresa, eram duas pessoas que tinha 
conhecido muito bem.
Eles apearam e vieram na minha direo... com muita 
educao chegaram perto, com o sorriso estampado no rosto.
 Podemos nos sentar aqui com voc?  perguntou 
Zrdico com amabilidade.  Vamos conversar um pouco?
 Eu no quero conversar. No tenho nada para 
conversar com vocs, quero sossego! Vim aqui s para tomar 
um refrigerante  respondi com um pouco de enfado, mas no 
de forma rude.
 Ns tambm s queremos conversar um pouco com 
voc...  continuou Rbia no mesmo tom e sempre com o 
mesmo sorriso.
Fiquei quieto e no falei mais nada. Que fizessem o que 
quisessem. Ento eles sentaram e Zrdico continuou, sempre 
brandamente. Eu j estava decorando aquela introduo.
 Ns te amamos muito... voc nos faz muita falta! Isso 
 vida pra voc estar levando? Olha s... voc pode mudar tudo 
isso! Cancela essa histria de livro... esquece isso... olha... 
comea uma nova vida! Voc sabe que ainda tem uma mulher 
que gosta de voc de verdade, e ela est te esperando! Aquela 
moa que ns encontramos no congresso, daquela vez, ela  sua 
esposa, no ?
Fiz que sim com a cabea.
 Pois ...  ele mantinha a calma e a polidez.  Veja 
s... voc acha que ela e mulher para estar do seu lado? Voc 
tem uma outra mulher muito especial, a sua alma gmea, que 
est te esperando! Por sinal, voc quer que a gente te leve ate 
ela? Ela est aqui perto, e ns podemos te levar l. Voc no 
quer?
 No. Eu no quero saber de nada. No vou. J disse 
que s quero sossego, me deixem em paz!
Rbia mudou um pouco o assunto:
 Sabe, se voc quiser... pode ter muito dinheiro! Voc 
pode ter dinheiro de uma forma que nunca viu, nem em toda a 
sua vida voc poderia ganhar tanto! Nem mesmo se voc 
vendesse demais este livro! Nunca, nunca voc conseguiria 
ganhar esta quantia! Mas ns podemos te dar esse dinheiro...  
fez uma pequena pausa.  E a vamos esquecer esse assunto... 
voc esquece que a gente existe... ns esquecemos que voc 
existe. Ento voc vai ter a sua paz de volta, tudo vai voltar ao 
normal! No vai mais haver lutas, problemas, voc vai poder 
esquecer essa histria de guerra. Suas famlias vo ficar ilesas...
 !  interrompeu Zrdico.  O seu cunhadinho vai 
voltar a ter a vidinha dele, a velha vai ter o dinheirinho dela de 
volta!
Num fio da minha memria lembrei-me dos R$ 900,00 
de Dona Mrcia e das palavras de maldio contra Marco.
 Posso saber por que vocs esto focando tanto o 
ataque em cima da famlia da minha esposa?!
 Porque essa  uma das melhores formas de afet-la. 
Ns no gostamos dela! Ns gostamos de voc. E, por amor a 
voc, a sua famlia no  tocada. Mas ns odiamos ela! Ela no 
 a mulher certa para estar ao teu lado. A mulher certa  sua 
alma gmea! Teu pai te separou uma outra pessoa, voc sabe 
disso... e ela tomou este lugar. Exatamente por causa disso o 
ataque sobre ela  muito mais pesado! Voc tem idia do quanto 
tem sido poupado, bvio... mas ela no vai ser poupada!
 No.... tudo s acontece porque Deus est 
permitindo... Os dois deram uma risadinha meio debochada.
 Ento Deus est permitindo a destruio de vocs!  
Zrdico sempre teve aquele lado meio sarcstico. Mas no 
queria continuar discutindo aquele assunto que, para ele, era 
totalmente dispensvel.  Enfim... quanto a voc... voc pode 
mudar! Voc pode ter dinheiro, ter sossego, como tanto quer. 
Voc pode mudar tudo nesta noite. Lembre-se: dinheiro compra 
tudo!
 As lutas vo cessar  disse Rbia.  Todo este 
Inferno vai cessar. Alm disso, tudo isso cessando, voc vai 
poder ter todo esse dinheiro que ns estamos falando para dar 
um rumo completamente diferente na sua vida!
Eles estavam falando muito naquilo. At agora no 
tinham dito o valor.
 Dinheiro, ? Quanto dinheiro?
 Muito dinheiro!! Voc s precisa responder o e-
mail... se voc nos der um OK, vamos depositar na sua conta 
dinheiro como voc nunca viu antes  fez Rbia novamente.
Os dois se alternavam otimamente naquela persuaso.
 E  s isso? O que vocs querem em troca?  aquela 
histria estava mal contada.
 Ns j dissemos. Voc simplesmente no publica o 
livro, voc cancela esse negcio. Sabe, ns no queremos voc 
como inimigo!  continuou Zrdico.  Ento se voc no quer 
ser nosso amigo, ento pelo menos no vamos ser inimigos No 
precisamos disso. Voc nos ajuda com seu silncio... e ns te 
ajudamos a ter uma vida melhor. No haver mais ataques sobre 
vocs e sobre as famlias... e voc ter todo esse dinheiro.
Parei por alguns instantes, refletindo naquilo. Ento 
balancei lentamente a cabea.
 Mas eu no quero isso... quero paz! Eu s quero 
sossego, gente... Zrdico se aprumou na cadeira.
 Tem alguma coisa que voc anda querendo muito, e 
que voc no est podendo fazer?
 ......nunca me deixam comer salame!  Ficam 
dizendo que eu estou com o colesterol alto!  s depois percebi 
o quo estpida havia sido aquela colocao. Naturalmente no 
era disso que Zrdico estava falando.
Realmente meu colesterol estava um pouco elevado e 
Isabela procurava me incentivar a no consumir gorduras em 
excesso.
Zrdico certamente no esperava aquela resposta, at 
deu risada.
 Ah! Ento voc quer salame?
Levantou-se, foi at o balco e trouxe um prato enorme 
cheio de salame. Colocou na minha frente.
 Pois bem... coma salame! Tudo  lcito pra voc!
 Pera! Vou pegar alguma coisa pra gente beber.  
Rbia levantou tambm e voltou com trs copos de bebida. 
Pequenos. Parecia caipirinha, porque tinha limo, mas no era 
caipirinha.
Separou um para ela, um para Zrdico e empurrou o 
terceiro na minha direo.
 Esse aqui  pra voc!
Por uns instantes ainda pensei, olhando para o copo: 
"Ser que eu devo beber?
Ou no?". Mas novamente fui invadido por aquela 
sensao...
"Ah, no tenho nada a perder! O que que pode 
acontecer?... Eu s quero paz!" Tomei. Comi o salame. Nem sei 
o que mais me falaram durante aquele tempo.
Ento me levantei.
 No tenho mais nada para discutir com vocs... no 
me importunem mais... s quero sossego.
Os dois olharam para mim. Rbia fez um sinal 
caracterstico na minha direo e falou:
 Isso nunca aconteceu. Esse momento nunca 
aconteceu!
 Mas pense na nossa proposta  inteirou Zrdico.  
Dela voc vai se lembrar... Nem respondi. Sa da padaria e fui 
tomando o caminho de casa. Agora me sentia realmente 
zureta.... zonzo.....no me recordo do trajeto para casa, nem de 
ter encontrado Isabela no elevador. No tinha a menor noo do 
horrio. A menor noo de nada.
A prxima coisa de que me lembro  de estar novamente 
deitado na cama. Em casa. E fiquei esperando. S queria ir 
embora. Para aquele lugar de paz! Lembrei que Abraxas tinha 
falado em trs possibilidades... mas eu queria o lugar de paz!
 Me leva daqui! Eu quero aquela paz que voc me 
prometeu!
Ento realmente comecei a sentir meu corpo ficando 
todo dormente, sentindo a respirao diminuir... as foras indo 
embora... cada vez mais fraco, mais fraco... letrgico... a viso 
foi ficando turva... parecia que ia entrar num sono profundo, 
mas eu sabia que no era um sono... eu ia morrer, mas aquilo 
no parecia ruim.
No sei o que aconteceu.................. ento de repente eu 
estava dentro do carro!...
Pensando depois, creio piamente que foi o anjo que me 
carregou para baixo e me colocou ao lado no carro; quando me 
soltou, desabei no cho. Uma pessoa que no se lembrou sequer 
de pr os sapatos, e que no andou sozinho nem mais uma vez 
naquela noite, no haveria de ter sado por si mesmo de casa, 
fechado a porta, andado at o estacionamento... mas este detalhe 
nunca vou saber com certeza.
O que me lembro  que o carro estava andando, estava 
em movimento, ento olhei para a direita, para fora, e vi 
Abraxas ali do lado, me acompanhando. No sei que momento 
foi aquele da trajetria. Ele olhava para mim e falou de novo:
 Voc quer a paz? Quer que eu te leve agora!
Creio que eu respondi. E disse:
 Sim. Quero que voc me leve. Voc prometeu a paz!
Quando disse isso, vi abrir um tnel grande ali ao meu 
lado. Fez at um barulho, foi muito real, muito ntido, como se 
me abrisse a porta de uma outra dimenso...
"ZUUU"!!
Isabela se lembra de eu ter dito algo sobre o tnel. Na 
trajetria dela, isso foi muito mais pra frente. Toda a lembrana 
inicial eu perdi. Deus me trouxe na memria apenas os pontos 
importantes daquela histria.
Reparei que aquele tnel se abriu perto dos meus ps, e 
eu estava bem na beiradinha dele! A um passo de cair naquele 
precipcio sombrio... a realmente meu corpo comeou a cair 
naquele tnel, lentamente, de leve... j no existia pulsao... 
no existia respirao... meu corpo parava de funcionar pouco a 
pouco  medida que eu caa no precipcio... senti minha viso 
sumindo... minha audio perdendo o contato com o mundo... os 
msculos estavam dormentes... parecia que meu corpo estava 
parando.......
Mas ento... de algum lugar muito longe eu escutei a voz 
de Isabela me chamando...
 Eduardo! Eduardo! Resiste!
Por algum motivo aquilo me trazia de volta e eu perdia a 
viso do tnel. Isso aconteceu duas vezes. A terceira vez em que 
o tnel se abriu debaixo dos meus ps, uma coisa diferente 
aconteceu... naquele momento eu creio que quem me abriu a 
viso foi Deus.
Quando o tnel se descortinou, imediatamente eu vi 
muitos Sadraques! Muitos! Uma quantidade absurda, 
monstruosa! Eram fileiras e mais fileiras, como se o carro 
estivesse no centro de um imenso funil indescritivelmente 
grande, repleto de Sadraques. Para onde eu olhasse, para 
qualquer lado que me voltasse, a nica coisa que eu enxergava, 
at onde minha vista alcanava, eram Sadraques e mais 
Sadraques!
E o olhar... o olhar deles era de incrvel expectativa! De 
jbilo! No estavam perto do carro, a fileira mais prxima 
ficava distante cerca de cinco metros de mim... mas estranhei o 
rosto deles... estavam como abutres esperando... esperando... 
no faltava muito... era s mais um pouco...
Ento a verdade saltou com indiscutvel colorido diante 
de mim! O lugar aonde eles queriam me levar no era um lugar 
de paz... eles queriam me arrastar para o Inferno, eu no tinha 
percebido at aquele momento!
Lembro-me de ter pedido ao anjo ruivo que me desse a 
mo nesse momento. Eu podia v-lo naquele momento. Fiquei 
aterrorizado com a viso dos Sadraques  volta do carro, uma 
massa incalculvel de demnios de morte estava ali ao meu 
redor. Tive muito medo, ento vi que o anjo que estava ali... eu 
j tinha visto ele antes, em algum momento, e ele tinha me dado 
a mo. Ento gritei de novo:
 Me d a mo! Segura na minha mo!
Ele estava em cima do carro. Parecia estar deitado sobre 
o capo do carro, protegendo-nos com seu prprio corpo. Ento 
aquela mo enorme apareceu ali na janela e segurou a minha. 
Ficava fcil para quem estava de bruos sobre o carro colocar a 
mo por dentro da janela aberta...
Lembro-me de que em algum momento ele havia falado 
comigo, disse que seu nome era Mikhael... ele era o Capito do 
Exrcito do Senhor! Eu o vi mais de uma vez...
Ta uma informao que eu no tinha na poca... eu no 
sabia que o Arcanjo Miguel era Capito dos Exrcitos!
Minha prxima lembrana foi a de acordar na casa da 
Grace, completamente confuso e sem saber como tinha ido 
parar ali. Ento Mikhael apareceu novamente, ele no tinha 
arredado p, certamente, at aquele momento. Mas conversou 
comigo... conversou com Isabela... e embora eu estivesse 
agitado para saber o que tinha acontecido, pois percebia que 
alguma coisa muito estranha tinha acontecido, e eu no sabia o 
que era... ento ele me disse para descansar.
Mais tarde eu iria recordar de tudo. E assim aconteceu.
Ainda durante a tarde, conversando com Isabela, Deus 
desbloqueou minha mente e minha memria. Era uma histria 
completamente indescritvel... no fosse por alguns detalhes, e 
poderamos at mesmo question-la.
Mas eu j sabia do e-mail antes que ele chegasse. Eu 
tambm no tinha lembrana da presena de Dona Clara, me 
espantei muito quando o anjo ruivo 
falou que estava mandando uma Guarda para proteg-la. 
Tambm no tinha condies de saber disso. Eu nada sabia 
sobre a orao que Isabela tinha feito sobre a tosse... muito 
menos que havamos atravessado o vale da sombra da morte, e 
que ela tinha sido corajosa...
Falando em tosse, apesar do anjo ter dito que a orao j 
havia sido respondida, ela demorou ainda meses para passar.
O vmito de bebida e salame provava que eu tinha sado 
de casa. No tinha salame na nossa geladeira! Deus permitiu 
que Isabela descesse do carro exatamente na hora em que eu 
estava subindo da rua. Ela mesma percebeu que eu tinha sado e 
estava estranho. Mas Abraxas no queria que ela percebesse 
meu estado...
Eu no teria condies de ter descido sozinho do 
apartamento at o carro. Meu corpo j estava dormente e sem 
foras, alm do que no caminhei sozinho mais nenhuma vez 
naquela madrugada. A impresso que temos  que realmente eu 
fui carregado pelo anjo, ele me trouxe at a porta do carro e, 
quando me soltou, desabei ali no cho para ser socorrido por 
Isabela. Certamente no fui eu que tranquei a porta do 
apartamento... eu sequer tinha calado os sapatos, quanto mais 
me lembrar dos gatos e de qualquer outra coisa, como fechar a 
porta...
Por esse motivo o anjo tinha dito que enviara tambm 
uma proteo para os animais... mais um dado que eu no tinha 
a menor condio de saber!...
E, mais importante do que tudo... era a sensao de 
morte iminente que eu senti, e Isabela tambm pde constatar. 
O prprio Mikhael confirmou a inteno maligna do diabo, que 
era me matar. Havia tambm um decreto de morte firmado 
muito tempo antes...
O fato de Isabela ter permanecido firme durante a crise, 
orando, fez com que toda a legalidade que pudesse existir sobre 
ela no tivesse efeito. Abraxas mesmo tinha dito: "Ns no 
queremos mais ela...". Isso quer dizer que eles de fato tinham 
querido!
Quando repeti aquela frase do anjo, dizendo que Isabela 
"tinha feito a coisa certa", ele estava se referindo ao fato de ela 
ter voltado  casa de Dona Clara. A justificativa  que eu no 
teria chegado vivo na casa de Grace.
A Palavra j diz que "um pode contra mil, mas dois 
contra dez mil"! Existe uma potencializao de foras na orao 
em concordncia. Era essa cobertura a mais que Isabela 
precisava para conseguir atravessar a cidade at Grace.
Aquela histria pesou muito mais sobre Isabela do que 
sobre mim.
Ela tinha passado horas terrveis de angstia, tinha orado 
durante horas, desde muito antes das onze da noite, quando me 
colocou dentro do carro. Alm daquelas horas de orao 
solitria, enfrentou uma hora e meia de tormento rodando pela 
cidade, procurando algum para ajud-la, sem sucesso. Depois 
que todo mundo foi deitar, ela ainda passou a noite em claro, 
vigiando meu sono at as sete horas da manh...
Depois disso, Isabela nunca mais dormiu com a luz 
apagada. Ela deixava a
luz do banheiro acesa para iluminar levemente o quarto, 
ou colocava uma daquelas luzinhas de beb no prprio quarto. 
Tinha sempre aquela necessidade de poder perceber se eu estava 
respirando. Quando saa sozinho, e me atrasava, ou a gente no 
conseguisse se comunicar por algum motivo, isso deixava 
Isabela muito nervosa. Assim que levantava da cama, de manh, 
imediatamente ela acordava Algum sexto sentido a fazia 
perceber que eu tinha sado de perto dela!
Experincias assim deixam traumas nas pessoas... ela 
realmente me viu pendurado por um fio entre a vida e a morte! 
E  o tipo da coisa que s Deus pode consertar.
Quando contei minha parte do relato, ela sentia aquele 
peso na boca do estmago.
 Que coisa horrvel... que coisa horrvel!
"Irai-vos e no pequeis, no se ponha o sol sobre a vossa 
ira, nem deis lugar ao diabo..."
* * * *
Naquela noite, na passagem do ano, demos um valor 
muito especial ao fato de estarmos juntos. No apenas Isabela e 
eu, mas a presena de Dona Mrcia e Marco era preciosa. 
Karine tambm passou o Rveillon conosco. Ela nos havia dado 
um fogo usado que comprou com sacrifcio. Mas no 
poderamos us-lo porque era para gs de rua. Quando Deus 
confirmasse nossa mudana de casa, ele perderia a utilidade. S 
no apartamento era usado gs de rua.
Especialmente Isabela estava satisfeita em poder ter a 
famlia perto de si, como sempre tinha sido desde que ela se 
entendia por gente. Isabela sempre fez a maior questo da 
famlia!
No era de admirar que tocar neles a desestabilizava 
tanto...
Comemorar junto com Dona Mrcia, Marco e comigo 
foi especial para ela. Karine era uma amiga bastante querida, e o 
fato de ela estar ali tambm foi muito bom naquela noite.
Em dado momento Isabela ainda falou, quando algumas 
palavras meio speras foram trocadas entre Dona Mrcia e 
Marco por um motivo ftil.
 O mais importante  estarmos todos aqui! Juntos...
Karine sabia uma parte das nossas lutas, uma parte das 
bnos daquele ano. Olhou para ns com ar meio indagador. 
Mas nenhum de ns dois teria coragem de contar aquele 
episdio a ningum. Aquilo ficou entre ns, Dona Clara e 
Grace. A nica pessoa para quem abrimos alguma coisa foi 
Marco, bem mais tarde, apenas para que ele soubesse com 
clareza dos ataques sobre si e sobre sua famlia.
No era muito difcil que ele se preocupasse demais com 
muitos assuntos externos, com outras pessoas, se desgastasse 
com isso e no percebesse que o alvo maior estava dentro da sua 
prpria casa.
A bem da verdade, as pessoas que estavam mais 
prximas naquela poca da famlia de Isabela, amigos de 
Marco, foram um instrumento para causar muita confuso e 
mais diviso dentro da casa. Tais pessoas no eram alvo em si 
mesmas, mas os demnios as usavam para aumentar o desgaste 
emocional, elas estavam servindo apenas para desviar nossos 
olhos da verdadeira batalha. Marco era alvo... Dona Mrcia era 
alvo...
Mas ele no tinha compreendido isso... e gastava muito 
tempo e energia com coisas que, ainda que por si s no fossem 
erradas, eram apenas para desviar a ateno! A verdadeira 
batalha era dentro de casa... se isso no fosse levado em 
considerao, eles acabariam por viver exatamente o decreto do 
inimigo! O decreto de dor, de sofrimento, de destruio e de 
diviso...
Pessoas mais consagradas no permaneceram em p. 
Que dizer daquelas que eram recm convertidas?
* * * *
Dona Clara viu que estvamos bem. Durante o Culto de 
Rveillon, fomos at ela apenas para agradecer-lhe. No era 
hora de falar sobre nada daquilo! Era melhor deixar a mente 
descansar. Falando em descansar... eu dormi bastante do dia 31 
para o dia 1. Mas Isabela dormiu apenas seis horas.
Realmente o anjo tinha renovado suas foras. Porque 
Isabela tinha passado a noite anterior em claro, dormido apenas 
uma hora depois que chegamos da casa de Grace, e passou pelo 
Rveillon relativamente bem, at de madrugada novamente.
No dia 1, fomos almoar em casa de Dona Mrcia outra 
vez. Embora eu nem tenha ficado sabendo, Isabela entrou em 
pnico com o fato de eu ter bebido aquilo que Zrdico e Rbia 
me deram. Ela no me falou nada, mas passou de tudo pela sua 
cabea: que eles pudessem ter me contaminado com alguma 
doena, por exemplo. Mas, realmente, hoje creio que tinha 
veneno naquele copo.
Eu tinha bebido, sim, mas eu estava morrendo... e no 
era de um coma alcolico! Deveria haver um enterro no dia 31 
de dezembro daquele ano! Se no fosse o dela... que fosse o 
meu.
Que mais ns queramos para confirmar a inteno clara 
da Irmandade?
Para mim ficou muito certo que, para facilitar o trabalho 
deles naquela madrugada, tinham me dado veneno. E eu, na 
minha insensatez, bebi!
No dia primeiro do ano, enquanto conversava com 
Marco na sala e Dona Mrcia preparava a mesa, Isabela entrou 
no banheiro. Era o nico lugar onde teria privacidade e no seria 
interrompida. Seu corao estava por demais angustiado, e ela 
orou com todas as foras que tinha por mim. Pedia perdo 
incessantemente a Deus, e que Ele cancelasse toda 
contaminao que tinha vindo por meio daquela bebida. 
Chorou, chorou... suplicou, suplicou a Deus!
Para que o Senhor fosse misericordioso conosco e 
nenhum mal acontecesse.
* * * *
Restava um ltimo detalhe. O e-mail. Se realmente 
tivesse algo para mim na nossa caixa de correio, era a 
confirmao que faltava.
Naquele dia, depois do almoo, criamos coragem para 
acessar a Internet. Sentada ao meu lado, Isabela tinha o rosto at 
meio plido e sentia calafrios que vinham de dentro.
 Brrrr.... que nervoso! Estou at tremendo  fez ela.
Aqueles segundos de espera pareciam eternos. 
Finalmente abri a caixa. Corremos os olhos ansiosamente pelas 
mensagens novas. Batemos o olho naquilo que estvamos 
procurando. Difcil descrever a sensao de que ficava por 
dentro ali estava o e-mail: Leviathan Trevas.
Era o primeiro que ns iramos receber, mas no seria o 
ltimo.
Lemos aos trambolhes.
"Caro 'Daniel': admiramos a sua coragem, mas onde isso 
est te levando? Garanto que no vai te levar a lugar nenhum. 
Quanto  sua esposa... bem, pense a respeito. Se voc aceitar 
nossa proposta faremos um depsito de 500 mil dlares na sua 
conta. Esperamos sua resposta at dia 5 de janeiro. Se voc 
responder a este e-mail e aceitar o dinheiro, os ataques vo 
cessar e voc vai viver bem. Voc apenas deve deletar o livro do 
computador. Tudo vai ficar em paz e os ataques sobre a famlia 
dela vo cessar. Caso contrrio, vocs tero que enfrentar o 
leo, e ver o nosso Poder. O dinheiro da velha no vai voltar! 
Quanto a seu cunhado,  s o princpio das dores. A famlia dela 
 muito fcil de atingir. Ass. um ex-irmo."
Ficamos chocados com aquela carta. No era a primeira 
vez que falavam sobre o leo. O prprio Lucifr. Mas... no 
adiantava pensar nessas ameaas!
Obviamente, aqueles US$ 500 mil foram descartados e 
no respondemos coisa alguma. Em quinze dias seria o 
lanamento do livro.
* * * *
Durante a semana, Isabela estava exausta. Eu me sentia 
bem, mas ela estava esgotada. Escrevia agora algumas coisas 
para Grace. Grace tinha gostado muito da sua maneira de redigir 
e naquela poca cogitou que Isabela atuasse como escritora de 
sombra em um livro que iria lanar. Pelo que Isabela estava 
trabalhando naquele material.
Mas durante a semana sentimos opresso, tivemos que 
correr para tudo quanto  lado, toda hora tinha um abacaxi para 
descascar.
Mais uma investida veio nos prximos dias. Como a 
Irmandade no recebeu aquiescncia nossa quanto quele 
"acordo", mandaram outro e-mail. Para Marco.
No chegamos a ler, mas era uma carta at que longa. 
Ofereceram a ele R$ 100 mil caso conseguisse nos convencer a 
no publicar o livro. O restante da missiva, extremamente 
arrogante, deixava bem claro que se ele no ajudasse sua vida 
iria ficar bem pior. Era um decreto de destruio do comeo ao 
fim.
Naturalmente aquilo foi mais uma vez ignorado. Mas 
no ignorado em orao,  lgico!
Embora tivssemos um pouco de contratempos em 
encontrar o Pastor Lucas para fazer o Culto de ao de graas 
para o lanamento oficial de Filho do Fogo, tudo deu certo. O 
Culto aconteceu, Pastor Lucas pregou, eles oraram por ns e 
pelo livro naquele dia. Grace se empenhou e, apesar das suas 
frias, esteve presente conosco. Como Dona Clara tambm 
estava l, nada mais faltou. Elas tiveram participao na nossa 
histria!
As poucas pessoas que tinham tentado se aproximar, j 
no estavam perto de ns. Nem Pastora Alice, nem Sarah, nem 
Jefferson, nem a equipe de Sarah, nem Pastor Adriano, nem 
mesmo a equipe de Grace. Eu e Isabela no cremos realmente 
que eles tivessem acreditado em nossa histria.
Alguns tentariam manter contato pessoal, independente 
das Ministraes, mas seria por pouco tempo.
Uma coisa muito boa aconteceu no final daquele ms de 
janeiro.
Encontramos o Pastor Brintti!!! Aquele por quem 
tnhamos orado tantas vezes, e por quem eu tinha procurado ao 
longo dos anos, finalmente apareceu!
Grace nos visitou certa noite para conhecer o 
apartamento e levar nosso presente de Natal atrasado, um lindo 
edredom king size para nossa cama. Ns tivemos a maior 
alegria em preparar um lanche para ela. L pelas tantas, de 
repente nos deu a notcia.
 Encontrei o telefone do Brintti! Dessa vez  certo!
 No! Tem certeza?!
 Quer ligar para ele? Ele no est mais aqui em So 
Paulo, est morando em outro Estado!
Grace estendeu o celular. No tnhamos telefone em 
casa. Liguei, sentindo o corao at bater mais forte. Como eu 
queria tornar a rever aquele homem... ser que ele ainda se 
lembrava de mim? Ser que se lembrava do que tinha 
acontecido? E como ser que ele estava? Mais de uma vez os 
Satanistas tinham me dito que ele no estava bem, que eu 
procurasse saber dele...
Atendeu! Tinha chegado o momento.
 Al?  disse algum.
 Al... por favor, o Pastor Brintti...
Parecia incrvel que ningum retrucasse falando que era 
engano. Ao contrrio, foram chamar!
 Al?  era a voz dele.
 Pastor Brintti? Quem est falando aqui  o Eduardo... 
 fui dando alguns dados para que ele se recordasse de quem 
eu era e em que circunstncias tnhamos nos conhecido.
Ele no demorou a lembrar. E depois, segundo ele, 
quando lembrou... no esqueceu mais!
Nossa conversa foi rpida, mas contei o quanto eu o 
havia procurado, que gostaria muito de v-lo, que estava 
lanando um livro... e se ele estava bem!
Depois entreguei o telefone a Grace, que conversou um 
pouco com ele. Os dois j se conheciam. Ela sabia o quanto 
aquele homem tinha sido atacado por ter sido o instrumento da 
minha libertao. Ento falou logo:
 Voc precisa ser ministrado, Pastor! Estou disposta a 
ir at a com Eduardo...
Por incrvel que parea, agendamos uma visita para a 
outra semana. nica data possvel para Grace. Restava que 
Deus enviasse dinheiro para a minha passagem. Embora Isabela 
tivesse querido muito ir junto, o dinheiro veio apenas para uma 
passagem.
Passei um final de semana em companhia dele e da 
famlia, com Grace. Praticamente todo o tempo foi gasto numa 
Ministrao relmpago. Fiquei sabendo um pouco do que tinha 
acontecido com ele. Pastor Brintti s no morreu e sua famlia 
no foi destruda porque Deus  Deus!... Ele passou por 
momentos terrveis, terrveis... tinha inclusive largado o 
Pastorado havia anos. Pastor Brintti no teve nenhum problema 
em aceitar aquela tarde que passou comigo no escritrio da 
Colina Verde como o estopim de todo aquele processo. (Leia 
Filho do Fogo.)
Foi um momento muito importante e especial. Pude 
pedir perdo pessoalmente e ajudar Grace na Ministrao, como 
intercessor. Quando voltei para casa, no agentava de saudades 
de Isabela. Falei nela o final da semana todo! No via a hora de 
rev-la. Ela foi me buscar no aeroporto e eu tinha muitas 
novidades a contar. Isabela tinha um carinho todo especial pelo 
Pastor Brintti apesar de ainda no conhec-lo.
  Ele vai vir para c em maro, eu fiz ele prometer que 
viria! Ele est completamente sem dinheiro, mas Deus vai 
providenciar!
 Para a celebrao?!  o rosto de Isabela se iluminou. 
Ela passou a falar como uma maritaca de tanta alegria.  Ah, 
mas que bom! Deus est atendendo o desejo do nosso corao, 
n, Eduardo? Lembra quantas vezes falamos em convidar o 
Pastor Brintti para o seu aniversrio de 33 anos?! Puxa, mas que 
coisa boa, que coisa boa... como Deus  bom, fez com que a 
gente achasse ele bem em cima da hora! Ele foi responsvel 
pela sua libertao, num primeiro momento, e agora nada mais 
valioso do que ele estar aqui quando este decreto de morte tiver 
enfim passado! Mas me conta, vai... como est ele, como ele 
tem passado de l para c?
Fui falando. Durante todo o trajeto de volta para casa 
contei sobre o final de semana. Depois voltamos a falar sobre a 
celebrao que pretendamos fazer na data do meu aniversrio. 
E sobre o fato de que Pastor Brintti ia vir. Dona Clara j tinha 
dado certeza, restava apenas saber da Grace. Em maro ela j 
estava cheia de seminrios, e no sabia se teria a data livre.
Mas tinha que dar certo! A gente queria muito que o 
Pastor Brintti viesse comemorar comigo aquele aniversrio 
especial, com Grace e Dona Clara. Ns j estvamos 
imaginando como ia ser, queramos fazer uma celebrao de 
gratido e jbilo a Deus quando tivssemos obtido a vitria!
Em menos de dois meses eu completaria 33 anos... at 
l, no entanto, a presso iria aumentar indescritivelmente... a 
Irmandade faria conosco uma verdadeira guerra de nervos, e a 
opresso  nossa volta iria crescer. Mas ns dois acreditvamos 
que aquele meu aniversrio seria a data de uma grande vitria! 
A primeira data j tinha passado, 31 de dezembro... agora vinha 
a data principal, o dia "D". O dia da vingana deles! A idade 
que eu nunca chegaria a ter, a idade de Cristo...
* * * *
Captulo 46
Ns havamos pedido a Deus um sinal a respeito da casa 
no Vale da Bno No comeo do ms tnhamos voltado para 
ver a casa por dentro. Era realmente maravilhosa para ns! Uma 
sala enorme, uma cozinha espaosa, uma lavanderia grande, 
uma despensa boa, trs quartos timos, sendo que um deles era 
uma enorme sute. Toda a casa era de piso frio, de ardsia verde 
e lajotes formando desenhos! Isso sem contar o quintal cheio 
de rvores frutferas, aquele p de amora estava carregado, a 
goiabeira tambm! Tinha limo, laranja, mamo, acerola. Um 
jardim bem grande, uma varanda gostosa, uma boa garagem... 
era demais!
Por isso pedimos o sinal pra Deus. Da nossa vontade, 
estvamos bem inclinados  mudana. Ento oramos, e tambm 
pedimos para Dona Clara estar orando. Grace estava viajando.
O sinal estabelecido era o seguinte: que no houvesse 
burocracia por parte do proprietrio na locao do imvel. O 
nome de Isabela estava protestado agora, e o meu prprio nome 
tambm, havia anos, desde a poca posterior  Irmandade. 
Tambm no tnhamos nem um fiador com quem contar. Esse 
era o primeiro dos sinais. Facilidade de tramitao! Que o 
proprietrio concordasse em nos alugar a casa naquelas 
condies.
O segundo sinal era a respeito do telefone: que a casa 
tivesse uma linha, ou ento que ele concordasse em abater do 
aluguel o valor da linha telefnica. Isto , se tivssemos de 
alugar uma linha, que o proprietrio concordasse em abater do 
aluguel este valor. Era imprescindvel t-la por causa da 
Internet. Morando longe de So Paulo no havia nenhuma 
facilidade em alugar a Rede por hora.
O dono da casa era um Pastor, muito simptico por sinal. 
Pastor Ademar. No dia em que fomos ver a casa estava l 
coordenando a pintura e fazendo algumas melhorias no quintal. 
Ele mesmo nos mostrou tudo, orgulhosamente, todas as 
dependncias. Falamos do nosso interesse e dissemos que 
estaramos orando ainda alguns dias. Ento entraramos em 
contato com ele. O Pastor garantiu que tambm estaria orando.
Quando voltamos a conversar, nossos sinais foram 
plenamente atendidos. A linha telefnica seria desativada e 
transferida para a me dele, mas Pastor Ademar concordou de 
pronto em deix-la na casa. Quanto  documentao, foi muito 
sincero:
 Ns oramos e sentimos muita paz. Eu realmente fui 
com a cara de vocs, vamos dispensar toda essa papelada! Se 
voc no quiser me pagar, no vai ser tudo isso que vai fazer a 
diferena! Eu creio que Deus est nessa histria, isso para mim 
me basta. Vamos fechar o contrato!
Foi muito mais fcil do que alugar o apartamento!
Nossa mudana aconteceu em um ms. Isabela e eu 
tnhamos estado ali pela primeira vez no dia 30 de dezembro. 
No dia 29 de janeiro, mudamos! As primeiras vendas dos livros 
nos garantiram dinheiro suficiente para pagar o transporte dos 
nossos poucos mveis. Para dizer a verdade, havia mais livros a 
serem transportados do que mveis! A pilha de livros virou um 
bom mvel, por sinal. Um bom lugar para apoiar coisas.
Agora estvamos totalmente na dependncia da 
vendagem, porque no era justo continuar vivendo das ofertas 
da Comunidade. Assim que lanamos o livro, conversamos com 
Dona Clara e abdicamos daquele valor. De qualquer forma, 
mudar para o Vale iria baratear um pouco nossas despesas 
mensais.
Na vspera da mudana, Dona Mrcia veio com Marina 
e a irm dela para fazer faxina na casa. Dona Mrcia estava 
encantada com nossa nova moradia. Sem dvida nenhuma, era 
muito melhor do que o apartamento!
Isabela estava cansada, coitada... nos primeiros dias 
estranhou muito a casa nova e estava muito triste. 
Especialmente porque ouviu o vizinho tocando msica alto! 
Havia muita frustrao, medo e insegurana no seu corao. 
Mas aquilo logo passou.
Os gatos adoraram o novo lugar! Como fossem ainda 
filhotes, o perodo de adaptao foi super tranqilo. No comeo 
eles tinham medo de sair no jardim, pisavam com todo cuidado 
na grama, um cho de textura completamente diferente para 
eles! Era divertidssimo observ-los. Isabela ficava de olho para 
que eles no se perdessem, e logo tanto um quanto outro 
estavam completamente  vontade com o lugar, sabiam de todas 
as entradas e sadas.
O nico problema  que a casa no tinha armrio 
embutido. A mudana foi feita de forma muito rpida e ns no 
tnhamos dinheiro para comprar um guarda-roupa. Sem saber o 
que fazer, as roupas ficaram simplesmente espalhadas pelo cho 
em um dos quartos. Parecia que uma bomba tinha explodido ali 
dentro, ns levaramos semanas para dobr-las e acomod-las 
mais ou menos. No cho,  claro! Elas ficaram meses no cho. 
Depois, penduramos trs varais ao longo das paredes e fizemos 
de cabideiro.
Parte do esgotamento de Isabela era tambm por causa 
dos problemas familiares. Na casa de Dona Mrcia havia muitas 
brigas entre eles, cada dia um problema para resolver. Havia 
tambm uma moa estrangeira hospedada l. No era muito 
fcil para Isabela sentir-se na vitrina. Qualquer pessoa que se 
hospedasse na casa de Dona Mrcia ficava incontestavelmente 
como espectadora de muita confuso!
Ainda mais naquele perodo...
Quanto a mim, uma boa novidade naquele final de ano e 
comeo de novo ano foi que Wang e Chen voltaram a me 
procurar. Foram vrios encontros evangelsticos. Isabela estava 
numa tremenda expectativa, pela converso deles. A cada 
encontro nosso ela ficava na retaguarda orando. Quando 
chegava em casa, me enchia de perguntas e queria saber de 
tudo. Realmente no demoraria muito mais a converso deles! 
Seria um presento de Deus para ns em fevereiro.
* * * *
No dia 5 de fevereiro recebi um telefonema de Grace. 
Ela ligou para nos alertar que tinham tido revelao de um 
ataque muito grande contra ns, de uma destruio sem 
precedentes. Que a Irmandade estava furiosa com o livro!
Agradeci, mas ela nem precisava ter falado nada. Ns 
estvamos plenamente cientes da grande guerra que estava por 
vir. Da mesma maneira como no dia 31 de dezembro o ataque 
veio, tnhamos certeza que prximo  data do meu aniversrio, 
no incio de maro, tudo poderia acontecer tambm...
Depois que Grace ligou, Isabela teve curiosidade em 
saber a fase da Lua. Aquilo seria um dado a mais para ns. 
Naquele dia estava comeando a Lua Nova. Dentro do contexto 
cabalstico dos Rituais de Morte, a Lua Nova est associada  
morte abrupta.  ceifa! Quando um encantamento  feito neste 
sentido, buscando a morte de algum, comea na Lua Nova, e 
pode haver trs a cinco saltos de onze dias. O nmero 11 faz 
aluso aos doze apstolos.  um nmero de morte, porque um 
deles morreu. Os saltos subseqentes significam golpes 
progressivamente mais fortes, que visam enfraquecer pouco a 
pouco a vtima at o momento do golpe final.
Era sinal suficiente de que estava comeando um 
perodo especfico... no dia 5 de maro comearia outra Lua 
Nova. Se Isabela no tivesse ido checar, eu no teria me dado a 
esse trabalho. Mas no deixava de ser um dado a mais, um dado 
importante. Dessa maneira percebemos que algumas datas se 
tornavam mais propcias do que outras para Encantamentos, e 
isso poderia nos fazer mais alertas! Dessa maneira tivemos uma 
revelao clara da estratgia do inimigo.
A partir do dia 5 de maro, o perodo era crtico de fato. 
Assim como dissera Grace, um ataque grande estava vindo. 
Comeava no dia 5 de fevereiro. Mas percebemos que era 
preciso estar muito espertos no somente neste perodo, mas 
especialmente a partir do dia 5 de maro. Meu aniversrio caa 
naquela semana de Lua Nova.
Como Isabela bem lembrou, o dia 5 de maro caa 
dentro do perodo do Carnaval.
 Olha s como eles esto preparando... no Carnaval, 
pra variar, vai ser muito difcil encontrar algum! Dona Clara 
vai estar viajando, Grace vai estar sumida.  preciso deix-las 
de sobreaviso porque a chance de acontecer alguma coisa no 
perodo do Carnaval  grande. No s pela fase da Lua, mas 
porque voc no deveria amanhecer no dia 9. Portanto, alguma 
coisa tem que acontecer antes...
No dia seguinte, dia 6 de fevereiro, sentimos muito clara 
a direo de Deus para iniciar o jejum. Optamos por 33 dias de 
jejum parcial. Eram 33 anos... e resolvemos fazer 33 dias de 
jejum para que Deus nos concedesse a vitria. Era fundamental 
estarmos completamente preparados para o confronto. Nem 
paramos para pensar, a no ser depois, mas o ltimo dia do 
jejum coincidia exatamente com o ltimo dos saltos de 11 dias. 
Alm disso, o primeiro dia aps o jejum era o dia da celebrao 
de vitria!
Tnhamos conscincia de que todo o preparo possvel 
era totalmente necessrio! Foram dias de uno diria da casa, 
de orao, na leitura da Palavra... e de muita luta.
Enquanto isso, a gente se divertia arrumando nosso lar. 
Tiramos vrias fotografias de todos os cantos da casa, nos 
alegramos com cada detalhe, cada coisinha que Deus nos dava. 
No tnhamos mais a "Dona Dela", mas um dos vizinhos fazia 
po caseiro... na cidadezinha ali perto descobrimos uma mulher 
que tinha algumas vacas e fazia queijo caseiro. Uma delcia de 
queijo, e barato! O "supermercado" era aquela coisa, um 
mercadinho de interior, mas vendia um delicioso suspiro! Um 
suspiro que no tinha em So Paulo.
Tambm exploramos os arredores para nos deleitarmos 
com a paisagem. Eram montes verdes ao redor de todo o Vale, e 
em todo canto a gente via a natureza. Vacas e bezerros tambm. 
At mesmo vrios carneiros, que pastavam dentro de um 
enorme gramado na Misso. Dentro da Misso havia tambm 
um lago com patos! Nunca tinha ningum l, era um reduto 
quase que particular. E tambm podamos aproveitar o refeitrio 
quando quisssemos, a refeio era barata.
De manh, eu gostava de coar o caf, e Isabela chamava 
"Nen" no quarto. A gente sentava  mesa observando o sol que 
batia na janela. Em todo o tempo que moramos l, nunca nos 
cansamos da vista. s vezes Isabela ficava bastante tempo na 
nossa varanda, no final da tarde, sentada no cho observando o 
horizonte.
Logo ns teramos condio de comprar duas cadeiras 
de balano de pano, uma promoo do Wal Mart. Da ela j no 
precisava mais ficar sentada no cho. De noite, era um silncio 
profundo, gostoso... quebrado to-somente pelo "cri-cri-cri" dos 
grilos.
At a msica do vizinho, que a princpio incomodou 
muito Isabela, acabou. Oramos a respeito daquilo, inclusive com 
Dona Clara, e Isabela compartilhou sua frustrao e tristeza.
 O que eu mais tinha pedido a Deus  que Ele nos 
trouxesse para um lugar de silncio, de paz! De paz! E agora eu 
tenho uma vizinha, uma mulher crente que escuta reggae, escuta 
funk, escuta rdio alto! No  possvel, no  nem mesmo um 
Louvor!
Quando oramos, no demorou muito e eles mudaram. O 
dono da casa ao lado era tambm o Pastor Ademar, e ele estava 
cheio da inadimplncia daquele inquilino. At um "gato" ele 
tinha puxado do poste da frente para no pagar a luz. Dentre 
outros tantos problemas...
A verdade  que a casa ficou vazia! E tivemos sossego.
* * * *
No primeiro dia do jejum, fui at So Paulo porque tinha 
coisas a fazer. Aproveitei para visitar minha me, e fomos 
juntos at o Shopping mais tarde, s para tomar um lanche. Ela 
tinha conhecido nosso apartamento, minha av tambm. Mas 
agora ainda no tinha a menor idia de onde estvamos 
morando. Mas eu contei com todo entusiasmo sobre a casa, 
sobre o pomar, sobre o po e o queijo caseiros, sobre as vacas, 
sobre a paisagem...
Ela no se interessava por nada disso, e realmente no 
conseguia compreender como ns tnhamos sado da cidade 
para aquele fim de mundo! Cada louco com sua mania...
Assim que terminamos de subir a escada rolante 
encontramos um conhecido! E que conhecido\ Foi minha me 
quem o viu primeiro.
Ela olhou para aquele homem de cala jeans e camisa 
para fora da cala e seu rosto subitamente adquiriu outra 
expresso. Olhei para onde ela estava olhando, e vi que Marlon 
tambm olhava para ns. E veio caminhando na nossa direo. 
Ele tambm parecia sinceramente surpreso, no estava 
esperando por aquele encontro.
Mesmo assim, olhou para ns com um sorriso e 
realmente fez meno de se aproximar.
No dei chance. Peguei minha me pelo brao e demos 
meia-volta, descemos a escada rolante de novo. Ela parecia 
bastante confusa:
 Voc conhece aquele homem?
 Conheo... voc no?cutuquei.
De fato, ela estava incomodada. Percebi que o tinha 
reconhecido, mesmo depois de mais de 30 anos. Se minha me 
acompanhasse melhor os noticirios, j o teria visto antes. Mas 
aquela figura do passado despencou na frente dela sem qualquer 
aviso prvio.
 Acho que eu estou confundindo com algum...  ela 
no se deu por achada.
A sua reao foi o que me bastou. Qualquer dvida que 
ainda pudesse ter, agora j no tinha mais.
Trs dias depois, no dia 9 de fevereiro (sempre 
sugestivo), tivemos um monte de problemas. Eu e Isabela nos 
desencontramos, tnhamos combinado um horrio no final do 
dia pois eu tinha ido me encontrar com Wang e Chen. Tive 
vrios contratempos, Isabela tentou me bipar, mas por algum 
motivo no recebi o bip. Ela comeou a ficar com muito medo, 
eram quase nove horas da noite, muito mais tarde do que a gente 
tinha marcado.
Eu tentava ligar para a casa de Dona Mrcia, onde ela 
estava, mas a tempestade que caiu naquele dia deixou toda a 
regio sem luz. A secretria eletrnica no funcionava sem luz, 
de forma que no conseguia ligao. Tanto eu quanto ela j 
estvamos bastante preocupados, at que recebi um bip de 
Isabela dizendo que estava na casa da vizinha, para eu ligar para 
l.
Todo o medo e estresse dela a tornaram muito irritada. 
Acabamos tendo uma pequena confuso na volta para casa. 
Pequena  modo de dizer: no bati o carro na estrada porque 
Deus no quis!
Felizmente conseguimos orar em tempo... mas isso no 
impediu que Isabela voltasse para casa muito chateada. Ela 
deitou no sof, tristonha e desanimada. Resolvi refrescar a 
cabea abrindo minha caixa de correio. Antes de efetivamente 
abri-la, aquela sensao estranha me invadiu. Aquela sensao 
j minha conhecida e que acompanhava o discernimento 
espiritual.
"Tem alguma coisa estranha aqui na caixa... no posso 
abrir sem orar antes..."
Chamei Isabela. Tnhamos montado o escritrio no 
segundo ambiente da sala, aquele espaoso recinto um degrau 
abaixo do restante da sala. Eu ergui a cabea para olhar por 
cima da amurada que separava o recinto do escritrio do resto.
 Isabela!
Ela olhou para mim.
 Acho que temos que orar...  no podia ignorar o 
que Deus estava me dizendo. Imediatamente Isabela ergueu a 
cabea.
 Porqu?
 Eu acho... quer dizer, tenho quase certeza...
 Que foi?  dessa vez ela se ergueu do sof.
 Acho que eles enviaram alguma coisa!
Ela veio para perto de mim. Sentou-se no cho, 
realmente desanimada.
 Essas coisas tm de chegar na hora H, no  mesmo? 
Nunca  num dia em que a gente est bem, feliz, bem-
humorado! Que ser agora, meu Deus....
Encolhida no cho, de pernas cruzadas e com os 
cotovelos apoiados nela, segurava o queixo com as duas mos. 
Mas, por dentro sentia aquela onda de inquietao, de temor, 
que se transformava em calafrios involuntrios por causa da 
expectativa. Eu no me sentia muito mais confortvel.
 Vamos orar... Senhor Deus, pedimos que o Senhor 
passe Teu Fogo sobre este computador e o limpe de toda 
contaminao. Todo encantamento e feitio que porventura 
estejam acompanhando a carta deles, cancela, torna inoperante, 
em nome de Jesus. Cerca nossa casa com os anjos, cerca os 
animais, cerca nosso corpo, alma e esprito. Estende Tuas 
Muralhas de Fogo ao redor da casa, em torno de toda a casa, por 
cima e por baixo, e d ordens aos Teus anjos para que nos 
protejam. Protege tambm nossa mente de toda a mentira e 
artimanha do inimigo. Nos cobre com o sangue do Cordeiro! 
Em nome de Jesus, amm.
 Amm!  concordou Isabela.
Erguemos nossos rostos, srios, com o corao batendo 
um pouco mais forte. Escutei Isabela inspirar fundo. Eu 
chacoalhava minha perna esquerda instintivamente, rpido. 
Enquanto a gente esperava o computador se aviar, comentei, s 
para quebrar o silncio:
 Pode ser tambm que seja um alarme falso, pode ser 
que no seja nada que eu tenha me enganado!...
Isabela nem respondeu, mas mantinha os olhos fixos na 
tela. Ela tinha mais certeza daquilo do que eu mesmo. E 
retrucou:
 Sempre que voc comea assim, a coisa sempre se 
confirma... L estava ela. A mensagem. LeviathanTrevas. 
Novamente. Abri. Dizia assim:
"Quando te vi recentemente ao lado de sua me minha 
vontade foi de abra-lo e dizer o quanto eu te amo, filho meu. 
 lamentvel que o destino nos tenha separado. Li seu livro, est 
bem escrito, d meus parabns  sua esposa. Voc realmente 
descortinou os nossos segredos, mas sabe... voc tem razo. J 
viu um bom filme? Voc sabe que  tudo mentira, mas paga 
para ver, se anima, se envolve. Isto lhe d vida. No posso sair 
mais, voc sabe disso. Nem deveria lhe dizer isso, no ? Mas 
voc  meu filho, e um pai pode se abrir com o filho, no pode? 
No podemos toc-lo. Nossos mais poderosos Encantamentos 
no tm atingido vocs, pois a Guarda que Deus te deu  mais 
poderosa do que nossos feitios. Agora mesmo sua casa est 
cercada de anjos e Miguel os est guardando. Mas voc sabe, a 
famlia dela no tem f, no tem preparo, eles so muito 
vulnerveis e fceis de atingir. No deveria dizer isso, e sei que 
corro perigo por faz-lo, mas orem por eles pois sero muito 
atacados e seu cunhado no vai passar no exame que vai fazer, e 
muitas brigas ainda viro. Haver diviso do lar e o Devorador 
vai entrar. Quanto a vocs, cuidem-se, pois Lucifr os visitar 
no incio de maro. Fiquem alerta. De fato vivo um Inferno... 
mas no sei como sair desse negro mundo. Orem por mim."
Eu e Isabela custamos a engolir aquelas palavras. Deus 
havia sinalizado que algo estava vindo do lado de l, mas nem 
em sonho nos passaria pela cabea tais palavras. Por mais que 
parecessem ser sinceras, por si s aquele veculo (a caixa de 
correio LeviathanTrevas) j era contaminada. Deus no nos 
queria pegos de surpresa! E tambm poderia no ser verdade...
 O que voc acha disso?  perguntei a Isabela.
 Sei l... ele s falou coisas verdadeiras. Falou at do 
Mikhael! Do princpio de maro... est mesmo sendo sincero... 
ou  s mais uma armadilha?
 O que ele estaria ganhando em falar a verdade?
 Isso . Talvez eles no tenham tido como saber que 
ns j sabemos sobre o incio de maro. Ele est dando uma 
informao correta! Ns sabemos que o leo vai nos visitar...
 Mas ele no sabia que a gente sabia. Para todos os 
efeitos, est entregando o ouro! E quer mais do que essa coisa 
sobre a sua casa?
Isabela passava a mo na cabea vez aps vez, 
raciocinando. Estava inquieta.
 E essa histria do... do exame do Marco? Isso no 
pode acontecer! Ele tem que passar!
 Quer mais do que ele afirmar que nossa casa est 
cheia de anjos?
 At a, ele poderia estar passando uma falsa idia 
para ns, se acharmos que estamos muito protegidos, podemos 
deixar de fazer a nossa parte e ficar vulnerveis justamente por 
causa disso! Mas... realmente  uma carta bem estranha.
  estranha justamente porque  sincera. At elogiou o 
livro! Falou que a Irmandade  um Inferno...
Isabela inspirou fundo.
 Nada disso me importa, estou preocupado com o 
exame do Marco. Isso no pode acontecer! Vamos orar?
Oramos por Marco e tambm por aquela carta to 
esquisita. Depois disso, Isabela foi tomar banho. No fiquei 
sabendo, mas no banheiro ela orou intensamente pelo seu irmo. 
Mais tarde, viria a dizer que foi uma intercesso estranha, 
diferente... praticamente no reconhecia as lnguas que estava 
falando naquele momento, entre lgrimas, suplicando a Deus 
que no permitisse uma coisa daquelas!
Depois do banho, veio at mim, muito preocupada e 
inquieta.
 Precisamos falar com a Grace. Marco precisa orar 
com a Grace! No sei dizer por que, mas isso  urgente! 
Precisamos ligar pra ela, falar dessa carta e dessas ameaas. O 
exame est a mesmo, Marco precisa ser ministrado, ela precisa 
orar com ele neste aspecto.
Nem sei como aquele encontro aconteceu. Fomos 
debaixo de chuva at o lugar onde ela estava dando curso. 
Marco e Dona Mrcia foram tambm. Naquela tarde realmente 
Marco orou com Grace. E ele passou no exame!
Mas se no fosse aquele aviso, aquela intercesso de 
Isabela no aconteceria, nem o encontro com Grace. Cremos 
que Deus trouxe livramento dessa forma! Mesmo assim, os 
problemas para o lado deles no terminaram.
* * * *
Alguns dias depois recebemos uma boa notcia, no meio 
de tudo aquilo! Uma pessoa que eu estava evangelizando havia 
algum tempo tinha pedido um "sinal" para Deus. Se o sinal 
fosse positivo, ele iria abraar o Cristianismo. Se no, deixaria 
tudo de lado. Ns tnhamos bastante convico de que aquele 
era um pedido que fazia parte dos planos do prprio Deus.
Naquele dia Isabela havia orado pedindo que Deus 
realmente concedesse o sinal, e que se fosse o caso, inclusive 
enviasse um anjo para falar com aquela pessoa. No meio da 
noite, de madrugada, recebi o telefonema. Ele estava 
completamente sem fala dizendo que tinha visto um anjo, e o 
anjo lhe dissera que aquele sinal fora concedido porque Isabela 
pedira!
Ns dois, Isabela e eu, choramos de alegria com aquela 
resposta incrvel de Deus.
 Deus tem respondido as minhas oraes de outra 
forma...  murmurou Isabela.  Desde a Ministrao, e desde 
a uno, que tenho percebido esse mover de Deus de uma forma 
diferente!
Foi uma injeo de nimo no meio daquele ms cheio de 
cansao, angstia e expectativa. Ns continuvamos com o 
jejum, as oraes, a uno da casa s vezes Isabela ia at a 
casinha de orao do Vale da Bno para orar ali no telhado 
Na verdade, o telhado da casinha era uma laje, e tinha at 
mesmo um caminhozinho para chegar l. Por isso ela nunca 
entrava dentro da casinha, ficava sempre no topo.
Quase no final do ms recebemos um recado de 
Anglica. Isabela tinha feito bastante empatia com ela, e as duas 
inclusive saram juntas algumas vezes desde que se tinham 
conhecido na Ministrao. Surgiu ali uma amizade, 
especialmente porque Anglica tinha traos de carter 
semelhante aos de Isabela. Ela estava, naturalmente, de 
sobreaviso em relao ao meu aniversrio de 33 anos.
Recebi um bip de Anglica pedindo que Isabela ligasse 
em seguida. Prontamente Isabela foi para o telefone. As duas 
conversaram durante algum tempo e depois Isabela veio me 
contar.
 A Anglica est orando mesmo pela gente. E ela j 
tinha me dito que se Deus mostrasse alguma coisa, entraria em 
contato.
 E a?
 Ela tem orado junto com a me. Tem conscincia de 
que  importante orao em concordncia... no quer entrar de 
cabea, de frente, e sozinha. No que est muito certa! Mas 
enfim... hoje elas tiveram trs vises.
Sim.
 A primeira era de uma rede que estava solta no ar, e 
que tinha fios muito longos que podiam controlar coisas a 
grandes distncias. Ns sabemos que eles esto usando esse tipo 
de coisa, controle a distncia...  para a gente estar orando, algo 
para ficarmos espertos... foi exatamente o que aconteceu com 
voc no final do ano. Ela disse que essa rede tinha sido dobrada, 
mas no queimada... quer dizer, a impresso que d  que eles 
ainda podem fazer uso dela. Viu tambm uma p para recolher 
um cadver  ela olhou para mim significativamente.  Nada 
de novo debaixo do sol!
 . Tudo isso serve de confirmao. No 
necessariamente acrescenta algo novo, mas confirma o que j 
sabemos.
 A outra viso foi de algo semelhante a um objeto 
oriental, um objeto de invocao de demnios. Por trs dele tem 
um demnio de Poder muito grande, uma serpente de metal. Ela 
tem olhos que hipnotizam, eles primeiro paralisam a vtima e 
depois a prpria serpente a mata.
 Que ser que isso quer dizer? Isabela sacudiu a 
cabea.
 No sei. Anglica tambm no sabia. Ela apenas 
repassou a viso para que ns estivssemos orando.
 Bem... vamos orar, vamos continuar orando... se 
alguma dessas coisas que no entendemos de imediato for 
realmente importante, Deus vai falar.
* * * *
Trs dias depois disso o recado veio por telefone. Claro 
que antes o terreno era preparado. Meu irmo Roberto tinha 
vindo nos visitar em casa. Tomou um caf conosco, ns dois o 
recebemos o melhor possvel. Ficamos imaginando que talvez 
fosse haver uma aproximao entre ns. Quando ele chegou  
casa de minha me, depois da visita, ainda comentou com 
minha famlia, em atitude apaziguadora:
 Isabela no  tudo aquilo que vocs pensam! Ela me 
tratou muito bem... Alguns comentrios pouco sbios acabaram 
chegando at nossos ouvidos.
Aquele era um assunto tabu.
Foi o que serviu para comear a discusso. Naquele 
incio de ms as brigas estavam acontecendo quase todo dia, 
tudo  nossa volta parecia ferver, estvamos descontrolados 
apesar do jejum, das oraes, da uno...
Ficamos estremecidos at de noite. Mas no tinha sado 
nenhuma discusso sria. A noite j estava avanada e ns 
estvamos mais ou menos equilibrados. Isabela estava um 
pouco triste, orando na varanda, observando a noite; e eu fiquei 
deitado no sof dentro de casa, ouvindo walkman.
Assim que tirei o fone do ouvido, o telefone tocou. Era 
meia-noite e meia. Antes mesmo de atender senti que era 
alguma coisa ruim. Nem tive tempo de falar al, pois demorei 
propositadamente.
Imediatamente a voz de Thalya veio do outro lado:
 Eu estava esperando voc tirar o fone do ouvido. 
Lucifr vai vir, e no ficar pedra sobre pedra. No tem 
ningum protegendo vocs! Se tivesse, eu no teria to 
facilmente a informao sobre seu fone de ouvido. Ela no  
mulher pra voc. Se voc ainda quiser fazer algo prazeroso nos 
seus ltimos dias, pode me procurar. Ela  a pedra de tropeo 
usada para te atacar. No s no tem ningum te protegendo, 
como aqueles que estavam ao seu lado esto caindo um aps 
outro. A "Clarinha" foi parar no Pronto-socorro com falta de 
ar... e teve no sei quem a que viu uma serpente, no ? Esse  
Leviathan paralisando os intercessores! No se esquea de nada 
do que eu estou dizendo.
E desligou. Fiquei completamente paralisado com o 
telefone na mo.
Tivemos quatro dias de sossego. Entrou o ms de maro. 
No dia primeiro fomos  Igreja de manh, no Culto das 
mulheres, como de costume, especialmente naquele uma amiga 
de Marco ia ser batizada. Foi gostoso assistir ao Batismo, estava 
um clima gostoso na Igreja, eu me sentia bem e Isabela tambm. 
Apesar da nossa dificuldade financeira, compramos uma 
pequena lembrancinha, apenas um smbolo de amizade, para a 
moa que estava se batizando.
Assim que chegamos perto dela para cumprimentar, 
alegres, querendo falar de Deus, sobre o que Deus tinha feito na 
vida dela, nem deu tempo... logo enveredaram para o assunto de 
Irmandade e fizeram uma pergunta chata naquele momento:
 Posso ver a marca que voc tem na mo?  no fez 
por mal, foi s curiosidade. Aquilo foi um banho de gua 
gelada, especialmente era Isabela. Ela estava um pouco saturada 
daquele assunto. Tinha acabado de escrever o livro, o ltimo 
ano tinha sido terrvel, e os ltimos dias estavam carregadas de 
tenso. Tudo o que ela no queria falar naquele momento era 
sobre Irmandade, sobre Satanismo!
Ficou quieta, mas depois eu e ela acabamos brigando por 
causa daquele assunto. Nem sei como abriga comeou, mas 
pegou fogo. Isabela acabou dando um verdadeiro show na casa 
da me dela. No incio foi s entre ns, mas eu detestava passar 
constrangimento, e as atitudes dela me irritaram. Eu descontei 
com palavras. Isabela ficou to descontrolada que, no pice do 
desespero e da angstia, saiu da casa de Dona Mrcia batendo a 
porta, com a cabea completamente fora do lugar.
Ningum fez nada. S ficaram olhando como quem diz:: 
"Tpico"! Quando Isabela saiu, Marco me chamou para orar. 
Mas ele no estava preocupado com ela.
 Ela volta  disse para mim.
Ligamos para Dona Clara mas foi difcil a comunicao. 
Ela vinha sofrendo muitos ataques e estava proibida de entrar 
em guerra pelo Mdico, um Mdico Cristo. Enfim Isabela 
voltou, quase duas horas depois. Mas estava um clima pssimo 
ali. Dona Mrcia olhava torto, sem entender o por que daquela 
atitude. E Isabela tambm se sentia pssima diante de todos.
No havia muito que fazer ali, diante daquele clima de 
julgamento, ento ela novamente virou as costas e saiu. Levou 
mais uma hora e meia at telefonar, do Shopping ali perto, 
aonde tinha ido caminhando. Eu fui busc-la e ento fomos 
embora para nossa casa.
Na estrada ela estava muito calada. Em contrapartida, 
tambm extremamente agitada. No parava quieta, no parava 
de se contorcer, de passar as mos pela cabea, uma atitude 
muito estranha. Fiquei preocupado. Comecei a orar. Mas ela no 
melhorou.
Quando chegamos em casa, orei um pouco mais e, 
estranhamente, ela no queria fazer o mesmo. Estava no limite 
das suas foras,  beira do esgotamento. Sentia-se pssima, 
pssima, e muito inquieta. Seus braos estavam machucados 
pelos arranhes...
Ento fui buscar o leo para ungi-la.
Isabela s chorava, totalmente moda.  difcil expressar 
em termos humanos aquilo que experimentamos como um 
verdadeiro massacre espiritual: no h palavras fortes o 
suficiente. Alm do desgaste espiritual daquele dia, tambm o 
desgaste emocional tinha sido excessivo. No s pelo contexto 
da briga e das palavras que escutara, mas tambm por causa da 
atitude pouco conciliatria dos demais.
E pensar que ela estava to feliz de manh, dando aquele 
presentinho na hora do Batismo. Durou muito pouco...
 Onde voc ficou o tempo todo?
 Da primeira vez que sa fiquei na rua mesmo, sentei 
na calada, fiquei chorando ali... estava me sentindo muito 
triste, muito magoada. Queria morrer! No  a primeira vez que 
me sinto assim.
Eu sabia que aquela expresso no era apenas fora de 
expresso. Quando Isabela falava assim, ela estava sinalizando 
um sentimento literal. No se tratava de uma ladainha.
 Tem horas que no sei porque estou viva...
  bom a gente se reconciliar... Deus est avisando 
que tem um outro e-mail deles. Estou esperando tudo estar bem 
para poder abrir...
A expresso dela era de total desalento. Nem diante 
daquela explicao Isabela resolveu orar.
 Se Deus quisesse que eu orasse agora, que tivesse me 
proporcionado um dia mais tranqilo. Estou cheia de ter que 
fazer das tripas corao, acertar sempre, ser a grande herona 
sempre! Pois hoje no tenho mais fora pra fazer nada! Essas 
porcarias vm sempre na hora certa, na hora em que eu estou 
"melhor"! Se voc precisa orar, que ore com Grace ou com 
Dona Clara. Eu estou literalmente esgotada!
No consegui falar com elas. Ento orei sozinho mesmo. 
E abri a caixa: LeviathanTrevas mais uma vez. Aquilo j estava 
sem graa.
"Elevo os olhos para os montes, de onde me vir o 
socorro? Os ltimos batedores foram liberados. O tempo 
chegou! Voc j est comeando a enfrentar as suas mais 
profundas dores. Seu pai no quis sentar-se a esta mesa, ele 
ainda sente sua falta. Voc ser destrudo, tambm essa que te 
acompanha e a famlia de bosta dela. Depois de muito 
sofrimento. Que voc se lembre disso quando der o seu ltimo 
suspiro. Zrdico."
Meu sentimento depois de ler aquilo era indecifrvel at 
mesmo para mim.
Voltei para perto de Isabela. Ela leu no meu rosto a 
melancolia. Mas por causa de seu abatimento, pela primeira vez 
no fez perguntas. Eu quis orar mais uma vez. Somente depois 
disso ela se sentiu um pouco melhor. E criou coragem para 
saber da carta. At aquele momento, estava se poupando...
Nosso sentimento era de desnimo. De cansao. De 
letargia. Muito difcil de dizer. Quem tinha passado pela mesma 
coisa, para poder nos consolar naquela hora?
 O que ele quis dizer com batedores?  perguntou 
Isabela por fim.
 Ah, isso! Bom... um batedor  uma pessoa que faz 
parte da escolta de algum muito importante, de uma alta 
personalidade. Geralmente so aqueles que precedem, em 
ocasies solenes, algum importantssimo... entendeu o que ele 
quis dizer?
 Sim... eles j deixaram bem claro tudo isso. Quem 
est vindo, e que  essa alta personalidade,  o prprio, n?
 O "leo", como eles mesmos disseram. Lucifr.
 E os batedores so aqueles Principados que fazem 
parte da alta escolta dele...
 Esto abrindo alas... preparando o caminho... para 
que realmente no reste pedra sobre pedra.
Como era muito difcil traduzir o sentimento do nosso 
corao.....profundas dores? Talvez nisso houvesse um pingo de 
verdade.
Aquele ltimo ms estava sendo terrvel. De uma 
opresso muito densa. De profundas dores. To profundas que 
jamais encontraremos uma maneira de traduzi-las plenamente. 
Apenas aquele que viver uma situao semelhante poder 
conhecer a realidade disto tudo.
Nossa mente absorvia aquela informao... saber que os 
batedores foram liberados durante todo aquele perodo dava 
mais crdito  revelao do Feitio de Morte que tinha 
comeado na Lua Nova, e os saltos de onze dias...
Restava apenas esperar.
Agora faltava pouco.
No era a primeira vez que falavam do "leo". Tempos 
atrs haviam mandado um bip neste mesmo sentido.
* * * *
Enfim chegou a sexta-feira, vspera do feriado de 
Carnaval. O perodo crtico estava comeando. Como fruto 
daquela inquietao, j fazia dois dias que Isabela no dormia 
praticamente nada e ainda estava um pouco estremecida comigo 
por causa do dia do Batismo.
Levantamos naquela manh e fomos at o banco em So 
Roque, precisava pagar umas contas sem demora. No entanto, 
discutimos por besteira, por causa do lugar de estacionar o 
carro.
Nada daquilo era normal!
Que Deus tivesse misericrdia! O bem que ns 
queramos fazer, no conseguamos... mas o mal que no 
queramos... ah! Como era possvel no termos controle sobre 
ns mesmos?!! Aquilo poderia custar a nossa vida!!
A que ponto chegava o Poder do encantamento... o 
Poder de Principados e Potestades?! O Poder do prprio 
Satans?! Aquilo era inconcebvel!
Quem sente na prpria pele o furor da guerra no tem 
prazer algum em senti-lo novamente... quem dera Deus passasse 
de ns... simplesmente passasse de ns aquela incumbncia!!!
Peguei a estrada dirigindo como doido. Aquilo foi mais 
porque sentia opresso na cidade, aquilo me incomodava mais 
do que tudo. Eu queria sair dali. parecia haver demnios em 
toda parte! A impresso que ns tnhamos era de que no 
chegaramos vivos ao Vale.
A pedido de Isabela, paramos o carro no acostamento e 
oramos um pouco. Nada era to difcil quanto orar naqueles 
momentos... que tarefa quase impossvel era esta, dominar a 
carne que se revolve loucamente, esmagada pelas circunstncias 
e pelos demnios!
Nosso emocional estava abaixo de zero... nosso fsico 
estava abaixo de zero... somente o esprito poderia fazer alguma 
coisa til. Mas como era difcil dar vazo ao esprito... como era 
difcil retomar o equilbrio!
Que momentos de terror e angstia tenebrosa... ah! 
Esprito Santo de Deus... onde existe fora em ns para 
resistir??? Onde?!
Nossa curta orao na estrada fez com que 
consegussemos chegar ao Vale. Fomos direto para a casinha de 
orao. Senti a ira e o mal estar diminuindo s pelo fato de estar 
ali, agora eu no sentia opresso...
Isabela se sentou num daqueles bancos que ficam ao 
longo do caminho de subida at a casinha. Estava triste. Orei e 
pedi tambm que ela orasse por mim.
 Ora por mim como minha auxiliadora.
Aquela minha atitude fez com que ela tambm mudasse 
de pronto. Ento atendeu ao meu pedido. Comeou orando 
lentamente, devagar, procurando as palavras... buscando fora 
naquele mar de intensa fraqueza.
 Oh! Senhor... que Tu possas dar a Eduardo uma viso 
de Ti mesmo. Uma viso do prprio Deus! Que a sua maior 
arma seja o amor. O diabo no pode nada contra o amor. Que o 
Senhor possa capacitar Teu filho a ver todas as situaes com os 
olhos do Esprito, para que, assim, a sua alma possa ser 
controlada... a carne no pode controlar a carne ... apenas o 
esprito pode fazer morrer a carne. Nos ajuda nestes dias... nos 
traz a vitria! Como est sendo difcil, meu Pai... como est 
sendo difcil...
Seguiu orando um pouco mais, suplicando por fora e 
coragem. E por proteo. Aquela era nossa incessante petio 
naqueles dias. Incrivelmente... aqueles breves minutos que 
ficamos na presena de Deus foram suficientes para nos pr em 
ordem outra vez. E tudo ficou bem. Isabela ficou na casinha e 
eu fui telefonar, voltei depois.
Da ficamos conversando, aproveitando o resto daquele 
dia ensolarado e bonito.
Ia haver um acampamento ali no Vale. Na sexta-feira  
noite mesmo comearam a chegar as pessoas, havia vrios 
nibus dentro da misso. Ns demos uma xeretada, era at 
estranho ver tudo to cheio!
No sbado  tarde ficamos em casa, bem guardados. 
Depois do almoo cada um se distraiu com suas prprias coisas. 
Eu fui abrir minha caixa de correio e Isabela estava sentada no 
sof grifando sua Bblia. Como estivesse pintando muito, at 
perguntei, l pelas tantas:
 O que que voc tanto pinta a?
 Estou grifando com uma cor s trechos dos Salmos 
que falam que Deus trouxe vitria sobre os inimigos... sabe o 
que eu estava pensando? A gente poderia ungir todo o 
condomnio, declarando estas Palavras. Jogamos umas gotinhas 
de leo nas esquinas das ruas, oramos e declaramos essa Palavra 
de vitria.
Por algum motivo, concordei. Foi a nica vez que 
fizemos algo assim. Estvamos esperando exatamente por 
aquilo que a Irmandade havia dito: isto , o leo. Era melhor 
estarmos preparados.
Convictos de que aquela era uma direo de Deus, algo 
especfico para aquele momento, no domingo foi exatamente 
isso que fizemos. Fomos andando bem devagarinho com o carro 
por todo o condomnio (no a Misso). Isabela declarava os 
trechos grifados dos Salmos, e cada vez que havia uma 
encruzilhada com duas ruas, parvamos o carro, derrubvamos 
algumas gotinhas de leo no cho.
Nossa orao principal era de declarao de vitria, no 
repreendemos demnio algum. O objetivo no era este, era um 
momento de consagrao daquele lugar, um momento de pedir 
proteo, um momento de declarar a Soberania do Senhor 
Aqueles que iam vir, nossos inimigos... no estavam ali ainda. 
Mas quando chegassem, haveriam de ter uma surpresa.
Pedimos que Deus estendesse Fogo por todas as ruas 
daquele condomnio, e enviasse Exrcitos de anjos, e cobrisse 
tudo com sua proteo. Em cada rua, em cada esquina, assim 
fazamos.
  "Tu s nosso Deus, acode as nossas splicas. Fora 
da nossa salvao, protege nossa cabea nestes dias de batalha. 
Guarda-nos das mos de nossos inimigos, nos preserva dos 
homens violentos! A nossa alma ser salva, quebra-se os laos, 
e ns estaremos livres! Nosso socorro est no Teu Nome. O 
Senhor adestra nossas mos para a batalha e os dedos para a 
guerra; Tu s nossa fortaleza e misericrdia, alto refgio, nosso 
Libertador. Abaixa Senhor, os Teus cus e desce; toca os 
montes e fumegaro. Estende a mo l do Alto; Tu nos livrars 
das guas e do poder de estranhos, cuja boca profere mentiras e 
cuja direita  direita de falsidade."
Envia toda a proteo necessria, estende fileiras de 
guerreiros ao longo destas ruas... cobre com Fogo este lugar! E 
que teus Exrcitos fiquem  espera do inimigo, no momento 
certo.
Era certo que Lucifr no viria sozinho. O nosso 
Exrcito tinha que ser maior do que o dele.
Depois que voltamos para casa ungimos tambm nossas 
portas e janelas, os muros, o carro, os animais. E pedimos que 
Deus estendesse um cerco de Querubins ao redor da nossa 
moradia.
 Pai, Tu sabes que o diabo  um Querubim. Envia 
anjos da mesma patente que a dele, envia Querubins.  ns no 
sabamos se era certo pedir algo assim, mas pedimos. Deus 
sabia o tamanho daquela batalha.  Cerca nossa casa com 
muralhas de Fogo, e com cerco de anjos em toda a extenso do 
nosso terreno, do jardim ao fundo do quintal. Transforma este 
lugar numa fortaleza!
Levamos um tempo razovel para fazer tudo isso. 
Terminamos com a conscincia limpa e tranqila... estava feito!
Restava continuar esperando.
* * * *
 Captulo 47
Ainda  naquele domingo, no comeo da noite fomos 
comer no refeitrio da misso. Depois ficaramos para assistir o 
Culto ali, no iramos at a Comunidade. J estvamos fazendo 
isso desde sexta-feira, aproveitvamos a Palavra quase sem sair 
de casa. Alis, no queramos mesmo sair do Vale. Era mais 
seguro. Naquele domingo comeava a Lua Nova. Era dia 5 de 
maro.
O refeitrio estava bem cheio, quando samos de l e 
fomos buscar nosso carro, entardecia. Logo mais s oito horas 
da noite comearia o Culto. Olhei para o cu. Ele tinha 
adquirido aquele tom azul cobalto, profundo... mas estava 
diferente... por uma razo que a princpio eu no soube explicar.
Ento comecei a sentir a opresso. Opresso crescente.
BBBRRRRRRUUUMMMMM!!!
 Nossa!  exclamou Isabela olhando para cima.  
Pelo visto vai chover! Estranho... fez um dia to bonito. Mas 
est armando um p d'gua!
Os relmpagos cortavam o cu, enormes e impiedosos, e 
trovoava. De repente um vento forte comeou a soprar, em 
rajadas intensas, e Isabela segurou a saia comprida do seu 
vestido indiano para que ela no sasse voando. Faltou mo para 
segurar o cabelo, que se revolvia.
No respondi ao seu comentrio. Eu sabia que aquilo 
no era chuva! Era...... no! Precisava ter certeza antes. 
Entramos no carro. Isabela ainda olhou para fora:
 Vai chover, sim. Olha s essas nuvens pretas... o cu 
est ficando todo escuro!
 No vai chover...
A princpio, ela no notou nada de especial na minha 
afirmao. Mas eu continuei ligado. Cada vez mais ficava claro 
para mim que aquela manifestao climtica era por causa de 
outra coisa. Eu pressentia a movimentao do Reino Espiritual, 
os sinais  nossa volta eram pura conseqncia. O Reino Fsico 
simplesmente traduzia o mover do Reino Invisvel. E, eu tinha 
certeza... no era um mover de Deus...
Dei a partida no carro com as mos levemente trmulas. 
Uma opresso muito densa se formava... no exatamente ao 
nosso redor, mas ao redor do Vale todo! Uma opresso 
diferente... carregada... forte... como se... como se o prprio 
Inferno estivesse chegando... chegando perto... acampando ali... 
se posicionando. Se eu pudesse ver, tinha certeza que um 
monstruoso manto de sombras estava descendo sobre o Vale, 
sobre tudo  nossa volta, cercando tudo, para que nada 
escapasse dali!
Uma sensao nica. Como nunca tinha sentido. Algo 
realmente tenebroso.
Eu sabia que o drago do Inferno estava se 
aproximando, junto com seus prncipes e boa parte do seu 
exrcito de Principados e Potestades. Tinha medo de pensar no 
que aquilo significava...
Estacionamos nosso carro l em cima, perto da Igreja. 
Entramos, nos acomodamos l na frente, como era nosso 
costume. Fiquei quieto durante um tempo, sondando o ar em 
derredor.
A opresso continuava, mesmo ali dentro da Igreja! 
Estava um pouco mais tnue,  verdade, mas continuava... e 
aquela coisa l fora continuava pairando, se alinhando, se 
posicionando... aquela coisa to densa cuja imagem no meu 
esprito era como se nem a luz pudesse penetr-la.
Ento, o Louvor comeou, mas no serviu para aquietar 
boa parte daquele povo. Seria um Culto um pouco tumultuado. 
Em algum momento o Esprito Santo de Deus falou comigo, o 
discernimento veio lmpido no meu corao.
"Hoje  o dia 'D'. Eles vo tentar te levar nesta 
madrugada. Do dia 5 para o dia 6."
Ento, senti uma tremedeira no corpo. Tudo se 
encaixava perfeitamente: dia 6 de maro... 6/3!  6 mais 3  igual 
a 9. Dois anos haviam se passado desde a data limite imposta 
pela Irmandade. Trs dias antes do meu aniversrio de 33 anos. 
Primeiro dia da Lua Nova. Morte sbita!
Apesar de no pressentir o que me vinha em esprito, por 
algum motivo Isabela tambm estava um pouco tensa. Mas no 
saberia dizer por qu. At aquele momento, eu no tinha criado 
coragem para lhe dizer nada.
Quando terminou o Louvor, apresentaram uma pea de 
Teatro sobre a histria de Ruth, foi muito bonita. E a Palavra 
tambm foi boa. Em determinado momento, o contexto levou a 
pregadora a dizer:
 Vede o livramento que Eu te dou hoje!
E continuou falando sobre a conquista da Terra 
Prometida. Mais tarde Isabela iria comentar que aquelas 
palavras bateram muito fundo no seu ntimo. Foi como se Deus 
dissesse que aquela noite era noite de guerra, noite de 
conquista... e ela pediria, no seu corao, que Deus nos 
concedesse a vitria e a conquista.
Ento, de repente Isabela se voltou para mim. Do nada. 
Era o feeling.
 Que foi?  indagou.
Demorei um pouco para conseguir responder. No 
conseguia controlar muito bem aqueles tremores involuntrios, 
e quase no segurei as lgrimas.
  hoje...
 Hoje?  ela entendeu perfeitamente.  Tem 
certeza?
Fiz que sim, sem dizer mais palavra. Ela tambm no 
disse nada. Apenas segurou minha mo com fora.
No final do Culto avisaram que ia ter uma viglia 
naquela noite, quem quisesse participar poderia permanecer na 
Igreja. Quando a movimentao costumeira de final de Culto 
comeou, Isabela olhou para mim:
 Ser que  melhor a gente ficar aqui?
No precisei esperar quase nada pela resposta. 
Novamente tinha certeza absoluta: aquela no era a estratgia de 
Deus para ns.
 No... vamos para casa.
 Tem certeza? Tenho.
Samos da Igreja e fomos pegar nosso carro. Passava um 
pouco das dez horas da noite. At aquele momento realmente 
no tinha chovido. Mas o clima estava tenso, isso para dizer o 
mnimo. Ns dois nos sentamos como que pisando em ovos. 
Uma sensao de temor nos invadia.
O que iria acontecer?!?.....
Descemos a alameda que nos levaria  entrada do 
condomnio, devagar. Passamos pela cancela, comeamos a 
subir a outra alameda, de terra, que nos levaria at l em cima, 
at nossa rua.
Naquele momento no oramos. Ns j tnhamos feito a 
nossa parte. Qualquer coisa dali para a frente tinha que vir como 
Rhema! Era impossvel pensar em dar qualquer passo sem saber 
o que ia acontecer, a esmo, no escuro. Estvamos totalmente na 
dependncia de Deus. Durante o Culto, o Senhor tinha 
permitido que eu me desligasse da opresso, mas to logo sa da 
Igreja, voltei a perceb-la imediatamente. Eles estavam ali! 
Aquela opresso... forte! Continuava...
Embiquei o carro na direo do porto de entrada para a 
nossa garagem, acendia os faris altos para iluminar bem. Antes 
que eu pudesse apear para abrir o porto, Isabela desceu 
primeiro. Queria ficar ao meu lado. Quer dizer: na minha frente.
 Fica no carro  falei para ela.
 No. Vou com voc.
Nessa altura a gente j estava imaginando de tudo, 
inclusive que pudesse haver pistoleiros escondidos dentro do 
jardim, dentro de casa. Isabela preferia levar um tiro ela mesma 
do que me ver ser baleado na sua frente.
Abrimos o porto juntos e ela entrou antes de mim no 
jardim, olhava para todos os lados, ressabiada. Subiu at a 
varanda. Merengue veio ao nosso encontro. Eu recolhi o carro e 
fechei o porto.
Quando percebi, Isabela j tinha entrado em casa na 
minha frente, queria ver como estava o ambiente antes de mim. 
Fui atrs dela. Que teimosa!...
Ns nos entreolhvamos com ar assustado. Olhamos em 
todos os cmodos da casa, acendendo todas as luzes.
 Parece que est tudo bem...
Mas havia um paradoxo no meu corao. Se na minha 
alma eu sentia medo, porque Deus havia sinalizado muito claro 
que aquele era o dia... por outro lado, dentro da nossa casa 
parecia estar tudo muito calmo... muito calmo. E aquela 
calmaria era estranha. No combinava com aquela coisa 
monstruosa que tinha sentido antes, at poucos minutos antes. 
Seria alguma armadilha?
Fui para o fundo do quintal, fiquei como que farejando...
"O que ser que aconteceu? Que foi feito daquela 
terrvel opresso?! O ar est muito leve aqui em casa... h paz... 
mas como? Como pode?!..."
Aquela placidez me assustou mais ainda do que a 
opresso. Tinha que ser uma armadilha...
"Eles devem estar escondidos, e vo aparecer a qualquer 
momento com toda a fria... ou ento... o qu? O qu? No sei!"
Eu no sabia o que pensar. Fiquei ali parado, depois 
caminhei novamente at o jardim, fiquei olhando para o 
horizonte. Calado. Sondando. Esperando que alguma coisa 
fizesse lgica naquilo tudo!
At que Isabela apareceu ao meu lado. Tinha ido trocar 
de roupa, trocara o vestido por um moletom, tnis e malha. Mais 
tarde ela iria me dizer o por que da sua escolha:
 No final do ano estava totalmente despreparada. Mas 
hoje, se tiver que sair correndo, se tiver que dirigir como louca, 
se tiver at que saltar muros ou entrar no mato... estou 
preparada! Lembrei daquele texto, durante a reconstruo dos 
muros de Jerusalm, quando aqueles que edificavam dormiram 
com as espadas na mo. Quer dizer, estavam prontos! De 
repente, eu vou ter que correr para algum telefone, posso 
tropear e cair se ficar de tamanco. Ento, no! Vou pr uma 
roupa de guerra  e segurava na mo o frasquinho de leo, por 
dentro do bolso da malha.
S que naquele momento ela no disse nada sobre isso. 
Apenas me olhava com ar inquiridor, preocupado, perscrutando 
meu rosto e sondando minhas reaes.
 Que foi, Eduardo? Voc est muito quieto, est me 
deixando mais nervosa. O que voc est sentindo? Diz alguma 
coisa, pelo amor de Deus...
Eu no sabia o que dizer. Estava to na expectativa 
quanto ela. Ns dois sabamos que algo ia acontecer! Mas ela 
no podia sentir aquilo... aquela tranqilidade  volta me 
incomodava sobremaneira...
Tentei explicar:
 Eu no sei... t tudo muito calmo aqui... no consigo 
entender...
Ela suspirou profundamente. Da varanda ns 
contemplvamos a noite, completamente calados. Comeou 
uma garoinha fina, uma chuvinha de nada quando comparada 
aos fenmenos atmosfricos de algumas horas atrs. A chuvinha 
nada tinha de demonaca, era totalmente normal, apenas para 
desabafar a terra quente.
Nos sentamos na beirada da varanda, Isabela passou o 
brao dela pelo meu, e ficamos ali sentados, encolhidinhos, bem 
perto um do outro. A percepo do calor dos nossos corpos dava 
uma sensao de acolhimento. Mas faltava a segurana. ramos 
somente ns dois. Comeamos a orar, embora no soubssemos 
o que dizer para Deus. Tudo parecia nebuloso. Mas eu precisava 
entender por que tudo estava to quieto. Ento comeamos a 
orar em lnguas, baixinho, devagar.
Comecei a indagar:
 Por que esta paz? Que est acontecendo? O Senhor 
anunciou a guerra... onde est ela?
Como Deus nada respondesse, oramos apenas um 
pouquinho mais. Isabela estava com frio, entrou em casa para 
pegar mais um agasalho e ligar Louvor no aparelho de som. 
Logo escutei os primeiros acordes da msica, e aquilo tambm 
trouxe aconchego para ns dois. Isabela voltou para perto de 
mim, sentou novamente como antes, bem perto. A garoa j 
estava passando.
 Vamos continuar orando?
Comeamos a pedir a Deus uma estratgia. O que ns 
deveramos fazer? No poderamos sair dali, nem fazer qualquer 
outra coisa sem que Deus desse alguma direo. Era preciso que 
Ele sinalizasse alguma coisa... e nos ajudasse a entender.
No foi preciso orar muito mais. Logo comecei a sentir 
aquela presena... e que presena! Que presena forte!...........
Instintivamente comecei a falar:
 Tem uma presena aqui... uma presena muito forte!!
Isabela se assustou. Seu corao se espremeu no peito e 
ela perguntou, temerosa:
 Que presena?! So eles?  na cabea dela, durante 
a nossa orao Deus estava desmascarando o esconderijo do 
inimigo. J imaginou que talvez um demnio estivesse sugando 
minha energia, e eu j fosse cair duro na frente dela, e ela j 
tivesse que sair correndo para me ungir. Ela j se imaginava 
guerreando sozinha, e eu desacordado.  T tudo bem? T tudo 
bem?!.
Eu mantinha meus olhos fechados, e todo meu corpo 
absorvia o impacto do que estava ao meu redor.
No.... no  ruim!...  bom,  bom,  bom. Mas como 
 forte!.. Meu Deus, como  forte!!!
Como poderia descrev-la? Era uma presena de Poder. 
Mais ou menos como tinha acontecido no dia da uno de 
Isabela. Mas dessa vez o que eu podia captar era Poder, Poder, 
muito, muito mais Poder!!
  um Poder de Deus!  exclamei.
Certamente Isabela ficou mais calma depois disso. E 
esperou.
Se eu fosse quantificar, era um Poder maior do que 
aquele que tinha sentido anteriormente em opresso. Era como 
se o Poder exercido pelo Inferno tivesse ficado menor diante 
daquele Poder indescritvel que eu pressentia agora, ali no 
jardim da minha casa. Mais uma vez, era como se meu corpo 
fosse desvanecer, fosse sucumbir... fosse derreter diante daquilo 
que estava ali.
"Que coisa tremenda!!!"
Eu at me encolhi. Ainda no podia ver... no podia ver 
quem, ou o qu, estava ali perto... bem perto de ns! Eu s 
conseguia tremer e me contorcer, abraava meu prprio corpo 
com fora. Subitamente comecei a sentir um calor na pele... 
clido, brando...
Ento... vi aquele foco de luz na minha frente, bem 
grande. Era ele! O anjo ruivo. Mikhael. Capito dos Exrcitos. 
Apareceu como eu estava acostumado a v-lo: com aquelas 
vestes brancas e resplandecentes, com detalhes em azul mais 
escuro. Com braceletes grandes de ouro. Dessa vez percebi que 
havia uma inscrio no seu peito, como se fosse um emblema, 
mas numa lngua que eu no podia compreender. Os cabelos 
estavam soltos e pareciam ser movimentados pelo vento. A luz 
irradiava dele...
To logo minha vista captou sua figura, ali parada na 
nossa frente, sobre a grama do jardim, ele comeou a falar 
comigo.
 Assim como Deus deu ordens aos seus Querubins 
para guardar a rvore da Vida, porque ela era preciosa para 
Deus... Ele tambm deu ordens aos Seus Querubins para 
protegerem vocs. Porque vocs so preciosos para Deus!
Assim que ele falou isso, rpido como num relmpago, 
por viso perifrica meus olhos captaram mais focos de luz. 
Como se tivessem acendido holofotes ao meu redor. Olhei, e 
por algum motivo incrvel aquela luz to intensa no me 
ofuscava... era to forte, mas no causava ofuscamento. Era to 
estranho... olhei para ver o que era aquilo, o que mais se 
descortinava diante de mim.
Vi os Querubins que Mikhael havia dito...!
Cercando toda volta da nossa casa eu podia contempl-
los, perto dos limites dos muros e do jardim. Imensos... maiores 
do que a casa, maiores do que Mikhael, talvez meio corpo maior 
do que ele... incrivelmente fortes... no estavam presos aos 
limites do cho fsico...
Olhei mais, e o que me chamava ateno  que eram 
meio dourados; quer dizer, a luz que emanava deles era meio 
dourada. Parecia at que o rosto deles, os braos, tudo... tudo era 
daquela cor dourada! As vestes, homogeneamente douradas, 
estavam iluminadas, e eu no pude perceber detalhes de outras 
cores como acontecia com as vestes do anjo ruivo. Olhei 
melhor... aquelas roupas eram semelhantes ao que eu entendia 
como sendo uma blindagem!. Era como se eles fossem 
totalmente revestidos por uma espcie de armadura. Ou o que 
eu, humanamente, chamava de armadura. Nas suas cabeas 
havia algo que me lembrou um elmo, mas eu no conseguia 
divisar direito porque brilhava muito. Tive a impresso de ter 
visto uma pedra incrustada na frente, uma pedra que tambm 
brilhava.
Ento desviei os olhos um pouco porque, apesar de no 
ofuscar a vista... por algum outro motivo no conseguia olhar 
para eles durante muito tempo. Mas logo tornei a mir-los, 
extasiado, enviando olhares grandes para aqueles que estavam 
mais prximos de mim.
E tentei entender o que estava vendo.
Eles tinham asas... sim, porque eu podia v-las! Mas 
pareciam ter uma forma estranha... eu tinha a impresso de ver 
mais de um par de asas. No parecia que era apenas um par... 
como pode? Pareciam quatro asas, misturadas... ou seriam seis 
asas?! Como pode um anjo ter mais de duas asas? Aquilo no 
existia na minha imaginao, e eu tentava cruzar essa imagem 
mental com a realidade da viso.
No conseguia entender direito... mesmo porque, alm 
daquelas asas eu podia ver os braos deles, que estavam 
entrelaados, bem juntinho um do outro. Isso eu percebi muito 
bem, que havia um verdadeiro anel de anjos entrelaados entre 
si guardando a nossa casa. Cada anel daquela extensa corrente 
viva parecia ser formado por um bloco de quatro anjos. Os 
quatro olhavam em todas as direes, suas costas pareciam se 
tocar, e eles olhavam para a frente, para trs, para a direita e 
para a esquerda... tanto para dentro do terreno da casa, como 
para fora, para o Vale... como tambm para os outros dois lados.
O rosto deles tambm brilhava, consegui perceber num 
vislumbre, num relanceio do meu olhar... eles tinham o 
semblante firme... compenetrado... e, ao mesmo tempo, tambm 
de amor! Emanava um Poder indescritvel deles! Somente agora 
podia perceber de onde vinha aquela sensao do comeo...
A viso durou poucos segundos, ento abriu mais ainda, 
era como se agora houvesse fachos de luz em todas as direes! 
Comecei a vislumbrar um espetculo totalmente indescritvel! A 
Guarda que Deus tinha trazido para ns naquela noite!!! No 
estava apenas em volta da casa... como tinha percebido a 
princpio. Os Exrcitos Angelicais de Deus se estendiam pelos 
montes  minha volta, subindo em fileiras, estendendo-se para 
todos os lados, at onde minha vista alcanava... para todos os 
lados! aquela viso era maravilhosa... e aterradora! Como era 
possvel existir algo assim??! Uma viso completamente fora de 
tudo que eu pudesse imaginar, as ruas e os montes ao redor da 
nossa casa estavam forrados, forrados de anjos de luz...  a perder 
de vista!
No se tratava apenas de pontos luminosos ao longe, 
mas aquela sensao de luminosidade era macia! Era uma 
coisa s, um bloco s! Como se Exrcitos estivessem 
acampados em toda a volta, at onde era possvel divisar. At 
mesmo os Querubins ao redor da casa pareciam estender-se em 
fileiras, como numa arquibancada, iam subindo, uma quantidade 
enorme... uma multido de anjos! Legies e legies de 
guerreiros!!!
Eu me contorcia em mim mesmo, abraava os joelhos, 
chorava compulsivamente olhando para todos os lados... parecia 
no suportar a viso.
 So muitos! So muitos! So muitos!
Mas foi s um flash. Deus sabe que a carne humana, 
pecaminosa e imperfeita, no poderia suportar por muito tempo. 
Tudo durou alguns momentos, alguns segundos. Foi apenas 
enquanto Mikhael falou aquela Primeira frase.... minha viso 
abriu... e fechou! To-somente para que eu soubesse que eles 
estavam ali.
 Nossa... ento eles estavam o tempo todo aqui?  
perguntei ao anjo ruivo.
 Cada palavra de orao que vem da boca de vocs, 
Deus est ouvindo. De fato ns iramos perceber que cada 
detalhe das nossas oraes tinha sido respondido.
Deixei de ver aquele Exrcito, mas no tinha acabado. 
Deus estava sendo muito caprichoso em mostrar todas as coisas. 
Naquele momento, algo mais desviou minha ateno. Que seria 
aquilo ali perto dos muros?! O entendimento veio no meu 
esprito e eu pude perceber as Colunas de Fogo ao redor da 
nossa casa.
Olhei mais, e... no era fogo... fogo como o conhecemos 
no nosso mundo... pareciam... Colunas de Luz! Como se 
verdadeiras Muralhas de Luz estivessem cercando nossa casa! 
Uma Luz que tinha em si mesma um leve movimento, mas eu 
podia ver atravs dela, era transparente como cristal. De alguma 
forma pude entender que aquilo era uma redoma! Uma redoma 
de Luz que cobria exatamente os limites da nossa casa!
Acho que o entendimento dos antigos era mais arcaico 
porque eles no conheciam a luz... a luz eltrica, a luz 
artificial... por isso nomearam aquele efeito da Proteo do 
Senhor como "fogo"!
Por dentro desta redoma, bem perto dos muros... era ali 
que comeava a primeira fileira de Querubins. Embora eu no 
pudesse mais enxerg-los!
Poderia morrer depois daquela viso. Por mais que me 
esforce, todo vocabulrio humano  parco demais para exprimir 
a incomparvel majestade do Reino Espiritual. Entendi o por 
que daquele Poder que emanava... realmente o Inferno tinha 
vindo... mas no momento preciso Deus enviou tambm os Seus 
Exrcitos! Ali estavam eles...
Olhei novamente para Mikhael. Seu cabelo balanava 
suavemente. Abriu a boca e continuou dando o recado do Pai.
 Deus est revestindo vocs com poder, poder e 
autoridade contra Principados e Potestades, para levar a Palavra 
de Deus s Igrejas. Deus lhes trar entendimento sobre os 
Mistrios da Palavra. Vocs esto sendo recrutados para fazer 
parte deste exrcito, o exrcito que vai enfrentar a batalha dos 
ltimos tempos. Cujos militantes sero chamados Guerreiros da 
Luz!
Ento foi como se eu pudesse ter a viso de uma Pedra, 
uma Pedra muito grande. Aquela Pedra era a Palavra de Deus. 
Ento ele continuou:
 Alguns encontram um caminho sobre a pedra, 
conseguem caminhar sobre ela, conhecem a sua superfcie. Mas 
outros, sendo perseverantes e insistentes, fazem um buraco 
nessa Rocha, e vo at a profundidade dela. E ali encontram 
ouro!
Eu me esforava sobremaneira em repetir aquelas 
palavras. No parava para raciocinar. To-somente falava, com 
um pouco de dificuldade, mas sabia que tinha que repeti-las, 
elas eram para Isabela tambm.
 Ai daquele que ousar tocar num s fio de cabelo das 
tuas cabeas, pois a espada de Deus cair sobre eles.
Entre lgrimas, Isabela fez meno imediatamente sobre 
sua famlia. Falou alto, para que ele ouvisse:
 Protege a minha famlia! Protege eles tambm!
No sei dizer se eu realmente a ouvia, e transmitia ao 
anjo; ou se apenas escutava a resposta dele, sem ter ouvido a 
pergunta de Isabela. Mas assim foi respondido:
  Eles esto sendo protegidos. Vo passar pelo Fogo... 
mas no sero queimados. Eles precisam passar pelo Fogo para 
ver o Poder de Deus.
Ento falou algumas coisas especificamente para 
Isabela:
 Filha, voc  valiosa!  vaso de honra para Deus, e 
muito amada. Eu me alegro com a sua vida! Estou ouvindo as 
suas oraes. E estou te dando esta autoridade! No importa o 
que os homens digam a seu respeito. Eu dei ordem, e voc foi 
ungida por um Querubim. Ainda no chegou o tempo de teus 
olhos contemplarem o Reino Espiritual, mas hoje deixo um 
sinal para voc, para que voc saiba que Ns estivemos aqui. Eu 
vos deixo a Minha Paz, e um sinal, para que voc saiba da 
Nossa Presena... nesta noite entrego em tuas mos os teus 
inimigos.
Isabela no se conteve, e ainda falou novamente, entre 
lgrimas e entre vrios "obrigada!"
 Coloca um sinal no meio deles. Para que eles saibam 
quem  o Deus Vivo! Vi quando ele ergueu a espada......at 
ento nunca tinha visto a espada do
Capito dos Exrcitos... era uma coisa linda! Como um 
facho de luz! Com a base cravejada de pedras preciosas, que 
pareciam muito coloridas, em vrios tons de azul e dourado. 
Causava uma sensao impressionante de fora!
Mikhael ergueu a espada e fez um gesto rpido, mas 
suave, resvalando a ponta dela no jardim. Pelo menos assim me 
pareceu.
 Aqui  terra santa!  bradou ele.
No tenho noo exata de quando a viso terminou, a 
nica coisa de que tinha conscincia  que aquele Poder 
indescritvel comeava a diminuir. Eles continuavam l, 
certamente, todos aqueles guerreiros. Mas a minha percepo 
voltava para dentro dos parmetros humanos. O esprito se 
aquietou. E comecei a ter mais conscincia do tremor, do choro 
e das reaes naturais do meu corpo e mente.
Isabela tambm chorava ali ao meu lado. Eu no tinha 
certeza absoluta do que havia dito a ela... ou no... nem certeza 
do que havia falado com o anjo, e do que havia simplesmente 
repetido para ela. Precisava me situar, me acalmar... deixar 
aquelas sensaes gritantes do corpo e da mente diminurem.
A medida que fui me acalmando, comecei a ter 
conscincia outra vez do lugar onde estava. Abri os olhos, olhei 
em derredor... mas agora era to-somente a noite ligeiramente 
chuvosa, nosso jardim, os muros da casa, a rua deserta, os 
montes escuros no horizonte. A grama tinha ficado ligeiramente 
molhada pela garoa breve. Realmente... no choveu! No de 
verdade! Ia levar alguns minutos at que conseguisse digerir 
tudo aquilo.
 Acabou...  foi minha primeira palavra.
Eu estava me referindo quela batalha, a batalha que 
tinha sido travada s vsperas do meu aniversrio, aquele 
confronto de honra.
 Realmente eles vieram...
Eu estava me referindo no ao Inferno, mas aos 
Exrcitos de Deus!
Ento, de repente, me lembrei do sinal. Levantei como 
se fosse de mola e corri at o jardim. Como estivesse um pouco 
escuro, tateei na grama mais ou menos no lugar onde eu o tinha 
visto com a espada.
 Que foi?  indagou Isabela vindo atrs de mim.
 No sei... ele falou alguma coisa sobre um sinal... 
sobre deixar um sinal!
Ento minhas mos tocaram naquela reentrncia na 
terra! Tirei as mos assustado. Isabela no entendia nada.  
Que foi, Eduardo?!
 Olha... olha! Esse era o sinal que ele ia deixar pra 
voc: a ponta da espada! Olha s! Furou o jardim!!
Ao redor daquele pequeno buraco a grama ficou 
levemente chamuscada... inacreditvel!
 Eu vi quando ele deu uma resvalada, uma 
encostadinha de nada. Era para voc!
Isabela tambm olhava, tocava naquele buraco, 
analisava...
 Como Deus  tremendo!....
Depois disso entramos em casa, maravilhados e 
estupefatos ao mesmo tempo. Isabela colocou o CD de Louvor 
no comeo mais uma vez, sentamos nosso corao leve e 
transbordante de alegria! Naquele dia no foi preciso fazer nada, 
o Senhor tinha guerreado por ns! Que manifestao inequvoca 
do Poder do Altssimo!
 Voc falava em lnguas quase o tempo todo!  
comentou Isabela.
 No... eu falei em portugus. No falei em lnguas 
hora nenhuma!
 Eu escutei o tempo todo... acredita em mim, no 
discute, eu estava sbria!  brincou Isabela.  Voc s falava 
em portugus quando estava traduzindo para mim. Mas todo o 
resto do tempo, inclusive quando voc parava de falar em 
portugus, e voltava a falar com ele, saa tudo em lnguas! Saa 
numa entonao diferente... uma coisa diferente mesmo, no sei 
dizer. Pareciam frases e palavras carregadas de emoo, era at 
gostoso ficar ouvindo.
 Imagina! Eu no me lembro disso, Isabela!
 Mas foi assim.
 Puxa...  que parece que eu saio da dimenso real, 
sabe? Parece que no se est mais no mesmo lugar... no mesmo 
mundo.
 Mas o que voc falava tanto? Voc escutou!
 No, eu escutei apenas o que voc falou em 
portugus! Todo o resto, estava falando em lnguas! O que  que 
voc tanto falava?
Procurei me lembrar, retomar o fio da meada. Ento me 
lembrei da primeira pergunta que fiz ao anjo ruivo. E comecei a 
contar a Isabela.
 Bom... lembro que perguntei alguma coisa sobre os 
Querubins. A viso deles me parecia to impressionante que 
tive que ter certeza, ento falei: "Estes so os Querubins?". Ele 
sorriu e fez que sim. Mas ento percebi que a roupa dele, a 
roupa do arcanjo Mikhael, parecia balanar com o vento, e o 
cabelo dele era solto, parecia tambm se mexer com a brisa. E a 
dos Querubins no era assim. Parecia que eles eram realmente 
revestidos de uma blindagem, de uma armadura. Depois, 
quando vi aqueles Muros de Luz, aquela coisa totalmente fora 
de tudo que eu pudesse imaginar, na minha fascinao, 
perguntei a Mikhael: "Estas so as Muralhas de Fogo?" Ele s 
sorriu para mim. E de novo fez aquele gesto como quem diz: 
"Sim!" "Pxa... como Deus  bom!", continuei dizendo para ele. 
"Mandou tantos anjos para nos proteger!" A foi que ele disse: 
"Vocs so especiais para Deus, porque Deus os chamou para 
um Ministrio". E eu respondi: "Mas eu no tenho capacidade 
para isso. O que eu posso fazer?"... E veio a resposta: "Deus vai 
revestir vocs com muito Poder. Poder contra Principados e 
Potestades!"
  Ah! Entendi! Na verdade voc estava repetindo as 
respostas dele em portugus... porque voc falava muito em 
lnguas... e s depois  que vinha alguma coisa que eu podia 
entender! Ento foi isso...
Ficamos ainda pensativos por alguns instantes, olhando 
para o jardim que tinha sido palco daquela experincia 
maravilhosa.
 E que mais? Que mais voc lembra de ter 
perguntado? Porque tinha horas que eu ficava s ouvindo, voc 
falava bastante, era gostoso escutar...
 Eu lembro... em algum momento, acho que perguntei 
algo assim... no sei as palavras exatas, mas acho que falei: 
"Deus de fato me deu um Dom de discernimento, no foi? Hoje 
eles queriam tomar a minha vida, no queriam? Por isso vocs 
esto aqui nos cercando, nos protegendo...?" Foi a que ele 
respondeu, quase no final: "Fiquem em paz, porque esta noite 
Deus est entregando nas suas mos os seus inimigos".
Isabela escutava quieta.
Muito mais tarde, perguntando melhor sobre a aparncia 
dos Querubins, ela ficou muito impressionada porque batia com 
a viso do Profeta Ezequiel. Mas na poca nem eu, nem ela 
sabamos sobre isso. Atravs desta viso Bblica, entendi que 
aquele grupo de quatro seres era apenas um Querubim! Na hora 
eu no tinha a menor noo, por isso me pareceram "blocos" de 
quatro anjos.
 Eles tm um olhar diferente... de quem est ali para 
desempenhar um papel, cumprir uma funo... e a funo era 
nos guardar, tomar conta de ns! Deu para ver muito de relance, 
mas...  um olhar firme, penetrante como o de uma guia! Mas 
junto com isso, d para perceber o amor  sentia a garganta 
presa pela emoo.  Lucifr veio... e encontrou muitos como 
ele. Quer dizer, da mesma patente!
 Que coisa, n? Durante estas ltimas semanas, quase 
todas as vezes que entrava ou saa de casa, lembrei de pedir para 
Deus que Ele colocasse um cerco vivo de anjos ao redor da 
nossa casa, no momento exato. E quantas vezes oramos pedindo 
a cobertura das Muralhas de Fogo, no ? Deus foi caprichoso 
em mostrar que cada detalhe das nossas peties foi atendido!
Assim que entramos em casa, comeou a chover de 
novo. Parecia que Deus estava apenas esperando que Mikhael 
trouxesse o Seu recado, para ento deixar a chuva cair. Mas 
agora, eu sabia... ns sabamos... era apenas chuva de vero!
Isabela vai pegar a caderneta onde costumava anotar as 
coisas mais importantes que nos aconteciam, para no correr o 
risco de esquecer depois. No nosso esfuziante contentamento, 
nada melhor do que falar sobre aquilo naquela mesma hora. 
Isabela estava louca para saber detalhes do que eu tinha visto. 
Veio para perto de mim com a caderneta e o gravador. Devia ser 
quase meia-noite.
Antes de nos sentarmos, fui ao banheiro. Quando estava 
voltando escutei o telefone tocar. Quando cheguei perto dele, 
Isabela j estava quase chegando tambm. Nos entreolhamos 
rapidamente antes que eu pusesse o fone no ouvido. Quem 
poderia estar ligando quela hora?...
 Ai meu Deus... so eles!  murmurou Isabela.
Atendi. Sem dizer nada. Simplesmente esperei. Veio 
uma voz conhecida pela linha, mas bem diferente de todas as 
outras vezes. Era uma moa que tinha conhecido na Irmandade, 
Samantha Warlock, reconheci sua voz imediatamente. Ela 
estava em pnico:
 Que Feitio voc usou?!  falava aos trancos e 
barrancos, completamente transtornada.  Como  que voc 
pode estar vivo?!!  O que est acontecendo? Eu no acredito, 
no acredito no que est havendo!
 O que est havendo...  a manifestao do Poder de 
Deus  respondi, sem ter tempo de pensar nas palavras.   
Ele quem me protege.
Ela no parecia compreender o significado do que eu 
dizia.
 No  possvel! No  possvel! Depois do que eu vi 
acontecer aqui, depois de tudo o que fizemos aqui... no pode 
ser que voc continue vivo!! Eles...  a frase seguinte veio 
carregada de um indescritvel pesar:  Eles esto mortos! O 
Zrdico... e o Taolez! Eles esto mortos!
Emudeci. Ento ela repetiu, mais alto:
 Eles esto mortos! Foi agora h pouco... o Zrdico 
comeou a passar mal, sentia uma dor no peito... ento o Taolez 
saiu com ele de carro, foram para o Hospital... ligaram antes... 
parecia ser alguma coisa do corao... mas no caminho sofreram 
um acidente... esto mortos, os dois!
 Os dois??  perguntei, entre penalizado por ela e 
incrivelmente chocado com o desfecho daquela noite.
 Diga o que eu tenho que fazer! O que eu tenho que 
fazer? No  possvel voc estar vivo...
Isabela estava sentada no cho, no tapete, e intercedia 
baixinho. Do outro lado da linha, Samantha continuava com o 
mesmo discurso um pouco desconexo:
 ...Eles morreram... eles morreram...  aquele estado 
de choque era verdadeiro. Era autntico.  Mas... que Poder  
esse? Que Poder  esse?!!
 Esse  o Poder de Deus. E o que voc quer que eu 
faa? Se voc ligou para mim...  porque quer que eu faa 
alguma coisa?
Ela respondeu muito simplesmente:
 Ora. Ora para Deus... ressuscitar eles!
Eu no sabia bem o que dizer, aquela situao me pegou 
completamente desprevenido.
 Eu no posso fazer mais nada por eles... foi Juzo de 
Deus. Mas... por voc... eu posso! Eu posso orar por voc, Deus 
est te dando uma chance. Nessa noite voc est vendo um sinal 
do Poder de Deus! Um sinal de que Ele  o Todo-Poderoso. O 
diabo s quer enganar, distorcer a Palavra, ele distorceu tudo... e 
voc acreditou numa mentira. Jesus Cristo  o verdadeiro Deus. 
O Poder do encantamento, do feitio, de Lucifr... tudo isso  
limitado. Mas no o Poder do Deus Vivo, como voc mesma 
viu!  Ele quem detm a Histria.
 Ento... ento eu quero conhecer esse Jesus! Ora por 
mim. Eu sei onde voc est indo, eu sei que Igrejas voc 
agendou, ns sabemos tudo sobre voc. Eu posso ir? Voc ora 
por mim?
Houve uma pequena pausa. Isabela tentava pescar o 
rumo da conversa nas entrelinhas, olhando ansiosamente para 
mim enquanto continuava intercedendo.
 Pode  respondi.  Se voc vier nessa inteno, eu 
oro por voc. Nesse momento, Isabela levantou a voz:
 No! No deixa pra depois. Ora com ela agora, ora 
com ela agora! Samantha continuava:
 Tem outros mais. Tem outros que esto como eu. 
Voc ora pela gente?
 Sim. E tambm vou ungir vocs...
 Ora agora!  insistiu Isabela novamente.
Ento resolvi seguir sua sugesto.
 Olha... vou orar por voc agora, tudo bem?
 Tudo bem.
Comecei a orar. Imediatamente percebi pelo telefone 
uma respirao pesada e ofegante tomando o lugar dela. J no 
sabia se era ela mesmo que estava ali.
 Voc no vai impedir ela de fazer esta orao, em 
nome de Jesus! Que ela fique livre para falar com sua prpria 
boca. Samantha... repete comigo esta orao.
Foi com custo, a voz dela vinha entrecortada, sufocada, 
engasgada mas... ela repetiu tudo! No foi uma orao longa 
nem prolixa, apenas o suficiente naquele momento. E pela sua 
prpria boca, Samantha aceitou Jesus. Eu no sabia, mas aquela 
seria a sua nica e derradeira chance.
 Leia a Bblia!  falei depois para ela.  Voc 
aceitou Jesus, leia a Bblia.
 Eu vou ver se eu consigo uma... eu no tenho 
nenhuma!
Enquanto isso Isabela correu e pegou sua prpria Bblia, 
comeou a folhear rapidamente. Baixinho continuava orando 
para Deus enviar os anjos para perto de Samantha, para 
confirmar a salvao, para ajud-la a sair daquele lugar.
 Voc precisa ler agora!  insisti.  Tem que ler a 
Bblia, se voc fizer isso Deus vai iluminar seus olhos... voc 
vai entender a Palavra de Deus.
 Mas e a? Que que eu fao?
Entendi. Ela se referia  Irmandade. Como poderia fugir 
dali.
Isabela encontrou um texto e me pediu para ler a ela. 
Peguei a Bblia, li o versculo... ela escutou, acho que entendeu. 
Mas ento...
 Pra, pra, pra....  disse Samantha aos cochichos, 
assustada.  Eles esto aqui, esto batendo na porta, acho que 
eles vo me matar!
 No, no vo! Deus est com voc, Deus vai te 
proteger! Vou orar por voc mais um pouco.
 No! Tenho que abrir a porta, seno eles vo 
desconfiar! Vo achar estranho se eu no atender logo. Eu vou 
te procurar! Eu vou te procurar, e voc ora pela gente.
Depois que desligamos o telefone ainda ficamos 
pensando no que teria acontecido. Oramos por ela, a nica coisa 
plausvel para ser feita. Mas realmente Samantha no 
sobreviveria.
 * * * *
No dia seguinte, continuvamos em estado de xtase 
com a experincia da noite anterior. E no conseguimos falar de 
outra coisa! Nosso nico assunto era esse: os anjos, os 
Querubins, as Muralhas de Fogo, e aquele impressionante 
telefonema. Mais fantstico do que tudo era o sinal deixado no 
jardim.
Logo pela manh, to logo soltamos Mambo e 
Merengue, os dois correram para farejar no buraco deixado pela 
espada do anjo Mikhael. Gatos so assim: curiosos e muito 
perceptivos. Sempre que tem alguma coisa diferente na casa, 
pode ser uma sacola, um livro, qualquer coisa... eles percebem e 
vo xeretar!
Com aquele buraquinho no foi diferente. Se ainda 
houvesse dvida no nosso ntimo, a atitude dos gatinhos tiraria 
na mesma hora. Eles viram, farejaram, observaram... depois 
deixaram de lado!
 E por falar em sinal...  comeou Isabela sentada na 
mesa do caf da manh  Deus atendeu at a ltima palavra 
das nossas oraes, de verdade! Eu tinha pedido um outro sinal 
para Deus...
 Que sinal?
 Alguns dias antes, estive orando na casinha. No 
tinha pensado em fazer nenhuma orao especial, fui 
simplesmente apresentando os principais motivos para Deus. 
Depois, um pouco antes de encerrar, ainda orei pelo Marlon, 
para que Deus pudesse falar no corao dele, e que lhe 
trouxesse uma estratgia. Se ele dissesse um "sim" para Deus, 
Deus diria um "sim" para ele. E que se de fato ele quisesse, 
Deus desse a estratgia para este "sim". Ento me veio  mente 
o texto que fala da arca, quando foi levada pelos filisteus para 
dentro do templo de Dagon. E a a cabea de Dagon caiu! Com 
base nesta lembrana, de repente me vi pedindo algo que no 
estava formatado na minha cabea. Foi coisa ali da hora, 
daquele momento... mas de repente compreendi melhor a 
seriedade do momento que a gente estava vivendo. No meu 
ntimo, ficou claro que havia uma disputa de honra sendo 
travada... a honra de Deus e a honra do diabo. Eles estavam 
afrontando demais no nome de Deus. Lembra daquela carta do 
Zrdico? Quanto sarcasmo?
 Voc tem razo...
 J no era mais questo das ameaas que estavam 
sendo feitas contra ns... eles cuspiam no Nome e no Rosto de 
Deus! Ento pedi aquele sinal... que seria um sinal do confronto, 
um sinal de Poder! Assim como a cabea de Dagon foi cortada, 
pedi que Deus trouxesse uma marca visvel de Fogo no meio 
dos nossos inimigos. E que ns soubssemos deste sinal! E, 
mais ainda... que ns soubssemos que isto foi feito entre eles 
por nossa causai Pedi a Deus que, atravs desta manifestao, 
eles vissem que Deus era de fato o Deus Vivo! Eles tinham que 
ver com quem estavam mexendo, j no se tratava apenas das 
nossas vidas, mas do Nome do Senhor. O mais estranho  que 
eu no pedi para ningum morrer... mas o meu corao me dizia 
que essa batalha era importante demais. Era como se eu 
soubesse que algum ia morrer... nunca imaginei que Deus 
respondesse dessa maneira!
* * * *
Passou o Carnaval. Ns no baixamos a guarda, 
continuamos vigilantes at que chegasse o dia 9, dia do meu 
aniversrio. No dia 10, terminamos os 33 dias de jejum. Chegou 
o dia 11, prximo sbado, dia da celebrao.
Havia muita gente em casa, dentre eles algumas pessoas 
especialmente especiais: Grace, Dona Clara, o Pastor Brintti! 
Ele veio mesmo! Ns o buscamos no aeroporto e ele passou o 
final de semana em nossa casa! Deus realmente preparou aquele 
momento de jbilo e vitria!
O Pastor Ubiratan, que tinha cedido o selo da Editora, 
tambm estava presente. Anglica, com seu filho. O Fbio, que 
tinha feito a capa do livro e os fotolitos. Esther, a doadora da 
oferta. Algumas outras pessoas da equipe da Grace, Dona 
Mrcia, Marco, alguns amigos dele, algumas amigas da clula 
de Dona Mrcia. E vrias pessoas que no conhecamos, mas 
que acabaram indo com alguns dos convidados. Talvez umas 50 
pessoas! Cada um levou um prato de doce ou salgado e, como 
disse Grace, sobejou!
Foi um momento muito, muito especial.
Coitado do Pastor Brintti... acabou sendo meio assediado 
por pessoas curiosas que j tinham lido o livro... mas tambm 
Grace aproveitou a presena dele e de pessoas da sua equipe 
para continuar a Ministrao que tinha sido comeada.
Cinco dias depois tivermos um contra-ataque 
violentssimo, quase terminou em tragdia. Dessa vez, s no 
aconteceu mesmo por interveno sobrenatural de Deus. Mas 
tambm passou.
No final do ms Grace me cedeu seu lugar para 
participar do congresso com Rebecca Brown. Eu e Isabela 
trabalhamos muito juntos compactando os principais pontos da 
mensagem. Zelosa em tudo, como era do seu perfil, Isabela 
estudou comigo o dia todo, falamos vrias vezes toda a 
mensagem para ganhar segurana. Era importante que eu 
estivesse bem preparado do ponto de vista humano, essa era a 
nossa parte. O resto era com Deus. Isabela ficou at de 
madrugada montando algumas transparncias para facilitar o 
entendimento.
No dia do congresso, em uma hora falei o que me foi 
possvel, para cerca de quatro mil pessoas. No posso dizer que 
no ficamos um pouco apreensivos de estarmos naquele lugar, 
cercados de pessoas, falando sobre aquilo. Eu no circulei pelo 
meio do povo em momento algum, me deixaram bem guardado 
na salinha dos Pastores. Tinha sido inclusive uma orientao da 
Grace.
Algumas informaes que nos chegaram naquele dia 
foram preciosas. Um dos filhos de um dos preletores comentou 
comigo, um pouco depois da Palavra, que quando ns 
chegamos, ele tinha visto dois anjos com asas conosco. As suas 
asas cobriam a mim e a Isabela para nos tornar invisveis no 
Reino Espiritual.
Mais tarde, uma das intercessoras que orava com 
Anglica teve a mesma viso: enquanto eu estava no plpito 
falando, um anjo enorme me cobria com uma das asas, e cobria 
Isabela com a outra. Ela no sabia quem eu era porque Anglica 
no havia dito nada. Quando subi no plpito acabou 
comentando, com ar de estranheza:
 Nossa, como o tempo fechou, como o clima ficou 
pesado espiritualmente... como o Reino das Trevas est 
incomodado...
E tinha discernimento de uma, duas, trs, 
quatro.....muitas armadilhas para ns naquele lugar. Sentia como 
se os anjos de Deus estivessem desarmando muitas armadilhas.
Nesse dia eu vi Mikhael mais uma vez. Foi um pouco 
antes de me entregarem o microfone para falar. Isabela segurava 
minha mo fortemente, e a mo dela estava fria. Ento minha 
viso abriu e eu pude v-lo. Repetiu aquele gesto que tinha me 
feito no dia do Batismo em casa de Sarah e Jefferson. Aquele 
gesto que lembrava um relgio correndo.
Ento apontou para mim, e apontou para o plpito. 
Exatamente como tinha feito na primeira vez que eu o vi, no 
encontro de casais. S que dessa vez apontou tambm para 
Isabela, e depois para o plpito. Como que sinalizando que 
haveria de chegar o momento em que ela tambm estaria ali.
Mais uma vez reiterou:
 No tenham medo, vocs esto sendo protegidos. 
Este  s o comeo. Nesse dia terminamos de vender a primeira 
edio de Filho do Fogo. Marco e Karine foram dois dos que 
nos ajudaram ficando toda a tarde na nossa barraquinha de 
livros. No final do dia, com o estoque completamente zerado, 
Marco ainda comentou com Isabela, rindo:
 No  possvel que possa haver alguma outra coisa 
que venda tanto quanto este livro. Depois que o Eduardo falou 
ns vendemos um atrs do outro, sem parar, at o ltimo. Antes 
da Palavra, no tnhamos vendido quase nenhum...
Com aquele dinheiro pudemos honrar o compromisso 
financeiro na grfica e dar entrada na segunda edio.
A partir daquele momento, a porta do ministrio 
realmente escancarou. Iramos viver um perodo que seria 
considerado como o incio do ministrio, com caractersticas e 
peculiaridades prprias.
* * * *
A despeito disso tudo, ns queramos uma confirmao 
mais fidedigna sobre aquelas duas mortes.
Logo nos primeiros dias, Grace entrou em contato com 
um policial cristo que ela conhecia. Eu tinha idia de onde 
poderia ter acontecido o acidente. Certamente eles estavam na 
base em casa de Zrdico, e s havia um Hospital plausvel 
aonde eles iriam. Da mesma maneira era fcil inferir a hora 
provvel do acidente, e o provvel trajeto do carro. Eu tambm 
tinha a descrio fsica dos dois. To logo passei os dados para 
Grace, o tal policial foi atrs dos registros.
No demorou muito, e Grace veio com uma resposta da 
parte dele.
 Ele encontrou um registro, sim. Um acidente naquele 
horrio, naquele trajeto, envolvendo dois homens com as 
caractersticas que voc mencionou. Mas ele achou tudo muito 
estranho porque comearam a fazer perguntas demais. Disse-me 
que este  um procedimento normal para ele, corriqueiro... mas 
dessa vez foi questionado demais, at mesmo por amigos 
prximos. Ele no entendeu por qu. E depois, parece que as 
informaes sumiram. Quando foi olhar novamente, um pouco 
encafifado, no encontrou mais registro algum...
Aquilo para ns bastava. Ainda assim, mais um detalhe 
se fez presente. Cerca de pouco mais de um ms e meio depois 
daquela noite. Um e-mail. Foi o ltimo que ns recebemos do 
Marlon. A verdade  que estvamos um pouco cabreiros por 
causa do silncio deles.
Naquele dia, domingo de Pscoa, tudo correu bem. No 
dia seguinte, depois que oramos, ungimos a casa e nos ungimos 
tambm, Deus trouxe-me discernimento de que o silncio na 
Irmandade seria quebrado. Conforme fomos ver, mais ou menos 
naquela mesma hora em que orvamos, a carta estava sendo 
enviada.
Dizia assim:
"Querido filho: voc no pode imaginar o quanto eu te 
amo! Filho do fogo, no deixe a chama se apagar, mantenha-se 
sempre prximo  luz, e ela te guiar, e seus ps no tropearo 
em pedras. Obrigado pelas suas oraes, elas tm me mantido 
vivo! Voc tomou conhecimento do imprevisto, no foi? Isso 
pouco importou para mim, mas este imprevisto salvou algumas 
pessoas da contaminao. Tal pessoa no  ameaa para ns, j 
foi neutralizada h anos. O que o dinheiro no compra? 
Comprou Judas que andou com Cristo, comprou Salomo, e 
hoje compra muitos 'lderes'... que seu corao jamais se 
corrompa, e sua f jamais se abale. Voc hoje  referencial para 
minha vida! Algum que teve a ousadia de desafiar o prncipe 
deste mundo e est vivo! S um Deus muito Poderoso poderia 
livr-lo do abismo, Ele te ama muito! Sua casa est cercada, no 
h como toc-los! Dois dos nossos foram enviados  'ala dos 
rfos', voc sabe quem so eles! Isso abalou as estruturas, e 
gerou muito espanto deste lado do muro. O silncio no 
significa ausncia, mas recomposio. O alvo  sua esposa. 
Como todos a odeiam... a Samantha Warlock, que te ligou, no 
est mais entre ns. Mas sua orao a levou para pastos 
verdejantes e para guas tranqilas, lugares em que ela nunca 
esteve... quero falar com vocs, tenho algumas dvidas. Vou 
procur-lo em breve, mas ser diferente desta vez, no vou 
peg-lo de surpresa, quero marcar antes. Como voc est de 
tempo? Sua esposa... eu gostaria de conhec-la tambm, apesar 
de tudo ela tem sido leal a voc, e fazer bem a meu filho  fazer 
para mim! No desconfie de mim, estou sendo sincero. Ore e 
pea direo para Deus e ver que esta proposta  verdadeira. 
No  cilada! Entrarei em contato para agendarmos nosso 
encontro e, talvez, o meu com Deus. 'Morte aos fracos, Poder  
fora'  os que esto em Cristo so fortes, e no h fora capaz 
de destru-los, o Poder vem do Alto, hoje eu sei disso!"
E assinou com as iniciais do seu nome verdadeiro.
Desta vez ns tivemos que responder, mas somente em 
uma semana, depois de orar e pedir para Dona Clara e Grace 
orarem tambm. Tivemos bastante certeza da abordagem a ser 
usada, e clamamos para que o Senhor nos livrasse de toda 
armadilha. Por mais que tudo aquilo pudesse parecer sincero, 
no subestimaramos nem por um segundo a inteligncia do 
inimigo. Assim foi a nossa resposta:
"Devido ao teor de sua ltima mensagem, estamos 
respondendo. Na verdade no h muito que dizer, mas 
esperamos que voc reflita seriamente. Esto em jogo duas 
coisas: o Amor de Deus... e o Juzo de Deus. De fato oramos por 
voc, e h muito tempo pedimos a Deus que fosse 
Misericordioso, e o poupasse por algum tempo para que voc 
pudesse ver o Poder do Criador. E pudesse realmente tomar uma 
deciso definitiva. Saiba que, se o seu corao for sincero, e o 
seu desejo de encontrar-se com Deus, real... nada poder 
impedir o seu encontro com Jesus de Nazar! Ele mesmo dar 
ordens aos Seus Querubins para que abram um caminho por 
onde voc poder passar. Somente voc. E Jesus est esperando-
o de braos abertos, para dar-lhe o Amor que voc nunca teve, e 
nunca pensou que pudesse existir. E que no se assemelha em 
nada ao 'amor' do diabo. O Deus Todo-Poderoso te livrar do 
mais profundo Poder da Morte, e do Imprio das Trevas, e do 
prncipe deste mundo. Apenas creia que isto  possvel! 'Por que 
gastais o dinheiro naquilo que no  po; e o vosso suor naquilo 
que no satisfaz? (...). Inclinai os vossos ouvidos e vinde a 
Jesus; ouvi; e a vossa alma viver (...). Buscai o Senhor 
enquanto se pode achar, invocai-o enquanto est perto. Deixe o 
perverso o seu caminho, o inquo os seus pensamentos; 
converta-se ao Senhor, que se compadecer dele, e volte-se para 
o nosso Deus, porque  rico em perdoar.' (Is 5.2-3,6). Em 
contrapartida, o seguinte: se o nosso encontro de fato acontecer, 
queremos que entenda que este  um encontro de vida ou de 
morte. Se por acaso isso for mais uma tentativa de engano, mais 
uma cilada, a pior de todas... ser o fim para voc! Saiba que a 
Espada de Deus est sobre a tua cabea, pronta para desferir os 
Seus golpes. Ai daquele que tocar em um fio do nosso cabelo! 
Escolha passar da morte para a vida, agora, nesta vida, porque 
isso  possvel. A Eternidade inteira de dor e sofrimento no 
ser agradvel. Portanto, no ouse brincar com Deus nem 
armar-nos uma cilada. Voc sabe que chegou o tempo de Juzo 
para muitos. No queira o mesmo para voc. Em relao a este 
encontro, espero que compreenda que algumas diretrizes voc 
ter que aceitar: 1) No estaremos sozinhos,  claro que mais 
algumas pessoas estaro  sua espera. No estamos ignorantes 
do tamanho desta batalha. Mas Deus o livrar do Inferno, se o 
seu corao for sincero. 2) Ns escolhemos o local. Quanto ao 
dia, vamos arrumar um dia de comum acordo. No pense que 
este ser um encontro ameno, para conversar apenas. Ser 
travada uma guerra violenta, lembre-se disso. Venha disposto a 
encontrar-se com Jesus Cristo, ou, se no... no venha!!! Porque 
poder ser o ltimo dia da sua vida. 'Pois Deus est prximo de 
castigar, no cu, as hostes celestes, e os reis da terra, na terra.' 
(Is 24.21). 'Como se dissipa a fumaa, assim Deus dispersa os 
nossos inimigos, como se derrete a cera ante o fogo, assim  
presena de Deus perecem os inquos. O nosso Deus  Deus 
libertador, com Deus, o Senhor, est o escaparmos da morte. 
Sim, Deus parte a cabea dos Seus inimigos, e o cabeludo 
crnio do que anda nos seus prprios delitos.' (SI 68. 2, 20,21). 
Uma vez voc me disse algo a respeito de uma marca fsica, no 
meu corpo... e que aquilo me fazia diferente dos meus irmos... 
est lembrado? Sabe do que eu estou falando? O que estava por 
trs desta marca no me levou a lugar nenhum, no me trouxe 
vida. Eu quero falar a voc que h uma outra marca, um outro 
selo, o selo do Esprito de Deus, que vem pelo Sangue do 
Cordeiro. Este  o caminho para a Vida. Aceite o chamado! 
Jesus ama voc! DN. e ISB."
Recebemos um bip no Shopping, cerca de uma semana 
mais tarde, como resposta. Mas j estava diferente. J no 
parecia o mesmo homem falando, mas o homem controlado 
pelos demnios.
"Responderei seu e-mail esta semana. Antecipo que no 
quero a Grace no nosso encontro. Leviathan."
Mas no respondeu coisa alguma. Ficou tudo por isso 
mesmo. No se arriscou...
* * * *
Depois disso tudo, seria muito gostoso terminar esta 
histria com a clebre frase:
"E tendo vencido tudo, e derrotado seus inimigos, e todo 
Poder que era contra eles... viveram felizes para sempre!"
Mas no pode ser assim. Para que este livro possa ser 
encerrado com coerncia e lgica,  preciso acrescentar ainda 
mais algumas informaes. Estas informaes completam o 
presente relato e fecham este momento da nossa histria. 
Naturalmente que ela continua... mas j no seria possvel 
cont-la neste livro.
Este momento trouxe um pouco mais de luz sobre o por 
que a Irmandade insistia tanto naquela perseguio.
* * * *
Eduardo e Isabela Contam
Captulo 48 - Isabela Conta

Ainda que aquela etapa tivesse terminado no dia do 33. 
aniversrio de Eduardo, as lutas continuaram.
No  porque Deus nos tinha feito vrias promessas que 
as coisas aconteceram num passe de mgica, como por milagre, 
sem participao nossa e empenho. Ns j tnhamos aprendido 
algumas coisas, mas havia muitas outras a serem conquistadas.
No h mais tempo para falar sobre tudo isso, no entanto 
um aspecto precisamos ressaltar. Como foi que Deus tratou 
conosco para resolver dois problemas: a minha Cura Interior e 
aquelas brigas que aconteciam entre ns dois, o ponto mais 
vulnervel nas nossas vidas. Como seria simplista terminar 
dizendo que Deus "resolveu" tudo, e obtivemos a vitria!
S ns sabemos quantas lgrimas, quanta orao, quanto 
jejum, quanto aconselhamento e quanta intercesso foram 
precisos para comearmos a colher as primeiras e periclitantes 
vitrias...
Seria impossvel falar de todas as nuanas deste 
processo. Foram muitos detalhes, foram muitas revelaes 
profundas. No podemos mais cont-las com riqueza de 
detalhes.
Vamos contar apenas aquilo que  impossvel de ser 
esquecido.
E que, assim, o Senhor possa ser engrandecido.
Comeo pela minha prpria histria...
* * * *
No inverno daquele ano em que estvamos morando no 
Vale da Bno, minha me foi ministrada depois de muita 
insistncia da minha parte. No pessoalmente por Grace, foi 
outra senhora da equipe que a ministrou. Mas a intercessora foi 
Anglica, a pedido meu. O frio fez com que ela piorasse muito 
dos seus problemas de sade, e alguma coisa dentro de mim me 
dizia que era uma situao urgente, eu sentia a iminncia de 
algo ruim no ar. Como se alguma coisa terrvel fosse acontecer!
Mal podia eu imaginar que Deus comearia a trazer  luz 
aspectos da minha prpria vida, do meu passado, durante as 
Ministraes da minha me.
No foi logo de cara,  claro, afinal ela teria que ser 
tratada. Talvez nos primeiros cinco ou seis encontros tudo foi 
relacionado exclusivamente a ela. A sua Ministrao no foi das 
mais fceis, principalmente por causa dos problemas de 
memria e pelo fato de ela achar que no precisava ser 
ministrada. Quer dizer, minha me no parecia perceber um 
fundo espiritual em boa parte dos problemas que estava 
vivendo.
A dificuldade no comeo foi to grande que me 
chamaram para participar como intercessora. Mais com o 
objetivo de ajudar a explicar os problemas, ajudar a encontrar o 
fio da meada, elucidar algumas questes. Eu no pretendia 
participar das Ministraes, tinha conscincia que era uma coisa 
individual. Pretendia to-somente esperar do lado de fora para 
depois tornar a levar minha me para casa. Mas sem a minha 
presena, de fato teria sido muito mais difcil ir adiante.
Ento no me recusei a participar de todas as 
Ministraes, embora ficasse bastante longe para mim. Eu tinha 
que vir do Vale da Bno, pegar minha me e lev-la at a Vila 
Mariana, onde Grace atendia naquela poca. O frio era 
realmente um problema, por isso ela ia toda agasalhada. E eu 
ainda levava um aquecedor para esquentar a sala.
Mas todas ns vamos nisso uma estratgia de Deus, 
ento me dispus com boa vontade.
Depois resolvemos fazer as Ministraes em casa de 
minha me, para que ela no tivesse que sair na friagem. Ento 
eu ia buscar as Ministradoras na Vila Mariana e as trazia. 
Depois levava de volta.
O processo foi bastante diversificado: havia muitos 
aspectos de Cura Interior, muitas lembranas da infncia, muitas 
nuanas do casamento, muitas coisas relacionadas aos filhos. s 
vezes, ela no se lembrava de detalhes importantes, por incrvel 
que parea, mas eu me lembrava. At mesmo de coisas de antes 
do meu nascimento, histrias que ela tinha contado sobre si 
mesma para ns, os filhos, ao longo dos anos. Especialmente 
dentro do contexto familiar, Deus trouxe vrias revelaes 
tambm sobre o Marco neste perodo.
Ento, foi num desses dias que Deus trouxe algo 
relacionado a mim, e no a ela.
De certa forma, essas revelaes comearam a responder 
s mais inquietantes dvidas que eu tinha dentro de mim. O fio 
da meada da minha vida foi puxado, e aquilo que nunca pude 
compreender finalmente comeou a fazer sentido.
Deus comeou a mostrar por que o meu relacionamento 
com meu pai foi to desastroso... porque no fui feliz com a 
Medicina... porque todos os meus talentos naturais foram 
sufocados... porque aqueles sentimentos de tristeza, de morte, de 
acusao, de condenao eram to fortes no meu corao. No 
parecia haver motivo aparente...
Tambm ficou mais fcil entender por que minha 
famlia, que tinha tudo para dar certo, enveredou por um 
caminho de diviso e problemas angustiantes... as 
conseqncias de problemas aparentemente fteis pareciam 
exacerbadas demais, a histria da minha famlia parecia no ter 
lgica!
A minha prpria histria parecia ter lacunas...
Tudo comeou por causa daquela lembrana... j quase 
esquecida!
Quando ainda era uma pr-adolescente, um dia eu estava 
visitando meu pai no servio dele. Eu estava sempre 
enrabichada atrs dele! Nessa ocasio, a conversa tomou um 
rumo diferente, e ele me disse que, quando eu tinha dois anos, 
estava tendo uma febre inexplicvel.
Ele e minha me j haviam feito de tudo, sem resultado. 
Ento, na melhor das intenes, meu pai me levou a uma 
consulta com um Mdico seu amigo, um Mdico esprita. 
Recordo-me pouco de todos os detalhes, mas o que ficou 
impregnado muito forte na minha lembrana foi o que meu pai 
disse sobre essa consulta.
 Ele chamou voc para ir at o colo dele. E voc 
desceu do meu colo e foi sentar no dele! Eu estranhei bastante, 
porque voc no fazia isso... ento voc ficou sentada ali, e ele 
falava, mas no com voc... parecia que ele estava falando com 
algum, alguma coisa, que estava perto de voc. Porque uma 
criana de dois anos no tinha condio nenhuma de entender o 
que ele estava dizendo! Dentre outras coisas, disse que voc era 
especial... e tinha uma misso no mundo, por isso precisava ser 
bem cuidada.
Depois disso, meu pai contou que no tive mais febre. 
Ele tinha ficado bastante impressionado com tudo aquilo.
Por algum motivo que no sei explicar, a no ser pelo 
fato de que Deus  realmente o detentor da Histria, naquele 
momento da minha vida aquela lembrana me incomodou. 
Talvez tenha sido por causa daquilo que Eduardo tinha me 
contado.
Ele havia dito que algumas crianas so monitoradas 
pela Irmandade desde tenra idade.
Aquilo parecia um verdadeiro absurdo, pelo que o 
assunto me interessou bastante.
Por que isso?
Aquela foi uma discusso que particularmente me 
impressionou.
Eduardo no sabia explicar exatamente os pormenores. 
Ou por que realmente a Irmandade no podia explic-los, ou por 
que ele no tinha ainda atingido o nvel para entrar em contato 
com aqueles segredos.
Tudo comeava com sete personagens Bblicos. Moiss, 
Elias, Isaas, Ezequiel, Daniel, Joo Batista e Jesus.
Mesmo antes de eles terem sido chamados por Deus, e 
assumido seu papel, havia alguma coisa visvel neles. No aos 
olhos humanos, mas sim aos olhos das entidades espirituais. Um 
selo. Uma marca. Um sinal de Deus. A Irmandade no podia 
saber ao certo por que Deus s vezes permitia que o Seu Selo 
ficasse exposto no Reino Espiritual; e por que s vezes no o 
permitia.
Justamente por causa deste selo, segundo a Irmandade,  
que Moiss e Jesus permaneceram escondidos durante algum 
tempo, em lugares improvveis. Era uma maneira de preserv-
los, de mant-los escondidos no Reino Espiritual. Porque j 
desde o seu nascimento eles tinham o selo! Uma espcie de 
predestinao.
Uma marca inequvoca. Um destino especial.
Ao longo do tempo, atravs da observao, o diabo 
percebeu semelhanas no nascimento destes sete homens. O 
diabo  um observador da Terra. Ainda que o homem no saiba, 
ele sabe exatamente o ms, o ano, o dia e a hora, a conjuntura 
astral e todos os detalhes envolvidos no nascimento destes sete 
homens.
Claro que este tipo de informao s poderia fazer 
sentido aos seres humanos depois do advento da informtica. 
Aquilo que o Imprio das Trevas conhecia como uma realidade 
s pde ser repassado  Irmandade dentro de um contexto mais 
palpvel depois que as informaes astrolgicas, numerolgicas 
e cabalsticas puderam ser lanados no computador.
Eduardo entrou em contato com programas que foram 
desenvolvidos especialmente para concatenar todas aquelas 
informaes que foram acumuladas pelo diabo ao longo da 
Histria da Humanidade.
Dentro da Irmandade era possvel construir mapas 
numerolgicos que comprovavam, de modo palpvel, aquele 
tipo de informao aparentemente subjetiva. A data de 
nascimento dos sete servos de Deus, por exemplo... havia nelas 
indicadores astrolgicos, numerolgicos e cabalsticos 
especialssimos, conjunturas bastante mpares. Que se repetiam 
poucas vezes na Histria.
Ficou patente que as diferenas cabalsticas entre eles, 
quando lanadas no computador, eram desprezveis. Existia uma 
indiscutvel semelhana!
Durante a Histria mais recente da Igreja, depois da 
vinda de Cristo e da disperso dos apstolos, o diabo continuou 
acumulando dados para comprovar a sua tese. Todo o perodo 
Bblico e da Igreja foi mapeado.
O que aconteceu ento?
Chegou um momento em que o diabo tinha acumulado 
dados suficientes para perceber que aquela informao era 
fidedigna. Obviamente isto s  possvel para seres que 
observaram a Histria como um todo.
Em outras palavras, existia uma maneira de prever, de 
mapear, de encontrar e perceber o aparecimento de provveis e 
futuros servos especiais de Deus.  Grandes diante do Senhor.
Na verdade, eram duas maneiras: a primeira era a 
simples visualizao da marca, do selo de Deus. Esta era a 
maneira mais antiga, mais arcaica. De repente, simplesmente os 
demnios enxergavam o selo em alguma criana. Em 
determinados momentos, eles percebiam aquela espcie de 
marca espiritual em algumas pessoas. Visvel desde o 
nascimento.
A segunda maneira acontecia pelo rastreamento de 
pessoas cujo nascimento espelhava a mesma conjuntura dos sete 
personagens Bblicos. Como fossem conjunturas muito 
especiais,  plausvel um rastreamento mundial de pessoas 
nessas condies.
Dentro da Irmandade existe uma lista, na verdade uma 
verdadeira galeria de nomes cujas condies de nascimento 
foram rastreadas. A partir da, essas pessoas comeavam a ser 
observadas. s vezes, o selo era revelado. Bingo! Outras vezes, 
mesmo no sendo possvel ver o selo, aquelas pessoas recebiam 
uma ateno especial dos demnios ao longo da vida para que 
nunca viessem a cumprir o seu destino espiritual.
Ento...
Se um futuro servo de Deus era descoberto, s havia 
uma coisa a ser feita: neutraliz-lo. A Bblia diz que "muitos so 
chamados, mas poucos so escolhidos". Quer dizer, Deus chama 
muitas pessoas, mas escolhe poucos para Ministrios especiais. 
Os Ministrios especiais estavam ligados a essa predestinao. 
 presena do selo.
Os demnios sempre vo desafiar a Oniscincia, a 
Onipotncia e a Onipresena de Deus. Embora tais indivduos 
possam ter sido escolhidos, possam ter sido marcados por Deus, 
independentemente disso nada impede que os demnios 
manipulem as situaes, criando uma teia de dificuldades... 
contando justamente com o livre-arbtrio do ser humano!
Se um homem ou uma mulher no quiserem obedecer a 
Deus, a despeito da predestinao, existe a uma possibilidade 
com a qual o diabo pode jogar. Se ele conseguir fazer com que 
este homem ou esta mulher usem mal o seu livre-arbtrio, ter 
vencido!
Por isso o importante  descobrir bem cedo quem eram 
estas pessoas marcadas.
Inclusive existiam estudos computadorizados dentro da 
Irmandade tambm em relao  histria coletiva da Igreja, e 
no somente em relao ao indivduo. Nestes estudos entravam 
em jogo os grandes avivamentos, e era possvel perceber um 
padro comum entre eles, a ponto de ser possvel precisar uma 
probabilidade maior ou menor de eles acontecerem em 
determinados momentos da Histria.
Levando em conta o perodo favorvel, havia igualmente 
uma concentrao maior na intensidade dos ataques do Inferno. 
 mais ou menos como destruir uma plantao. Quando se 
percebe que est chegando a poca da colheita, os demnios se 
empenham em causar uma geada. A geada aborta a colheita, 
frustra os frutos!
Existia tambm uma previso sobre o nascimento de 
grandes homens no final dos tempos, na poca do anticristo. 
Claro que tudo isso  fruto de estudos complexos e bastante 
secretos.
Enfim...
Embora Eduardo no pudesse explicar o que era aquele 
selo espiritual, insistia em dizer que s vezes ele era realmente 
visvel aos demnios. Ficava muito claro no Reino Espiritual 
que aquela criana tinha um destino especial como serva de 
Deus no futuro.
E foi isso o que mais me incomodou.
Naquele dia, na Ministrao, aquilo estava na minha 
cabea. Deus realmente permitiu no apenas que meu pai 
comentasse aquele antigo episdio comigo, mas tambm fez 
com que aquele questionamento me passasse pela mente. 
Somando as informaes, eu queria coloc-las diante do altar de 
Deus em orao.
Expliquei rapidamente do que se tratava.
 Eu fiquei pensando...  comentei com elas.  Meu 
pai, mesmo querendo me fazer o bem, naquele momento me 
exps espiritualmente. Diante daquele Mdico esprita. Se ele 
era esprita mesmo, no vou saber. Mas fato  que houve ali 
uma constatao... no mnimo muito estranha! Talvez ele no 
estivesse falando por si mesmo, antes estava repetindo... como 
que satisfeito com um grande achado!... Ele disse que eu tinha 
"uma misso no mundo"... quer dizer, no sei... ser que...
Nem precisei continuar. A resposta de Deus veio como 
uma flecha, Ele parecia estar esperando pelo momento daquela 
constatao. Antes mesmo de qualquer orao, Anglica me 
interrompeu:
 Aconteceu exatamente isso. Perto dele tinha um 
demnio de alta patente dentro do contexto da Nova Era. Um 
Principado que se mascara com o rtulo da Nova Era. Esse 
demnio realmente viu uma marca em voc, uma marca de 
perigo e de ameaa para eles. A partir daquele momento, tudo 
comeou a ser feito para te destruir. Mesmo que voc nunca 
conhecesse Eduardo, voc teria um Ministrio da mesma 
envergadura que o dele. Por um capricho de Deus, Ele resolveu 
unir vocs dois. Mas mesmo que isso nunca acontecesse, o seu 
Ministrio iria existir, num patamar semelhante ao dele. E 
naquele dia isso ficou claro no Reino espiritual.  como se os 
demnios tivessem visto, tivessem descoberto a sua 
potencialidade futura.
Eu fiquei at sem fala. Deus havia sido muito rpido. Eu 
no tinha por que duvidar de Anglica, era uma pessoa sria. Eu 
j tinha podido constatar a maneira como ela era usada por Deus 
naquele Dom.
Mesmo assim, eu gostaria de ter mais confirmaes 
sobre aquilo. No podia simplesmente aceitar por aceitar! Se 
aquilo era verdade, havia muita coisa a ser descoberta, muita 
coisa a ser tratada.
Deus iria trazer essas confirmaes. Ele ia trazer  luz o 
meu passado, e as causas ocultas daquilo que hoje eu 
experimentava apenas como conseqncias. Por isso as 
conseqncias me pareciam to exacerbadas, exageradas... por 
isso parecia haver alguma coisa "escondida" em algum lugar. 
Deus comeou a trazer para fora tudo que estava escondido, e 
minha prpria vida comeou a fazer sentido.
Terei que contar apenas os aspectos relevantes. Tudo 
isto, somado, veio realmente corroborar para tornar aquela 
premissa verdadeira. Eles tinham visto uma marca... a partir da 
viria a destruio.
Ela aconteceu basicamente de duas maneiras: primeiro, 
visava a minha prpria destruio. Segundo, visava a destruio 
da famlia porque, sendo ela desestruturada, isso facilitaria a 
minha desestrutura com ela.
Minha destruio individual tinha que ser uma 
destruio completa da alma. Tinha que haver uma mutilao da 
personalidade; eu teria que deixar de saber quem eu era, como 
eu era... as inclinaes naturais da minha alma seriam 
substitudas por outras que acabariam por se tornar crmicas; 
haveria uma destruio dos dons talentos naturais. Sentimentos 
de culpa, de inadequao e que favorecessem a baixa auto-
estima seriam criados ao longo da minha vida, vez aps vez.J
Quanto  famlia, a destruio precisava ser completa: 
ela teria que deixar de ser sustentculo e apoio para mim. Vrias 
foram as maneiras de fazer isso, de quebrar os pilares 
fundamentais da minha casa. O curso natural da vida 
profissional do meu pai seria mudado, minha me teria 
problemas de sade, eu seria separada do meu nico irmo, o 
distanciamento entre os membros da famlia seria progressivo. 
Apenas para dizer o bsico. Seria incompreendida (o que 
certamente aumentaria muito mais a culpa, a depresso, a 
condenao sobre mim). E, por fim, como o golpe final, meu 
relacionamento com meu pai seria deteriorado. No haveria 
forma melhor de me destruir !
Embora eu no possa dizer exatamente como tudo isso 
se revelou, posso dizer que veio aparecendo ao longo das 
Ministraes, ao longo dos meses. Cada item destes foi 
confirmado.
Eu j vinha orando h um bom tempo para que Deus no 
deixasse nada oculto ia minha vida. Era aquela velha sensao 
de haver algo profundo, algo escondido... ento orava pedindo 
que Deus mostrasse aonde estava a porta aberta na minha rida 
que continuava perpetuando os ataques e as feridas na minha 
alma.
Deus foi fazendo... porque eu estava buscando!
Foi uma busca de meses, de anos! Que agora estava 
finalmente culminando em algo mais slido.
Eu queria muito ser curada, queria profundamente, mais 
do que tudo, ser curada. Sabia que estava doente, sabia que 
alguma coisa estava errada... por mais que Deus j tivesse feito 
muita coisa nas Ministraes anteriores, faltava muito mais.
Por isso torno a dizer que as revelaes no vieram 
apenas por vir, elas vieram porque eu pedi. Porque 
insistentemente eu pedi, eu sabia, eu sentia que alguma coisa 
estava errada comigo! E eu me recusava a conformar-me com 
isto. Ainda que no soubesse o que era. Havia sentimentos que 
me perseguiam, coisas incrustadas no meu corao...
At mesmo Eduardo no me dava muito crdito, mas 
Grace dava.
Quase todas as minhas Ministraes foram com ela, 
excetuando as revelaes que vieram durante a Ministrao da 
minha me. Grace sabia que sentimentos rins, de forma muito 
persistente, podem ter realmente uma raiz espiritual.
Eu no queria desistir! Deus era poderoso... eu tinha 
visto Ele fazer muita coisa na vida de Eduardo... poderia fazer 
na minha tambm!
A verdade  que minhas Ministraes de Cura Interior 
foram muito diferentes das de Eduardo. Eduardo sabia com o 
que tinha se envolvido. Mas para mim, aquilo tudo era oculto, 
era desconhecido, s veio  tona porque Deus fez vir  tona.
Por isso as Ministraes antigas no tinham 
funcionado... eu nunca me havia envolvido com  praticamente 
nada, era uma libertao perfeitamente comum. Os primeiros 
resultados palpveis comearam a vir depois que fui liberta da 
gaiola, mas aquele era s um primeiro momento no processo de 
cura de Deus.
O cerne da questo era justamente aquele. O selo. E isso 
s veio a aparecer durante as Ministraes da minha me. Eu 
no poderia ter feito nada sobre isso antes deste momento.
O primeiro ponto forte que trouxe confirmao a toda 
aquela histria veio atravs da viso de um iceberg. Foi naquele 
mesmo dia, um pouco depois daquela primeira revelao 
envolvendo o Mdico.
A partir do momento em que o Reino Espiritual viu o 
selo, foi construdo aquele iceberg para me aprisionar dentro. 
Deus trazia como suporte o entendimento de que era uma coisa 
muito antiga...
Anglica teve a viso de mim petrificada dentro dele. 
Dentro desse iceberg havia galerias com espelhos que refletiam 
imagens. Naturalmente a viso de quem est dentro do gelo  
diferente de quem est fora. A imagem que eu via, atravs do 
espelho, no era a mesma imagem que todas as outras pessoas 
viam, de fora do iceberg.
Essa era uma figura alegrica para mostrar uma espcie 
de estratgia do inimigo. Ao me fazer viver num mundo 
paralelo, fora de sincronia com o resto das pessoas, eu jamais 
seria compreendida nem aceita. Os demnios iriam, ao longo 
dos anos, trabalhar muito neste sentido. De que eu vivesse uma 
vida isolada, e o meu ponto de vista nunca fosse compreendido 
pelos demais. Especialmente minha famlia.
Como eu estava petrificada, literalmente congelada 
dentro do gelo, isso queria dizer que meu corao estava 
congelado. Minha mente, minhas emoes, minha capacidade 
de ser e de agir, de reagir, de tomar decises... tudo aquilo 
estava paralisado!
Quando pedimos que o iceberg fosse destrudo, a 
primeira coisa que aconteceu foi o seu levantamento abrupto de 
dentro da gua. Ao invs de aparecer apenas a pontinha, ele foi 
inteiramente revelado. Mas no foi destrudo. Era to grande 
que Anglica levantou da sua cadeira, andando pela sala, para 
conseguir visualizar melhor aquele imenso bloco de gelo.
Quando novamente pedimos que Deus desfizesse aquilo, 
o bloco de gelo foi lapidado na figura de um demnio. Um 
demnio viking. O responsvel por tudo aquilo estava sendo 
revelado, conforme disse Deus atravs do discernimento 
espiritual que acompanhou a viso. Detalhe: o demnio com 
caractersticas vikings
 Astaroth, ou aqueles ligados  sua hierarquia. Astaroth 
 o principal demnio por trs dos enganos da Nova Era.
O iceberg era fruto de feitiaria para que, em vez de 
viver a realidade, eu vivesse de sonhos, de iluses, de imagens 
falsas. Como eu estava aprisionada dentro dele, toda a minha 
viso de mundo seria sempre atravs daquele prisma que o 
diabo tinha colocado ao meu redor. Eu via uma realidade 
distorcida. Enxergava a mim mesma, e o mundo, de maneira 
distorcida.
O que era essa distoro?
A base de todos aqueles sentimentos que me 
acompanharam a partir de um certo momento na vida: de 
desvalia, de inadequao, de tristeza, de morte, de culpa... 
distores da auto-imagem... das emoes...
Aquelas Ministraes me faziam pensar muito, me 
faziam rever a minha vida. Comecei a perceber a origem de 
muita coisa. A nvel pessoal, coisas antigas... coisas pessoais... 
coisas da escola... coisas da famlia... sentimentos feridos de 
adolescente... sentimentos feridos de jovem... sentimentos 
feridos de adulta...
A nvel familiar tambm encontrei algumas marcas 
claras: meu pai, que deixou rede de ensino para seguir a carreira 
poltica, como isso foi origem de muita desgraa na minha casa. 
Minha me, que adoeceu um pouco antes do meu aniversrio de 
nove anos... brigas entre eles... brigas entre ns... a competio 
velada entre eu e o Marco, e que no fim eu perdi... a princesa 
que deixou de ser princesa! A faculdade de Medicina que 
fagocitou tudo...
Tanta coisa, tanta coisa... de repente tudo aquilo 
comeava a fazer sentido.
Mais tarde eu iria ouvir: "Voc destruiu a famlia". Mais 
uma sutileza do inimigo... no fundo, eu era "responsvel", 
mesmo sem ter conscincia disso. Por minha causa, minha 
famlia foi atacada. No apenas eu fui atacada de forma 
individual, eles foram atacados tambm. O meu lar tinha que se 
tornar inspito para mim. Para nunca haver desenvolvimento 
espiritual, nada melhor do que destruir as bases familiares e 
emocionais para concretizar esse objetivo.
Essa viso foi complementada por uma outra viso, em 
outra ocasio. De certa forma, era muito semelhante  primeira.
Eu estava presa dentro de um quarto. Era uma priso. 
Nessa ocasio Deus mostrou que eu estava com cinco anos. 
Ento algum aparecia ali, que me dava bronca, e me obrigava a 
vestir uma roupa que eu no queria. Eu s podia sair do quarto 
quando colocasse aquela roupa, ento tentava us-la. Mas 
quando saa do padro imposto, voltava a ficar presa no quarto. 
Sem roupa.
Apesar da dor que me trazia esta revelao, compreendi 
muito bem. Nem toda a revelao vem apenas para o 
intercessor, Deus  sbio em trazer testificao no corao 
daquele que est sendo ministrado.
Eu no poderia expressar nem desenvolver a minha 
prpria personalidade, no poderia vestir a minha prpria roupa! 
Aquilo traduzia claramente a questo da mutilao de 
personalidade. Eu s podia estar livre se usasse a roupa que me 
tinha sido impingida. Deveria ser uma outra pessoa, fazer outras 
coisas... caso contrrio, ficaria exposta de maneira humilhante.
No havia outro caminho para mim, aquela pessoa era 
mais forte do que eu. Eu deveria deixar as minhas coisas, e 
tomar as coisas que aquela pessoa me impingia. Com o 
discernimento que acompanhava a viso, Anglica disse que um 
pedao do meu corao, da minha alma, estava preso naquele 
quarto.
Neste dia, quando Grace orou para me tirar deste quarto, 
a viso que Deus trouxe foi muito bonita. Quando eu sa, cresci. 
Ento Anglica me viu com 18 anos, como da outra vez, quando 
sa da gaiola. Muito tempo depois dessa Ministrao eu viria a 
entender que gaiola era essa. Era a medicina. Ela viu tambm a 
coroa do meu Ministrio. Novamente, com esta idade, Deus me 
fazia como princesa. E esta coroa era igual  coroa de Eduardo. 
Sempre seria, em qualquer lugar do mundo. Eu no era apndice 
dele.
Essa viso foi completada por uma outra, no sei se 
antes ou depois da primeira, mas quando sa do quarto, ainda 
como criana, Jesus me deu um vestido rosa, um chapu, meias 
e sapatos. E Anglica me via brincando num jardim, sujava as 
meias e a roupa. Mas no era repreendida por Ele. Ele me 
amava de uma maneira que nunca fui amada, 
incondicionalmente.
Ento Jesus sorria e ficava apontando aquela moa para 
mim. Apontava a moa para a criana, como que querendo dizer 
que o destino daquela criana era tornar-se aquela moa que 
receberia uma coroa de Ministrio aos 18 anos.
A questo da idade era algo que fazia essa histria 
espantosa, se ainda todo o resto no fosse suficiente. Por que 
aprisionar uma menina de cinco anos! Que ameaa ela poderia 
significar, por si s, humanamente falando?
Ainda uma terceira ocasio:
Foi um dia em que quase no chegamos  Ministrao. 
Tinha impresso que nada ia mudar, e queria morrer.
At mesmo um atraso de mais de uma hora aconteceu, 
por causa de uma greve do metr.
No final da Ministrao, depois de muito choro e muito 
desabafo, incansavelmente procurando por amor e 
compreenso, me sentia muito s. Grace me abraou, orou 
comigo. Depois Eduardo fez o mesmo.
No final, Anglica ainda orou mais uma vez. E dessa vez 
Deus trouxe a viso. Ela disse que tinha me visto dentro de uma 
caixa de vidro, presa. Era ainda pequena e estava maltrapilha. 
As pessoas que olhavam para mim, de fora, no viam o vidro 
transparente. E diziam: ela quer ser assim, ela quer viver assim, 
ela no muda porque no quer. Mas no enxergavam o vidro, 
no enxergavam que aquilo era uma priso. Eu no tinha outra 
escolha, no havia outro jeito de viver.
Numa outra ocasio Deus ainda mostrou uma porta 
aberta na minha frcula. Nessa ocasio era Sandra a 
intercessora.
Atravs dessa porta, uma Feiticeira entrava em contato 
comigo. Apareceu um
nome, que embaralhado, formava a frase "sem cr". 
Novamente o Encantamento mostrava que deveria haver uma 
paralisao espiritual. "Sem cr", ou seja^uma pessoa que no 
tem f, cuja f foi amortecida, congelada, deturpada por 
situaes emocionais extremas, e que nunca vai poder ser usada 
por Deus. Novamente ficava claro que situaes haveriam de 
me levar ao esfriamento da f de forma que eu nunca pudesse 
ser usada por Deus. Era um forte Encantamento na inteno de 
impedir o desenvolvimento espiritual.
Estas foram as mais importantes informaes que Deus 
trouxe sobre a minha pessoa de maneira individual, a respeito da 
deturpao de alma, da destruio de personalidade.
Com relao  famlia, em mais de uma ocasio Deus 
trouxe outras vises fortes.
Desta vez, tambm era Sandra a intercessora.
Para no interromper a Ministrao, os intercessores 
costumavam escrever as vises num papel e entregar direto para 
Grace. Ento ela escreveu da seguinte forma: "Estou vendo uma 
criana pequena no cemitrio, com muito medo e muita raiva. 
Ela est olhando para trs tmulos e  to forte a viso que 
parece que meu corao vai sair pela boca".
Compreendi muito rpido o que era aquilo, pois Sandra 
acrescentou que a criana era eu. Os tmulos eram do meu pai, 
da minha me e do meu irmo. Eles no tiveram a vida que 
poderiam ter tido. Deus mostrou parte da tristeza e da dor que 
eu sentia ao v-los mortos. O fato de aparecer como uma 
criana na viso significava toda a minha impotncia em fazer 
algo para salv-los. Tambm trazia  lembrana que, 
novamente, esta era uma questo antiga. Essa criana vive como 
espectadora, h muito tempo, de uma destruio familiar. Ela 
apenas assiste sem poder fazer nada!
Minha famlia era solitria. Meu pai costumava dizer 
que tinha nascido sozinho, porque ele nasceu em casa, o nono 
filho... sem a ajuda de ningum. Ele tambm morreu sozinho. 
Em casa. Minha me, eu e Marco tambm ramos marcados 
pela solido.
Numa outra vez, houve tambm a viso de um trilho. 
Um trilho muito antigo, muito extenso, sobre o qual ns 
deveramos caminhar como famlia. Isto , os trilhos no eram 
para mim... eram para a minha famlia, para todos ns. Eles no 
haviam sido estendidos por Deus, alis, nenhum de ns era 
sequer convertido nessa poca! O trilho havia sido estendido 
pelo diabo, e uma nuvem de demnios foi colocada sobre cada 
membro da famlia para impedir que ns sassemos dele. As 
Ministraes foram marcantes neste aspecto: antecediam a 
nossa converso! Quase todas as vises a mostravam como 
criana, muito antes da minha converso, eu s iria me 
converter com 16 anos de idade!
Por sinal, o fato de ns termos nos convertido foi um 
desvio de curso. Pelo menos Deus assim mostrou. Os demnios 
no se preocuparam com isso, pelo contrrio, foi criado um 
desvio para que o curso fosse corrigido.
Lembrei-me da maneira absurda como meus pais se 
afastaram da Igreja antes mesmo de comear a freqent-la! 
Como Marco e eu freqentamos Igrejas diferentes a maior parte 
do tempo. Foi um verdadeiro boicote...
Mesmo convertidos, continuvamos caminhando 
naquele trilho, aquele que levava ao destino que o diabo queria 
para ns!...
Muitos podem achar isto controverso. Mas a verdade  
que as nossas vidas foram reflexo disso. Embora salvos, 
nenhum de ns colheu a abundncia da salvao! E os 
problemas continuaram, inexoravelmente, exatamente como 
antes.
Aquela maldio precisava ser quebrada...
Quando oramos por isso, os demnios maiores tiveram 
de recolher os menores. Mas tinham um ar de deboche no rosto. 
Sabiam que a manipulao familiar era muito antiga, era s uma 
questo de tempo para que todos retornassem ao curso que eles 
queriam.
No entanto, um porto foi aberto no meio dos trilhos, e 
tambm havia uma escada que descia. Era um escape que Deus 
estava trazendo, a possibilidade de uma mudana. Mas a 
intercessora foi bem clara:
 Essa  uma escolha de cada um. Tem a ver com a 
renovao do entendimento. Com a obedincia. Como todos na 
famlia caminharam muito tempo por este trilho,  s isso que 
sabem fazer, caminhar por ele. Cada um vai ter que passar pelo 
porto que Deus abriu, sozinho... por outro lado, a escada leva 
de volta aos trilhos. Existe a uma forte referncia ao livre- 
arbtrio. Deus est abrindo a porta... resta que cada um enxergue 
esta porta e se decida a passar por ela.
Essa viso se sucedeu a uma outra. Um incndio numa 
casa, e muitas pessoas queridas estavam mortas. Novamente, 
uma aluso  morte familiar. Havia pessoas carbonizadas, mas 
eu no estava presente.
Tudo aquilo s trazia crdito ao que eu j sabia. Aquelas 
maldies antigas, que tinham por objetivo me destruir, geraram 
um ciclo de destruio familiar, causando traumas, tristeza, 
diviso, solido. E morte espiritual.
Deus trouxe revelaes tambm sobre Marco nesta 
ocasio. Todas as vezes Deus falava sobre prises espirituais. 
Ns queramos muito que ele tivesse sido ministrado dentro da 
Cura Interior.
Numa outra ocasio, quando todos estes aspectos j 
tinham sido tratados, mais de um ano depois, lidvamos com 
outra coisa que no tinha nada a ver comigo. De repente, no 
meio do nada, no meio das coisas de Eduardo, a intercessora 
trouxe mais uma viso.
E disse que eu no conseguia sentir o amor de Jesus 
porque ainda me sentia culpada pela morte do meu pai. A viso 
que Deus tinha trazido era a seguinte: eu estava paralisada, em 
p, olhando para o meu pai que estava na cama, morto. Nessa 
hora, o demnio colocou uma faca na minha mo.
E a intercessora mesma explicou:
 A faca foi colocada na sua mo naquele momento, 
para que voc tomasse sobre si a culpa da morte. Mas no foi 
voc que usou a faca... agora  preciso orar para tirar essa faca 
da sua mo.
Em outras palavras, ela queria dizer tirar a culpa de cima 
de mim.
No foi a primeira vez que orei por aquilo. Mal 
conseguia falar quando orei rejeitando a acusao e a 
condenao.
Estava muito claro para mim o que tinha acontecido na 
minha vida, e na vida da minha famlia. Eu no questionava 
mais nada porque aquilo caa redondo no meu corao. Era a 
explicao que me faltava, era o fio da meada! No estava em 
mim o poder de resolver tudo... por um lado me sentia 
angustiada, querendo resolver no apenas o meu problema, mas 
tambm da minha me e do Marco. Agora tudo fazia sentido.
* * * *
Meu processo de cura seria muito longo. Certamente ele 
foi aumentado porque eu no conseguia ter perodo de 
convalescena. Bastava Deus tratar algum ponto, e praticamente 
no dia seguinte os demnios comeavam a trazer tudo aquilo de 
volta. Eu escutava aquelas mensagens sem parar, vindas de 
todos os lados.
s vezes da minha me, s vezes do Eduardo, s vezes 
do Marco... no necessariamente com palavras, atitudes tambm 
falam bastante. Tambm outras pessoas  minha volta 
continuariam a me julgar, a me condenar, a cobrar posturas da 
minha parte de forma direta ou indireta. Especialmente depois 
que comeou o Ministrio. No havia clemncia de forma 
alguma!
Realmente no conseguia receber a minha cura! Havia 
um bombardeio contrrio cada vez que Deus fazia alguma coisa. 
Estava muito difcil receber... estava muito difcil acreditar que 
algo novo fosse acontecer na minha vida.
Houve momentos naquele ano em que me sentia como 
se fosse explodir. Literalmente falando. Parecia que meu corpo 
e minha alma no iam agentar tanta angstia, tanta presso, 
tanto massacre. Haveria ainda muitos dias e noites horrveis, em 
que sentia medo, pavor e desespero. No era sempre assim. Mas 
quando acontecia, era horrvel.
Os sintomas fsicos teriam lugar. Problemas na coluna, 
problemas hormonais, problemas digestivos. Um cansao 
indescritvel. Durante meses a fio eu tive uma febrcula diria. 
Todos os dias minha temperatura subia perto dos 37,4 C. Se 
brigasse com Eduardo, a temperatura subia mais, todas as vezes, 
sem exceo. Comeavam os calafrios, a sensao de 
incmodo... quando pegava o termmetro, estava com febre.
Fiz todos os exames laboratoriais para descartar 
qualquer causa natural. De exames reumatolgicos a sorologias. 
No apareceu nada. E do mesmo jeito como a febre veio, 
tambm desapareceu sem deixar vestgio. Levou quase um ano!
Certa ocasio, Eduardo chegou a ligar para Grace, 
preocupado, dizendo que no tinha palavras para descrever o 
meu estado. Era preciso usar as palavras de Davi: "envolta por 
angstias do Inferno, envolta por tramas de morte, cercada de 
terror por todos os lados". Realmente no havia palavras fortes 
o suficiente para descrever como eu me sentia algumas vezes. 
Continuava vivendo situaes extremas em que aceitava de 
volta as palavras de acusao, de derrota, de morte, de loucura, 
de condenao...
Houve momentos em que senti que para mim no tinham 
mais jeito. Mesmo que Deus estivesse procurando me libertar, 
eu no conseguia receber, era mais forte do que eu. O 
bombardeio contrrio era mais forte do que eu. No havia 
ningum ao meu lado para me ajudar a receber, para me ajudar a 
enxergar de outra maneira, para lutar ao meu lado. Estava 
sozinha!
* * * *
A grande realidade  que no aconteceria no meu tempo, 
no aconteceria do meu jeito... nem no tempo e do jeito dos 
outros. Deus  Deus, Ele age como quer, quando quer. Basta 
aceitarmos que, na Sua Oniscincia, Ele conhece o tempo e o 
modo, e todas as coisas.
 incompreensvel para mim porque Deus me deixou 
sofrer durante tanto tempo, na ignorncia de muita coisa. E 
mesmo porque no trouxe a cura logo, acompanhando as 
revelaes. Ele poderia ter feito! No precisaria ter dependido 
de mim, nem dos outros, nem dos demnios, nem das 
circunstncias... bastava um "sim" Dele, e eu estaria curada!
Mas no foi assim que aconteceu.
As Ministraes com Grace foram uma importante parte 
deste processo. Em alguns momentos era como fazer uma 
"terapia", s que, na Cura Interior, o Terapeuta  o prprio 
Deus! Mas as visitaes mais importantes de Deus aconteceram 
dentro da minha prpria casa, junto com Eduardo.
Apenas a primeira delas faz parte dessa histria. A outra 
aconteceu dentro de um outro perodo, dentro de um outro 
contexto, bem mais para a frente.
Deus j tinha feito muito por mim... eu j tinha sido 
liberta de mais de uma priso espiritual. Mas naquele dia 
aconteceu algo mpar conosco.
E melhor que Eduardo mesmo conte o episdio.
* * * *
Captulo 49 - Eduardo Conta
Tudo comeou depois daquela Ministrao.
Quando Anglica teve a viso de Isabela presa dentro de 
uma caixa de vidro.
Eu no estava dando o devido crdito queles 
sentimentos da minha esposa
 porque pareciam desproporcionais. No parecia haver 
motivo para insistir tanto nos mesmos pontos.
Mas ento... ainda durante a Ministrao... eu vi! Deus 
me trouxe a mesma viso, e aquilo mexeu muito comigo. No 
porque Deus tivesse aberto viso, mas porque a viso em si me 
impressionou bastante.
Ento era tudo verdade!
Aquilo de repente fez meus olhos abrirem para aquela 
realidade que havia estado presente na maior parte das 
Ministraes de Isabela. A questo do aprisionamento! Deus 
conhecia meu corao e meus sentimentos. Ento Ele me fez 
contemplar aquela verdade, o estado de Isabela, com meus 
prprios olhos. Foi como se tirasse um vu da minha vista.
At aquele dia realmente ns no tnhamos dado maior 
crdito quela questo das prises espirituais. Durante o curso 
da Grace, no ano anterior, ela havia dado uma aula sobre 
espritos em priso. Escutamos, mas era algo muito distante da 
nossa vivncia. Grace, ao contrrio, tinha vrios casos 
semelhantes para contar.
Creio que Deus permitiu que ns dois vivencissemos 
aquele episdio totalmente diferente de aprisionamento com um 
propsito. O Senhor permitiu tal coisa para nos mostrar a 
profundidade e a realidade das coisas espirituais, at que ponto 
h mistrios insondveis dentro do Reino invisvel. E como a 
realidade expressa no mundo do Esprito se reflete ipsis litteris 
no mundo fsico. Deus no precisava ter feito desse jeito... mas 
Ele queria nos ensinar, queria nos mostrar uma outra dimenso 
de libertao, de cura e de guerra.
Por mais que no possamos explicar completamente, o 
Senhor mostrou que o aprisionamento de espritos  uma 
realidade.
Depois daquela experincia, no questionamos mais a 
veracidade dos espritos em priso.
Base Bblica? A que est...
Existem tantos textos traduzindo "sensaes" 
semelhantes, que fica sobre ns a pergunta: at que ponto aquela 
linguagem  apenas simblica! Por que um colorido to especial 
na descrio da sensao de aprisionamento?
"Tira minha alma da priso, para que eu louve o Teu 
nome. O inimigo persegue a minha alma, abate-me at o cho; 
faz-me habitar na escurido, como aqueles que morreram h 
muito. Alguns se assentaram nas Trevas e nas sombras da 
morte, presos da morte, presos de aflio, e em ferros, por se 
haverem rebelado contra as palavras de Deus, desprezado o 
conselho do Altssimo. Estou contado com os que descem  
cova; estou como um homem sem foras. Estou atirado entre os 
mortos, como os feridos de morte que jazem na sepultura, dos 
quais no Te lembras mais, os quais os exclui a Tua mo. 
Puseste-me na cova mais profunda, em Trevas, nas 
profundezas" (Sl 142.7; 143.3; 107.10; 88.4-6).
Quero crer que, em alguns casos, aquilo que parece ser 
to-somente um recurso alegrico de linguagem, um colorido a 
mais, um superlativo exagerado...  declaradamente literall
Cada um que julgue por si. Ns j temos nossa opinio 
formada.
Durante o curso, Grace ensinou como fazer uma espcie 
de diagnstico do aprisionamento, como juntar os sintomas para 
perceber um esprito "adormecido", ou aprisionado.
Por exemplo, estes so alguns deles: existe uma falta de 
alegria profunda na vida pessoal e com Deus; aquele que est 
aprisionado tem uma sensao de tristeza, de vazio, e de solido 
muito grande, aparentemente sem causa. Sentimentos de aflio 
muito intensos podem ser recorrentes quando aparentemente 
nada est causando aquela aflio. E haver perda de talentos 
naturais, de energia e de vida, como se tudo aquilo estivesse 
muito distante e fosse impossvel de ser usado ou vivido. 
Sensao constante de inutilidade, de morte, quando 
aparentemente as coisas esto indo bem. A pessoa tem 
percepo de problemas insolveis, mas no consegue encontrar 
a causa destes. Consegue apenas sentir os seus efeitos. H 
sentimentos recorrentes de ira e depresso.
Especialmente significativa  a falta de empatia das 
pessoas em geral, que no conseguem compreender, nem 
enxergar os problemas daquele que est aprisionado.
* * * *
Como eu j disse, para ns tudo comeou depois daquela 
Ministrao.
Nos dias que se seguiram, tive desejo de orar por 
Isabela. De ungi-la. Pedir que Deus estivesse derramando sobre 
ela um blsamo, um refrigrio. E a fortalecesse. Nem sei dizer! 
Gostaria de poder fazer alguma coisa...
No meu corao eu queria muito uma coisa, que Deus 
restaurasse em Isabela a sua antiga alegria! A felicidade! Aquele 
riso de gargalhar.
No dia seguinte quela Ministrao, Isabela no estava 
bem. Teve febre durante o final de semana, mesmo assim 
tnhamos uma Igreja agendada no domingo. Na segunda-feira 
ela estava muito cansada e muito deprimida. Acabamos 
discutindo, para piorar tudo. Mais uma vez o diabo procurava 
roubar aquilo que Deus estava fazendo. Isabela chorou, chorou, 
teve muito medo.
Mais tarde nos reatamos. Ela dormiu um pouco e depois 
viu filme de vdeo para distrair a cabea.
Mas estava triste.
 Como eu gostaria que algum tivesse orgulho de 
mim... e que, olhando, me dissesse: "Como voc me faz bem..." 
 disse Isabela dolorosamente, num desabafo.
Ento me compadeci muito. Convidei-a para orar, ela 
concordou. Nos sentamos na sala, no sof, e a noite tinha 
acabado de cair. Ficamos ali acomodados e comecei a colocar 
diante de Deus aqueles motivos de orao. Pedir aquela 
restaurao.
Alguma coisa diferente Deus tinha que fazer!
Porm, logo no comeo da minha orao, alguma coisa 
forte no meu ntimo, em esprito, me disse:
"Isso que voc est pedindo... essa alegria de gargalhar, 
essa felicidade radiante... est aprisionada espiritualmente..."
Um mpeto de fazer alguma coisa me invadiu. Eu j 
tinha pedido antes que o Senhor me trouxesse a estratgia para 
ajudar Isabela, mas aquele momento... foi como um toque de 
Trombeta do Cu. Como que me autorizando, como que me 
dizendo: "Este  o momento!"
Ento pedi a Deus que me ensinasse, porque aquilo tudo 
era muito novo para mim. E tambm para Isabela. Tinha que 
buscar Nele a estratgia, o caminho, a coisa certa a fazer. Ele j 
tinha dado autorizao, uma autorizao especial, aquele era o 
kairs de Deus, uma certeza absoluta permeava meu corao. 
Restava saber o que precisava ser feito.
Ento esperei.
Nesse momento a sensibilidade espiritual me fez 
perceber que havia anjos atrs de mim, uma presena to 
palpvel que, se voltasse as costas, poderia v-los todos. Mas 
no vi. Apenas senti.
Por algum motivo eu j no estava na sala de casa, no 
nosso sof. Estava caminhando por um outro lugar... no senti 
medo propriamente dito, acho que nem mesmo surpresa. Deus 
ia fazer alguma coisa nova.
Eu no sabia que lugar era aquele........
Estava meio escuro ainda, e enevoado. Como um 
amanhecer. Compreendi que aquilo era algum tipo de viso do 
esprito, mas no como eu estava acostumado a ter. Parecia ter 
sido trasladado literalmente, no se tratava apenas de ver 
alguma coisa. Estava numa outra dimenso, se  que posso 
chamar dessa maneira.
Continuei esperando... sentia tranqilidade por causa da 
presena daquela Guarda que estava ali comigo. No saberia 
quantificar quantos eram, mas me senti protegido.
Fui caminhando, mas no era um caminhar humano, era 
quase como um flutuar. Um flutuar rente ao cho. Eu estava 
sendo levado, meu esprito estava sendo levado, no saberia 
dizer... a nica certeza forte era a convico de que estava ali 
com um propsito. Eu sabia que propsito era aquele.
Ento perguntei aos anjos que estavam comigo, embora 
no os enxergasse:
"Onde ela est? Eu a vi dentro de uma caixinha de 
vidro... mas eu no estou vendo a caixinha aqui..."
Olhei em derredor. Aquele era um lugar muito 
estranho... parecia um deserto... mas no um deserto de areia. 
Quando a viso comeou a clarear, pude perceber aquela 
imensido desrtica para todos os lados, aquela aridez... uma 
aridez de pedra! Havia muitas montanhas, altas, mas eram 
montanhas completamente despidas, sem nenhum verde, sem 
nenhuma vida...
Um dos anjos me respondeu, ouvi a voz falando ali perto 
de mim:
"Ela est dentro de um poo... daquele poo!"
Eu procurei pelo poo, mas no vi nenhum poo como 
estava imaginando, daqueles de pegar gua. Vi na verdade uma 
cratera imensa... cor de cinza, cor de concreto, de dimetro 
espantoso! No saberia quantificar ao certo, mas pelo menos 
dez quadras de dimetro, muito grande... muito grande! Uma 
coisa monstruosa! Inimaginvel!...
Cobrindo a boca da cratera havia uma rocha enorme, 
uma pedra que, eu sabia, ningum seria capaz de remover. Cor 
de magma. E perfeitamente ajustada nas paredes da cratera, 
como se tivesse sido talhada exatamente para ocupar aquele 
lugar. O poo estava absolutamente bem vedado!
Aquela viso era mais real do que a realidade do dia-a-
dia. At mesmo a noo de tempo e espao eu perdi.
"Ela t ali dentro?", me sentia meio desarvorado.
E as vozes dos anjos me respondiam:
"Sim, ela est a dentro. A rocha precisa ser removida."
Eu ainda no estava sentindo medo. To-somente queria 
uma estratgia. Senti-me ansioso para encontrar a estratgia, 
uma sensao de urgncia me tomava.
"No saiam de perto... me guardem, me protejam... no 
saiam de perto..."
Eu queria ter certeza de que eles continuariam ao meu 
lado at que eu soubesse o que fazer.
Voltei a vista novamente para a rocha, to grande quanto 
um campo de futebol... enorme, pesada, irremovvel... e 
continuei falando com eles, inquieto:
"Isso aqui  muito grande,  impossvel sair da! Vocs 
precisam me ajudar!"
"No h fora que possa remover esta rocha. S um 
Homem pode mov-la."
Fiquei pensando quem seria. Na minha mente, na minha 
mente humana, imaginei que deveria ser o Arcanjo Mikhael.
Ento, na minha ansiedade, chamei por ele.
"Mikhael!... Onde est Mikhael, cad o Capito dos 
Exrcitos?  ele que vai mover essa rocha!"
Foi ento que senti uma movimentao dos anjos atrs 
de mim, como se estivessem abrindo caminho para algum 
passar. Mesmo assim no olhei para trs, ainda estava olhando 
para a cratera.
Nem sei por que... o natural seria ter olhado, ter esticado 
a cabea! Isso foge a qualquer coisa que minha imaginao 
possa ter produzido... o natural de qualquer ser humano no  
ficar de costas, mas olhar para quem est chegando, para aquele 
que teria Poder de abrir o poo.
Ento senti Algum passando por mim... e no era 
Mikhael, era um Homem! Um pouco mais alto do que eu... 
mas... quando ele passou... senti uma onda muito forte de Poder 
e de Amor junto com Ele... muito mais forte do que o Poder que 
j tinha sentido irradiar dos anjos... era um Poder to forte... mas 
um Poder de Amor!...
No h palavras para explicar, fui tocado por uma 
sensao totalmente no humana, algo totalmente sem 
parmetros no nosso mundo material. No sei descrever... era 
um Poder to incomensurvel, capaz de mudar todo o curso da 
Histria, de destruir todo o Universo e faz-lo de novo... um 
Poder incomparvel!... Mas como se todo esse Poder fosse 
representado... pelo Amor!...
Quando Ele passou, ento eu soube a que Homem os 
anjos estavam se referindo. S podia ser um, apenas um... Jesus! 
O Filho do Deus Vivo!
Eu apenas O vi de costas, e Ele levava nos ombros uma 
espcie de capa. De um branco inexistente na Terra! Me 
impressionou muito, a brancura daquela capa... no me recordo 
de mais nada, mais nenhum detalhe sobre a viso do Homem.
Ele se aproximou da beira da cratera, e vi quando 
estendeu a mo e tocou na rocha. No...! Talvez Ele no tenha 
nem mesmo tocado, apenas estendeu a mo perto e aquela rocha 
comeou milagrosamente a se deslocar na boca da cratera..... 
comeou a deslizar!
Imaginei que fosse ouvir algum rudo, algum som da 
rocha raspando nas paredes daquele poo indescritvel, mas 
no... no houve rudo algum... foi suave... e abriu! A boca do 
poo ficou descoberta mais da metade...
Ento cheguei perto para ver. Melhor dizendo, de 
repente eu me encontrei ali, na boca da cratera, fui levado at l 
de alguma maneira.
Olhei para dentro e vi um negrume intenso, to intenso 
que poderia palp-lo. Estiquei minha mo e ela desapareceu 
dentro daquele escuro profundo, muito profundo, que nem 
mesmo a luz de fora espantava. Mesmo nas bordas. Quando a 
gente olha para um poo as paredes que esto prximas  
superfcie so iluminadas pela luz, e somente o fundo fica 
escuro.
Mas ali no era assim. Um manto negro aterrorizante 
cobria toda a cratera, era quase como um lquido que invadia 
tudo at a borda, at a boca. Como um lago escuro, um poo de 
petrleo. A luz era incapaz de penetrar ali dentro.
Comecei a procurar uma escada, comecei a tatear, como 
entrar ali dentro? Palpei com minha mo nas bordas da cratera 
procurando alguma coisa, e meu brao desapareceu naquele 
lago negro. No era lquido... era simplesmente a densidade 
daquele ar, a coisa terrvel que era abrigada ali dentro... eu 
nunca imaginaria nada assim!
Comecei a ficar nervoso porque no sabia como descer. 
Percebi que os anjos continuavam ali, e imaginei que Jesus 
tambm deveria estar por perto... mas eu no estava vendo 
nenhum deles...
"O que eu devo fazer? Me ajudem! Eu preciso de uma 
escada para descer... no tem luz... cad os anjos?"
Mas no houve uma resposta audvel como antes.
Minha alma humana raciocinava, e pensei que os anjos 
poderiam ir na minha frente, iluminando o caminho... ento, no 
meu corao algo me dizia:
"Pode ir... pode ir porque Eu estou com voc, voc no 
est sozinho..."
Aquilo me trouxe um pouco de coragem. Dei um passo... 
pensei que fosse encontrar alguma coisa slida para pisar, mas 
no tinha nada slido, comecei a afundar suavemente... e 
descer!
 medida que descia comecei a sentir frio... da tive 
medo de verdade! Tive medo porque a escurido era intensa, 
muito profunda, e eu no conseguia enxergar nada. O silncio 
tambm era estranho... sepulcral, indescritvel... no poderia 
haver nenhuma forma de vida naquele lugar! Tudo era muito 
escuro, muito frio, muito profundo, muito aterrorizante.
O medo aumentou... s descia... descia... descia...
Para me acalmar, falava o tempo todo para os anjos:
"Me guardem! Me guardem! No fiquem longe de 
mim..."
Embora no tivesse resposta, sabia que eles estavam ali, 
descendo ao meu lado. Mas aquilo parecia no ter fim! O 
silncio me incomodava, por isso l pelas tantas, perguntei de 
novo:
"Onde  que est Jesus? Ser que Ele ficou l em cima?"
Eu continuava sentindo medo. Dessa vez uma voz me 
disse:
"No! Ele est sempre por perto!"
E era a voz de um anjo. Quando ouvi aquela voz, 
novamente me acalmei um pouco.
Tudo que pude pensar acerca daquele lugar  que ali era 
uma galeria do Inferno. No nosso mundo real, no tempo Cronos, 
no saberia dizer quanto tempo passou. Mas naquele mundo 
onde eu me encontrava, naquele tempo, aquela descida pareceu 
eterna. Interminvel! Parece que fiquei dias descendo pelas 
entranhas daquele poo... dias inteiros! Muito tempo, muito 
tempo... no acabava mais.
E pensava comigo, muitas vezes:
"Ela est aqui dentro..."
Da falava para os anjos:
"Ento ela deve estar sentindo muito frio, porque aqui 
est frio..."
Mas ento... finalmente! Comecei a vislumbrar, a 
distncia, uma luz tnue, clida. Quando fomos chegando mais 
perto, descendo at l, percebi que era algo como uma 
plataforma. Mas o poo no terminava ali, no era o fim, ele 
continuava, ia mais profundamente ainda!
No entanto, minha ateno foi totalmente desviada para 
aquela plataforma levemente iluminada. No centro dela havia 
algo como uma pequena arena. E no centro da arena, eu vi a 
caixinha de vidro!
Fui apertando minha vista, sentindo o corao bater mais 
forte. Pude contemplar Isabela dentro da caixa. Mas ela no era 
como hoje a conheo, era bem mais nova... estava agachada e 
vestida de forma maltrapilha. A distncia consegui ver apenas 
uma espcie de manta, muito surrada, de cor avermelhada, em 
que ela se enrolava. Quando ela se levantou, vi que fisicamente 
era grande, da altura de uma mulher adulta. Mas tinha o rosto 
infantil.
"Olha, ela no tem s cinco anos! Ela j est grande!"
"Ela est com doze anos agora...", pude ouvir a voz do 
anjo que me respondeu.
Vi que Isabela se levantou e procurava a sada. Mas no 
encontrava nenhuma sada. Pelo que perguntei de novo:
"Mas onde est a sada?"
Foi nesse momento que notei aqueles demnios  volta 
da caixinha. Eram de cor marrom esverdeada, com corpos como 
de rptil, com uma cauda longa, bem grandes... talvez trs vezes 
o tamanho de um homem! As mandbulas eram proeminentes e 
os caninos pontiagudos, saltando para cima, de olhos bem 
negros, medonhos. As sobrancelhas muito espessas quase 
juntavam no centro da testa, e as narinas, largas, lembravam as 
de um cavalo. Tinham orelhas que espetavam para cima e os 
cabelos nasciam na testa, somando com as sobrancelhas, e se 
estendiam por trs da cabea formando o que deveria ser o 
cabelo. Mas no era cabelo, parecia crina de cavalo cortada bem 
rente, e descia pelo dorso at a ponta da cauda.
Eles estavam rindo e se divertindo, olhando Isabela 
presa, e vendo que ela no achava a sada. Entendi que eles 
eram como os guardies daquela priso espiritual. Isabela 
tateava, tateava, mas no encontrava como sair dali.
Por algum motivo incrvel os demnios no tinham a 
menor conscincia da minha presena, nem da presena dos 
anjos que estavam comigo. Fiquei um pouco angustiado com a 
viso e perguntei novamente:
"Onde est a sada? Eu tambm no estou vendo 
nenhuma sada... no tem sada mesmo..."
Percebi que Isabela j no tinha tanto mpeto para 
procurar a fuga. Ela olhava um pouco, mas acabava desistindo e 
voltava a sentar no cho da caixinha. Ento erguia-se 
novamente, procurava outra vez, mas j sem vontade, 
conformada... desesperanada... ento deixava-se cair no cho 
outra vez. Mais uma vez levantava, olhava um pouco mais, 
meio desanimada... e voltava a se sentar. J estava cansada de 
procurar e no encontrar sada.
Por vezes se enrolava melhor naquele manto, como se 
sentisse frio.
"Olha l, ela est com frio...", falei mais uma vez. 
"Puxa... ela j est cansada de ficar presa ali, de procurar a sada 
e nunca encontrar. Ela j no tem esperana de sair... ningum 
enxerga ela! Ningum v o que ela est passando..."
Naquele momento no escutei resposta, ento fui 
criando coragem de chegar mais perto, e continuava 
perguntando a nica coisa que tinha importncia naquele 
momento:
"Cad a sada? Cad a sada? No estou vendo a sada! 
Revela pra mim a sada... eu estou vendo que ela no tem 
sada... o que eu devo fazer?"
Aquela voz me falou, com muita calma:
"A sada vem do Alto... o socorro vem do Alto! Ela 
ainda no olhou para cima..."
Olhei no topo da caixa e tambm no vi nada. Fiquei um 
pouco em pnico.
"Mas ali tambm no tem sada! Por isso que ela no 
est vendo...!"
Nesse momento, os demnios comearam a se 
entreolhar. Como que desconfiados. Como que dizendo:
"Tem alguma coisa estranha por aqui".
Eles pararam com aquele ar de sarcasmo, deixaram de 
rir e de se divertir, olhavam um para o outro com ar 
especulativo, de dvida, como que farejando alguma coisa. 
Vagarosamente comearam a andar, olhando  volta, 
procurando, observando muito bem com seus olhos malignos...
Um texto Bblico me veio  mente, algo me dizia que 
para invadir uma casa primeiro era preciso amarrar o valente.
"Ai!  preciso amarrar eles! Lembrei disso agora! No 
posso chegar perto sem amarrar estes demnios..."
"No h necessidade disso hoje, eles no vo poder te 
tocar", respondeu um dos anjos.
Imediatamente, numa exploso de luz, eu vi as Muralhas 
de Fogo subindo! No era fogo... claro! Eu j tinha visto ao 
redor de casa, eram Colunas de Luz! Luz em movimento!!! Mas 
pude ver bem melhor agora, eram Colunas espessas de uma Luz 
branca... de movimento como de labaredas de Fogo, mas no 
era fogo, era Luz! Que efeito magnfico!!
Dessa vez eu no podia olhar atravs delas, por isso 
deixei de enxergar os demnios, que ficaram atrs da Coluna. 
Eu apenas podia ver a caixinha. Aquelas Muralhas de Fogo 
tinham separado a caixinha dos demnios!
Ento j estava ali perto, j estava de frente para a 
caixa... Isabela olhou para mim de dentro daquele vidro, e 
parecia um pouco assustada, ento falei:
"Fica calma! Eles no esto mais te vendo!"
O Fogo das Muralhas estava bem pertinho de mim, e 
percebi que no queimava.
"Mas que estranho... esse Fogo no queima... no faz 
mal!"
"Para vocs no!", me respondeu o anjo. "Essa Luz no 
faz mal para vocs porque vocs so filhos da Luz. Mas para 
eles, uma fasca disto  letal!"
"Como assim, letal? Eles morrem? Demnios no 
morrem..."
"Aquele mesmo que criou tudo do nada, pode fazer 
qualquer criatura voltar ao nada... por isso  letal!"
Esse era o motivo que mantinha aqueles demnios a 
distncia. Apesar de j saberem que o Inferno estava sendo 
saqueado, no podiam fazer nada! Porque Jesus estava l... 
apesar de que eu no tinha visto mais Jesus. Eu ouvia a voz dos 
anjos e sabia que eles estavam por perto. Eles tinham dito que 
Jesus tambm estava por perto... onde ser que Ele estava?
Como no o encontrasse, voltei a perguntar da sada, 
insistentemente. Por que no me diziam?
"Onde  a sada?!"
Era hora de cumprir o propsito pelo qual eu tinha sido 
levado quela priso. Os anjos estavam ali. Jesus estava ali. 
Portanto, se eu tambm estava ali,  porque tinha que fazer a 
minha parte para que o propsito de Deus fosse cumprido! Qual 
era a minha parte?
"Eu sei que  em cima... a sada  em cima...", falei para 
os anjos mais uma vez. "Me mostra onde , eu no consigo ver!"
Alguma coisa brilhou no alto da caixinha de vidro. E eu 
vi um cadeado grande, prateado.
"Ah, um cadeado! Tem que abrir o cadeado! Mas como 
que ns vamos abrir esse cadeado?"
"Usa a chave que Deus te deu!", respondeu o anjo.
Imediatamente me lembrei que Deus tinha mesmo me 
dado uma chave, eu sabia muito bem do que ele estava falando! 
Naquela Ministrao em que tinha renunciado ao meu destino 
espiritual, a chave fechou a porta de um poo. Mas ela abria 
tambm uma outra porta...
Procurei me encher de f. Porque no havia nenhuma 
chave em nenhum lugar, nenhuma chave que eu pudesse ver\
"Ento... pela f eu tomo posse da chave que Deus me 
deu. Agora!"
Quando eu falei isso, a chave apareceu na minha mo! 
Uma chave dourada, grande... quando experimentei, serviu 
direitinho! Escutei at o clique do cadeado... e quis puxar a 
chave de volta...
"A chave  minha..."
Mas no saiu. Estava presa. No vinha embora, por mais 
que eu a puxasse! Mas eu a queria de volta, era minha! Ento 
me disseram:
"Essa chave te foi dada com um propsito... e esse  o 
propsito! Ela s serve para este cadeado."
Fiquei um pouco frustrado e pensei comigo mesmo, no 
cheguei a falar:
"Puxa... tinha pensado que essa chave ia abrir a porta do 
Ministrio, ou as portas de emprego..."
Os anjos me disseram:
"A porta do Ministrio, quem abre  Deus. E a porta do 
emprego, foi o prprio Deus que fechou!"
Mas a porta da caixinha estava aberta! Metade da porta! 
S que Isabela ainda no tinha percebido, estava agachada l no 
fundo. Como eu estivesse em cima da caixa, me inclinei para 
pux-la. S que no conseguia alcan-la! Isabela olhava para 
cima, mas eu no tinha certeza de que ela estava me vendo.
Oh, puxa......eu podia v-la com tantos detalhes! Podia 
v-la como se fosse uma pessoa real ali na minha frente. Tinha o 
cabelo um pouco mais escuro, cortado na altura dos ombros, 
meio desordenado. Os olhos tambm pareciam mais escuros... 
mais profundos. E estavam tristes... to cansados! Pude perceber 
que por baixo daquela manta surrada ela usava uma roupa 
comum. Uma camiseta branca, e uma cala meio avermelhada 
presa por um cinto cor de mostarda. Nos pulsos, pulseirinhas de 
plstico. Era uma menininha!......
Mas ela no estava me enxergando.
Naquele momento senti novamente a presena daquele 
Homem, aquele que eu sabia que era Jesus. Mais uma vez eu 
no O vi de frente. Ele subiu no alto da caixa e estendeu a mo 
para ela, meio de costas para mim.
E disse:
"Agora voc precisa dar um passo de f... a minha mo 
est estendida! Se voc crer, voc sai daqui agora! Depende de 
voc. Essa  a sua parte: o teu passo de f!"
Ento eu gritei para ela:
"Tenha f! Se voc tiver f como um gro de mostarda, 
voc mover os montes. Estende tua mo!"
Senti um cerco de anjos  volta. No os vi. Apenas senti. 
Como que aguardando! Com grande expectativa! Ela demorou 
um pouco, mas ento estendeu a mo... Jesus a puxou para 
cima, com suavidade. Mas percebi que havia algum tipo de 
resistncia, os ps dela pareciam grudados no cho. Era como se 
o Inferno ainda estivesse tentando segur-la.
Mas a fora de Jesus era maior do que o Inferno inteiro! 
De forma que a resistncia durou pouco tempo... e Ele tirou 
Isabela de dentro da caixa, a colocou sentada sobre a tampa que 
estava aberta at a metade!
Em seguida arrastou com Suas mos as coisas dela que 
tinham ficado dentro da caixa. S ento reparei naquelas coisas, 
um monte de saquinhos! Saquinhos coloridos...
Jesus pegou todos os saquinhos e pediu que ela 
estendesse a blusa para formar uma espcie de sacola, da 
colocou os saquinhos em cima da blusa dela. E Isabela ficou 
olhando, sem falar nada, meio que fascinada, meio que 
incrdula... ento Jesus empurrou aqueles saquinhos em direo 
ao corpo dela... num gesto de devoluo. Eu acho que eles 
entraram... entraram dentro dela!
Eu entendi que eram coisas que Ele estava restituindo, 
que tinham ficado aprisionadas com ela. Durante tantos anos...
Jesus deu-lhe um abrao! Um abrao de muito Amor.... 
eu pude ver o quanto Jesus amava Isabela! E meu corao se 
comoveu... era um Amor muito grande e muito forte. Muito 
forte! Muito! Como se Ele estivesse aguardando por aquele 
momento.
Ento Ele a segurou nos braos e a levou. Novamente 
no vi seu rosto, apenas as costas, e vi que Ele carregava Isabela 
bem junto de Si. Ento comeamos a subir! Eu olhei para baixo 
e exclamei:
"E aquela caixa?"
Novamente ouvi a voz dos anjos.
"No se preocupe. Essa priso no existe mais!"
Olhei para trs outra vez e vi que as Colunas de Fogo se 
fecharam, destruram a caixa!!...
A nica coisa que ficou dentro da caixa foi aquela 
manta. Era parte do passado. Algo em que ela se apegava, com 
o que se cobria, se escondia... quando estava com medo, 
assustada... mas que agora no precisava mais.
Seria uma faceta da sua personalidade? Uma maneira de 
agir? Eu no sei... s sei que aquilo era algo do passado, e que 
agora ela no precisava mais daquilo.
Ao contrrio da descida, a subida foi rpida. Quando 
chegamos ao topo, na boca da cratera, a pedra foi colocada de 
volta no lugar. Isabela ainda continuava nos braos de Jesus. 
Com a mo direita Ele tornou a fechar o poo, e com a outra 
ainda a segurava. E a Jesus lacrou aquela pedra, aquele poo 
ficou completamente lacrado!
Perguntei:
"No tem perigo de abrir?"
E os anjos me responderam:
"No. Est selado. Esse poo jamais ser aberto 
novamente."
"Pxa... mas ela estava l h tanto tempo..."
"Este foi o tempo. Este foi o tempo dela ser liberta!"
Escutei Jesus falando com Isabela, numa linguagem que 
ela pudesse entender:
"Isso foi como uma cirurgia espiritual... nos prximos 
dias voc ainda vai sentir um pouco de dor... como num ps-
operatrio. Vai doer alguns dias. Talvez voc ache que a 
cirurgia no foi bem feita por causa disso."
Eu entendi o que Ele queria dizer. Era como extrair um 
tumor. Durante alguns dias, h tanta dor que parece que o tumor 
ainda est ali. Mas com o passar do tempo a dor vai diminuindo, 
diminuindo... at que chega o momento em que a pessoa que foi 
operada comea a fazer coisas que no podia fazer antes, porque 
a doena no deixava...
Alguns dias... quanto era "alguns dias"? Para Aquele que 
"um dia  como mil anos, e mil anos como um dia...".
"Tudo aquilo que o diabo roubou de voc, tudo que lhe 
subtraiu...", continuou dizendo Jesus para Isabela, "tudo isso te 
ser acrescentado... apenas creia!"
Eu me virei para o lado, para ver se enxergava os anjos, 
e quando me virei de volta... ns j no estvamos no mesmo 
lugar! J no era aquela paisagem rida e desnuda do deserto... 
aquele deserto de pedra...
Eu podia ver como estava cheio de rvores ali, de 
pssaros, de beleza! Um lugar muito agradvel!...
Estvamos diante de uma estrada bonita, um caminho 
estreito, mas muito bonito. Era at asfaltado, um asfalto azul 
celeste, lindo! Parecia um tapete, mas no era realmente, era 
como um asfalto... e  beira do caminho havia muitas florzinhas 
coloridas. Olhei, e a estrada ia longe, longe... a perder de vista! 
Parecia gostosa... muito bonita... no sei aonde ia dar aquele 
caminho.
Quando olhei para Isabela, surpreso, vi que ela j estava 
grande... quer dizer, adulta! E no usava mais aquelas roupas 
pudas, estava toda arrumadinha. Vestia um casaquinho 
combinando com a saia, um conjunto de casaquinho e saia cor 
de creme, por baixo uma blusa de seda de cor terra. A bolsa e os 
sapatos eram da mesma cor do conjunto. Estava muito bem 
vestida e elegante! Percebi no seu pescoo uma correntinha de 
ouro.
E ela estava feliz! Estava sorrindo.
A Jesus disse para ela:
"Esse  o teu caminho. Segue por aqui. Vai ser um 
caminho de paz, apesar das lutas. Haver momentos de chuvas, 
de tempestades... mas este  o caminho que Eu estou te 
apontando!"
Ento perguntei tambm:
"E o meu?"
" o mesmo! Vocs dois vo caminhar juntos!"
Aquele era o incio do nosso caminhar.
A prxima coisa de que me lembro  de estar novamente 
na sala de casa, sentado no sof, ao lado de Isabela. Demorei um 
pouco a me situar. No vi, mas continuei sentindo a presena 
dos anjos, s que agora sabia que eles estavam ali, na nossa sala. 
Havia muitos. Fora de casa tambm. Como que festejando! Se 
alegrando. Contentes com o que tinha acontecido. Eles sabiam 
que alguma coisa tinha acontecido de fato!
Quantos dias ia levar a convalescena...?
Eu no sabia, nem ela. Imaginamos que talvez fosse uma 
coisa rpida, mas "alguns dias", para Jesus, talvez significassem 
algo diferente do que nossa mente humana compreendia. Logo 
iramos constatar isso.
Foi depois disso que Isabela comeou a ter febre. Aquela 
febre tnue, diria, durante meses.
Nem por isso o diabo a deixaria em paz. Continuaria 
tentando roubar, matar e destruir Isabela, perturbando seu 
perodo de cicatrizao e convalescena.
Isso ainda levaria meses.
*   *   *   *
Captulo 50 - Isabela Conta

Quanto a mim, depois que terminamos a orao, fiquei 
olhando para Eduardo... tinha conseguido perceber uma parte do 
que acontecera. Ele orava muito em lnguas, mas parte do que 
falava s vezes vinha em portugus. J estava me acostumando 
com aquilo. De forma que acompanhei alguma coisa do que 
estava se passando.
Percebi que ele tinha visto um poo, tinha visto minha 
priso espiritual. Escutei quando Eduardo chamou pelo anjo 
Mikhael. Notei quando ele encontrou a caixinha, e como parecia 
ansioso perguntando sobre a sada. Eu o ouvia falando vrias 
vezes sobre isso, onde estava a sada, e o que ele deveria fazer... 
ouvi quando disse vrias vezes que os demnios no estavam 
mais me vendo... e que Jesus me amava muito, muito!
 Quanto amor! Ele te ama muito... Ele te ama muito! 
 eu podia escutar frases assim no meio daquelas outras, em 
lnguas.
Percebi tambm parte das suas reaes corpreas, 
mesmo estando de olhos fechados: quando Eduardo sentia frio 
dentro daquele poo, se encolhia de verdade, passava as mos 
pelos braos na tentativa de aquecer-se. Senti a grande 
intensidade daquele momento, podia perceber sua inquietao e 
angstia algumas vezes, e acompanhei com ele aquela orao. 
Que deve ter durado cerca de 40 ou 45 minutos.
Quando Eduardo disse que Jesus estava me estendendo a 
mo, e que eu estendesse tambm a minha... e que era preciso 
dar um passo de f... ento, ali mesmo onde estava, sentada no 
sof, no questionei... ergui bem alto minha mo!
Eu sabia que Jesus estava me tirando daquela priso, 
embora no sentisse nada, nem sequer compreendesse o que 
estava acontecendo. Aceitei aquela experincia como mais uma 
experincia sobrenatural que o Senhor nos concedia.
Foi com olhos grandes e queixo cado que escutei o 
relato inteiro da histria, depois. Era mais uma experincia que, 
se no tivesse acontecido conosco, eu teria dificuldades em 
aceitar...
Mas minha cura ainda no estava terminada. Tinha que 
esperar aquela convalescena. Tinha que esperar ainda mais um 
tempo. Tinha que esperar que o processo se completasse.
Haveria uma outra visitao. Profunda, intensa... mas 
no seria naquele ano, nem naquela casa. Faria parte de um 
outro perodo! Eu teria que esperar ainda alguns meses depois 
disso, mais uma vez.
Chegar o tempo em que todas as promessas viro  luz, 
porque este processo ainda no terminou, mas est em 
andamento.
* * * *
Eu j sabia que a maior parte dos meus problemas vinha 
de antes, de muito antes de conhecer Eduardo. Mas agora, claro 
que estava havendo uma somatria! Havia um ataque muito 
concentrado sobre mim. Fico imaginando a surpresa que Deus 
no fez ao diabo, me unindo justamente ao desertor!
Os problemas pessoais que estava vivendo no presente 
tiveram uma origem longnqua, e a Irmandade s se aproveitava 
das feridas, brechas e portas abertas que eles sabiam muito bem 
onde estavam. Eles lanavam suas palavras de destruio 
porque sabiam que estava ali um terreno frtil.
O principal motivo do ataque da Irmandade sobre mim  
porque eu trazia discernimento e direo a Eduardo. Aquela 
afirmao veio de forma contundente atravs de uma 
intercessora. Estas foram as duas palavras que Deus trouxe 
naquela Ministrao: discernimento e direo. Sem a minha 
presena ao lado dele teria sido muito mais fcil persuadir 
Eduardo a voltar. Mesmo se ele no voltasse, teria sido muito 
mais fcil atingi-lo, acabar com ele.
A viso continuava mostrando um fogo de artifcio que 
subia e abalava a estrutura do Inferno.
Lembrei da passagem do ano, dentre outras ocasies... 
ser que abalar o Inferno era aquilo? Quando tudo j estava to 
prximo, a vitria deles era to certa e iminente... mas de 
repente, tudo acontecia ao contrrio do que eles esperavam?
Ou ser que abalar a estrutura do Inferno era alguma 
coisa que viria a acontecer no futuro? Apenas Deus tem a 
resposta.
Deus tambm mostrou uma moeda, eu era um lado da 
moeda e Thalya era o outro lado. Os dois lados de uma mesma 
moeda. Compreendi o que aquilo significava.
Eduardo havia comentado comigo que ele e Thalya 
tinham como que dois codinomes dentro da Irmandade, algo 
mais ligado ao destino espiritual deles, Phobos e Deimos, o 
nome dos dois satlites de Marte. Marte  um Deus antigo 
associado  guerra na mitologia grega e latina. Na Irmandade, 
os dois eram assim chamados porque suas vidas estariam 
intimamente ligadas entre si, e em torno da guerra.
Neste sentido, eu era realmente a outra face da mesma 
moeda, porque Deus tinha me chamado para estar intimamente 
ligada a Eduardo, e nossas vidas tambm girariam em torno da 
guerra ao longo dos nossos dias.
No momento seguinte, a viso se completava. Thalya 
jurava me destruir, empenhando seu prprio sangue nisso e 
tendo Rbia como auxiliadora. Eduardo no era qualquer um 
dentro da Irmandade... se Thalya tinha sido escolhida para estar 
ao lado dele, ela tambm no era qualquer uma. Se fssemos 
partir do pressuposto de que Deus prometera dar a Eduardo 
muito mais do que Lucifr... isso tambm me inclua. E inclua 
o nosso Ministrio.
Para que mais?!?
As revelaes traziam confirmao daquilo que 
sentamos na pele. Nossas brigas e nosso relacionamento 
estavam sendo literalmente bombardeados!
Eduardo no queria ser confrontado, e no gostava que 
medissem fora com ele. Eu no gostava de baixar a cabea. 
Normalmente no era plcida nem cordata quando me sentia 
afrontada. Eduardo detestava ser agredido fisicamente, sentir 
qualquer tipo de dor fsica. Muitas vezes um tapa ou um 
arranho meu era a gota que faltava.
Por isso que, muitas vezes, ao invs de arranh-lo eu me 
arranhei a mim mesma. Quase no podia controlar a raiva 
monstruosa que crescia dentro de mim. Mas creio que no era 
s isso...
Em contrapartida, em relao a Eduardo, este era um 
aspecto mais delicado. Durante toda sua vida ele precisou 
cultivar dentro de si uma essncia violenta. Desde tenra idade, 
quando era maltratado dentro de casa, quando era maltratado na 
escola... ele aprendeu a no ser tocado. Isso sem falar no 
contexto herdado atravs da Irmandade, quando todo mal 
deveria ser retribudo nove vezes. A essncia da alma dele era 
revidar! Revidar muito mais... e no era revidar contra ele 
mesmo...
Este era um momento muito perigoso...
Naturalmente a origem das feridas de Eduardo tambm 
era muito remota, e s fomos conseguir desvendar parte destes 
meandros ao longo dos meses e anos.
A grande verdade  uma s: o diabo tinha uma 
percepo indescritvel e incrivelmente eficaz para criar 
situaes em que tanto eu quanto ele fssemos tocados nos 
pontos mais nevrlgicos da alma, ao mesmo tempo. Quando a 
gente conversava mais tarde, percebia as sutilezas da falta de 
comunicao e da interpretao particular dos fatos.
Satans sabia como agir! E para isso usava o terreno da 
nossa prpria alma. No adianta esmiuar palavras e 
acontecimentos que foram muito dolorosos para ns. J nos 
basta ter percebido plenamente o mecanismo fundamental 
destas lutas ferrenhas.
Deus evitou que ns dois perecssemos em mais de uma 
ocasio.... foi literal, Digo isto para exemplificar a 
monstruosidade das artimanhas do inimigo. A Bblia j fala nos 
mistrios da iniqidade... certamente isso vai muito alm da 
nossa imaginao!
Talvez pessoas depois de ns, que enfrentaro 
Principados e Potestades, sendo horrivelmente assoladas nas 
suas emoes, tero vergonha e receio de falar sobre isso. 
Exatamente como ns tambm tivemos. Talvez escutem, como 
ns, chaves evanglicos do tipo: "Luta todo mundo passa, 
irmo!"
O motivo pelo qual estamos sendo to transparentes com 
algo to pessoal  porque existem, de fato, intensidades 
diferentes de luta!
Ns dois s vivemos para contar esta histria porque 
Deus  Poderoso... e porque ns queramos, acima de qualquer 
coisa, vencer! No necessariamente o inimigo, mas a ns 
mesmos. Porque a parte podre em ns era alimento para ele.
No poderamos vencer o inimigo aconchegando 
pecados escondidos.
No paramos para pensar no preo que nos custaria a 
vitria, tudo aquilo que Deus requereu de ns, entregamos a Ele. 
A tragdia s no aconteceu porque estvamos inconformados 
com o pecado. E nunca, nunca, nunca, em hiptese alguma... 
vivendo de bem com ele! Se assim fosse, se ns mesmos nos 
justificssemos, e inventssemos desculpas para o nosso mau 
proceder... o final desta histria teria sido muito diferente.
Tratamos nosso pecado com toda a ojeriza que ele 
merece. Em muitos momentos dessa trajetria ns no tnhamos 
ainda chegado l, quer dizer, obtido vitria sobre a carne. Mas a 
nossa presteza em lutar contra ela fez com que o sangue de 
Cristo cobrisse as nossas brechas.
Fica a ltima questo.
Por que o Senhor permitiu que chegssemos ao limite 
das foras, ao fundo do poo, ao mais completo desespero, 
tantas e tantas e tantas vezes?! Ser que ns no merecamos ter 
sido poupados, ao menos um pouco?!!
Havia momentos em que a vontade de desistir era to 
grande.....
Se existem intensidades diferentes de luta, e se 
realmente Deus nos predestinava  guerra contra Principados e 
Potestades, ento existem tambm intensidades diferentes de 
treinamento!
Tinha que haver um mnimo de substrato nas nossas 
vidas que servisse de alimento aos demnios. Compreendemos, 
portanto, que Deus queria nos levar a um patamar crescente de 
santificao. Em outras palavras, era preciso que tivssemos 
uma vida limpa!
E para limpar a nossa vida... era preciso enxergar o lixo 
que ela abrigava. Pouco importava se algum tipo de 
comportamento ou reao vinha daquele monte de feridas 
abertas ao longo dos anos. No vamos nos colocar to-somente 
como vtimas, se aprendemos a agir errado... ento aprendemos 
a agir errado. Tudo isso agora precisava ser tratado.
As brechas precisavam saltar  nossa vista, precisavam 
ser plenamente expostas. Caso contrrio, cada uma delas se 
tornaria um calcanhar-de-aquiles no futuro. Ningum que est 
manco ou doente pode ser enviado ao front de guerra.
Podemos ir  feira ou ao supermercado, podemos nos 
comprometer como bab de crianas ou de velhinhos, podemos 
participar de um coral ou de uma pea de Teatro, podemos estar 
entre amigos... podemos cozinhar... at mesmo limpar uma casa, 
ou cuidar de documentos importantes... mesmo com alguma 
doena, ou sendo portadores de algum defeito fsico.
Mas o guerreiro tem que estar em plena forma!
Para que a gente estivesse em plena forma, algumas 
brechas precisavam ser fechadas. E, para serem fechadas, era 
preciso que as enxergssemos. Depois de enxerg-las, para 
termos desejo real de restaur-las, teramos que perceber que 
eram sobremodo malignas.
Era preciso que a gente sentisse na pele a que ponto elas 
poderiam nos levar... no nosso caso, foi preciso sentir a morte 
batendo na porta! O desespero foi to grande que nosso nico 
desejo era vencer... ou vencer! No havia outra possibilidade.
Se tivssemos aprendido antes, certamente Deus teria 
nos livrado antes, a est a grande questo! Aconteceu tantas 
vezes porque, para ns, tinha que acontecer todas aquelas vezes. 
Quando a cabea  muito dura, o corpo padece...
Diz a Palavra que "o ferro com ferro se afia, assim 
tambm o homem ao seu amigo".
Neste aspecto, Eduardo e eu fomos como estes dois 
amigos. Ele nunca teve outro amigo dentro da Igreja, muito 
menos eu. Para que a brecha se evidenciasse na vida dele, era 
preciso de algum que, como ele, fosse "ferro". Isto ... algum 
da mesma ndole.
O ferro no se afia com uma lixa de unha, por exemplo, 
nem se afia com outra faca. Se eu fosse lixa de unha, ou faca... 
Deus teria que ter encontrado outra pessoa para afiar Eduardo. 
Se no fosse eu... teria sido outra pessoa! Porque, na verdade, 
Eduardo tinha que enxergar a si mesmo.
Da mesma maneira, eu s seria afiada por algum que 
tivesse a mesma essncia que a minha. Se no fosse Eduardo, 
teria sido outra pessoa. Porque eu tinha que enxergar onde 
estava errando. Tinha que enxergar at onde meus atos 
poderiam nos levar. No hesito em assumir a minha culpa, e 
nem de ser julgada pelos homens. Expus meu pecado, no 
escondi... para ser curada!
Enfim... Deus permitiu que ns dois quase nos 
matssemos para perceber que certos traos de carter, certas 
feridas, certos traumas emocionais, certos pontos obscuros da 
alma e da mente tinham que ser curados. Para que tudo isso 
deixasse de ser matria-prima para as esculturas do Inferno.
Durante quase todo o segundo ano do casamento Deus 
permitiu que vivssemos situaes de estresse.  medida que 
buscamos incessantemente a cura e o livramento, Deus foi 
acrescentando, uma a uma, todas as informaes necessrias 
para que enfim alcanssemos a vitria.
Isto tudo foi, na verdade... um afiar de Deus. E como 
doeu!
Logo percebemos que no era apenas um ponto, ou dois, 
que teriam que ser tratados.
Nem tudo estava  disposio, presente na nossa 
conscincia, antes permaneciam mergulhados no inconsciente 
ou na pura ignorncia dos fatos. Houve uma profunda e 
minuciosa revelao do passado.
Comigo j tinha comeado...
Seria a vez de Eduardo ter seu passado perscrutado.
Os meses que se seguiram foram de muita dor, muita 
luta, muito sofrimento fsico, emocional e espiritual... mas 
tambm foi cenrio do Poder curador de Deus! O que facilitou 
este processo foi a confisso da nossa culpa, tanto diante da 
Grace, em Ministraes, como diante de Dona Clara, em 
aconselhamentos. Mais ningum tomou conhecimento das 
nossas dificuldades.
No nos orgulhvamos nem um pouco da nossa 
fraqueza, mas a esperana que ia no nosso corao era que, um 
dia, milagrosamente, ela fosse transformada em fora.
Quando tudo aquilo acabasse.
* * * *
Uma parte da histria de Eduardo tinha que ser revelada. 
Era a pea que faltava naquele quebra-cabea. Depois da 
celebrao, e depois do congresso, veio um perodo em que 
comecei a ficar encafifada com aquela situao. Com a questo 
daquele controle a distncia exercido em Eduardo quando se via 
consumido pela ira.
Eu queria muito poder ajud-lo:
 Voc j renunciou tudo! J passou por Ministraes 
em todos os aspectos... como pode haver ainda alguma maneira 
desses demnios te controlar a distncia?
Eduardo ficava bastante incomodado com aquilo, 
especialmente porque no se lembrava de coisa alguma.
 Tem certeza que no se esqueceu de contar nada? 
Tem certeza de que j ministramos tudo?
 Tudo que eu me lembro, eu comentei com voc e 
com Grace. No sobrou mais nada! A no ser que tenha 
apagado da minha memria por algum motivo...
Eu estava realmente incomodada. E comentei com 
Grace:
 Tem que ter alguma coisa... Grace, se no tivesse 
nada, seria impossvel acoplar essa espcie de controle remoto 
nele. No d pra dizer que tudo isso  apenas conseqncia da 
ira, porque  completamente fora de propores.  sobrenatural!
Grace dava muito valor a estas informaes. Pedimos 
que ela estivesse orando por ns nesse sentido, para que Deus 
mostrasse o que estava errado. Quanto a ns dois, fizemos um 
jejum e oramos especificamente pedindo a Deus que trouxesse 
luz sobre o que estava oculto. Se  que ainda havia alguma coisa 
oculta...
 Se Deus no revelar nada, vamos ter que aceitar que a 
porta est sendo aberta s pela ira... a Bblia j diz que no 
devemos irar e pecar, porque damos lugar ao diabo. Mas no 
sei... a Bblia est falando de uma ira humana, creio eu. E pelo 
que eu conheo de voc, est ultrapassando esses limites da 
normalidade. No  culpa sua, entendo que a coisa comea no 
mbito da alma, da carne... mas depois vai muito alm! No sei 
se estamos viajando, ou no... mas, para mim... depois de toda 
essa Ministrao, depois de tudo que Deus j fez... parece 
incabvel que coisas assim ainda estejam acontecendo! Parece-
me que tem alguma coisa escondida... alguma coisa esquecida 
em algum lugar, no  possvel.
Durante o jejum, oramos realmente para que Deus nos 
mostrasse. Duas coisas aconteceram nesse perodo: a primeira 
delas foi uma direo que me veio, como sempre vinha, sem ser 
acompanhada de nenhum discernimento espiritual palpvel. Eu 
no tinha aquelas coisas de sentir, de receber palavras de 
conhecimento, ou vises. Era apenas uma impresso.
A Bblia tinha tomado um colorido diferente para mim 
ao longo de toda aquela trajetria. As histrias Bblicas 
saltavam aos meus olhos de outra maneira, e os personagens 
Bblicos tambm.
Certo dia eu estava pensando, e reparei que Deus sempre 
procurava tratar o carter e a personalidade dos grandes homens 
que iria usar antes de efetivamente coloc-los para desempenhar 
o seu destino espiritual. Foi assim com Jos, que ficou preso 
durante mais de dez anos... foi assim com Davi, que foi lapidado 
durante os anos de perseguio... foi assim com Moiss, que 
fugiu do Egito e foi para o deserto... foi assim com Paulo, com 
Pedro... foi assim com muitos homens de Deus.
Se o carter precisou ser lapidado para que eles 
estivessem aptos a desempenhar a funo que lhes era proposta, 
talvez no fosse diferente no Reino das Trevas.  Eduardo... 
me responda uma coisa: voc tinha uma misso especfica 
dentro da Irmandade, tanto  que j tratamos dessa questo do 
seu destino espiritual, no ? Se eu estiver errada, me corrija... 
mas eu creio que o seu carter foi tratado para que voc pudesse 
ser aquele que o diabo queria, para desempenhar bem o papel 
que ele queria...
Certamente!
Diante disso foi fcil perceber que ao longo da sua vida 
o esprito de ira, de violncia e de vingana foi sendo 
progressivamente criado e incutido dentro dele. Eduardo no foi 
criado para ser algum capaz de amar, de perdoar... mas sim, de 
retribuir nove vezes qualquer dano que fosse feito a ele.
Isso delineou uma nova trilha a ser seguida em 
Ministrao. Ele j havia renunciado ao destino espiritual como 
um todo, depois havia renunciado ao propsito especfico para o 
qual tinha sido chamado...
Ao que parecia, agora ele tinha que renunciar ao carter 
que tinha sido forjado nele ao longo dos anos, ao longo da 
vida... carter este que se tornou a base fundamental para que 
fosse construdo aquele edifcio. Um monumento em honra a 
Lucifr.
Ainda procurei explicar bem para Grace:
 O carter  como se fosse o alicerce desse edifcio. Se 
o edifcio  o destino espiritual, o monumento de honra, aquilo 
que  visvel... ento o carter  a base estrutural, o terreno... a 
parte invisvel sobre a qual o edifcio  construdo. Sem um 
terreno bem preparado, isto , sem um carter especificamente 
bem forjado, no se pode construir nada! No caso de Eduardo 
era fundamental o desenvolvimento forte e inabalvel da ira, da 
violncia e da vingana... isso aconteceu j desde muito antes de 
ele entrar na Irmandade. Isso j foi forjado na infncia e na 
adolescncia.
Esse aspecto foi ministrado, e abriu um leque de novos 
pontos. Coisas totalmente relacionadas  Cura Interior. Trouxe  
tona muitas lembranas antigas. A intercessora havia dito:
 Ele pensa que so coisas superadas. Mas h muitas 
lgrimas para serem choradas...
Comeou em relao  famlia. Eduardo acalentava um 
grande sentimento de culpa e dbito em relao a eles. Havia 
muitos sentimentos e emoes distorcidas quando se tratava 
deste assunto.
A desconfiana sobre a paternidade foi o ponto 
principal, fez com que Eduardo fosse muito maltratado pelo pai 
quando criana. O sentimento de rejeio era muito grande. To 
grande que seu pai tentou mesmo mat-lo.
Quando Eduardo tinha sete anos, um dia estava sozinho 
em casa com o pai. Brincava atirando uns carrinhos no cho, 
queria a ateno dele. Como seu pai fosse sempre agressivo, 
naquele dia no foi diferente, mas a agresso veio de forma 
mascarada. Ele pegou seu revlver e entregou nas mos de 
Eduardo. Disse que era uma brincadeira, Eduardo deveria 
apontar a arma na direo do rosto e atirar. Como Eduardo 
quase nunca recebesse ateno, ficou todo entusiasmado.
Mas a mo de criana no tinha fora para apertar o 
gatilho. Ento o pai mesmo engatilhou a arma, e novamente 
estendeu a ele. S que desta vez, encostada na cabea. Quando a 
arma disparou, as mos de Eduardo no foram capazes de 
continuar segurando o revlver, pelo que o tiro acertou o 
guarda-roupa atrs dele.
Foi um susto muito grande, a me de Eduardo estava 
chegando e seu pai, para disfarar, deu broncas e bateu em 
Eduardo. Dizendo que ele havia pegado a arma escondido. 
Eduardo s foi entender o significado deste episdio muito mais 
tarde. Na hora, sequer imaginou que seu pai pudesse mat-lo.
Em duas outras ocasies aconteceram coisas 
semelhantes. Numa delas, o pai tentou afog-lo dentro da 
banheira na casa da av. Eduardo nem entendeu o que 
aconteceu, s sentia aquele pavor e a sensao de estar preso 
debaixo d'gua. Outra vez, foi uma maldosa tentativa de 
sufocamento com o travesseiro, quando Eduardo estava 
dormindo.
Foram muitas situaes humilhantes, de agresso, de 
rejeio, de traio. Eduardo vivia com as pernas marcadas das 
surras que tomava. No havia quem o defendesse.
Mais tarde, durante a adolescncia, houve por parte da 
famlia um acmulo de palavras pesadas de maldio e 
condenao. Eduardo nutriu um grande sentimento de 
inferioridade e culpa, tinha uma enorme necessidade de ser 
aceito e ter a companhia de algum. Mas no conseguia 
imaginar que algum fosse gostar dele pelo que ele era.
Ento, durante a poca da "29", a sua boa ndole natural 
comeou a ser transformada. S havia uma maneira de ser bem 
visto: pela agressividade e violncia. O Kung Fu corroborou 
para isso tambm. Foi uma grande somatria.
Embora no demonstrasse, uma sensao de julgamento, 
de constrangimento, de ansiedade o acompanhava quase 
sempre. O egosmo da famlia tambm deixou suas marcas. 
Havia uma sensao constante de precisar sempre fazer alguma 
coisa para ser aceito.
Quando adentrou a Irmandade, esse discurso do mundo 
mudou. Eduardo passou a escutar tudo ao contrrio do que 
sempre tinha ouvido. Agora ele era muito especial, era o 
escolhido, tinha grandes qualidades e potenciais.
Mas o diabo no faz o bem para ningum, a no ser para 
ele prprio. Isso no serviu para curar Eduardo, obviamente, 
mas para incutir ainda mais nele uma essncia que reagiria 
violentamente a todo aquele que dissesse o contrrio.
Este tratamento ao longo de anos e anos tinha sido uma 
parte do preparo do seu futuro carter. O carter que 
possibilitaria a Eduardo exercer seu destino espiritual: uma 
essncia de ira, de violncia e de vingana incontida. Ele 
deveria atropelar todos aqueles que se interpusessem em seu 
caminho.
Por um outro lado, aquela injeo de narcisismo e 
egocentrismo recebida dentro da Irmandade teve tambm um 
papel fundamental. Era importante aquela autoconfiana para o 
diabo, mas dentro do Reino de Deus ele teria que renunciar ao 
que foi construdo naquele perodo: um forte orgulho pela 
capacitao e carisma sobrenaturais que foram recebidos como 
dons malignos. O orgulho do poder para usar as palavras 
causando a morte e a destruio. Estes eram dons demonacos.
Tudo isso Eduardo teve que perceber e renunciar. Em 
ltima anlise, Eduardo tomou conhecimento de que o seu 
Isaque era sua auto-imagem. Quer dizer, ele seria capaz de dar a 
vida, ou de tomar a vida... para manter inabalada a imagem que 
as pessoas tinham dele. Isso ele tinha aprendido l, dentro da 
Irmandade, e era o seu pio: ser estimado excessivamente pelas 
pessoas, custasse o que custasse.
Era um processo doloroso de recordao, mas ns 
estvamos nos aproximando de muita coisa. Enquanto Eduardo 
estava sendo tratado nesta rea, Deus trouxe algumas revelaes 
atravs das intercessoras Anglica e Esther. Foi em meados de 
setembro e outubro daquele ano.
Numa das Ministraes, Esther trouxe uma viso que, a 
princpio, no fez nenhum sentido a Eduardo.
 Eu vi que o seu sangue e o seu esperma foram 
colhidos... foram colhidos para exames, mas no sei com que 
propsito. Isso tem algum significado para voc?  disse ela.
Eduardo pensou, pensou... por fim sacudiu a cabea, 
com olhos distantes e o semblante um pouco contrado.
 No sei... no tenho idia...
Ainda nessa Ministrao Esther trouxe mais uma viso:
 Eu vi voc abrindo uma porta e encontrando uma 
coisa... uma coisa que te assustou muito.
Novamente Eduardo sacudiu a cabea.
 No sei., eu no tenho recordao nenhuma nesse 
sentido... Praticamente no mesmo perodo recebi um telefonema 
de Anglica. Ou melhor, foi um pouco antes, mais ou menos um 
ms antes. Ela passou um bip me pedindo para ligar. Como ns 
j tivssemos nos encontrado vrias vezes, e eu confiasse nela, 
tinha pedido orao naquele sentido: de que Deus revelasse se 
ainda havia alguma coisa oculta na vida de Eduardo...
Lembro-me que liguei do Shopping Iguatemi.
 Oi, Anglica.
 Oi, Isabela...
Depois de trocarmos algumas amenidades, ela foi direto 
ao assunto. Os pontos principais da revelao, que parecia muito 
profunda e especfica, foram os seguintes:
 Eu tive novamente a mesma viso daquele dia, 
quando conheci voc no dia da sua primeira Ministrao. At 
comentei com Grace, mas ela no escutou muito naquele 
momento, lembra?
 Lembro... voc falou que ele ainda precisava ser 
ministrado, tinha visto o brao dele se transformando, uma coisa 
assim, no ?
 ... mais ou menos... naquele dia, eu tinha visto 
somente o brao. Mas agora Deus mostrou a coisa completa. 
Isso tem a ver com aquele Rito que ele participou, de abertura 
de um dos Portais, um Rito onde ele se transformava em alguma 
coisa.
Senti um certo mal-estar na boca do estmago. Aquele 
era um assunto muito desagradvel. Eu detestava ter que falar 
sobre aquilo, mas se tinha a ver com algo que Deus estava 
trazendo, ento valia a pena.
 Sei.
 Ele no se transformou em um lobo, ou coisa que o 
valha, como pensou. Pra pra pensar... isso era uma coisa 
comum, no causaria tanto espanto como causou. Eu vi no que 
ele se transformou...  como se ele se transformasse no prprio 
Abraxas! Foi esse o motivo de tanto espanto.
Escutei sem contestar. Estava acostumada a levar em 
considerao a viso daqueles intercessores, porque tinha tido 
um sem-nmero de vezes para constatar a veracidade daquilo. 
Mesmo assim, era preciso tomar cuidado... s vezes pode haver 
alguma contaminao da alma, embora soubesse que Anglica 
era especialmente cuidadosa nesse aspecto, pedindo para que 
Deus separasse alma de esprito sempre que fosse orar.
 O que Deus mostrou foi o seguinte: o metabolismo 
dele foi alterado... e ele, esse demnio, naquele momento 
codificou o Eduardo. Houve ali um contato muito ntimo, no 
sei como isso funciona, mas a verdade  que a alma dele foi 
codificada.
E tudo isso ficou armazenado num computador. No um 
computador fsico, real, mas  como se esse demnio tivesse 
todas as informaes da alma do Eduardo com ele, na sua 
prpria mente. O que acontece ento? Ele sabe como provocar e 
potencializar certas reaes, pensamentos, sentimentos... sabe, 
por exemplo, como provocar ira, como provocar a tristeza, sabe 
como provocar uma srie de coisas, porque ele tem essas 
informaes com ele!
  como se fosse um cdigo gentico da alma,  isso? 
Trocando em midos?   isso!
 Assim como eu sei que uma determinada seqncia 
de genes produz uma determinada protena, responsvel por 
uma determinada funo dentro do corpo... se eu fosse usar essa 
analogia,  como se esse demnio pudesse ter feito a mesma 
coisa com a alma do Eduardo. Ele sabe exatamente que 
seqncia de eventos poderiam culminar em uma ira violenta, 
por exemplo?
 Isso tambm! Mas no  s isso, ele teria como 
produzir esses efeitos de fora. Entendeu? Foi isso que Deus 
mostrou.
 Digamos que a raiva  desencadeada por uma 
determinada seqncia de conexes neuronais, por uma 
determinada seqncia de impulsos nervosos... ele poderia, 
ento, a distncia... provocar esse efeito?
  isso!
At engoli em seco. Aquilo era complicado, e somente 
compreensvel atravs de exemplos humanos, dos quais o 
melhor era o prprio cdigo gentico. No poderia entender 
como um demnio haveria de possuir uma codificao da alma 
de algum, mas em se tratando da Irmandade e em se tratando 
do envolvimento que eles tinham com os demnios e, mais 
ainda... porque Eduardo era um "Escolhido" especial... era 
preciso levar tudo em conta!
J tinha aprendido que h muitos mistrios dentro do 
Reino Espiritual.
Depois de uma leve pausa, ainda questionei:
 Isso aconteceu naquele Rito?
 Deus mostrou que sim... pelo menos essa codificao 
de alma. Mas Deus mostrou tambm uma alterao metablica, 
eu no sei o que  isso, Deus no me mostrou mais nada. Mas 
parece que o metabolismo dele foi alterado, mas no sei se foi 
nesse Rito, ou se foi em outro momento...
Agradeci a Anglica, pedi que continuasse orando, e 
fiquei muito encafifada com tudo aquilo. Estava vindo no exato 
momento em que pedamos... quanto daquilo era verdadeiro 
realmente?
No demorou muito mais e Eduardo sonhou... aquele 
sonho parece que cutucou alguma coisa no inconsciente dele. 
Certo dia, aconteceu.
Nesse sonho, Eduardo estava dentro de uma casa e 
observava uma enorme tempestade do lado de fora. Era to forte 
que s a nossa casa estava em p, e ele percebia que era preciso 
fechar todas as portas e janelas para impedir que aquela 
tempestade entrasse. Ento Eduardo corria para fechar tudo, 
todas as entradas.
Menos uma... o sonho se tornava angustiante na medida 
em que ele corria para todos os cantos daquela casa,  procura 
daquela porta que batia sem cessar! E no encontrava.
"Onde est essa porta?..."
Eduardo percebia que parte, uma pequena parte daquela 
tempestade podia entrar dentro da casa. Com violncia 
muitssimo atenuada, mas ainda assim entrava... e o sonho 
acabou, e ele no conseguiu descobrir onde estava a porta 
aberta.
Atravs desta figura, Deus nos mostrou que realmente 
havia ainda uma brecha, uma brecha oculta...
Poucos dias depois, como uma avalanche, a lembrana 
veio...
Por isso agora  melhor que ele mesmo fale a respeito.
* * * *
Captulo 51 - Eduardo Conta
De incio, realmente, eu no me lembrava de nada 
daquilo. Era um grande vazio, uma coisa da qual tinha perdido a 
conscincia. Mas depois daquele perodo de orao, de jejum, 
de sonhos, da primeira Ministrao envolvendo o carter que o 
diabo tinha preparado para mim, e tambm da revelao que 
Deus trouxe para aquelas duas mulheres, a recordao veio clara 
e transparente como gua cristalina.
Terei que voltar muitos anos no tempo.
O cenrio desta histria se encaixa mais ou menos na 
poca em que deixei a Irmandade,   um  pouco   antes   daquele   
Sabbath   do   qual   no   quis participar.........................
* * * *
Marlon vinha me falando sobre a importncia de 
conhecer todas as sub-Bases da Irmandade no Brasil: Porto 
Alegre, Curitiba, So Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, 
Goinia, Braslia, Salvador e Manaus. Nove ao todo.
Eu j estava acostumado que aquilo fazia parte do meu 
treinamento, no encarei como nada diferente do que j vinha 
acontecendo desde que fora um dos noventa escolhidos. Alm 
das viagens para reunies estratgicas, eu viajei com Zrdico e 
Marlon para conhecer as outras oito bases. A de So Paulo j 
era nossa conhecida. Dessa vez foram viagens bem mais seletas, 
porque eu ia sozinho com eles. Uma ou outra vez Grion foi 
tambm.
No futuro haveria doze Bases Mundiais da Irmandade 
espalhada pelo Globo. Uma delas ficaria no Brasil. Ento, uma 
daquelas nove era tambm uma Base Mundial. As outras oito, 
eram sub-Bases daquela Base Mundial.
Marlon comeou a me explicar naquela poca a questo 
estratgica do Brasil. Para isso ele comeou falando antes dos 
Estados Unidos.
 Houve um tempo em que aquele foi um pas 
fortemente Protestante, como voc sabe. Isso praticamente at a 
dcada de 80. Mas isso foi mudando e agora  cada vez menos 
importante, as Igrejas progressivamente se tornaram pequenas, 
frias, e com pouco conhecimento de Batalha Espiritual. O 
interesse naquele pedao do mundo voc j sabe... os Estados 
Unidos so uma potncia! Econmica e blica, principalmente. 
Uma vez que o Cristianismo foi contaminado, sobra para ns 
todo o resto. O potencial incrvel daquele pas! Antes, por causa 
do Protestantismo exacerbado a questo moral era tratada de 
maneira diferente. Um bom presidente no era apenas aquele 
que fazia um bom trabalho, mas aquele que tinha em si mesmo 
todo um conjunto de valores ticos, morais, etc. A medida 
que o Protestantismo foi se tornando menos importante, 
isso influenciou at mesmo esse lado poltico. Hoje em dia, e 
muito mais no futuro, um bom presidente vai ser aquele que 
governa bem. E ponto! A vida pessoal dele vai deixar de 
importar! Isso  fundamental, que a mentalidade daquele povo 
cada vez mais aceite isso: que pouco importe o carter pessoal 
de um lder. Se ele fizer uma boa administrao e apresentar 
solues, isso  o que faz diferena! Mas s que os demnios 
fizeram um mapeamento mundial. E esse mapeamento no leva 
em conta somente os Estados Unidos. Veja s a Europa... houve 
ali vrios focos de avivamento no passado. Mas isso foi fogo de 
palha! Nada que no pudesse ser contornado. A entra em cena 
o Brasil. Este  um pas muito, muito especial... ele no nos 
interessa em termos polticos ou econmicos, muito menos em 
qualquer outro aspecto humano. Mas existe aqui uma grande 
concentrao de evanglicos. Os locais selecionados para serem 
sede das bases no foram escolhidos por acaso, isso foi 
predeterminado pelas Entidades. Esses eram os lugares onde 
poderia haver mais focos de avivamento. Com a presena das 
Bases isso muda de figura, haver uma forte resistncia  
difuso de um Cristianismo convincente. Poder haver Igrejas 
enormes, mas inoperantes! O tamanho pouco interessa. Mas, 
retomando... no  isso que importa agora. Como eu te disse, h 
uma expresso importante do Cristianismo aqui no Brasil, e h 
tambm uma antiga profecia: a de que esta Nao seria um 
Celeiro de Missionrios! Isso j  antigo, no sei se voc sabe... 
a primeira vez que ventilou, foi em meados da dcada de 50. 
Nem sempre ns temos condio de saber se uma Profecia  
verdadeira ou no. Voc sabe como so os crentes... s vezes 
eles vo repetindo as coisas por pura papagace! Naquela poca 
no se podia saber ao certo se era uma Profecia vinda de Deus, 
ou se era algum fruto da alma de algum, que caiu no gosto do 
povo Evanglico, e eles passaram a repetir isso de boca em 
boca. Do mesmo jeito como eles repetem: "Ns j ganhamos!". 
s vezes  possvel ver um selo de Deus em algumas pessoas. 
E, de incio, a Profecia parecia ser verdadeira porque vinha de 
homens realmente chamados por Deus. Pelo sim, pelo no... to 
logo essa Palavra foi liberada ns tivemos a direo das 
Entidades de estabelecer uma Base aqui no Brasil. At ento 
no se cogitava nisso. No existe uma Profecia dessa sobre 
nenhuma outra Nao, percebe? A Profecia  para o Brasil! Por 
isso uma das Bases Mundiais ficou estabelecida aqui... no 
existe uma Profecia dizendo que qualquer outro pas da Amrica 
Latina, ou do mundo, vai ser Celeiro de Missionrios. Era 
preciso uma concentrao muito forte do nosso lado aqui. 
Mesmo que nem existisse essa Profecia, a verdade  que 
realmente o Brasil tem um potencial muito grande  isso os 
demnios j viram h muito tempo , de expandir o 
contingente de Evanglicos. Os principais focos de um possvel 
avivamento foram pesquisados pelas prprias Entidades. 
Entenda que os avivamentos por si s no so perigo para ns. 
Por exemplo... h outros pases da Amrica Latina que tm 
potencial de crescimento Evanglico, inclusive sabemos que 
pode haver focos de avivamento. Mas quase sempre o 
avivamento no atinge a Nao, fica restrito s Igrejas, aos 
templos, aos arredores... no muda a histria de um pas! Um 
pas pode passar por avivamento em algumas das suas Igrejas e 
ainda assim continuar abrigando o maior ndice de narcotrfico 
do planeta, por exemplo! O pas no  influenciado pelo 
avivamento, continua exportando drogas para o mundo inteiro. 
 aquilo que o Sermo da Montanha fala... o sal foi feito para 
salgar, e a luz foi feita para iluminar. Se o sal no salga, antes se 
torna inspido, para nada mais serve, to-somente para ser 
espezinhado pelos homens! Perceba que  isso que vai acontecer 
com muitas Igrejas que no so sal, no devido tempo. Vai 
chegar um momento em que toda a sujeira e corrupo vai saltar 
aos olhos de todos, e ento eles sero pisados por todos, 
difamados pela mdia. Na Inglaterra, por exemplo, houve um 
grande avivamento... mas ns dissemos que tudo aquilo ia 
terminar em banana. Ningum se preocupou muito. Porque era 
passageiro! Hoje aquele templo  realmente um depsito de 
banana, dentre outros. A mesma coisa aconteceu na frica. A 
nossa profecia  de que aquilo terminava em tamborim! E hoje, 
parte daqueles lugares onde se pregava a Palavra de Deus, so 
terreiros de macumba e de baixo espiritismo.
 E no pode ser que acontea a mesma coisa aqui no 
Brasil? Por que se preocupar tanto?
Por algum motivo Marlon no sabia explicar, ou no 
podia me explicar... e s enfocou muito aquela questo da 
Profecia. Parecia haver algo mais, alguma coisa que somente as 
Entidades sabiam, que somente a altssima cpula da Irmandade 
tinha conhecimento. Parecia haver muito burburinho no Reino 
Espiritual em relao ao Brasil.
Assim como era possvel ver o selo de algumas pessoas, 
aquela marca de Deus... como se fosse uma patente espiritual... 
um chamado verdadeiro para coisas especiais... da mesma 
forma, quem sabe... talvez fosse possvel ver alguma espcie de 
"selo" em algumas regies... fosse possvel prever alguma coisa 
sobre algumas regies!
E, mesmo sendo um pas de Terceiro Mundo, 
espiritualmente falando, o Brasil poderia ser causa de problemas 
em algum momento futuro. Fato  que, estrategicamente 
falando, depois dos Estados Unidos, o nosso era o pas mais 
importante na concentrao de esforos da Irmandade. Assim 
como foram os demnios que escolheram os lugares das Bases, 
e escolheram faz-las no lugar X, e no no Y,  porque alguma 
coisa a mais eles enxergavam naquelas regies. 
  preciso estar alerta! Se este pas entrasse de fato em 
avivamento, as oraes e a santificao haveriam de nos 
atrapalhar. Talvez alguns planos pudessem at mesmo 
naufragar. Haveria uma guerra tal que culminaria em muitas 
baixas, de ambos os lados. A restaurao da Igreja poderia 
acabar fazendo diferena no pas... no  a regra, mas... nunca se 
sabe. Poderia influenciar at mesmo na cpula estratgica do 
Satanismo. Mas, no se preocupe... isso nunca vai acontecer!
Para isso estamos trabalhando h todos esses anos  fez 
uma pausa e mudou de assunto.  Por esse motivo,  
importante voc vir comigo para conhecer a estrutura que foi 
montada aqui no Brasil! Voc vai gostar!
Assim aconteceu. Visitei uma a uma, todas elas, 
faranicas, colossais, monstruosas, muitssimo bem estruturadas 
e estrategicamente posicionadas. Aqueles eram os lugares 
preferidos de repouso para Leviathan, quando ele estava no 
nosso territrio. Afinal, este Principado era o responsvel pela 
Amrica Latina. Embora rodasse pelo mundo, alternando com 
os outros trs Grandes Prncipes do Inferno, seu lugar de origem 
 ou melhor, o territrio que lhe foi confiado por Lucifr , 
era a Amrica Latina. Em se tratando da questo estratgica do 
Brasil, naturalmente que ele tinha especial interesse nesta 
Nao. Alm das Bases, quase sempre havia um outro lugar 
estratgico para ele ficar, no mesmo estado, ou cidade.
Durante essas viagens Marlon aproveitou para mostrar 
algo totalmente novo. Levou-me em visita a alguns laboratrios. 
E naquele momento comeou a descortinar-se diante de mim 
uma fatia a mais de atuao da Irmandade, algo com que nunca 
sonhei. Nesses lugares eram realizados experimentos cientficos 
que, futuramente, seriam colaboradores tanto da vinda do 
anticristo como do seu perodo de reinado.
Um dos principais trabalhos, conforme me explicou 
Marlon, tratava da produo de um vrus. Esse vrus estava 
sendo desenvolvido para utilizao no perodo de reinado do 
anticristo, mais especificamente aps o advento da marca da 
besta, o que a Bblia chama de Grande Tribulao.
Todos aqueles que se recusarem a receber a marca, sem 
a qual no ser mais possvel comprar ou vender, sero 
impiedosamente eliminados. Principalmente atravs dos efeitos 
daquele vrus. Todos os que se opuserem ao governo do 
anticristo, e no forem leais a ele, sero destrudos de maneira 
rpida.
 A marca em si ser uma espcie de "contato 
eletrnico"  continuou Marlon.  Uma espcie de chip 
implantado via subcutnea. Claro que a idia difundida a priori 
para as massas ser a melhor possvel. As incontestveis 
vantagens do implante sero amplamente divulgadas, o mundo 
vai perceber como ser um tremendo facilitador em quase todos 
os aspectos. No haver mais necessidade de carto de crdito, 
por exemplo, ou de passaporte, carteira de motorista, talo de 
cheque ou dinheiro, carteira de identidade, carto de sade... 
todas essas informaes estaro contidas eletronicamente no 
implante. Isso vai eliminar as fraudes, muita burocracia, alm de 
facilitar todos os processos financeiros do mundo. Tambm 
elimina toda essa papelada da qual dependemos hoje em dia. O 
custo dos papis  muito caro, obviamente estamos 
"preocupados" com as implicaes disso, e tambm com a 
preservao da natureza! Menos papel... menos devastao nas 
florestas mundiais. Muitas sero as vantagens que ns vamos 
apresentar ao mundo para justificar o implante. Pense s nisso: 
o contato eletrnico sendo rastreado via satlite! No existe 
nenhuma possibilidade de algum ficar escondido, em lugar 
nenhum. Acabaram-se os seqestras, os grandes roubos. Mas o 
que est por trs  o que mais nos interessa, que  justamente o 
controle das massas. Qualquer indivduo que se revele como 
traidor do anticristo, ou da causa que ele representa, qualquer 
desertor... no tem para onde ir! O contato eletrnico far com 
que nunca mais ningum possa fugir dos nossos olhos. No 
haver traidores! O controle mundial ser completo, inexorvel 
e definitivo. Qualquer um que se rebelar contra o implante, no 
sobreviver. A melhor maneira de fazer isso  atravs do vrus, 
cujas pesquisas esto em andamento h vrios anos. A Terceira 
Praga! Mas isso  problema dos desertores... assim que os 
primeiros comearem a pagar o pato, e a doena se manifestar 
neles, muito mais devastadora e mais violenta do que qualquer 
outra que j existiu, ningum vai querer fazer parte desse 
contingente. Especialmente importante  que tal vrus cause 
muita dor e muito sofrimento... muito mais do que o cncer e a 
Aids, as duas primeiras Pragas (Leia Filho do Fogo). Quanto a 
ns... vamos para o lado que nos interessa!  preciso 
desenvolver uma vacina especfica contra esse vrus para 
proteger o anticristo, a Irmandade e seus colaboradores. Estas 
so pesquisas paralelas, mas to importantes quanto o prprio 
vrus. Quando ele for lanado, todos os Filhos do Fogo j 
estaro previamente imunizados e no correro qualquer risco 
de contaminao.
Depois Marlon me falou sobre o segundo ponto 
fundamental em que as pesquisas cientficas eram 
particularmente intensas, e os laboratrios estavam 
particularmente empenhados: no desenvolvimento de algumas 
drogas que foram chamadas de "comportamentais".
 Como funciona isso... ou melhor, como funcionar 
esse tipo de coisa no futuro!  continuou Marlon.  
Basicamente, essas drogas foram desenvolvidas para serem 
diludas em raes animais: gado de corte, gado leiteiro, aves, 
at mesmo peixes. Outras drogas so para contaminar produtos 
como hortalias e frutas, e at mesmo redes hidrulicas podem 
sofrer contaminao. Tambm adubos, fertilizantes e inseticidas 
usados em regies hortifrutigranjeiras podem ter como 
aditivante alguma dessas drogas. Em outras palavras, toda a 
cadeia alimentar humana vai estar sendo pouco a pouco 
contaminada com estas drogas. No tem como escapar disso, 
mesmo quem  vegetariano absoluto vai entrar na dana! A 
cadeia bioqumica das drogas j  prpria para que o organismo 
humano absorva  e retenha  a quantidade certa. Claro que, 
para todos efeitos, esta droga no existe. No vai aparecer na 
formulao de nenhuma rao, de nenhum produto... no se 
pode deixar rastro algum! Obviamente no vai estar escrito: 
"Poder causar danos cerebrais irreversveis"!  e Marlon at 
riu.  Mas em suma: o efeito s ser sentido a longo prazo. Os 
prprios demnios tm dado todas as direes de frmulas, de 
clculos, de estruturas moleculares... embora Lucifr conhea 
muito bem o corpo humano, muito mais do que ns, ainda 
assim,  para o perfeito sucesso  preciso tambm uma parceria 
com Cientistas, Mdicos, Bioqumicos, Farmacuticos e todo 
aparato para pesquisa de ponta! Temos que ver como toda a 
teoria funciona no mbito prtico.
 Mas que drogas so essas exatamente, para que 
servem?
 Espere. Vou chegar l. Como eu j disse, elas vo 
contaminar a cadeia alimentar de maneira gradativa, sempre em 
pequenas quantidades. O objetivo principal no  imediato, mas 
visa principalmente preparar as geraes futuras. As drogas 
desenvolvidas tm a capacidade de alterar o cdigo gentico, 
assim como uma radiao pode fazer isso. A radiao de uma 
bomba atmica, em quantidade macia, produz certos tipos de 
cnceres e anomalias genticas. Estas drogas, ainda que eu no 
as possa chamar de "radioativas", em pequena quantidade no 
vo causar destroos no corpo humano, mas algumas alteraes 
genticas que, por sua vez, vo levar a alteraes cerebrais. Mas 
perceba: no na primeira gerao, no em quem est sendo 
submetido ao seu efeito agora. Os resultados viro nas geraes 
futuras. E o que vai acontecer? As drogas sero capazes de criar 
novas conexes neuronais, conexes estas que facilitaro a 
recepo de certos tipos de microondas que tambm esto em 
desenvolvimento. Em suma, haver uma alterao cerebral 
gentica e progressiva.
 Sim, mas... microondas?
 Certo tipo de onda sonora que o seu ouvido no 
escuta, mas seu crebro capta. E influencia o sistema nervoso. O 
sistema nervoso central funciona atravs de impulsos 
eletromagnticos, como uma grande usina. As pesquisas que 
esto em andamento demonstram que essas microondas tm o 
poder de interferir nestes impulsos eletromagnticos causando 
reaes das mais diversas, por exemplo: tristeza, angstia, raiva, 
medo, alegria, euforia, depresso, etc. e etc. De acordo com a 
parte do crebro que  estimulada! Futuramente estamos 
empenhados em provocar no apenas respostas emocionais, mas 
ser possvel que as microondas transmitam, diretamente para o 
crebro do receptor, at mesmo frases curtas. Este resultado ns 
ainda no temos, as pesquisas mostraram que  preciso 
"preparar o crebro" antes, isto , criar novas ligaes 
neuronais. Este  o ponto onde entram as drogas que falei antes, 
elas servem exatamente para isso: favorecer a criao de 
conexes neuronais novas, mais favorveis  recepo dos 
impulsos eletromagnticos anmalos, estes que viro por meio 
da emisso das microondas! Incrvel, hein?! A mensagem 
subliminar vai ser uma coisa totalmente ultrapassada! Ainda que 
seja sutil, j despeitou suspeitas. Mas esta outra tcnica, mais 
sutil ainda, vai ser infinitamente mais poderosa! O crebro de 
toda a Humanidade, nas geraes futuras, vai estar 
eletromagneticamente suscetvel s informaes que ns vamos 
enviar atravs das microondas. Isso  s mais uma maneira de 
controlar as massas mundiais! O poder de persuaso vai ser 
muito maior. Poderamos trazer sobre todo o mundo certos tipos 
de emoes e pensamentos! Naturalmente estamos trabalhando 
muito neste sentido. Claro que tem que acontecer em escala 
mundial.
Mas entenda, no vai afetar ningum que consuma estas 
coisas na primeira gerao, pelo menos no da maneira como 
queremos. Isto , hoje! As predisposies genticas vo 
comear a aparecer nos filhos destas pessoas, que vo continuar 
ingerindo estes alimentos, e particularmente nos netos. A partir 
da as conexes neuronais j estaro diferentes, aptas para o 
recebimento das microondas. Como fruto de uma alterao 
gentica.
Embora aquilo no fizesse parte exatamente da rea  
qual estava destinado, a rea poltica, Marlon parecia bastante 
entusiasmado em me fazer visitar vrios daqueles laboratrios. 
Como j sabia que tudo vinha a seu tempo... imaginei que os 
demnios tivessem sinalizado  e liberado , aquelas 
informaes e visitas para mim. Deveria fazer parte do meu 
preparo, embora estivesse relacionada  rea da sade.
Em ltima anlise tudo aquilo era mais um dos suportes 
para a vinda do anticristo, alm de favorecer o seu governo 
absoluto no futuro! Quem poderia opor-se a ele?
Naturalmente a manipulao das massas tinha que ser 
progressiva, e estaria acontecendo desde antes do reinado. Por 
isso a importncia das drogas. Apenas o vrus seria para o 
perodo especfico do reinado, mais exatamente para a poca da 
implantao da marca.
 O vrus  para 2006, ento?
 No. J dissemos que o anticristo vai aparecer em 
2006, mas isso no significa que ele vai governar desde essa 
data. No  assim que funciona, num passe de mgica! Ele tem 
que aparecer, tem que ganhar credibilidade, projeo poltica, 
ascender... isso leva seu tempo. Ele s vai assumir o Poder 
definitivamente, como governante mundial, bem mais tarde.
* * * *
Depois daquela visita s Bases e alguns laboratrios 
brasileiros, a programao seguinte aconteceria fora do Brasil. 
Marlon e Zrdico me explicaram que era tempo de comear, 
primeiramente, a ter contato com as Bases fora do Brasil.
A primeira viagem seria para um pas da Amrica 
Latina. Notei que havia um interesse muito grande em que eu 
continuasse conhecendo, agora, os lderes das Bases 
estrangeiras. J havia conhecido os principais lderes nas Bases 
brasileiras, agora comeava minha viagem pelo exterior.
  importantssimo voc conhecer um pouco da nossa 
atividade l fora!  comentava Marlon certo dia, com muita 
animao.  Vamos tirar foto pro seu passaporte! E depois a 
gente vai sair, t?
Concordei, sem especular muito. Sabia que todo 
conhecimento vinha na hora certa, no adiantava perguntar 
antes. Pelo visto Marlon fazia toda questo em me fazer 
conhecido pela alta cpula da Irmandade. Certamente aquilo 
tambm j tinha sido sinalizado pelos demnios!
Era realmente algo muito especial porque em quase 
todas as ocasies continuei viajando sozinho com Marlon. s 
vezes com Marlon e Zrdico. Era tudo muito interessante, todo 
mundo me olhava com satisfao, sempre era muito bem 
recebido.
Existem algumas lacunas na minha memria. No  de 
tudo que me recordo.
Logo na primeira viagem, pelo que me lembro, tive uma 
boa amnsia em relao ao trajeto. Recordo-me apenas de j 
estar dentro de um carro, em outro pas. Sonolento. Sempre 
sentia muito sono nas viagens! Aquilo tinha que ser proposital! 
Talvez eles no quisessem que eu escutasse a conversa deles, 
talvez eles falassem de coisas que eu ainda no podia tomar 
conhecimento.
Quando dei por mim, Marlon e Zrdico viajavam na 
frente, e eu estava no banco de trs. Tomamos um avio 
particular, s pra gente. Mas eu tambm dormi a maior parte do 
tempo.
A prxima parte de que me lembro  de estar novamente 
num carro, caminhando por um bairro bastante bonito, um 
bairro de elite, com ruas largas, planas e arborizadas, com casas 
de alto padro. Como se fosse um bairro nobre de So Paulo.
Estvamos indo para a casa de uma famlia. L, fomos 
muito bem recebidos por aquelas pessoas cordiais. Era um casal 
de meia-idade com dois filhos j grandes, na casa dos 20 anos. 
A famlia toda pertencia  Irmandade. Num primeiro momento 
conversamos apenas efemeridades, e lembro que pousamos 
naquela casa.
No dia seguinte tinha um timo caf da manh, cheio de 
coisas diferentes!
Ento me lembro de estar novamente no carro... e 
Marlon me havia dito:
 Vou mostrar uma coisa pra voc! Por isso estava na 
expectativa.
Para minha surpresa, estvamos chegando perto de um 
grande Hospital. Estacionamos o carro, entramos e comeamos 
a caminhar por aquele Hospital. s vezes Marlon e Zrdico 
cumprimentavam algumas pessoas, me apresentavam 
rapidamente, e continuvamos nosso caminho. Eram Mdicos, 
mas me lembro muito vagamente deles.
Comecei a perceber que ns estvamos descendo 
progressivamente. No reparei no caminho porque 
conversvamos o tempo todo.
De repente, ele falou casualmente:
 Ns precisamos colher uns exames seus. Vamos tirar 
seu sangue e tambm um pouco de esperma  disse Marlon.
Ele sempre era muito pronto em me explicar tudo que 
tivesse licena para explicar. Antes que pudesse perguntar 
qualquer coisa, ele continuou:
 Isso  para desenvolver uma vacina especial para 
voc, porque as que voc tomou at agora no tiveram o efeito 
totalmente desejado.
De fato eu havia sido vacinado. Como todos os demais 
membros da Irmandade, de tempos em tempos. Mas na poca 
no me tinham explicado o porqu daquilo.
 As vacinas contra aquele vrus que te falei esto em 
fase de pesquisa, mas para voc tem que ser uma vacina 
especial. Temos que desenvolver uma vacina s pra voc! A sua 
gentica foi ligeiramente alterada, isso torna o seu organismo 
nico. E faz com que seja necessria agora uma pesquisa 
especfica.
 Alterao gentica?!
 No  uma coisa ruim, pelo contrrio! Essa alterao 
gentica aconteceu primordialmente durante o ato da sua 
concepo, por que voc foi gerado em condies especiais. De 
certa forma, ela se completou durante aquele Rito... aquele Rito 
em que voc sentiu seus ossos estalando! Lembra? Quando voc 
pde sentir o comeo de uma transformao? Uma parte da 
energia de Leviathan est com voc! Foi ele quem te canalizou 
naquela hora, e tambm esteve envolvido na sua concepo.
Tudo aquilo me parecia to estranho que no parei para 
pensar em como Leviathan poderia estar envolvido no ato que 
me gerou\ Se meu pai e minha me no tinham absolutamente 
nada de especial. Para que isso acontecesse, eu sabia, pelo 
menos teoricamente, era preciso haver uma entidade 
semicanalizando o meu pai...
Mas estava mais interessado nos finalmente.
 A energia dele, que esteve envolvida tanto na 
concepo quanto naquele Rito, causou uma pequena alterao. 
Essa energia est dormente em voc! No momento certo, ela vai 
ser despertada. Mas isso torna o seu corpo diferente. E faz com 
que agora seja preciso desenvolver essa vacina especial, 
adaptada ao seu organismo, para que no momento certo voc 
no seja atingido pela Praga...
Parecia uma coisa louca. Mas confiei nele, como 
sempre, e apenas fiz que sim com a cabea.  medida que 
continuvamos descendo por aquele labirinto de Hospital, 
Marlon ia explicando mais.
 Essa alterao gentica no  muito fcil de ser 
detectada, apenas atravs da Medicina Ortomolecular, apenas 
atravs da Microscopia Eletrnica...  Marlon estava falando 
grego. No entendi muito sobre aquilo, mas me recordo 
daqueles nomes tcnicos. Mas no ia ficar sem dormir por causa 
daquilo, quando chegasse a hora eu compreenderia melhor o 
que significava essa alterao, e por que tinha sido completada 
durante o Rito.
Sem que me desse conta de como havia chegado ali, 
notei que j estvamos numa ala aparentemente bastante seleta, 
onde havia pouqussima gente circulando. Eram corredores 
enormes muito bem iluminados, salas para todos os lados, sem 
dvida uma parte de pouco acesso. Uma ala provavelmente 
secreta.
Aquilo no me surpreendeu, eu j tinha visto coisas 
semelhantes nos laboratrios que visitei. Minha ateno foi 
desviada para o Mdico que veio ao nosso encontro. Fomos 
apresentados, e Marlon pediu:
 Explica melhor para ele!
Acho que o tal deveria estar  minha espera.
 Olha... eu no vou ter como te explicar com detalhes 
tudo isso.  a mesma coisa se voc tentasse explicar para uma 
criana por que ela no pode colocar o dedo na tomada! Ela 
jamais ia entender os conceitos de corrente eltrica, de curto-
circuito... aqui  a mesma coisa: certos detalhes eu vou te falar, 
e voc vai ter que aceitar que  assim. Porque voc no vai ter 
como entender!
Olhei para Marlon de forma inquiridora. Ele respondeu 
daquele jeito paternal dele.
 T tudo bem, filho... pode ficar tranqilo, voc est 
entre amigos!
Me senti seguro. A afirmao dele era o que me bastava. 
Ento acompanhei o Mdico para fazer os exames. Ele tirou 
bastante sangue, uns doze tubinhos! Ento me estendeu um 
outro frasco.
 Ns vamos precisar tambm de um pouco do seu 
esperma.
 Mas por qu?
  aquilo que eu te falei... isso voc tem que aceitar, 
vai ser muito difcil explicar. Talvez a gente possa precisar 
disso, no agora, mas no futuro. Talvez possamos precisar de 
um backup. Mas tambm vai ser um componente auxiliar no 
desenvolvimento da vacina para voc.
No sei o que ele quis dizer com backup. Talvez 
estivesse se referindo  necessidade de uma clonagem. Fiquei 
quieto e no discuti. Entrei numa sala privativa e fiz como ele 
me pedia. Depois que voltei, o Mdico ainda me deu quatro 
injees, uma na veia e trs no msculo, mas no senti nenhuma 
dor.
Eu no sabia onde estava Zrdico, mas toda hora olhava 
para Marlon, que tinha ficado por perto o tempo todo, a uma 
ligeira distncia. A cada olhar meu, ele me tranqilizava 
novamente.
 Voc est entre amigos, no se preocupe com nada. 
T doendo?
 No.
Assim que terminou de me aplicar as injees, o Mdico 
tornou a falar:
 Quando voc estiver nos Estados Unidos, eles vo 
colher novamente o seu sangue para avaliar a reao dessas 
injees.
No me recordo bem se foi nessa ocasio, ou se foi 
depois, que um Mdico me mostrou, no microscpio eletrnico, 
qual era a tal alterao gentica. Entendi muito pouco. Mas 
pude comprovar que ela existia de fato. Afinal, eles tinham me 
provado, tinham mostrado a evidncia palpvel.
Por fim, enquanto fiquei ali deitado na maca, o Mdico 
recolheu o material do meu exame e levou para uma sala 
contgua ao laboratrio. Um outro homem que estivera por ali 
todo o tempo, provavelmente um auxiliar, foi atrs dele e os 
dois ficaram conversando e etiquetando os frascos. Dali a pouco 
o homem sumiu com material e o Mdico ficou conversando 
com Marlon.
E eu fiquei ali esperando. Mas ento cansei de ficar 
deitado, e resolvi levantar para ver como estava me sentindo 
depois da retirada do sangue. No era muito, mas para mim 
pareceu bastante!
Fui saindo devagarinho, como quem no quer nada. 
Volta e meia eu olhava para trs e via que Marlon e o Mdico 
continuavam entretidos na sua conversa, sem prestar ateno em 
mim. Percebi que eu estava me sentindo bem. Ento pus a 
cabea para fora do laboratrio onde estava e espiei os dois 
lados do corredor. No havia ningum. Alis, no parecia haver 
ningum em parte alguma!
Resolvi dar uma voltinha e xeretar um pouco por ali. Fui 
andando e marcando bem o caminho de volta. O nico rudo era 
dos meus passos caminhando, descendo as escadas, rodando por 
aqueles corredores. Naquela parte no havia elevadores, mas 
no resisti  curiosidade.
"Puxa vida... quem diria que eu ia vir parar aqui neste 
pas!"
Xeretei bastante.
Ento o silncio foi quebrado por um som leve. 
Pareciam gemidos.
"Ser que tem gente internada aqui embaixo?"
Aqueles sons pareciam vir de trs de uma porta 
basculante cujos vidros estavam pintados com tinta preta. 
Caminhei naquela direo. Quando entrei vi que adiante de mim 
tinha uma segunda porta igual  primeira, que eu tambm abri e 
passei. Sa numa espcie de saguo pequeno com uma porta de 
cada lado. Experimentei a primeira, a que estava mais perto de 
mim, mas estava trancada. No entanto... a outra... justamente de 
onde vinha aquele som... estava entreaberta!
Terminei de abrir a porta e estaquei. Senti um choque 
percorrer o meu corpo.
Tinha ali duas pessoas em dois leitos, acho que um 
homem e uma mulher. Estavam totalmente monitorados, com 
muitos aparelhos  volta, fios para todos os lados, e restritos ao 
leito.
Mas a viso foi por demais horripilante para mim! 
Aquelas pessoas estavam num estado deplorvel.....com o corpo 
coberto de chagas, a tal ponto que at o ar cheirava mal. 
Pareciam monstros indescritveis... uma coisa medonha).
Os dois perceberam minha entrada e fizeram como que 
um gesto na minha direo, tentaram erguer as mos e 
balanaram a cabea, pareciam pedir ajuda. Tentaram falar 
alguma coisa, novamente se esforavam por erguer as mos... 
mas estavam contidas. Eu percebi que eles estavam me pedindo 
socorro.
Meu susto foi to grande, e a viso to pavorosa, que sa 
de l correndo, aos trambolhes, em menos de cinco segundos. 
Empurrei a porta basculante com toda fora e at esqueci que 
havia outra na frente. Na minha pressa bati o rosto na segunda 
porta. S queria sair dali! Quase ca no cho no meu desespero... 
queria ir para bem longe dali.
Sa correndo pelo corredor principal e j no sabia como 
fazer para voltar ao laboratrio.
Eu sabia que tinha que subir umas escadas, ento subi 
correndo a primeira que encontrei, quase em pnico. Notei que 
estava perdido, j no sabia onde estava. Perdi a compostura e 
simplesmente comecei a gritar:
 Marlon! Marlon! Zrdico! Onde  que vocs esto? 
Cad vocs?! Marlon!!!
Eu t aqui embaixo!
No demorou nada e eles me acharam. Vieram ao meu 
encontro um pouco apreensivos, em passos rpidos. Corri para 
Marlon e me sentia quase como um menino desamparado, 
assustado, minha primeira reao, impensada, foi de abra-lo 
com fora.
 Olha l! Voc sabe o que tem naquela sala? Tem 
umas pessoas que esto precisando de ajuda! Elas esto 
precisando de um Mdico! Vamos l! Vamos ajudar! Cad o 
Mdico?
Marlon me olhou com um ar que dizia: "Acho que no  
hora de eu te falar nada!"
Mesmo assim, ia tentando balbuciar alguma coisa, mas o 
assistente do Mdico, que tinha chegado em seguida, falou 
primeiro:
  No... eles no esto precisando de Mdicos... eles 
fazem parte de um experimento!
Eu fiquei completamente chocado, estarrecido, e acho 
que a expresso do meu rosto dizia tudo. Fui incapaz de dizer 
qualquer coisa. Fiquei mudo at sairmos do Hospital. Ento 
Marlon procurou salvar a situao.
  bvio que as experincias so feitas com seres 
humanos, no ? Este no  o nico lugar onde as pesquisas 
esto em andamento. Precisamos testar o vrus... tanto para ver a 
eficcia dele, como tambm a eficcia da vacina  ele procurou 
me tranqilizar mas foi evasivo.  No era ainda o tempo de 
voc entrar em contato com isso! Tem que haver muito 
sofrimento e muita dor, para servir de exemplo... para ningum 
se atrever! A vacina s ser dada a quem aceitar o implante 
eletrnico. E mesmo assim, certas raas indesejveis... mesmo 
com implante... bom! Vamos deixar esse assunto de lado. O que 
importa  que a sua vacina est em andamento.
 Por que precisa de uma vacina s para mim?  eu 
estava atordoado e queria mudar de assunto mesmo.
 Eu j te disse. Ningum tem o organismo como o 
seu! Existe uma alterao gentica, que em ltima anlise causa 
uma pequena alterao metablica, e isso  necessrio para que 
voc possa cumprir seu papel no futuro.
No quis saber de mais nada. No quis entender mais 
nada. No parei para pensar que meu nascimento tinha sido 
programado pela Irmandade, como  possvel? At ento aquela 
ficha no tinha cado, Marlon nunca tinha dito que era meu pai. 
Nunca tinha dito que estava canalizado  ou melhor, 
semicanalizado por Leviathan durante o ato que me gerou. 
Alm disso... por que eu precisava de uma alterao metablica 
para cumprir o destino que me estava proposto??! O que tem a 
ver alho com bugalhos???
Marlon percebeu o quanto eu tinha ficado 
impressionado. Ento voltou ao primeiro assunto e tentou ir me 
acalmando. Me convenceu, (como sempre), que aquilo era um 
mal necessrio...
 So apenas alguns que esto sendo sacrificados em 
benefcio de milhes! Em toda a histria da cincia foi assim... 
isso no  novidade, mas pelo menos somos dignos o suficiente 
para usar os prprios seres humanos! E no fazer atrocidades 
com os animais. Nada que  testado em animais tem valor real 
para o ser humano. Veja s como Deus  muito mais cruel: tem 
milhares de pessoas em todo o mundo que morrem de doenas 
horrveis! Deus tem o Poder de curar, mas no est nem a. 
Desde a poca de Jesus, quando tinha a lepra, o prprio Jesus 
curou apenas alguns. Ele s se "compadeceu" de alguns!
Eu no quis mais pensar naquilo. Queria esquecer o que 
tinha visto. E eu realmente esqueci. Depois da minha converso, 
aquelas coisas sumiram da minha cabea!...
* * * *
No muito depois da nossa volta ao Brasil, Marlon e 
Zrdico me comunicaram sobre a prxima viagem. Desta vez 
ns iramos para So Francisco, nos Estados Unidos.
Cerca de vinte dias tinham se passado desde a viagem 
quele pas da Amrica Latina, e a programao j estava 
definida.
Depois que voltssemos da Amrica do Norte, eu 
deveria ir com eles conhecer as principais Bases na Europa. Mas 
s depois do Sabbath.
* * * *
Recordo-me de que mais uma vez eu literalmente 
apaguei durante a viagem de avio. Fomos de jato particular 
novamente, e apesar da minha curiosidade e animao com o 
fato de estar dentro daquele avio, simplesmente dormi.
Quando abri os olhos, estava no banco de trs de um 
carro, Marlon e Zrdico na frente, e estvamos passando por 
cima de uma ponte interminvel.
Ergui-me, esfregando os olhos, fascinado com a viso 
daquela ponte e de toda aquela gua!
 Que bonito!!
De incio ns fomos novamente a um outro grande 
laboratrio onde tirei sangue outra vez, e tomei mais vacinas. 
Explicaram-me que havia uma grande chance delas comearem 
a fazer efeito. Nesse dia no houve mais nada de importante, 
nada mais de que eu tenha recordao.
No outro dia, um pouco antes do almoo, Marlon me 
chamou para sair com ele. Parecia especialmente animado.
 Venha comigo! Ns precisamos comprar umas coisas 
pra voc! Hoje no final da tarde voc vai participar de uma 
reunio na casa de uma pessoa muito importante! Voc vai 
conhecer um grupo muito especial.
Fomos s ns dois. Paramos numa loja ultra chique, pelo 
visto j conhecida dele.
 O que ns vamos fazer a!
 Vamos te comprar uma roupa legal!  continuou 
Marlon, mal disfarando seu entusiasmo.  Venha, venha!
Ele mesmo olhou os modelos, fiz questo de apenas 
observ-lo, com um sorriso no rosto, sem palpitar. Nunca ele 
tinha se mostrado to interessado com a minha aparncia. Claro, 
tinha sido Marlon o principal responsvel pela mudana no meu 
jeito de ser, foi ele quem me incentivou a comprar roupas 
melhores e a mudar o cabelo. Ele foi o primeiro a me dar 
dinheiro para isso.
Mas agora, era diferente. Ele mesmo escolheu um terno.
 Experimenta esse! Esse aqui vai ficar perfeito.
Era de um tom azul-marinho muito bonito, um tom azul 
pouco comum. Enquanto eu experimentava, fez o servio 
completo: escolheu tambm a camisa, as abotoaduras, a gravata, 
o prendedor de gravata, a cueca, as meias e os sapatos. Tudo 
completo, do bom e do melhor.
 Nossa, Marlon! Que exagero!
 Hoje ser uma noite especial!
Depois escolheu tambm o perfume, e me fez cortar o 
cabelo. Eu at dava risada com todo aquele cuidado, ele estava 
mais eufrico do que eu. Certamente porque sabia do que se 
tratava, e eu estava no escuro.
 Vamos cuidar da sua apresentao hoje. Vamos fazer 
uma boa apresentao porque todos vo estar na sua melhor 
forma tambm! Eu no quero que voc passe vergonha, nem 
que se sinta inferiorizado.  Marlon me conhecia muito bem. 
 Voc  tanto quanto todos aqueles que vai conhecer nesta 
noite. No olha para ningum com os olhos baixos, voc pode 
olhar nos olhos de todos eles! O que eles tm, voc tambm 
tem...
 Bom, mas so pessoas que tm muito dinheiro. Eu 
no tenho muito dinheiro!
 No, no  disso que eu estou falando. O que eles 
tm... voc tambm tem! Quero que voc saiba isso de antemo! 
Eu te conheo, s vezes sei que voc pode se sentir diminudo 
pela forma com que eles vo se apresentar diante de voc. Por 
causa do esteretipo! Voc olha muito para o rtulo, no se 
preocupe com o rtulo hoje. Importa muito mais o que vem de 
dentro,  aquela coisa do coco, lembra? (Leia Filho do Fogo).
Dei uma risadinha.
 Lembro, lembro! Seu exemplo predileto...
Marlon retribuiu um largo sorriso. Ele parecia to 
contente, to orgulhoso de mim, to entusiasmado. E no 
respondia a nenhuma das minhas perguntas! Limitava-se a dar 
um leve sorriso e me pedia para aguardar. Acabei ficando super 
ansioso tambm.
No finalzinho da tarde ele e Zrdico me puseram no 
carro e partimos a caminho do nosso destino. Completamente 
incgnito para mim.
J de longe percebi que era uma manso como eu nunca 
tinha visto! Colossal! Muito maior do que a casa de Zrdico, 
onde funcionava nossa Base em So Paulo. Para atravessar o 
jardim era preciso ir de carro...
Estava entardecendo.
Naturalmente a decorao era primorosa, nem vou gastar 
tempo com isso, porque seno gastaria tempo demais. Fomos 
recebidos por um homem muito bem vestido com pinta de 
mordomo.
 Sejam muito bem-vindos, ns j estvamos  espera 
de vocs! Andamos bastante por dentro daquela casa e 
chegamos a uma sala que parecia ser uma sala de reunies. Uma 
espcie de biblioteca, uma enorme porta de correr com lajotes 
de vidro fum a separava do corredor. Ficava no piso trreo da 
casa. Pelo visto, a reunio seria ali.
O tal mordomo nos deixou e Marlon me acompanhou at 
a porta da sala.
 Agora eu no posso mais ficar com voc.  Porqu?
 S voc vai participar da reunio.
Por aquela no esperava. Fiquei quieto. Estava sendo 
chamado para fazer parte de alguma coisa que Marlon no faria 
parte?!. Ora essa!
Dentro da sala, que era bem grande, me chamou a 
ateno uma mesa enorme de madeira macia rodeada de 
cadeiras. Estava bem posicionada no centro, luxuosa, 
incrivelmente bem acabada. Havia apenas um homem sentado 
numa das cadeiras, que no falou nada, quando adentramos o 
recinto ele apenas fez um cumprimento de cabea. Ns 
retribumos. No nos conhecamos mutuamente. Marlon me 
apontou uma das cadeiras:
 Seu lugar  aquele!
Havia dez lugares  mesa.
Quatro de cada lado, e dois nas cabeceiras. Depois que 
Marlon saiu, fiquei observando os detalhes. A cadeira era super 
chique, forrada com almofades de veludo vermelho, de 
madeira macia, com braos de apoio grossos que terminavam 
em cabeas de drago banhadas a ouro. Ainda fui curioso em 
observar a mesa, no havia qualquer juno, qualquer diviso, 
parecia ter sido feita de um nico bloco de rvore!... Acho que 
talvez fosse preciso um trator s para mudar aquela mesa de 
lugar.
Havia muitos detalhes de ouro nela, e tambm pela sala, 
um luxo incalculvel!
As paredes estavam forradas com estantes de livros, e 
todo o resto da decorao era bastante extico, puxando para o 
lado indiano. Mas no era nada ritualstico, tratava-se apenas de 
um gosto pessoal. Bem diferente, por sinal! Pude at mesmo 
sentir o cheiro de um incenso aromtico, mas novamente no 
era nenhum incenso de conotao ritualstica, como pude 
perceber pelo odor. S dava um ar mais real quela decorao 
indiana.
No demorou muito e outras pessoas foram chegando. 
Outros homens. Ao que parecia, cada um j sabia de antemo 
qual lugar deveria ocupar. Cumprimentamo-nos mutuamente, 
mas nenhum de ns conhecia ningum. A noite seria reveladora 
para todos!
Havia uma certa reverncia no ar e, apesar do que 
Marlon tinha dito, senti-me um pouco deslocado. Ningum 
falava nada, seno teria percebido mais rpido a diversidade de 
lnguas e culturas expressas naqueles nove homens, incluindo a 
mim. Era algo que dava para inferir porque o biotipo de alguns 
era bastante diferente. Mais tarde, caso no ficasse sabendo, 
perguntaria ao Marlon.
Alis... sabe-se l onde Marlon iria ficar para me 
esperar!
Quando estvamos todos acomodados percebi que a 
cadeira de uma das cabeceiras, a que estava mais perto de mim, 
ainda permanecia vazia. Deveria ser do nosso anfitrio! As duas 
cadeiras ao lado dela j estavam ocupadas, a seguir estvamos 
eu e mais um outro homem  minha frente. O restante da mesa 
foi preenchido at a outra cabeceira.
Aparentemente havia uma hierarquia expressa naquela 
ordem, e eu era o quarto nela, o quarto homem dos nove, e 
tambm o mais novo. Eu tinha 24 anos na poca, mas a maioria 
deles estava entre 30 e 40. Apenas uns dois pareciam mais 
velhos.
Demorou um pouco. Eu no tinha idia do que 
estvamos esperando, embora parecesse bvio que estava 
faltando algum. Aquele que iria ocupar o lugar de honra, o 
lugar na cabeceira. Quem seria ele? Por que no vinha?
No tivemos que esperar muito realmente.
Em dado momento, senti uma mudana no clima... a 
atmosfera se tornou estranha, densa, carregada... mas de uma 
outra maneira, uma maneira como eu no estava acostumado. 
Senti no meu estmago aquela onda caracterstica, a sensao 
de descer indefinidamente por uma montanha-russa... mas... 
novamente... de uma maneira como nunca tinha experimentado 
antes!
Havia uma energia forte se aproximando...
E ento entrou um homem na sala. Um homem que eu 
nunca tinha visto, e que no sabia quem era. Ele se sentou, com 
tranqilidade. Parecia estar bastante  vontade, diferente de ns. 
Enquanto se acomodava, apresentou gestos plcidos, suaves, 
controlados... mas o rosto estava estranhamente retesado. Como 
se fosse um rosto de pedra, como se os msculos faciais 
estivessem enrijecidos... no sei como explicar! Parecia um 
fenmeno desconhecido para mim, uma impresso mpar.
Tive a sensao de que ele estava semicanalizado, mas a 
canalizao normalmente muda muito mais as feies, 
transforma o rosto num rosto no humano. O dele continuava 
humano... mas com aquela aparncia diferente. Ptrea.
Conforme me explicariam mais tarde, aquela aparncia 
pouco confortvel era porque no tinha chegado o tempo dele 
receber a canalizao completa daquele que o acompanhava. 
Por isso o seu corpo estava no mximo do que era suportvel. 
Mas no futuro, seria capaz de canalizar totalmente sem 
apresentar aquele aspecto enrijecido.
Sentado, primeiro ele nos olhou um a um, olho no olho. 
No mais do que cinco a dez segundos foram perdidos com cada 
homem presente, na ordem exata das cadeiras. Realmente havia 
uma hierarquia. Quando seu olhar encontrou o meu mantive a 
postura, mas senti um frio na espinha, como se aqueles olhos 
pudessem me traspassar. Um misto de medo e curiosidade me 
dominava!
Ningum esboou reao nenhuma, todos ns 
continuamos olhando para ele e esperando.
"Quem ser esse homem?..."
Ento ele falou pela primeira vez. Naturalmente no foi 
em portugus, mas eu compreendi como se ele estivesse falando 
meu idioma. O mesmo deve ter acontecido com os outros, pois 
havia homens de vrias Naes ali.
 Sejam todos muito bem-vindos! Vocs esto na casa 
do pai. E o pai os recebe de braos abertos. Agora, eu os 
convido a tomar da minha taa!
Tenho lacunas enormes a respeito desta noite. Deus 
permitiu que eu recordasse apenas o essencial...
Aquele homem levantou e pediu com muita educao:
 Por favor, me acompanhem...
Ele se aproximou de uma das estantes de livros que iam 
at o teto. Aparentemente algum mecanismo foi destravado, e a 
estante correu por cima de trilhos dando espao a uma espcie 
de ante-sala. Na nossa frente havia uma outra porta muito 
grande, que destravada por sua vez, correu tambm sobre trilhos 
na direo oposta.
Diante de ns, uma escadaria acarpetada, dentro de um 
tnel muito bem iluminado e bastante espaoso. Fomos 
descendo em silncio. Todos os rostos pareciam na expectativa.
Quando chegamos l embaixo, percebi que se tratava de 
um salo de Rituais em miniatura. Poderia ser comparado a algo 
como uma pequena capela, com todos os aparatos fundamentais, 
mas em pequena escala. Era bem maior do que a sala de 
reunio, mas no era como as catedrais a que eu estava 
acostumado, como na base de So Paulo, ou mesmo no 
Castelo... mas era um salo de Rituais particular!
A decorao era semelhante  que j conhecia, to logo 
entrei pude sentir o cheiro do incenso de ervas, ritualstico; 
havia um Pentagrama no cho, figuras conhecidas nas paredes, 
as tochas estavam acesas e era a nica iluminao presente. E 
uma mesa l na frente... com uma pessoa j preparada, 
aparentemente sedada.
Ento haveria um Ritual... no era apenas uma reunio!
 Nossa aliana vai ser celebrada hoje pela primeira 
vez! E ser o elo da nossa vitria  disse aquele homem.  
Ainda no  tempo de estarmos todos juntos, e tambm no  
tempo de vocs receberem toda a verdade. Mas o que vocs 
precisam saber agora  que so privilegiados. Vocs foram 
escolhidos por Lucifr, aprovados por Belzebu, Astaroth, 
Asmodeo e Leviathan, e aplaudidos por todo o Inferno! Poder, 
honra e glria so depositados em tuas mos. Bendito para ns  
o sangue dos inocentes! Ele chega at mim como aroma suave... 
o sacrifcio de cada um de vocs, tudo que vocs tm feito para 
me agradar... est sendo reconhecido...
Enquanto falava, progressivamente sua voz ia mudando, 
e adquirindo outro timbre. De repente, numa exploso, foi 
completamente transformada. Ele completou:
 Ns nos veremos mais tarde... no futuro... mas hoje  
dia de celebrar esta aliana!  pausadamente, com voz 
indescritivelmente Poderosa, potente, acrescentou:   contado 
que a multiplicao da espcie comeou atravs da costela de 
um homem... dessa costela veio a mulher. E ela, seduzindo, 
levou o homem ao encontro da serpente... ao encontro do lado 
sombrio... por isso, hoje, ns damos incio a uma outra gerao: 
um outro Imprio ser formado atravs do corao de uma 
mulher! Assim como a primeira mulher seduziu o homem, e ele 
se inclinou perante o lado negro, ns, bebendo da essncia dela, 
da essncia do seu corao... seremos aqueles que, seduzindo as 
Naes, novamente colocaremos o Mundo face a face com a 
serpente, completamente inclinado diante dela.
Na mesa estava aquela mulher. Ele mesmo fez o que 
devia, de uma maneira incomum. O processo de preparao da 
Poo foi longo, e no tenho muitas recordaes do desenrolar 
da noite.
Mas enfim ele colocou o lquido na taa.
Ergueu-a um pouco acima da cabea e, depois, abaixou 
at a altura do peito, do corao. Ento depositou no cho, com 
suavidade. E falou:
 Todos vocs que hoje esto aqui so privilegiados 
porque foram escolhidos. Escolhidos para fazer parte da 
Histria, e no apenas observ-la\
Tomou novamente a taa nas mos e desta vez apoiou-a 
sobre uma pequena mesa  sua frente. Tocou com os dedos o 
lquido dentro dela, e fez um gesto dizendo:
 Este  o sangue do nosso triunfo! Cada um de vocs, 
que foram escolhidos, se obedecerem s minhas ordens e 
seguirem pelos meus caminhos, lhes ser concedido Poder como 
nunca houve na Terra. Poder para fazer as guas se tornarem em 
sangue, Poder para fazer os vivos sentirem inveja dos mortos, 
Poder sobre toda a Terra! Poder para lanar pestes e pragas, 
Poder para destruir Naes, Poder para vencer... to-somente 
vencer! Porque vocs lutam pela causa maior. Em breve chegar 
o tempo de tirarmos o vu, de abrirmos a Cortina do Tempo, e 
de mostrarmos a todo o Mundo que ns somos Poderosos! At 
agora temos agido nos bastidores, nos subterrneos,  sombra. 
Mas haver um tempo em que vamos mostrar a nossa face, e o 
nosso Poder, com honra e glria! A todo o Mundo. E o Mundo 
ter que se curvar diante de ns! Porque o Poder maior est 
aqui! Ao redor desta mesa. Todos vocs so peas deste Jogo, 
deste Jogo de guerra. Lucifr os convocou, e coloca hoje em 
cada um de vocs uma patente. E tero como prmio as Naes 
do Mundo!
Aproximou-se de cada um de ns, sempre seguindo 
aquela ordem hierrquica, e nos tocou com ungento na testa e 
depois no corao. Ento olhava bem firme nos olhos e dizia 
algumas palavras que no reconheci. Em seguida entregava a 
taa. E todos ns bebemos dela......cada um por sua vez. Ele 
tambm selou os nossos Portais com o contedo da taa, falando 
palavras incompreensveis.
Os trs primeiros homens da ordem receberam um 
abrao mais apertado, porm breve. Do quarto ao nono, apenas 
o seu olhar.
No era um olhar humano. Uma pessoa comum, por 
mais que possa olhar com firmeza... ou com respeito, ou com 
ira, ou com amor... continua tendo seus olhos como a janela da 
alma, como reflexo do interior! Mas ali... os olhos dele no 
tinham expresso nenhuma). Uma coisa estranha... como se 
fossem dois olhos de vidro, completamente inexpressivos. No 
traziam impresso alguma... nem de amor, nem de admirao, 
nem de dio, nem de alegria... nadai Estranho... realmente eram 
como olhos de vidro... desprovidos de qualquer sentimento. A 
despeito dos gestos e das palavras traduzirem o certo apreo que 
parecia ter por ns.
Depois, ele deixou claro que cada um receberia um dom 
especial a ser manifesto no momento especfico, no futuro, para 
ser destinado ao servio para o qual estvamos sendo chamados. 
Naquele momento percebemos que ns, os nove, tnhamos uma 
marca idntica na mo. Do mesmo jeito, no mesmo exato lugar.
Este  o nico momento ntido para mim. No me 
lembro de quase mais nada, a no ser de um outro sacrifcio, 
desta vez de um homem que estava crucificado no cho... ele 
estava atrs de uma cortina que, no momento certo, foi aberta. 
Mas foi nosso anfitrio quem presidiu todo aquele Rito, sempre 
falando com aquela voz Poderosa. No me lembro a que veio 
aquele segundo sacrifcio...
 Eu os escolhi para fazerem parte do meu reinado, 
para reinarem ao meu lado! Quando chegar o tempo, eu serei o 
Lder absoluto deste Imprio! E vocs sero meus discpulos!
Em algum momento daquela noite ele implantou em ns 
um pequeno chip, no joelho direito. Foi completamente indolor, 
rpido, e ele usou para isso um pequeno instrumento parecido 
com uma pistola de presso. Ficaria apenas uma leve cicatriz no 
lugar...
Samos de l quase no final da madrugada, pouco antes 
do nascer do sol.
Marlon esperava por mim. Ele me abraou com fora e 
carinho, me parabenizou.
 Mais uma etapa. Mais uma etapa foi concluda, filho! 
Quando voc receber o seu diploma, lembre-se de mim.
Mas eu estava por demais atordoado... e tinha uma 
suspeita dentro do corao. Uma suspeita... porque os gestos 
daquele homem, a voz... o olhar... eram completamente nicos. 
Tudo ostentava um Poder inimaginvel! Difcil de descrever.
Seria ele... ? Eu no tinha certeza.
Olhei para Marlon, e perguntei:
 Esse...  aquele que vai combater o Cristo?  esse 
aquele que est saindo da Escurido para vir fazer prevalecer o 
reino de Lucifr sobre a Terra?  esse o homem... que vai 
canalizar Lucifr e fazer com que o Mundo inteiro seja 
subjugado?  ele quem vai impor a Marca da besta? Aquele que 
vai governar o Mundo?
Marlon deu-me um sorriso.
 E voc est com ele. Voc  um dos escolhidos para 
caminhar com ele! Assim como o Cristo teve doze discpulos, o 
anticristo escolheu nove para si. Mas isto vai acontecer no 
tempo certo. Por ora, h muito que fazer l no nosso pas! 
Temos ainda que terminar algumas coisas. Voc s ver de 
novo este homem em 2006. At l,  tempo de voc se preparar. 
Mas... no futuro os principais pontos do Globo tero que estar 
unidos! Vocs so os representantes dos principais pontos do 
Globo.
Marlon conhecia a dificuldade que eu tinha em digerir 
aquelas coisas. Ento novamente sorriu e me animou:
 Vamos tomar um caf?  convidou-me.
Concordei. Durante o caf ele me explicou o melhor que 
pde algumas outras coisas, dentro daquilo que eu podia saber:
 Entende agora o que eu estava dizendo sobre a sua 
alterao gentica? Era necessrio que o seu organismo fosse 
diferente para que no futuro voc seja capaz, assim como ele, e 
como os outros, de suportar toda a energia daquele que vai te 
dar Poder. Um ser humano no consegue suportar a energia de 
um Principado, no  possvel a homem algum canalizar 
completamente um deles. Era preciso haver uma mudana em 
voc para que o seu corpo suporte, futuramente, receber toda a 
canalizao de Leviathan. Um dos Grandes Prncipes do 
Inferno, o Quarto Prncipe! Essa  uma honra sem precedentes! 
Ele caminhou comigo, mas voc  o escolhido dele e de Lucifr. 
Agora posso falar com mais liberdade, voc j foi apresentado a 
ele e posso adiantar um pouco do que te reserva o destino 
prximo: voc deve se tornar o Sumo Sacerdote mais Poderoso 
da Amrica Latina, o nico homem capaz de receber a 
canalizao completa de Leviathan. Lembra-se daquele texto 
Bblico que fala que "os filhos de Deus viram que as filhas dos 
homens eram formosas, e as tomaram para si"? Os filhos de 
Deus so demnios, e aqueles que nasceram dessa unio  dos 
demnios com as mulheres humanas , eram gigantes! Voc 
sabe que um demnio no tem poder de reproduo. Mas 
Scubus e Incubus podem recolher e transportar esperma 
humano. Demnios tambm podem canalizar homens. Mas o 
que importa, em ltima anlise,  que a energia demonaca 
envolvida na concepo causa uma alterao gentica na 
descendncia.
De forma que os filhos daquelas mulheres j no eram 
seres humanos normais, mas gigantes! Lembra tambm do 
conceito mitolgico grego, dos semideuses? Foi mais ou menos 
isso que aconteceu com voc... por isso seu organismo  
diferente. E, no tempo certo, voc ser expresso de Leviathan! 
Todo o Poder dele, todo o seu potencial ser expresso atravs de 
voc! Voc  o quarto homem dos nove discpulos do anticristo! 
O Poder que voc vai ter, voc no calcula!
Eu procurei me alegrar com que ele dizia, mas no me 
sentia bem. Ento Marlon encerrou aquele assunto:
 Calma... eu vou aliviar de voc esse sentimento 
ruim...
Ento me abraou, colocou as mos na minha cabea, 
falou umas palavras no meu ouvido.
Nunca mais tocamos naquele assunto, nem ouvi falar a 
respeito. Nunca mais vi aquele homem em lugar algum. No 
tinha nenhum detalhe especial na sua fisionomia, nada que 
pudesse chamar a ateno. Como homem, era uma pessoa 
comum.
Tratei de esquecer o assunto.
* * * *
Em tudo isso, somente sinto por Marlon....
Quem me dera ver nos seus olhos... algo novo... no a 
ferocidade de Leviathan... mas o brilho do Esprito Santo.
* * * *
Eduardo Conta
Eplogo
Que situao completamente sem adjetivos..............
Depois, contando sobre aquelas ltimas revelaes, eu e 
Isabela no conseguamos parar com aqueles tremores 
involuntrios que vinham de dentro. Parecia que aquela histria 
nunca chegaria ao fim! Quanto mais a gente sonhava com o fim, 
mais Deus trazia  tona lembranas tenebrosas. Mas chegou... 
chegou o fim. Finalmente Deus havia lanado luz at o ltimo 
quarto escuro daquele negro passado.
 to estranho pensar nisso........................
H 2000 anos, Satans se regozijou sobremaneira com a 
vida de Judas, que traiu a Cristo...! Melhor teria sido para ele 
nunca haver nascido! O texto de Lucas 22:3 diz que "(...) 
Satans entrou em Judas, chamado Iscariotes, que era um dos 
doze...".
Triste, triste sorte. Muito justo que Deus retribusse ao 
diabo e ao anticristo na mesma moeda!
Como levamos tempo para digerir tal coisa......! Saber 
que eu era como um Judas dos tempos modernos. Passei da 
morte para a Vida, para honrar e glorificar o Nome do Deus 
Altssimo. Ah! teria sido bem mais fcil aceitar se tudo isso 
tivesse acontecido com um outro... com qualquer outro. Muito 
mais difcil  se colocar diante desta realidade, e se ver inserido 
nela... e se aceitar ocupando este lugar.
No foi fcil para mim... no foi fcil para Isabela... 
muitos dias e noites ficamos pensando... pensando em qu? 
Difcil at dizer... pensando em como essa realidade nos atingia 
em cheio, e como tal coisa podia estar acontecendo conosco!
Depois da revelao, certos textos criaram nova vida, 
assumiram um significado muito mais prximo. Est chegando 
o Tempo, os protagonistas do Apocalipse esto entre ns.
"Depois disso, eu continuava olhando nas vises da 
noite, e eis aqui o quarto animal, terrvel, espantoso e 
sobremodo forte, o qual tinha grandes dentes de ferro; ele 
devorava, e fazia em pedaos, e pisava aos ps o que sobejava; 
era diferente de todos os animais que apareceram antes dele e 
tinha dez chifres. Estando eu a observar os chifres, eis que entre 
eles subiu um outro pequeno, diante do qual trs dos primeiros 
chifres foram arrancados; e eis que neste chifre havia olhos, 
como os de homem, e uma boca que falava com insolncia". 
Dn. 7.7-8
"Os dez chifres que viste so dez reis, os quais ainda no 
receberam reino, mas recebem autoridade como reis, com a 
besta, durante uma hora. Tm estes um s pensamento e 
oferecem  besta o poder e a autoridade que possuem". 
Ap.17.12
Pode parecer estarrecedor, e realmente  estarrecedor, 
mas Lucifr tinha me escolhido e predestinado para ser um dos 
reis da terra, um dos chifres da besta. Ao menos tudo parecia 
apontar esse caminho. Que sorte terrvel era essa minha!
Eu no sabia, enquanto ainda l estava... mas a minha 
alma aguardava pelo Senhor! Pois sobre mim o Altssimo j 
tinha escrito outras linhas, j me havia predestinado outro 
caminho. Meu destino foi traado, no pelo diabo, mas por Ele.
A minha alma ansiava pela Sua chegada. Como suspira a 
cora pelas correntes das guas, assim suspirava a minha alma 
por Ele, mesmo que eu no o soubesse, no o percebesse. A 
minha alma tinha sede de Deus, do Deus Vivo; e assim 
perguntava, l no mais profundo do seu mago: "Quando irei e 
me verei perante a face de Deus?"
E um dia Ele veio... e eu O vi... e o Poder do Eterno 
transformou a minha sorte, e o meu destino, e a diretriz de cada 
um dos meus dias. Grande  o Poder do nosso Deus, o Detentor 
da Histria! Ele  o Rei de toda a Terra, revestido de Majestade 
e Poder, Sol e Escudo, nosso Rochedo.
* * * *
Somente depois que eu e Isabela terminamos de cumprir 
toda a etapa da Ministrao, inclusive estes pontos que Deus 
descortinou por ltimo, foi que comeamos a vislumbrar o 
incio da vitria no nosso relacionamento. No aconteceu do dia 
para a noite, nem em uma semana, ou um ms. Mas,  medida 
que todas essas portas foram sendo progressivamente fechadas, 
aos poucos aquelas brigas foram amainando. Uma a uma, foram 
perdendo fora. Comeamos a sentir os primeiros raios de sol 
iluminando aquela noite terrvel, interminvel.
Quanto a Isabela, ela ainda receberia uma visitao 
especial do Pai. Muito profunda, muito ntima, muito cheia de 
significado. Cerca de um ano e meio depois da libertao da 
caixa de vidro que estava dentro da cratera. Era mais uma etapa 
do seu processo de cura. Somente depois disso ela foi capaz de 
escrever o presente relato. Os resultados tm vindo aos poucos, 
no tempo e do modo de Deus. Ele nos pediu a realizao de um 
ato proftico naquela ocasio. Como o prprio nome diz...  
proftico! Nem toda a cura se v como realidade agora; mas  
fato no Reino do Esprito. Vai chegar o tempo de se manifestar.
Deus abriu as portas para que comessemos as visitas 
s igrejas. Foi uma difcil adaptao no comeo. Difcil 
adaptao entre ns dois. Difcil adaptao com a Igreja. Se por 
um lado estamos honrados com esta misso, a misso de alertar 
a Igreja de Cristo sobre a Batalha dos ltimos Tempos, isso no 
nos isenta dos aspectos rduos deste papel.
Estar a servio de Deus  uma tarefa extremamente 
dualista. Extremamente maravilhosa e extremamente dolorosa!
Maravilhosa porque o contato com o Pai se torna 
diferente, sentimo-nos especialmente realizados e satisfeitos 
com o privilgio de termos sido incumbidos... de uma misso 
especial! Para isto no existem palavras de regozijo  altura: 
saber que Deus realmente nos chamou, nos entregou algo 
precioso nas mos... e conta conosco!
Logo comeamos a ter retorno do impacto causado pelo 
"Filho do Fogo" dentro da Igreja, sem dvida impressionante! 
Rapidamente ele passou a ser um dos dez livros mais vendidos 
da Literatura Evanglica Brasileira na lista geral, isto , a lista 
que engloba tambm Literatura estrangeira. Mas chegou a ser o 
primeiro no ranking dos autores nacionais. At o presente 
momento a esmagadora maioria foi profundamente tocada para 
um novo compromisso com o Pai, tomando cincia de uma nova 
realidade da Batalha Espiritual. De fato pessoas tm repensado 
sua vida com Deus. Chegam s nossas mos os relatos de 
irmos, e vemos que em muitos existe, sim, uma genuna sede 
de mudana. Isso nos traz alegria!  o Esprito Santo tocando 
nessas vidas, e nos usando como instrumentos.
Tambm foi especialmente gostoso receber o carinho de 
tantos! Ficamos sensibilizados e enternecidos com isso, com 
milhares de pessoas que nos escrevem, enviando palavras de 
incentivo, elogiando nosso trabalho, compartilhando a 
transformao em suas vidas. Sem dvida,  muito gratificante 
saber que sementes tm sido plantadas em coraes, e vo 
germinar  pelo menos parte delas  em tempo oportuno, para 
o Senhor. Sabemos que, no Senhor, o nosso trabalho no  vo!
Fora isso as visitas s igrejas, que antes se resumiam em 
apenas um testemunho, comearam a ser transformadas. Ao 
longo do primeiro ano do Ministrio de repente as experincias 
que vivemos e relatamos em "Guerreiros da Luz" ganharam 
uma espcie de "luz prpria". Princpios espirituais comearam 
a saltar diante dos nossos olhos, e era fcil encontrar forte base 
Bblica para corroborar as idias que nos vieram  mente. Foi 
assim que o Seminrio como hoje existe passou a ganhar forma. 
Era fundamental falar, pelo menos rapidamente, de vrios 
princpios de Guerra. Estes foram tambm lapidados e 
adequados  realidade que vivemos hoje dentro do Corpo de 
Cristo, face s nossas deficincias, que gradativamente tomamos 
cincia.
Os princpios que salientamos foram condensados no 
somente no Seminrio, mas logo ficou clara a necessidade de 
um material didtico para facilitar o estudo dos irmos. Foi 
assim que nasceu o livro "Tticas de Guerra", lanado cerca de 
um ano antes deste.
Tudo isso tem sido especial e gratificante!
No entanto, alguns, equivocadamente, procuram em ns 
respostas que s Deus pode dar. Ele  Onisciente, Ele pode  e 
vai!  trazer discernimento sobre os ataques do inimigo. Desde 
que algumas premissas sejam cumpridas. Isso no envolve  
nunca envolveu  a identidade de indivduos. Importa o mover 
espiritual por trs dos indivduos! Se estivermos 
verdadeiramente no centro da Vontade de Deus, Ele no nos 
deixar na ignorncia.
No temos nenhuma frmula mgica nas mos. No 
temos nenhum poder especial. Talvez muitos ainda no consigo 
crer que Deus realmente possa falar, possa trazer direo, possa 
fazer o impossvel. E ficam apavorados com histrias de ataques 
de Satanistas... mas no se voltam para o Senhor... com estes 
Ele ainda ir tratar neste sentido!
Por outro lado, para cumprir a misso que Deus nos 
deu... continuamos tendo que enfrentar o inimigo... mas tambm 
esbarramos na carnalidade humana, na religiosidade, no 
farisasmo. E a vem a parte dolorosa...
Ainda que haja os de corao puro e sincero, que do o 
melhor de si para o Reino, logo percebemos que o diabo 
encontrou dentro do Povo de Deus algum substrato para nos 
atacar. A maior parte dos nossos problemas passaram a envolver 
os Cristos, e j no necessariamente os Satanistas. Estes 
ficavam  espreita, lgico, manipulando de longe. Para usar 
nossos prprios irmos contra ns. A estratgia da Irmandade 
mudou.
Embora no tenha sido uma quantidade significativa, o 
diabo conseguiu causar bastante estrago usando alguns. Isso s 
serviu para dividir mais ainda o Corpo de Cristo e dificultar o 
mover de Deus.
Houve quem continuasse achando que eu ainda era da 
Irmandade, ainda era Satanista. Houve quem achasse que 
Isabela tambm era Satanista. Quase sempre esses problemas 
partiram de pessoas com o corao empedernido, altivo, 
arrogante, que j perderam a capacidade de discernir o bem e o 
mal. Ou ento, de nefitos que se julgam donos da verdade e 
acham que j sabem de tudo. No se colocam como quem tem a 
aprender, mas como quem j pode ensinar.
Houve quem chegasse com o dedo em riste nos nossos 
narizes, questionando nossa converso, nossos frutos, nossa 
vida com Deus. Isso partiu de uma pessoa na qual confivamos! 
A que ponto chega a manipulao do inimigo....
E questionavam diretrizes que nos foram dadas pelo 
prprio Deus, medidas de segurana e prudncia, por exemplo. 
Porque quem viveu a nossa histria fomos ns... ningum 
mais...
Sabemos que Deus  quem nos guarda, seno nunca 
trilharamos esse caminho. Diz o texto do Salmo 127:1 que "se 
o Senhor no guardar a cidade, em vo vigia a sentinela". Deus 
guarda. Mas existem sentinelas, guardas, muralhas. Isso no  
falta de confiana em Deus, mas medidas de prudncia.
Em muitos locais fomos recebidos com muito carinho e 
amor. Prepararam com zelo cada detalhe para nossa visita, e 
Deus honrou tremendamente. Vimos vidas sendo resgatadas, 
curadas, transformadas pelo Poder da Palavra! Mas tambm no 
faltaram pessoas para literalmente nos sugarem vivos, julgarem 
precipitadamente, nos roubarem financeiramente, nos 
enganarem com propostas de trabalho injustas, distorcendo a 
verdade para satisfazerem apenas as suas vontades. E tambm 
para tratarem minha esposa como se ela fosse menos 
importante, alis... esse aspecto o Senhor adiantou com muita 
propriedade quando lhe disse que "no se preocupasse com o 
que haviam de dizer os homens". Deus nunca avisa a toa.
Houve uma esmagadora maioria de pessoas que se 
afastou de ns por puro medo. Tinham receio de estar ao nosso 
lado...
E houve tambm aqueles que nos culparam por seus 
problemas pessoais. Tinham a impresso de que, ao se 
aproximarem de ns, ficariam imediatamente expostos a uma 
terrvel nuvem de demnios. E nos culpavam por todo tipo de 
problema: "Isso est acontecendo por causa de vocs, estamos 
sendo retaliados por causa de vocs...".
Irmos, por favor... precisamos balizar tais coisas!
 preciso distinguir duas alternativas, porque o diabo 
age de duas maneiras. Ou pela legalidade, usando as portas 
abertas por pecados na vida das pessoas... ou ento ele age 
debaixo da permisso de Deus.
Um exemplo simples: aqueles que foram chamados para 
andar ao lado de Paulo, de Pedro, realmente ficaram expostos a 
uma srie de perigos. Assim foi, no? Mas em cada um dos 
problemas se evidenciava a Vontade Soberana de Deus. Tais 
pessoas tinham sido realmente chamadas para estarem ao lado 
deles! Camos na segunda premissa... o diabo teve permisso de 
agir para cumprir um propsito maior. De Deus.
Se Silas no estivesse convicto do chamado, talvez 
pudesse erroneamente culpar Paulo pelos aoites que tomou (At 
16.16-24). Afinal, foi Paulo quem repreendeu o esprito imundo 
daquela jovem adivinhadora. Aos invs de permanecerem 
unidos naquela situao poderiam, pelo contrrio, ficar 
mutuamente a se acusar.  correto dizer que Paulo foi o 
causador de toda aquela "maldio"?
Deturpada constatao...
Muitas pessoas que se viram retaliadas por demnios 
depois de terem se aproximado de ns assim falaram: "Levei 
muitas chibatadas! A culpa  deles!" Deturpada constatao. 
Deveriam antes perguntar a si mesmas: "Ser que foi mesmo o 
Senhor quem mandou que eu me aproximasse deles? Ou ser 
que decidi isso... por mim mesmo?"
Quem  chamado para a guerra... tem que guerrear! 
Muitas vezes no se aprende a guerrear sem tomar uma pancada 
do inimigo. Se querem culpar algum, que "culpem" a Deus... se 
fizeram o que Ele no mandou fazer... que culpem a si mesmos. 
No a ns.
Quer dizer, quando estamos no centro da Vontade de 
Deus, no existem "culpados"!
Se Deus mandou de fato, chamou de fato, e est no 
controle de todas as situaes... estes devem aprender a esperar 
Nele.
Se fssemos partir desta errnea premissa - que o 
culpado das chibatadas de Silas era Paulo - ento ningum 
nunca poderia aproximar-se dele, nem de Pedro, muito menos 
de Jesus. Pessoas to visadas pelo Reino das Trevas haveriam 
de ser maldio para todos, e no bno.
Enfim...
Temos experimentado um pouco do que  ser 
Missionrio. Doce... sublime... de repente, amargo... a 
novamente especial... ento mais uma vez frustrante... ento 
Deus nos reanima... tudo volta a melhorar... e o ciclo continua... 
assim vamos caminhando! Com Ele, e para Ele!
Falamos tais coisas como quem tem experimentado na 
pele. Foi de ver e sentir, no apenas de ouvir falar.
A despeito de tudo isso, tambm temos aprendido em 
cada um destes momentos... sabemos que assim  a vida com 
Deus. No somos maiores do que o Mestre!
Queremos apenas que uma ltima coisa mais fique 
transparente: a tnica deste relato no  a denncia do 
Satanismo, mas a necessidade premente do Povo de Deus 
realmente tornar-se compromissado com Ele.
Quanto a ns...
Nossa famlia aumentou, no meio daquele ano 
compramos o Mel, nosso cachorrinho Weimaraner.
Deus sinalizou claramente nossa sada da Comunidade, 
inclusive disse o perodo que isso ocorreria.
Logo depois disso nossa aliana com Dona Clara deixou 
de existir. Talvez Deus tenha realmente preparado assim, como 
diria Dona Clara. Mas os Satanistas insistem em alegar que 
destruram um de nossos pilares.
Da maneira como aconteceu, realmente ficamos sem 
compreender plenamente...
Deus continuou nos trazendo experincias mais fortes 
envolvendo o Seu sobrenatural. Atravs da boca de Mikhael tem 
adiantado coisas que ho de vir, nos animado, nos encorajado, 
mostrado os prximos passos. Nos exortado algumas vezes. 
Deus comeou a falar de forma ainda mais especfica.
Ento Ele disse que o treinamento estava chegando ao 
fim. Foi assim que Deus chamou este perodo, esta histria que 
contamos neste livro. Assim nos disse Ele sobre estes 
acontecimentos: "Isto  treinamento".
A tarefa que devemos cumprir ainda est por vir. A 
uno foi derramada, o treinamento est em andamento... depois 
vir o momento de efetivamente entrarmos no nosso Destino 
Espiritual.
Ento vir a Guerra!

FIM
Concluses
Queria falar rapidamente sobre alguns aspectos que 
Deus nos mostrou durante este perodo de treinamento, em 
relao  Sua Igreja. No estamos falando de indivduos 
isolados, mas do Corpo de Cristo.
Esperamos, sinceramente, que estas palavras sejam 
ouvidas e ponderadas de corao aberto pelos irmos porque 
no fizemos segredo dos nossos prprios pecados, em momento 
algum nos colocamos sobre pedestais, como seres superiores 
aos demais.
Mas fazemos coro juntamente com aqueles que tm 
clamado pela restaurao da Noiva!
Vamos ao primeiro aspecto fundamental.
Existe uma enorme podrido escondida no corao da 
Igreja de Cristo!
No se trata to-somente de exterioridades, de 
aparncias... at temos tentado dar uma "boa aparncia" a ns 
mesmos. Mas existe um problema invisvel... maligno... 
corroendo como cncer... o corao da Igreja est sujo, 
contaminado... a sua essncia est podre... o cerne est doente. 
Esta podrido tem nome: Pecado!
Pecado mascarado, disfarado, oculto.
Quanto a isso, nos permitamos escutar o que a prpria 
Palavra diz:
"Eis que a mo do Senhor no est encolhida, para que 
no possa salvar; nem surdo o Seu ouvido, para no poder ouvir. 
Mas as vossas iniqidades fazem separao entre vs e o vosso 
Deus; e os vossos pecados encobrem o Seu rosto de vs, para 
que vos no oua. Porque as vossas mos esto contaminadas de 
sangue, e os vossos dedos, de iniqidade; os vossos lbios falam 
mentiras, e a vossa lngua profere maldades. Ningum h que 
clame pela justia, ningum que comparea em juzo pela 
verdade; confiam no que  nulo e andam falando mentiras; 
concebem o mal e do  luz a iniqidade. Os seus ps correm 
para o mal, so velozes para derramar o sangue inocente; os 
seus pensamentos so pensamentos de iniqidade; nos seus 
caminhos h desolao e abatimento. Desconhecem o caminho 
da paz, nem h justia nos seus passos; fizeram para si veredas 
tortuosas; quem anda por elas no conhece a paz. Por isso, est 
longe de ns o juzo, e a justia no nos alcana; esperamos pela 
luz, e eis que h s trevas; pelo resplendor, rnas andamos na 
escurido. Apalpamos as paredes como cegos, sim, como os que 
no tm olhos, andamos apalpando; tropeamos ao meio-dia 
como nas trevas e entre os robustos somos como mortos. Porque 
as nossas transgresses se multiplicam perante Ti, e os nossos 
pecados testificam contra ns; porque as nossas transgresses 
esto conosco, e conhecemos as nossas iniqidades, como o 
prevaricar, o mentir contra o Senhor, o retirarmo-nos do nosso 
Deus, o pregar opresso e rebeldia, o conceber e proferir do 
corao palavras de falsidade. Sim, a verdade sumiu, e quem se 
desvia do mal  tratado como presa." Is 59.1-4,7-10, 12-13, 15
A natureza de Deus abrange tanto o Juzo quanto o 
Perdo, tanto as Advertncias quanto as Promessas.  to claro! 
Talvez, numa primeira instncia, acreditemos que a realidade 
acima no se aplica a ns. Mas vamos adiante...
Lembram-se da Igreja de Laodicia, figura dos nossos 
dias?
Ns dizemos a ns mesmos: "Sou rico e abastado, j no 
preciso de mais nada".
Assim estamos ns, muitas vezes, com muita soberba...
E Deus nos diz: "Nem sabes o quanto s infeliz, 
miservel, pobre, cego e nu".
E garante: "Repreendo e disciplino a quantos amo. S 
zeloso, e arrepende-te".
Talvez ainda tenhamos no corao resistncia em aceitar 
esta realidade como uma realidade para ns. No entanto, assim 
. Precisamos do colrio de Deus para enxergarmos e, 
enxergando, mudarmos de postura.
Caso contrrio... como prevalecer contra o inimigo? 
Como fazer frente a ele? Como ir contra o Inferno... sem 
primeiro conhecermos e nos submetermos ao nosso Deus? 
Dessa maneira as vitrias sero virtuais, no conseguiremos 
exercer resistncia eficaz.
Chega de posturas triunfalistas!
Temos sido cmplices das obras das Trevas, ou ser que 
no? Corrupo de todos os tipos, idolatrias, avarezas, mentiras, 
falta de honra, falta de temor do Senhor, desleixo, negligncia, 
dissenses, divises, invejas, impurezas, amarguras, lnguas 
incontidas, maledicncias.
Que Deus tenha misericrdia!
E venha sobre ns esprito de arrependimento porque 
no temos andado como filhos da Luz, nem sido imitadores de 
Deus, como filhos amados, nem nos santificado 
verdadeiramente. No temos tomado com zelo a misso de nos 
revestirmos do novo homem, considerando-nos mortos para o 
pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus. Pelo que o 
pecado tem reinado em nosso corpo mortal, temos obedecido s 
suas paixes e concupiscncias, oferecido os membros do nosso 
corpo ao pecado, como instrumentos de iniqidade.
Mas todas essas coisas, quando reprovadas pela Luz, se 
tornam manifestas. Tudo est completamente visvel aos olhos 
do Pai. Manifesta se tornar a obra de cada um, um dia ser 
revelada pelo fogo, o prprio fogo a provar.
Obras da carne! Quantas obras da carne existem entre 
ns!
"Desperta,  tu que dormes, levanta-te de entre os 
mortos, e Cristo te iluminar!"
Deixemos de lado a insensatez e tratemos de 
compreender qual seja a Vontade do Senhor. Porque temos 
caminhando como um Povo perdido, no como o Povo mais 
feliz da terra!
Enfim... onde chegamos?
A Igreja de hoje tem que se tornar Noiva de Cristo! 
Aqueles que tiverem se santificado, faro parte Dela. No existe 
outro caminho.  tempo de mudana.  tempo de cada um olhar 
para si.  tempo de arrependimento!
"Assim, pois, como diz o Esprito Santo: Hoje, se 
ouvirdes a sua voz, no endureais o vosso corao como foi na 
provocao, no dia da tentao no deserto onde os vossos pais 
me tentaram, pondo-me  prova, e viram as minhas obras por 
quarenta anos. Por isso, me indignei contra essa gerao e disse: 
estes sempre erram no corao; eles tambm no conheceram os 
meus caminhos. Assim, jurei na minha ira: no entraro no meu 
descanso. Tende cuidado, irmos, jamais acontea haver em 
qualquer de vs perverso corao de incredulidade que vos 
afaste do Deus Vivo; pelo contrrio, exortai-vos mutuamente 
cada dia, durante o tempo que se chama Hoje, a fim de que 
nenhum de vs seja endurecido pelo engano do pecado. Porque 
nos temos tornado participantes de Cristo, se, de fato, 
guardarmos firme, at ao fim, a confiana que, desde o 
princpio, tivemos. (...) Temamos, portanto, que, sendo-nos 
deixada a promessa de entrar no descanso de Deus, suceda 
parecer que algum de vs tenha falhado. Porque tambm a ns 
foram anunciadas as boas novas, como se deu com eles; mas a 
palavra que ouviram no lhes aproveitou, visto no ter sido 
acompanhada pela f naqueles que a ouviram." Hb 3. 7-14; 4.1-
2.
A Igreja de Cristo pode escolher: lanar fora o pecado, 
se submeter a Deus verdadeiramente, e caminhar de f em f. 
Porque a vitria vem do Senhor, apenas Nele temos condio de 
fazer proezas! Ou podemos tambm continuar exatamente como 
estamos hoje. E talvez fiquemos no deserto,  merc do inimigo, 
como aconteceu outrora.
Triste o que for deixado, aquele que seguiu seus prprios 
caminhos de tal maneira, que deixou de fazer parte da Noiva!
Isso serve para ns, Cristos. No se trata apenas do 
mundo incrdulo.
Existe um Poder novo do Inferno pairando sobre a Terra, 
Poder como nunca existiu antes. E que ser progressivamente 
mais intenso, assim j estava escrito.
No meio de falsos profetas, e muito engano, em meio ao 
ribombar de guerras e rumores de guerra, quando se levantar 
Nao contra Nao, e Reino contra Reino, quando houver 
fomes e terremotos em muitos lugares da Terra, e isto for 
somente o princpio das dores, como diz o Sermo Proftico de 
Jesus... ento...
Ser "(...) revelado o homem da iniqidade, o filho da 
perdio, o qual se ope e se levanta contra tudo que se chama 
Deus ou  objeto de Culto, a ponto de assentar-se no santurio 
de Deus, ostentando-se como se fosse o prprio Deus". 2 Ts 2.3-
4.
"Porque, com efeito, o mistrio da iniqidade j opera e 
aguarda somente que seja afastado aquele que agora o detm; 
ento, ser, de fato, revelado o inquo, a quem o Senhor Jesus 
matar com o Sopro de Sua boca e o destruir pela manifestao 
de Sua vinda. Ora, o aparecimento do inquo  segundo a 
eficcia de Satans, com todo Poder, e sinais, e prodgios da 
mentira, e com todo engano de injustia (...) 2 Ts 2.7-10.
Vir ento um tempo indescritvel, medonho! O tempo 
da Grande Tribulao.
Este ser precedido por um perodo em que os Poderes 
Malignos atuaro com liberdade progressiva, sob permisso 
Divina. O impacto ser brutal, uma Fora Poderosa Destruidora 
sem precedentes atuar na Terra neste perodo. Atravs de um 
militarismo exacerbado, guerra e violncia, fome e falta de 
alimentos, pestes e morte.
"E saiu outro cavalo, vermelho; (...) foi-lhe dado tirar a 
paz da Terra; (...) eis um cavalo preto e o seu cavaleiro com 
uma balana na mo; (...) e eis um cavalo amarelo e o seu 
cavaleiro, sendo este chamado Morte; e o Inferno o estava 
seguindo, e foi-lhe dada autoridade sobre a quarta parte da Terra 
para matar  espada, pela fome, com a mortandade e por meio 
das feras da terra." Ap 6.4-5, 8.
"Vi emergir do mar uma besta que tinha dez chifres e 
sete cabeas e, sobre os chifres, dez diademas e, sobre as 
cabeas, nomes de blasfmia. A besta que vi era semelhante a 
leopardo, com ps como de urso e boca como de leo. E deu-lhe 
o drago o seu Poder, o seu trono e grande autoridade. Foi-lhe 
dada uma boca que proferia arrogncias e blasfmias e 
autoridade para agir quarenta e dois meses; e abriu a boca em 
blasfmias contra Deus, para lhe difamar o nome e difamar o 
tabernculo, a saber, os que habitam no cu. Foi-lhe dado, 
tambm, que pelejasse contra os santos e os vencesse. Deu-se-
lhe ainda autoridade sobre cada tribo, povo, lngua e nao; e 
ador-la-o todos os que habitam sobre a terra, aqueles cujos 
nomes no foram escritos do Livro da Vida do Cordeiro que foi 
morto desde a fundao do mundo." Ap. 13. 5-8.
"Quando, pois, virdes o abominvel da desolao de que 
falou o profeta Daniel, no lugar santo (quem l, entenda), ento, 
os que estiverem na Judia fujam para os montes; quem estiver 
sobre o eirado no desa a tirar de casa alguma coisa; e quem 
estiver no campo no volte atrs para buscar a sua capa. Ai das 
que estiverem grvidas e das que amamentarem naqueles dias! 
Orai para que a vossa fuga no se d no inverno, nem no 
sbado; porque nesse tempo haver grande tribulao, como 
desde o princpio do mundo at agora no tem havido e nem 
haver jamais,  tivessem aqueles dias sido abreviados, ningum 
seria salvo; mas, por causa dos escolhidos, tais dias sero 
abreviados." Mt 24. 15-22.
Ser este tambm o tempo da marca...
Quando "morrero tantos quantos no adorem a imagem 
da besta. A todos, os pequenos e os grandes, os ricos e os 
pobres, os livres e os escravos, se far com que lhes seja dada 
certa marca sobre a mo direita ou sobre a fronte, para que 
ningum possa comprar ou vender, seno aquele que tem a 
marca, o nome da besta ou o nmero do seu nome. Aqui est a 
sabedoria. Aquele que tem entendimento calcule o nmero da 
besta, pois  nmero de homem. Ora, esse nmero  666". Ap 
13.15-18.
Tais coisas viro. Se aproximam. Atenta teus olhos aos 
sinais dos Tempos!
Hoje Deus ainda est recrutando Seu Povo, chamando-o. 
Existe um Remanescente!
Escolha fazer parte do Remanescente! Da Igreja Santa, 
purificada, sem mcula e sem ruga, Igreja Gloriosa, sem defeito.
Aqui entra o nosso livre-arbtrio. Alguns vo pagar o 
preo proposto... outros no... aqueles que se permitirem ser 
tratados, sero transformados.
Cremos que nossa Nao ainda experimentar um 
grande mover de Deus, ser palco de um grande avivamento. E 
seremos, sim, Celeiro de Missionrios! Isso vai acontecer 
quando a Igreja receber uma nova Uno. A, no somente a 
obra Missionria vir a crescer, mas seremos infinitamente mais 
usados por Deus, de muitas maneiras.
S que... antes de Deus derramar esta Uno, o Seu 
Povo tem que estar pronto. Cada um de ns ter que ser 
transformado em vaso de honra, para ser capaz de ser portador 
desta uno. Primeiro, temos que experimentar a verdadeira 
santificao. Temos de buscar a Deus enquanto ainda podemos 
ach-lo!
Paguemos, portanto, o preo...
Permitamos que verdadeiramente o "Esprito do Senhor 
esteja sobre ns, porque o Senhor nos ungiu para pregar boas 
novas aos quebrantados, enviou-nos a curar os quebrantados de 
corao, a proclamar libertao aos cativos e liberdade aos 
algemados; a apregoar o ano aceitvel do Senhor e o dia da 
Vingana do nosso Deus; a consolar todos os que choram e a 
por sobre os que em Sio esto de luto uma coroa em vez de 
cinzas; leo de alegria, em vez de pranto; veste de louvor, em 
vez de esprito angustiado; a fim de que sejamos chamados 
Carvalhos de Justia, plantados pelo Senhor, para a sua Glria." 
Is 61.1-3.
Para aqueles que receberem esta nova Uno, com ela 
vir tambm uma nova autoridade do Alto, e os dizeres Bblicos 
deixaro de ser apenas dizeres, e se tornaro realidade.
" Deus quem me reveste de fora e aperfeioa meu 
caminho, Ele d aos meus ps a ligeireza das coras e me afirma 
nas minhas alturas. Adestra as minhas mos para o combate, de 
sorte que meus braos vergam arcos de bronze (...). Persigo 
meus inimigos, e os alcano! Volto apenas depois de haver dado 
cabo deles. Esmaguei-os a tal ponto, que no puderam levantar-
se; caram sob meus ps. Pois Tu me cingiste de fora para o 
combate e me submeteste os que se levantam contra mim." Sl 
18.32-34; 37-39.
"Elevo os olhos para os montes: de onde me vir o 
socorro? O meu socorro vem do Senhor, que fez o cu e a terra. 
Ele no permitir que meus ps vacilem; no dormita Aquele 
que me guarda.  certo que no dormita, nem dorme o Guarda 
de Israel. O Senhor  quem me guarda; o Senhor  minha 
sombra  minha direita. De dia no me molestar o sol, nem de 
noite, a lua. Ele me guardar de todo mal; guardar a minha 
alma. Guardar a minha sada e a minha entrada, desde agora e 
para sempre." Sl 121.
"O Senhor est comigo; no temerei. Que me poder 
fazer o homem? Cercaram-me, cercaram-me de todos os lados; 
mas em nome do Senhor os destru. Como abelhas me cercaram, 
porm como fogo em espinhos foram queimados, em nome do 
Senhor os destru." Sl. 118.6, 11-12.
Por que dizemos isso? Esta  uma realidade que ainda 
no contemplamos de maneira plena nos nossos dias. Por causa 
de tudo aquilo que falamos antes. Mas poder vir a ser literal 
como fruto da nova Uno!
Alm disso, no precisamos estar frente a frente com o 
anticristo. Podemos ser sal e luz, podemos fazer parte da Noiva, 
cumprir cabalmente a carreira... e levar muitos conosco.
Ao final do nosso trabalho, seremos arrebatados! Antes 
deste momento terrvel da Histria. Este  o desejo de Deus, que 
todos ns sejamos salvos da Ira.
"Porquanto o Senhor mesmo, dada a sua palavra de 
ordem, ouvida a voz do arcanjo, e ressoada a trombeta de Deus, 
descer dos Cus, e os mortos em Cristo ressuscitaro primeiro; 
depois, ns, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados 
juntamente com eles, entre nuvens, para o encontro do Senhor 
nos ares, e, assim, estaremos para sempre com o Senhor. 
Consolai-vos, pois, uns aos outros com estas palavras." 1 Ts 
4.16-18.
No final da Grande Tribulao, quando ns j 
estivermos com Ele, seremos espectadores de uma Batalha 
inigualvel.
A Batalha do Bem contra o Mal.
Conosco estaro os que tiverem recebido o Selo de Deus 
durante o perodo de reinado do anticristo, os que se convertero 
durante a Tribulao, e experimentaro a morte fsica, mas no 
a eterna...
"(Os dez chifres e a besta) pelejaro contra o Cordeiro, e 
o Cordeiro os vencer, pois  o Senhor dos senhores e o Rei dos 
reis; vencero tambm os chamados, eleitos e fiis que se acham 
com Ele." Ap 17.14.
"Vi o Cu aberto, e eis um cavalo branco. O seu 
Cavaleiro se chama Fiel e Verdadeiro e julga e peleja com 
justia. Os Seus olhos so chama de fogo; na Sua cabea, h 
muitos diademas; tem um Nome escrito que ningum conhece, 
seno Ele mesmo. Est vestido com um manto tinto de sangue, e 
o Seu Nome se chama o Verbo de Deus; e seguiam-no os 
Exrcitos que h no Cu, montando cavalos brancos, com 
vestiduras de linho finssimo, branco e puro. Sai da Sua boca 
uma espada afiada, para com ela ferir as Naes; e Ele mesmo 
as reger com cetro de ferro e, pessoalmente, pisa o lagar do 
vinho do furor da ira do Deus Todo-Poderoso. Tem no Seu 
manto e na Sua coxa um Nome inscrito: REI DOS REIS E 
SENHOR DOS SENHORES."
"Ento vi um anjo posto em p no sol, e clamou com 
grande voz, falando a todas as aves que voam pelo meio do cu: 
'Vinde, reuni-vos para a grande ceia de Deus, para que comais 
carne de reis, carnes de comandantes, carnes de poderosos, 
carnes de cavalos e seus cavaleiros, carnes de todos, quer livres, 
quer escravos, tanto pequenos como grandes'".
"E vi a besta e os reis da terra, com os seus exrcitos, 
congregados para pelejarem contra Aquele que estava montado 
no cavalo e contra o Seu Exrcito. Ap 17.14; Ap 19. 11-19.
"Houve peleja no cu. Mikhael e os seus anjos pelejaram 
contra o drago. Tambm pelejaram o drago e seus anjos; 
todavia, no prevaleceram; nem mais se achou no cu o lugar 
deles. E foi expulso o grande drago, a antiga serpente, que se 
chama diabo e Satans, o sedutor de todo o mundo, sim, foi 
atirado para a terra, e, com ele, os seus anjos." Ap 12.7-9.
"Mas a besta foi aprisionada, e com ela o falso profeta 
que, com os sinais feitos diante dela, seduziu aqueles que 
receberam a marca da besta e eram os adoradores da sua 
imagem. Os dois foram lanados vivos dentro do lago de fogo 
que arde com enxofre. Os restantes foram mortos com a 
espada que saa da boca Daquele que estava montado no cavalo. 
E todas as aves se fartaro das sua| carnes." Ap 19.20-21.
Depois de mil anos "Satans ser solto de sua priso, 
mas por pouco tempo. E finalmente ser lanado para dentro do 
lago de fogo e enxofre, onde j se encontram no s a besta 
como tambm o falso profeta; e sero atormentados de dia e de 
noite, pelos sculos dos sculos. Ento, a Morte e o Inferno 
foram lanados para dentro do lago de fogo. Esta  a segunda 
morte, o lago de fogo. E, se algum no foi achado inscrito no 
Livro da Vida, esse foi lanado para dentro do lago de fogo". 
Ap 20.2-3, 7, 10, 14-15.
Ento haver o Juzo de Deus, o Juzo Universal, do qual 
ningum escapar.
"E eis que venho sem demora, e Comigo est o galardo 
que tenho para retribuir a cada um segundo as suas obras. Eu 
sou o Alfa e o mega, o Primeiro e o Ultimo, o Princpio e o 
Fim. Bem-aventurados aqueles que lavam as suas vestiduras no 
Sangue do Cordeiro, para que lhes assista o direito  rvore da 
Vida, e entrem na Cidade (Jerusalm Celestial) pelas Portas." 
Ap 22.12-14.
* * * *

CONVITES PARA SEMINRIOS
Daniel e Isabela Mastral visitam Igrejas
compartilhando suas experincias
atravs de palestras. As propostas e
sugestes para cada visita podem ser
feitas atravs do seguinte contato
E-mail: DANIELMASTRAL@HOTMAIL.COM
 




 




 




 
